segunda-feira, dezembro 31, 2007

FELIZ ANO NOVO

Santa Iria de Azóia, 31 de Dezembro de 2007 – O ano que hoje termina foi particularmente difícil para os nossos concidadãos a quem a pátria tudo exige e nada dá: os trabalhadores por contra de outrem, incluindo os da Função Pública, a quem o Governo e os empregadores cerceiam direitos e garantias. Foi um ano dificílimo para os desempregados.

Foi um ano negro no domínio da saúde. Continuou a guerra contra o SNS, extinguindo, extinguindo, extinguindo, sem se saber o que foi efectivamente criado. Em nome da contenção da despesa pública, que os ricos e os seus sacristães reclamam, sacrificam-se populações inteiras. Nunca terão nascido tantos portugueses em ambulâncias a caminho das maternidades.

Foi um ano negro na comunicação social que, salvo honrosas excepções, ignorou ou denegriu as lutas dos trabalhadores. A grande manifestação de Outubro, apesar de ter sido a maior dos últimos vinte anos, não chegou a ser notícia. Valorizam-se os dislates de Mário Lino e de Manuel Pinho, como se tivessem o condão de criar riqueza e bem-estar para o país. Nos “blogues” a luta é entre socialistas e sociais-democratas e anda à volta das tricas em que ambos os partidos são férteis.

Por isso mesmo, é legítimo esperar melhor no ano que começa dentro de horas. Mas como nada nos será dado gratuitamente, é bom que nos capacitemos que só a luta pode modificar o statu quo actual, onde tudo apodrece e fede.

FELIZ ANO NOVO PARA OS MEUS AMIGOS, LEITORES DESTE “BLOG” E TODOS OS QUE ASPIRAM POR UM PORTUGAL MAIS SOLIDÁRIO E FRATERNO!

sexta-feira, dezembro 28, 2007

SALOMÉ

Salomé
Só queria
Dançar
E encantar.

E mostrar
Os brincos
Que usava
No umbigo.

Oh,
Quisesse
Salomé
Dançar
Pra mim
………….
Ou comigo!

quinta-feira, dezembro 27, 2007

OFÉLIA

republicação

Ficou para tia
A nossa Ofélia,
Porque a obra
(ai, a obra!)
De Fernando
Assim o exigia.

Morreu velha
E respeitada,
Mas por homem,
Presume-se,
Nunca amada.
Vagas promessas,
Pequenos nadas.

De eléctrico iam
À Cruz-Quebrada.
Iam e vinham,
Vinham e iam.
Iriam os dois
E de mãos dadas?

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 27 de Dezembro de 2007 – Mais palavra menos palavra, o senhor ministro Campos, responsável pela saúde dos portugueses, disse, e eu ouvi numa das televisões, que o criticavam, porque tinha mexido em certos interesses.

Eu vivo numa paróquia da grande Lisboa, de seu nome Santa Iria de Azóia, onde outrora se travaram grandes batalhas pela democracia e mais tarde pela defesa das conquistas de Abril. E aqui em Santa Iria, na verdade, o senhor ministro Campos mexeu com os utentes do SNS, quando transferiu os SAP para Moscavide, onde é atendida a população de Loures Oriental. Aqui em Santa Iria, o senhor ministro Campos mexeu no tempo, na comodidade e no bolso dos mais humildes.

Na Constituição-33, que Salazar, generosamente, outorgou ao povo português, e que nos governou até 25 de Abril de 1974, havia um artigo que dizia mais ou menos isto: os superiores interesses da Nação estão acima dos interesses individuais e colectivos. Salazar tinha da nação um conceito abstractíssimo, como se a dita nação não fosse uma comunidade composta por indivíduos, ligados entre si por um conjunto comum de aspirações, um território, uma língua e uma História. Ainda que o território e a língua não sejam decisivos na definição de nação.

As decisões do senhor ministro Campos são mais comezinhas. Têm a ver com o défice das contas públicas e com os compromissos do PEC. É que esta coisa da Europa, que deu subsídios a muitos tratantes, exige que se corte nas despesas do Estado. E então corta-se cegamente, sobrepondo o défice e os compromissos europeus aos interesses da comunidade. Até um dia, que esta coisa não vai durar mil anos!

terça-feira, dezembro 25, 2007

NOITES DE VERÃO

Nas noites
breves
E quentes
de Verão,
Ficávamos
na rua
Até correr
a brisa
fresca
Da manhã.

Às vezes,
Só quando o sol
Irrompia,
Acabava
O nosso dia.

A casa
Era o sítio
Onde se ia
Comer
E dormir

domingo, dezembro 23, 2007

sábado, dezembro 22, 2007

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 22 de Dezembro – O Daniel Abrunheiro, que é poeta de rara e fina inspiração, criou a expressão maior clube privado do mundo, que designa um grupo de leitores e fazedores de coisas, na blogosfera, entre os quais também é incluído este vosso humilde escriba.

E porque é tempo de Natal, ainda que Natal seja “sempre que um homem quiser”, como diz a canção, queria aqui formular votos de bem-estar para todos os fazedores e leitores desta pequena grande comunidade. Estes votos, obviamente, são também extensivos à família e aos amigos de uns e de outros.

Treslendo Miguéis: “NATAL FELIZ”.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

CIÚME

A tua ausência fere-me
E dói tanto,
Que os meus inquietos pensamentos
São como pássaros jovens
Embalados pela vertigem do voo.


Soubesse eu ao menos
Onde e com quem partilhas
O suave e doce perfume do teu corpo.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 13 de Dezembro de 2007 – Amo a língua portuguesa acima de muitas outras coisas, porque foi através dela que, pela primeira vez, nomeei os seres e as coisas que me são mais queridos. E com ela cresci e graças a ela sei quem sou. E nela aprendi a dizer não e sim com toda a veemência do mundo.

Porém, não tenho quaisquer angústias relativamente ao destino do português de Portugal e o mesmo sentimento tenho em relação a todas as suas variedades. Eu sei de ciência segura que esta língua que amo e sou não é eterna e que não há acordos, nem decretos, nem guerras, que possam travar qualquer uma das suas muitas variedades de fazer o seu próprio caminho.

Querer impor por decreto uma grafia – e porque não um léxico comum? -, é uma forma totalitária de pretender resolver um problema que, se o fosse verdadeiramente, jamais poderia ter uma solução.

Sei que daqui a mil anos, esta belíssima”flor do Lácio” (a expressão é de Olavo Bilac), será coisa bem diversa daquela em que hoje sinto e exprimo os meus sentimentos. O mesmo acontecerá com todas as variedades faladas na América, em África e na Oceânia. Bom será que, daqui a mil anos, se possa dizer que esta ou aquela língua, que este e aquele crioulo, têm o português como língua mãe. Isso me basta e me consola, neste bizantino presente.

sábado, dezembro 15, 2007

AS FIGUEIRAS

Generosas,
As figueiras
Deixam crescer
Os ramos
Para os caminhos.

Para que os figos
Quando maduros
Fiquem ao alcance
De todas as mãos.


Na natureza,
Não há
Outra árvore
Assim!



quinta-feira, dezembro 13, 2007

COMO SE FOSSE ONTEM (NOVA VERSÃO)

No fim do Outono e no Inverno, quando o frio apertava, era à volta da braseira que a nossa família se reunia e conversava.

Na sala exígua, havia duas arcas, onde tudo se guardava e as minhas tias – oh, eram tão novas ainda! -, se sentavam para namorar sob o olhar atento e severo de minha avó.

No tecto de madeira, havia maçãs, cachos de uvas, diospiros e romãs, dependurados, que comíamos com parcimónia e que eram os melhores frutos do mundo.

Era neste ambiente, que eu ouvia, feliz, as lindas histórias pueris, que meu pai contava.
Foi há tanto, tanto tempo…

quarta-feira, dezembro 12, 2007

COMO SE FOSSE ONTEM

Eu guardo ainda, intactos, os odores dos frutos, dependurados no tecto da sala da casa de meus avós paternos: maçãs, cachos de uvas, diospiros e romãs, que comíamos com parcimónia e que eram para nós os melhores frutos do vasto mundo.

Eu guardo ainda, intactos, os timbres das vozes de todos os entes queridos, que se sentavam à volta da braseira, no centro da pequena sala, juntinhos, nos longos serões do Outono e do Inverno, à luz da candeia.

Eu guardo ainda, intactas, as histórias pueris que meu pai me contava e que fizeram a minha infância feliz.

Há tanto, tanto tempo…

terça-feira, dezembro 11, 2007

CANTAVA TODA A MANHÃ

A minha avó paterna.

Muito erecta em seu balcão,
De cores tristes vestida,
Cantava toda a manhã.

Os cabelos penteava
E rimas lançava ao vento
Pr’ afastar a solidão.

Sua voz tinha magia,
Tristeza muita e profunda,
E cantava todo o dia…

Ó querida velha tonta!,
-Minha esmeralda perdida,
onde cantarás agora ?

sábado, dezembro 08, 2007

O POEMA

Às vezes,
Tenho de esperar,
Pacientemente,
Um verso;
Outras,
Os versos surgem,
Subitamente,
Caindo as sílabas
E as palavras,
uma a uma,
No poema.

É sempre
Uma questão
De labor
E tempo.

E de inspiração…

sexta-feira, dezembro 07, 2007

OUTONO

Aos poucos,
Vão-se despindo
Os plátanos
E os choupos.

E o dia
Enclausurado
Num casulo
Cinzento
Enfastia-me.

Não admira,
Assim,
Que ande arredia,
De mim,
A poesia.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

SONETO (PORTUGUÊS) - 5

republicação

Prepara-se a pátria de Pessoa
- Formidável império mundial –,
Para ter uma moderna lei geral
Que o mundo, por certo, seguirá.
Tlebs é o nome dessa lei, Tlebs!
Mais clara que os mandamentos
Por Deus confiados a Moisés,
Tornará mais forte o vasto império.
Desde o último Verão,
Vieira, Peres, Graça, Mateus,
Contra a nova norma se bateram
Com suas fortes penas sonorosas;
Porém, tudo está bem pesado e medido
E a coisa vai maravilhar o universo!

terça-feira, dezembro 04, 2007

NOTA

A fotografia que ilustra o texto "Castelo Branco - 4" foi tirada na Primavera passada. Serve apenas para mostrar o edifício onde se situava o café Arcádia. É o que sobressai, à esquerda. Os cidadãos vestidos com T-shirts brancas, querem apenas demonstrar que a marcha faz bem ao coração.

CASTELO BRANCO - 4



Santa Iria de Azóia, 4 de Dezembro de 2007 – Não me recordo se era também no 1º de Dezembro que os legionários vestiam a respectiva fatiota e desfilavam pelas ruas de Castelo Branco. Lembro-me, todavia, de os ver fardados e muito compenetrados da sua meritória e patriótica missão.

Vistas à distância de trinta e muitos, quarenta anos, todas estas instituições mais ou menos grotescas acabariam por nos divertir, se não tivessem sido peças de uma superstrutura repressiva que dava pelo nome de Estado Novo. A Legião e a Mocidade e ainda a Milícia, faziam parte de um todo que abocanhou a liberdade e permitiu o exercício do poder a Salazar e à sua camarilha.

Apesar de tudo, Castelo Branco era uma cidade interessante, onde as pessoas se organizavam em grupos de harmonia com as suas orientações políticas e ideológicas. Eram editados os jornais “Reconquista” e “Beira Baixa”. E lia-se muito. Por isso mesmo, havia dois PSP à paisana, que percorriam as livrarias para procederem à apreensão dos livros que o regime considerava perigosos. O quiosque VIDAL era o principal alvo destes pobres detectives, que hoje hão-de parecer, a muita gente, personagens inverosímeis.

No Avis sobressaía o grupo do reitor do Liceu, Dr. Catanas Diogo, do director de Escola Comercial, Dr. Ribeiro Queiroz, e um oficial que comandava a GNR. O Avis tinha uma daquelas portas de rodar e uma enorme esplanada, onde, às segundas-feiras, dia de mercado, era possível encontrar o lendário fascista Dr. Rolão Preto.

O Arcádia, que foi dirigido pela família Salavisa, era café e restaurante e tinha uma sala de bilhares ao lado, onde a estudantada dava tacadas e chumbava os anos lectivos. Na parte superior, do lado esquerdo do balcão, reunia-se a família MDP-CDE, nomeadamente, o Dr. Vasco Silva e o Carlos Vale. E tantos outros, cujos nomes já esqueci, que tinham o hábito da discussão e da leitura.

Para terminar este breve apontamento, quero aqui lembrar o funeral do Luís Geirinhas, filho do Dr. Vasco Silva, que constituiu uma grande manifestação cívica naquele princípio de Outono de 1971. Não tenho memória de tão grande e sentida manifestação de pesar em Castelo Branco.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

CASTELO BRANCO - 3


Santa Iria de Azóia, 3 de Dezembro de 2007 – E continuando a falar de Castelo Branco, quero aqui rememorar o dia 1º de Dezembro dos anos de 1965 e 1966, em que desfilei pelas ruas da cidade, até à Sé, com a farda da Mocidade Portuguesa: camisa verde, meias, calção e bivaque castanhos e o célebre cinto com o S. Não sei se os sapatos também eram da praxe ou se eram uns quaisquer. E lá íamos nós, pobres crianças, quais soldadinhos, entoando o “Cá vamos cantando e rindo!”.

É evidente que a garotada não tinha qualquer consciência do que ali estava a representar, sob a direcção de Comandantes de Castelo e Comandantes de Bandeira. Tenho dúvidas se os Ferro, nomeadamente o João, tinham grande consciência da coisa. Já do Carlos Rosado e de um Mário que foi empregado na PSP de Castelo Branco, tenho opinião diferente. Eram bastante mais velhos e comandavam o pequeno exército com grande convicção.

Na Sé gelada, a bater o tarau, a malta assistia à missa, que, creio, era de acção de graças pela restauração da independência nacional. Lembro-me perfeitamente de ter estremecido, num dado momento da celebração litúrgica, quando se fizeram ouvir os clarins militares, que, naquele ambiente de religiosa serenidade, emprestavam uma nota guerreira à celebração.

E depois era de novo formar e voltar a marchar até à Escola Comercial e Industrial. Isto para os da Escola, porque os do Liceu tinham o seu desfile autónomo. No 1º de Dezembro, com um frio de rachar.

domingo, dezembro 02, 2007

CASTELO BRANCO -2


Santa Iria de Azóia, 2 de Dezembro de 2007 – Por muitas voltas que se dê ao texto, Castelo Branco, apesar do crescimento dos últimos quarenta anos, não ganhou novas centralidades dignas de nota. A Castelo Branco interessante, e que conquista a retina do viajante, é a da Alameda da Liberdade e Campo da Pátria e a dos edifícios dos Paços do Concelho, Governo Civil e Palácio da Justiça. E ainda a Caixa Geral de Depósitos, que para ali ficou sozinha depois da demolição do Hotel de Turismo, o antigo Cavalaria-8 e o Cine-Teatro Avenida.

Dir-me-ão que uma cidade é muito mais do que um conjunto arquitectónico. Esta é uma das verdades que não posso contestar, porque a actividade económica está hoje muito concentrada a sul e a sudoeste da cidade. No entanto, as jóias do comércio retalhista continuam a ser a General Humberto Delgado, a Primeiro de Maio, a Nuno Álvares Pereira, todas avenidas, a Rua D. Dinis e a Rua da Sé. E é também neste centro, beneficiado com o programa Polis, que agora podemos, tal como no passado, encontrar os melhores cafés.

Uma passagem de carro pelo Largo da Sé mostra-nos aquela zona sempre em obras, ora o edifício dos CTT (velho), ora o antigo Tribunal e depois Conservatório. As inevitáveis obras, sempre necessárias e atrasadas, mas que atrapalham e desfeiam a cidade. O Jardim do Paço – o ex-libris da cidade -, e o Parque Municipal continuam bem cuidados. O mesmo não se poderá dizer da Praça Velha, onde de imediato se constata um enorme desleixo.

E aqui ficam estas impressões, por hoje, que outras se seguirão futuramente. Há amores que duram a vida inteira!

sábado, dezembro 01, 2007

CASTELO BRANCO


Castelo Branco, 30 de Novembro de 2007 – Castelo Branco é uma cidade de muito frio e calor. No entanto, os seis graus às oito horas da manhã são menos frios que os nove ou os dez da região de Lisboa e de outras zonas do litoral. E quando, por volta do meio-dia, os termómetros registarem os onze ou doze, o cachecol e o sobretudo tornam-se desnecessários.

Passei de carro às 8H30 junto à Escola Secundária de Amato Lusitano, que já foi Escola Comercial e Industrial de Castelo Branco, onde frequentei, nos idos de sessenta, o Curso Geral do Comércio. Dezenas e dezenas de estudantes ao portão, porque lá dentro nem vivalma. Era dia de greve da Função Pública e a adesão cifrar-se-ia não numa percentagem falaciosa, mas num eloquente “de portas fechadas”.

Por volta das nove horas, já com o sol a doirar o Palácio de Justiça e o edifício do Governo Civil, nota-se que esta sexta-feira em tudo se assemelha a uma manhã de domingo. A Alameda dos Mártires da Pátria, agora liberta do trânsito automóvel e entregue aos peões, surpreende o visitante pela serenidade. Até na Belar, que foi outrora pastelaria afamada, onde pontificavam estudantes, professores e profissionais livres, é agora uma pastelaria pacata, onde o casal Marçal chega e sobra para as encomendas.

Há anos que não passava uma manhã em Castelo Branco. Hoje matei saudades do espaço físico onde cresci e recordei algumas pessoas que constituíram o espaço cívico que me ajudaram a moldar o carácter: Vasco Silva, em primeiro lugar, Manuel João Vieira, António Matos Pereira, Carlos Vale, Mário Barreto - a ordem agora já é arbitrária -, etc.

Doeu-me ver “A Assembleia”, por cima da antiga Chapelaria da Moda (que era do avô dos meus amigos Zé Rufino e Luís Manso), votada ao abandono, e, muito provavelmente à demolição. Foi ali que, antes do 25 de Abril, se fizeram audições de música clássica e de jazz com o José Duarte. E lançamentos de livros e outras manifestações culturais, políticas e sociais. E agora está ao abandono.

Apesar de tudo, Castelo Branco continua uma cidade única!

LIVRARTE (LIVROS E ARTE)






















DOM SEBASTIÃO (SONETO PORTUGUÊS) - 5

Pobre rei Sebastião,
Que ninguém viu cair,
Naquele dia de V’rão,
Lá, em Alcácer – Quibir.
Provavelmente sepulto,
No quentíssimo deserto,
Deixou Portugal de luto
E com o destino incerto.
Bravo serias, ó rei!:
Bravo, forte e valente;
Porém, conduziste a grei
-A melhor da tua gente
A tão severa derrota,
que apagaste Aljubarrota.

segunda-feira, novembro 26, 2007

SONETO (PORTUGÊS) --4

Nuno foi o braço e a mente
Que Portugal defendeu
Da castelhana gente.
Títulos e riquezas recebeu
De seu amigo João de Avis,
Cujo arnês envergou
Quando Leonor, mãe de Beatriz,
Cavaleiro o armou.
Destemido herói medieval,
Escolheu o caminho certo
E terçou armas por Portugal.
Ilustre patrono da infantaria,
Nuno foi o grande arquitecto
Da lusitana soberania.

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 15 de Outubro de 2000 - Tinha a idade do João Pedro, meu filho, e chamava-se SAMI JAZAR. Provavelmente, o seu único sonho era brincar em paz com todos os outros meninos da sua rua, do seu bairro, da sua pequena cidade. Foi assassinado barbaramente por um soldado israelita, apesar do desespero do pai. Tinha nove anos!

A ceifa continua, apesar da aparente movimentação de todas as peças importantes do xadrez político mundial. A desproporção de meios é comprovada com a desproporção do número de vítimas. Por cada três israelitas mortos, morrem trezentos palestinos. E a chamada comunidade internacional, tão célere na defesa dos direitos humanos em determinadas regiões do mundo, revela-se incapaz de impor uma solução política no Médio Oriente, tendente a evitar o genocídio do povo da Palestina.

Enquanto persistir a hipocrisia de permitir todos os crimes ao sionismo, periodicamente, teremos de chorar a morte de um menino, como se a construção de uma pátria tivesse de passar por este caminho sacrificial e demente.

sexta-feira, novembro 23, 2007

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 20 de Novembro de 2007- Neste mundo globalizado, não há meios de encontrar boas notícias para aqueles que apenas têm para vender o seu trabalho. Em nome da chamada globalização, são surripiados aos trabalhadores europeus direitos que levaram séculos a conquistar. A barbárie está de novo instalada e pelos vistos de boa saúde.

Lídia Martinez, que vive em Paris, dava-me hoje conta daquilo que é o sentimento geral no país de Sarko. Aumentou-se 172% a ele mesmo e permitiu
aumentos à “cambada” que dirige a França e depois diz alto e bom som que as reformas são para levar até ao fim. Da França inteligente – e quantas vezes motor das transformações continentais –, chegam-nos agora estes exemplos de intransigência e pouco cartesianos.

As greves justas, vistas as coisas friamente, são apenas aquelas em que nós nos implicamos. As outras, porque nos criam transtornos, são sempre egoístas e despropositadas. É assim em França, é assim em Portugal e será assim na Cochinchina. E numa coisa, entre muitas outras, a Lídia tem razão: Sarko foi recentemente eleito e os franceses votaram nele.

O meu desejo mais profundo era que a Europa fosse varrida por uma forte contestação, que desalojasse do poder esta gente sem alma nem coração. Mas este é apenas o meu desejo, porque a realidade é bem diversa. E é neste desajustamento que radica parte do meu mal-estar.

*
Almocei com o Antero, no Tico –Tico, que é um sítio agradável e onde se pode comer e conversar. Não nos víamos há meses e falámos de muitos assuntos. Até da Guerra Colonial, que persiste - e algum dia deixará de persistir? – em ser tema para longas conversas. Na verdade, as ex-colónias portuguesas são assim como que uma espécie de síndrome que nos agarrou na juventude e que nos acompanhará até à cova.

De Angola, onde estive apenas um ano, não guardo recordações que me sejam muito gratas, afora as “punhetas” de bacalhau, no GAC-1, e os bares e as “boîtes”, até Março/Abril daquele ano de 1975, porque depois, com o eclodir da Guerra Civil, tudo fechou e Luanda tornou-se a mais triste de todas as cidades do mundo. Apesar de tudo, sou capaz de falar ou ouvir falar, dias inteiros, daquela terra de feiticeiros e feitiços.

Que mosquito me terá picado?


quinta-feira, novembro 22, 2007

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 8 de Março de 1993 -Os santos que são santos também pecaram, diz o povo. E no entanto, quando se reencontraram com Deus (que cristão!), todos se sentaram à sua direita.
Pecaram, com certeza, por pensamentos, palavras e obras e ter-se-ão arrependido contritamente, para merecerem a indulgência do Criador. E os homens tê-los-ão perdoado?

Um homem pode ter vivido a vida mais virtuosa das vidas, mas no dia em que cometer o mais insignificante deslize, os seus semelhantes constituir-se-ão em pelotão de fuzilamento. Em nome de Deus - mesmo sem procuração -, da justiça e da liberdade. O ensinamento profundo da parábola da adúltera, nunca entrará nas suas cabeças empedernidas.

DO MEU DIÁRIO


Lisboa, 7 de Maio de 1994 - Portugal é hoje um país de répteis. Não admira, assim, que a traição espreite a cada esquina. Os portugueses sempre foram mesquinhos e interesseiros. E nada dói tanto como a ausência de grandeza.
Portugal começou a agonizar, com efeito, ainda na primeira metade do séc. XVI. Inelutavelmente, caminha para a dissolução final. E sobretudo, porque nunca mais soube encontrar alternativas credíveis e atempadas.
Hoje, agarra-se e chupa a teta da mãe Europa com quantas forças tem. O pior virá, quando a teta, sugada até ao tutano, deixar de ser o almejado D. Sebastião.
Curiosamente, a religião nos fez grandes e pequenos. Com o mito de cruzada dominámos metade do mundo. A Inquisição castrou-nos para sempre.

Nota: continuo a pensar exactamente da mesma maneira. Portugal é
muito pior, hoje, do que há treze anos atrás.

quarta-feira, novembro 21, 2007

SONETO (PORTUGÊS) -3

Republicação

Entro nas casas de alterne
Por obrigação profissional;
Mas topam imediatamente
Os frequentadores habituais
E aquelas noctívagas mulheres
Quão estranho me sinto e sou
Dentro de tais aquários.
Lisboa tem para todos os gostos
E para todas as carteiras:
Moldavas, lusas, brasileiras,
De cabelos pretos, ruivos, loiros.
O à-vontade ganha-se indo,
Os pidgins aprendem-se falando.
O fundamental é ter carteira!

terça-feira, novembro 20, 2007

SONETO (PORTUGÊS) -II

Republicação

Era Verão…
E Mariana ardia,
Na fresquidão dos claustros.
Caóticos,
Os seus pensamentos voavam,
Voavam sobre as montanhas,
As planícies e os rios.
Em vão procuravam
O cavaleiro Chamilly.
De seus olhos negros,
Lágrimas apaixonadas caíam.
Lágrimas sentidas,
Que Chamilly jamais veria.
E na fresquidão dos claustros,
Mariana ardia… ardia…

domingo, novembro 18, 2007

SONETO (PORTUGÊS) -1

Republicação


Pertenço a uma geração
Que tudo deu à pátria
E da pátria só agravos recebeu.
Nasci sob a pata e a bota
Do déspota de Santa Comba;
A Angola fui parar,
Longe da pátria e dos meus;
e lutei pela democracia
E por uma pátria fraterna.
Rapazes de cueiros dizem agora
Que gozo de muitos privilégios.
E eu digo (lhes) livremente:
A puta que os pariu!,
A puta que os pariu!

terça-feira, novembro 13, 2007

JUNHO

Plácido o tempo fluía,
as cigarras cantavam
e as cerejas amadureciam.


E dentro de nós,
ai amiga!,
o divino fogo ardia.


De mão na mão,
apressados,
descíamos até ao rio
e era à sombra dos freixos,
paulatinamente,
que tudo acontecia.

domingo, novembro 11, 2007

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 11 de Novembro de 2007 – Num comentário publicado no “blog” do Daniel Abrunheiro, Lídia Martinez pergunta – e com toda a pertinência –, se não haverá nomes de mulheres para relembrar. Há, com certeza, e muitos.

Lídia relembra Vieira da Silva, Natércia Freire e Judite de Carvalho. Da minha lavra – e puxando por elas do fundo do tempo -, relembro Sóror Violante do Céu (1601-1693), Josefa de Óbidos (1630-1684), Sóror Maria do Céu (1658-1723), Leonor de Almeida Portugal(1750-1839), Irene Lisboa, Natália Correia, Maria Lamas e Maria Keil (n.19004). E isto apenas para usar o critério de Lídia, ou seja, mulheres dedicadas às artes e às letras.

De Sóror Maria do Céu, aqui deixo este lindo poema, da obra ENGANOS DO BOSQUE:

CAMARINHAS HUMILDADE

As camarinhas são, pelo retrato,
As pérolas do mato,
Mas com tal humildade,
Que nas do mar não buscam igualdade,
Antes logo em saindo das mantilhas,
Dizem humildes ser das urzes filhas,
Poucas vezes se oferece,
Confessar o que é quem mais parece,
Que em tempo semelhante,
O que nem é cristal, diz que é diamante, Só o humilde, só,
Ainda que seja ouro, se diz pó.

Um dia destes, conto as circunstâncias em que conheci e falei com Maria Keil.

sábado, novembro 10, 2007

SÃO MARTINHO

São Martinho é português,
Ninguém deve duvidar.
Dá-nos tinto aragonês
E outros vinhos de encantar.

Não há outra santidade
Deste povo mais querida.
Há festas na puridade,
Alegres e divertidas.

Castanhas, chouriço e pão,
Tudo regado com vinho!
Haverá melhor razão,
Pra gostar de S. Martinho?


Barata, Manuel, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lisboa, 2005

sexta-feira, novembro 09, 2007

MEMÓRIA - III

Nos regatos e nas fontes
Água cristalina bebi.


Nos silvedos dos caminhos,
Amoras bravias colhi.


Nos corutos das figueiras,
Sadios figos comi.


Nas sombras amigas dos choupos,
Lindas histórias ouvi.


Mas um dia,
Embalado pelos sonhos
Fui ver o mundo
E tudo perdi.

quinta-feira, novembro 08, 2007

MEMÓRIA II

( Em memória de minha avó paterna)

Vejo-te sempre ali
junto à lareira
no teu banquinho sentada
os olhos muito abertos
mas já sem brilho.


Vejo-te sempre ali
junto à lareira
de viuvez vestida
ansiosamente olhando
mas não vendo nada.


Vejo-te sempre ali
junto à lareira
velho tronco devastado
pelo simples fluir
inexorável dos dias.


Vejo-te sempre ali
junto à lareira
vivo o lume
os olhos muito abertos
mas já sem brilho.

terça-feira, novembro 06, 2007

NO VERÃO

No verão,
Quando o sol
Incendiava os dias,
Era à sombra
Da figueira branca,
Junto ao poço,
Que a nossa família
Se acolhia.


Pacientemente,
Meu avô
Descascava então
Figos de piteira
Que eu comia.


Saciada a sede
E distribuído o pão,
Muito feliz,
Minha avó dizia:
- Abençoado seja o verão!...

segunda-feira, novembro 05, 2007

A SAUDADE

A saudade é portuguesa,
Dizem os mais entendidos...
Causa é desta moleza
Que nos traz tão distraídos.


Um dia vou ao labirinto
Onde a dizem guardada
Ou presa, até consinto,
Para a matar à facada.


Temos de mudar de vida.
Isto assim não pode ser.
Tanta cabeça perdida
E Portugal por fazer.


Vai às malvas, ó saudade,
Não te arvores em carraça!
Deixa o povo em liberdade,
Que já chega de desgraça.

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 28 de Novembro de 2003 – Às vezes, sinto-me como que um país à beira de uma guerra civil; outras, um simples território invadido. É nestes momentos que sinto uma vontade irreprimível de subir ao telhado deste pequeno edifício e desatar aos tiros. E no entanto...
Mantenho-me quedo, no meu coin, à espera que por mim não dêem falta, contentando-me com a escrita de versos sem talento e de alguma prosa insossa, que jamais terá leitores. Porém, quedo no meu coin, sinto-me mais amigo de Portugal do que D. Manuela Leite, sempre prenhe de certezas e inabaláveis convicções, como se os deuses a tivessem engendrado para salvar Portugal.
E prontos, como agora se diz, acabei por subir ao telhado, mais uma vez, e cumprir o meu papel de franco atirador. PUM!!!

domingo, novembro 04, 2007

INÊS DE CASTRO

Charneca da Cotovia, 3 de Novembro de 2007 – Fim de tarde de 20 de Março de 1622. Luís Vélez de Guevara, autor de textos dramáticos, atravessa um mau momento da sua carreira profissional. Ainda há instantes deixara a casa de Sánchez de Vargas, que lhe dissera “que as suas comédias haviam deixado de ter valor na bolsa de contratação teatral da Rua de Léon”.
Agora na madrilena Rua de Atocha, Luís Vélez de Guevara parece hesitar no caminho a seguir, tais são os problemas que o atormentam. Sem um ducado nos bolsos, com a prole em casa sem sustento, decide ir até à taberna de Alonso. Aí poderá encontrar um amigo que lhe empreste dinheiro ou lhe pague um “bom vinho de Consuegro”.
É já com a taberna de Alonso em mente, que encontra D. Félix Lope de Vega, que vem do Convento de La Merced, onde se despedira de frei Gabriel Téllez, que na vida secular era conhecido por Tirso de Molina. Os dois homens cumprimentam-se amistosa e respeitosamente e tecem algumas considerações acerca do meio teatral. Porém, apesar do êxito, também D. Lope não parece muito feliz, facto que não passa despercebido a Luís Vélez de Guevara. D. Lope decide acompanhar o amigo e camarada de lides teatrais.
D. Lope sente-se agastado com as suas fraquezas carnais. Apesar dos votos, não consegue evitar as mulheres e nomeadamente a diminuída psíquica Marta de Nevares, de quem tem vários filhos. Os dois homens caminham e conversam até à taberna de Alonso, onde vão encontrar vários companheiros de tertúlia. A conversa anda à volta de sucessos e insucessos literários e artísticos e é neste contexto que os amigos são surpreendidos pela presença de um velho cavaleiro que tem uma boa história para contar. Só Luis Vélez de Guevara e D. Lope aceitam ouvir a história que o cavaleiro desconhecido tem para contar. É a história dos amores trágicos de Pedro e Inês, que Luís Velez Guevara vai dramatizar e que lhe vai trazer de novo o sucesso. Três anos depois, em 1625, com a peça REINAR DESPUÉS DE MORIR.

A narrativa do velho cavaleiro segue a par e passo aquilo que se sabe da História de Portugal, durante os reinados de D. Afonso IV e D. Pedro I. Poder-se-á até dizer que Maria Pilar Queralt del Hierro segue de perto a lição dos poetas e literatos, nomeadamente a de um tal Luís Vaz de Camões, que atribuem ao Amor, ao puro Amor, a causa da tragédia. É certo que os Castros têm projectos; todavia, Inês repele a pressão de seus irmãos, Fernando e Álvaro. Inês ama Pedro desde que o viu, fugidiamente, pela primeira vez e por por seu Pedro sacrificará a sua vida.

É minha opinião convicta que este romance vale sobretudo pelos retratos que traça das personagens principais, ou seja, de Pedro, Inês, Constança e Afonso IV. Pedro é um jovem de vinte anos, dado aos prazeres da caça e que esquece “a sua condição, os seus deveres e as suas necessidades mais básicas”. Na opinião do próprio pai, Pedro é “inconstante, indolente e sem sentido do dever” (pág. 86). Este jovem de olhos azuis é gentil, “sensível, alegre e amante das artes e das letras”(pág.58).
A morte de Inês enlouquece-o; porém, acaba por chegar a um acordo com o pai, a quem nunca perdoará o assassinato da sua bem amada. Quando assume o poder, consumadas as vinganças possíveis, Pedro faz transladar os restos mortais de Inês de Santa Clara para o mosteiro de Alcobaça, onde sob a sua supervisão tinham sido construídos os túmulos para ambos. E faz os nobres desfilar perante o cadáver, em cuja cabeça Pedro tinha colocado a coroa das rainhas de Portugal. Foi a sua última homenagem a Inês, com quem casara com a cumplicidade do bispo da Guarda, que o próprio príncipe trouxera a Santa Clara para o efeito.
Este príncipe português, que terá protagonizou uma das mais belas histórias de amor de todos os tempos, reais ou míticas, foi rei durante cerca de dez anos e governou com grande sabedoria. Dois dos seus filhos foram reis de Portugal: D. Fernando, filho de Constança; e, D. João I, que a História registou como bastardo. Filho de Teresa Lourenço, que presenciara a morte de Inês e que o príncipe violou, segundo o romance de Maria Pilar Queralt del Hierro, na convicção de que possuía Inês, acabaria por ser um rei de Portugal filho de Inês de Castro. Isto, já no domínio da ficção, obviamente. Teresa Lourenço, em cujo ventre a loucura gerou a mais profícua de todas as dinastias portuguesas, merece aqui uma palavra de simpatia!

Galega de nascimento (1320), Inês de Castro é criada em Castela, para onde, após a morte da mãe, o pai decide enviá-la, a fim de “acompanhar D. Constança Manuel nos seus ócios e obrigações”. Constança é filha de D. João Manuel, infante de Castela e há-de ser, por casamento com D. Pedro, princesa de Portugal. Inês, a dos olhos garços, é uma rapariga “Alta, esbelta, ágil de movimentos/…/ “ e /…/”possuía uma frescura especial que dispensava artifícios. Conservava os mesmos caracóis dourados que tinha em criança/…/” (pág. 52), segundo Constança. “Inês era fogo fascinante e arrebatador. Uma fogueira que atraía o olhar de forma hipnótica/…/”. Como Pedro, “amava a leitura, a música, os passeios a cavalo pelo campo”.
A partir do texto do romance, fica-se a saber que Inês fez feliz a infância de Constança e que entre as duas amigas, apesar de Inês ter cedido aos impulsos de Pedro, houve sempre uma amizade fraterna.

Constança “tinha feições correctas, uns olhos escuros e grandes que testemunhavam a sua grandeza de alma e uma educação refinada que a fizera adquirir gestos harmoniosos e cativantes”(pág. 52). Tem a noção dos seus deveres, enquanto filha de um infante de Castela. Domina na perfeição os rituais do poder. É, na opinião de Inês, a mais nobre das mulheres” (pág.65).

D. Afonso IV, o Bravo, tinha um alto sentido do dever. O seu reino estava acima de tudo e todos. Não era dado a quaisquer manifestações de afecto. Encarnou o paradoxo de fazer infeliz aquele que mais amava.

No final do romance ficamos a saber que a peça de Luís Velez de Guevara foi um enorme sucesso. Decorre o Verão de 1634 e o dramaturgo sonha com o cavaleiro, que lhe contara a história dos amores de Pedro e Inês. É o próprio D. Afonso IV que, roído pelo remorso, tenta convencer os artistas a perpetuar a memória de Inês de Castro e deste modo encontrar a paz pessoal. Num encontro com D. Lope, o autor de REINAR DESPUÉS DE MORIR conta o sonho ao amigo, que o aconselha a não levar os sonhos a sério e lhe diz que foi a história que o viajante lhe contou, naquela noite de Inverno de 1622, que lhe abriu definitivamente as portas da consagração.

Hierro, Maria Pilar Queralt del, INES DE CASTRO, Edição do Círculo de Leitores, Dez/2006.


quarta-feira, outubro 31, 2007

MEMÓRIA

Nas manhãs de Junho,
quando o sol tudo doirava,
a nossa casa era também
a sombra da oliveira
do outro lado da rua.

Guardo memória, mãe!,
da nossa rua térrea
e vejo-te jovem
algodão dobando
à sombra da oliveira
do outro lado da rua.

Nas manhãs de Junho,
quando o trigo amadurecia
e eu brincava brincava
à sombra da oliveira
do outro lado da rua.

Fazia-te mil perguntas
- mil ou muitas mais -
e tu respondias sem enfado
à sombra da oliveira
do outro lado da rua.

E eu era feliz
e tu eras feliz, mãe!,
à sombra da oliveira
do outro lado da rua.

Do outro lado da rua
à sombra da oliveira.

sábado, outubro 27, 2007

PEDRO E INÊS

Copiadas do romance Inês de Castro de Maria Pilar Queralt Hierro


Dónde vas el caballero,
dónde vas, triste de ti?
que la tu querida esposa
muerta está que yo la vi.
Las señas que ella tenía
bien te las sabré decir:
su garganta es de alabastro
e sus manos de marfil.



Luis Vélez de Guevara, Reinar Después de Morir.

O TEMPO

À Alex, que luta denodadamente, com o tempo
O tempo – essa coisa misteriosa que se conta em milénios, séculos, anos, meses, dias, horas, minutos e segundos – alguém saberá ao certo o que é? E no entanto, nada escraviza mais o Homem do que o tempo, que as gramáticas organizam em passado, presente e futuro, mas que, no fundo, é apenas passado e futuro.
O tempo – essa coisa estranha que dá alento aos tiranos e torna precárias as acções dos heróis, que destrói as verdades eternas dos teólogos e os sistemas infalíveis dos filósofos, que tudo e todos condena ao esquecimento – alguém saberá ao certo o que é?
No seu perpétuo fluir, o tempo é o tempo, como diria o delicioso Caeiro.
Para mim, que não sou poeta nem literato, mas simplesmente um amigo de poetas e literatos, o tempo é o sol a levantar-se preguiçosamente do Tejo - é assim que eu o vejo das janelas da casa onde habito- que depois sobe e roda e desce, devagarinho, para desaparecer por detrás das casas, para de novo se levantar das mansas águas do Tejo e subir e rodar e descer e desaparecer e de novo se levantar das mansas águas do Tejo.
Barata, Manuel, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lisboa/2005

MATA


quinta-feira, outubro 25, 2007

DO MEU DIÁRIO (MANUEL COSTA ALVES)

Sesimbra, 22 de Julho de 2003 – Acabei de ler, na praia, o livro Podia Ser de Outra Maneira, da autoria do meteorologista Manuel Costa Alves. Albicastrense de gema, Costa Alves foi a agradável surpresa destas férias: ideias interessantes e uma prosa escorreita, aqui e ali salpicada de expressões bastante pitorescas. “Pagar as favas” e “tuta e meia”, são apenas duas das que retive.

Achei divertido o facto de ter detectado muitos pontos de contacto entre as preocupações e apreciações de Costa Alves e as minhas, apesar de nos separarem oito anos no calendário. Quem ler o meu livro Quadras Quase Populares ou o meu Diário há-de notar, seguramente, inúmeros pontos de contacto.

Aquela série de conversas entre um eu e um tu, em que o autor parece querer emprestar um carácter ficcional às suas apreciações acerca dos problemas que dominaram o mundo na segunda metade do séc. XX, é apenas a forma encontrada para conferir vivacidade às múltiplas narrativas que compõem o livro. Ainda que o processo possa remontar à antiguidade helénica ( quem é que não se lembra de um tal Platão e dos seus não menos célebres diálogos? ), é receita certa para prender o leitor do princípio ao fim ou do fim para o princípio, porque assim poderá ser lida a obra.

A unidade há-de o leitor encontrá-la precisamente naquela pretensa forma de dialogar com que o autor pretende fazer passar um longo monólogo, onde perpassam o “tempo de chumbo” da ditadura, reflexões acerca dos mitos portugueses, guerra colonial, Revolução de Outubro (aliás de Novembro), Guerra Civil de Espanha, religião, ciência, etc. E também naquele tom civilizado e amável que, na minha humilde opinião, é privilégio dos sábios.

Obrigado, Costa Alves!
Obrigado, Ulmeiro!
Obrigado, Zé Ribeiro!

segunda-feira, outubro 22, 2007

PEDRO E INEZ


Santa Iria de Azóia, 22 de Outubro de 2007-10-22

Lídia,

Henry de Montherlant acaba de me anunciar a morte de Inez. Não me deu conta dos pormenores; porém, com alguma cópia me falou do estado em que encontrou o príncipe, esta manhã, quando, após longa e cansativa cavalgada, chegou a Santa Clara.
Desesperado, Pedro ora contemplava, em silêncio, o rosto da sua bem-amada, ora irrompia, enlouquecido, por entre os presentes, prometendo vinganças futuras. Ninguém, mesmo entre os mais íntimos, ousava pronunciar uma palavra. Nunca, por amor, se vira tanta cólera e silêncios tão sepulcrais!
Inez viera com Constança e cedo conquistara o coração do príncipe. Era no seu alvíssimo colo, marfinado, como diz Lídia, que Pedro dava descanso ao fogoso corcel que o habitava. E era na alcova, após amorosas refregas, de dedos ainda entrelaçados, que Pedro pensava o futuro de Portugal.
Estulto, o povo, que apenas fornicar sabia, acusava este amor de mancebia e exigia do rei a resolução do caso. Filho de santa, o rei, que de seu pai não herdara os dotes do amor, ouviu os conselheiros e disse sim às suas pretensões.

O pior foi o que veio depois!

domingo, outubro 21, 2007

CARTA DE PEDRO A INEZ

Esposa minha, eu te protejo, de ti sou guardião
e mestre, e escravo também.
Tu és aquela que se deita tão suavemente sobre
o meu peito, seguindo o cavalo louco que aí se
abriga.
"Corça minha" abraça-me, acalma o meu desas-
sossego. Doce, marfinada e loira, a tua farta ca-
beleira se enrola nos meus dedos, atando neles o
cheiro da tua devoção.
Tu és o espírito e a carne reunidos num só traço
de beleza que me cobre de beijos e me cega. Este
amor é mais forte do que a vida, porque nele
renasço em cada passo que dou.
Pobre de mim e do lamento que se desfolha em
tuas mãos, deixando-te seca e ávida da minha
boca em teus seios.
Não chores Inez que as tuas lágrimas e a minha
sede conhecem o mesmo destino e percorrem a
tua face nesta hora de solidão e desespero.
A manhã espera-me do outro lado do rio e de
mãos dadas, num sorriso manso, beberei a gota
de orvalho que os teus lábios ainda adormecidos
me oferecem.
Martnez, Lídia, CARTAS DE PEDRO E INEZ, Ulmeiro,
1ª Ed., LisboaNov./94

sábado, outubro 20, 2007

MUSEU DO NEO-REALISMO

Santa Iria de Azóia, 20 de Outubro de 2007 – Vila Franca de Xira, a toureira, no dizer pitoresco de Garret, tem, a partir de hoje, um museu dedicado ao neo-realismo. Chamar-se-á Museu do Neo-Realismo. Finalmente, autores como Soeiro Pereira Gomes, Redol, Mário Dionísio, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Sidónio Muralha e outros, terão ali um espaço que há-de ajudar a perpetuar as suas memórias. E também Joaquim Namorado!

Na verdade, só Vila Franca de Xira ou Alhandra mereciam este novo espaço museológico, pelas profundas relações que tiveram com Redol e Soeiro, respectivamente. E ainda pelo facto de ambas serem banhadas pelo Tejo, que serviu de espaço lúdico, de conspiração política e também narrativo, a muitos dos artistas que, comummente, são arrumados naquele movimento estético e ideológico.

O neo-realismo português tem, a partir de hoje, em Vila Franca de Xira, um museu que o há-de perpetuar. Ao contrário de outros períodos ou épocas da nossa literatura e/ou da nossa cultura. Não faltarão, decerto, os figurões do costume a tentar denegrir um dos movimentos literários e artísticos mais profícuos do séc. XX. Falarão das suas limitações estéticas, da obediência a uma determinada orientação ideológica, dos amanhãs que cantam, etc., como se as obras dos autores não fossem filhas da sua época, como notou, sabiamente, Júlia Kristeva.

Esta inauguração deveria ser também uma homenagem a Arquimedes da Silva Santos, natural da Póvoa de Santa Iria, que foi médico distinto, poeta inspirado e um cidadão impoluto e de grande humanidade. E um amigo das figuras gradas do neo-realismo. Mesmo sabendo nós que lhe foram feitas já diversas homenagens.

LIVRARTE (LIVROS E ARTE)


O homem da fotografia, dizem, tem a paixão dos livros. E a fotografia é disso a prova. Diz com graça, ele que foi criador da Assírio & Alvim, que é o & que liga nome próprio e apelido da sociedade comercial.

sexta-feira, outubro 19, 2007

UM NAMORADO PARA DONA AGOSTINA

O gato das fotografias é Mr Fred e tem o porte de um lord inglês. Ainda anda com quatro patas, mas tenho esperanças que um dia se erga e ande com duas.
Perece-me que seria um bom companheiro para a gatinha do Daniel? O que me diz a esta ideia, Lídia?



LISBOA E O TEJO

A nobre Lisboa tem
O vasto Tejo a seus pés
‘ma porta aberta ao vaivém
Rumoroso das marés.


Este Tejo que o Poeta
Morada das musas quis,
Foi a companhia certa
Deste pequeno país.


Cais de partida e chegada,
Quantos segredos ouviu?
Nunca quis revelar nada
Das coisas todas que viu.

Companheiro e confidente,
Nas horas boas e más,
Esteve sempre presente,
Discreto, calmo, sagaz.

quarta-feira, outubro 17, 2007

DO MEU DIÁRIO

Motivação: a série televisiva de Joaquim Furtado
Santa Iria de Azóia, 28 de Setembro de 2002 – Há vinte e oito anos, neste mesmo dia, a direita quis tomar o poder em Portugal e perdeu. Liderava António de Spínola, que era uma figura mítica da Guerra Colonial. Ocupava ocasionalmente a chefia do Estado.

Mobilizado para Angola, estava a aguardar embarque, em Tomar, que era a minha unidade mobilizadora. Os meus companheiros já se encontravam em Nambuangongo. Nessa noite, desloquei-me a Lisboa com o Fernando Farrajota e assistimos, no Londres, ao filme o Ovo da Serpente. Dos revoltosos não vimos sequer a sombra. Deparámo-nos apenas com as barricadas que os populares montaram ao longo da estrada, nomeadamente na então vermelha Alpiarça.
Conto estas coisas, porque nunca estive no centro dos acontecimentos. Nas datas mais significativas da revolução, estive sempre a muitas milhas do epicentro. Talvez a minha vocação seja a de mero espectador e não agente da História.

Não tenho acreditado que PC alguma vez tenha estado à beira de tomar o poder. Principalmente, porque a rapaziada que vende essa versão da História não tem revelado grande carácter. Tenho-os na conta de troca tintas, ainda que com vários matizes.

Quando se fala da descolonização e do modo como foi feita e sobretudo quando oiço rapazes que nunca estiveram o terreno a debitar acerca do tema, perco as estribeiras e... sinto-me tentado a mandá-los à merda. O Freitas Pinto do célebre batalhão de Cabinda foi meu companheiro de recruta e compartilhamos a mesma camarata no Caçadores 5, em Campolide. Alberto João Jardim e quejandos são ignorantes em matéria de descolonização. Ouvi-los debitar, arrepia-me até à medula.

terça-feira, outubro 16, 2007

MOIRINHAS ENCANTADAS

Pró meu amigo Zé Baeta

Vivo com esta mania
Das moirinhas encantadas.
São restos da fantasia
Dos velhos contos de fadas.

Entre Silves e Granada,
Procuro as lindas gazelas.
Ò moirinhas de Granada,
doces, amáveis e belas!

Nas margens do rio Arade,
Dou largas ao desvario.
Ò divina Sherazade,
Salta das águas do rio!

Em Silves, com Ibn ‘ Ammâr,
Queria, se pudesse ser,
De moiras tagarelar
E um vinho doce beber.

Al Mu ‘Tamid saudar
com respeitosa emoção.
Poeta, mais devagar…
Ai, tanta divagação!

Isto é apenas a parte
Do que em Silves penso e sinto.
Oh, cidade prenhe de arte!
Oh, meu cálice de absinto!

ADRIANO

Santa Iria de Azóia, 16 de Outubro de 2007 – Foi no carro, em viagem de Castelo Branco para a região de Lisboa, que tomei conhecimento da morte de Adriano Correia de Oliveira. Primeiro, foi a estupefacção própria destes momentos; e, depois, foi a comoção. Provavelmente, até às lágrimas.

Habituara-me a ouvir Adriano há muitos anos. Ainda na década de sessenta. E sempre o considerei a voz mais forte e cristalina de todos os nossos “trovadores”. Claro que havia o Zeca!; porém, a força da voz, aquele físico de gigante e aquela forma lhana de estar, faziam de Adriano um artista ímpar.

Hoje, decorridos 25 anos, Adriano poderá ser lembrado como aquele que nos deu a ver e a ouvir a força e a beleza das palavras dos poetas que cantou. Sem Adriano, Manuel Alegre seria outro.

sábado, outubro 13, 2007

LIVRARTE (LIVROS COM ARTE)


HÁ NAS RUAS NA LISBOA

Há nas ruas de Lisboa
Uma graça, um encanto,
Que nelas inda ressoa
Um pregão em cada canto.


O cauteleiro teimoso
Inda persiste, coitado!
Deixou o grito ruidoso,
Vende o jogo sem enfado.


Galhofeiras, as varinas
Têm tanta, tanta graça!
Suas línguas viperinas
São a pimenta da praça.


Eu sinto tanta saudade
Dos ardinas barulhosos.
Coloriam a cidade
Com seus pregões saborosos!...


À tardinha, no Rossio,
- Oh, era bonito de ver!
Os ardinas, em desvario,
Apregoar e a correr.


Mudou tanto esta cidade!
Marcas do tempo imparável,
Causam-me tanta saudade...
Oh, mudança inexorável!


Do pitoresco a saudade,
Que do resto nem pensar!
Nada paga a liberdade
Que o povo pode gozar.


Mas tudo o que permanece,
Genuíno e popular,
Minha alma tanto enternece,
Meu coração faz pulsar.

quinta-feira, outubro 11, 2007

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 11 de Outubro de 2007 - A França tem, a partir de ontem, um museu nacional da História da Imigração. Em Paris, no "Palais de la Porte Dorée". E pelos vistos, os "tugas" estão bem representados, a acreditar no DN.
A informação precedente é para Lídia Martinez, que vive no seu coin parisiense e não se dá conta destes eventos. A culpa não é de Lídia. A coisa fez-se com um certo secretismo, porque os tempos não estão de feição para os que procuram, actualmente, pão fora das fronteiras das suas pátrias. Este secretismo é apenas mais um sinal deste tempo iníquo que nos coube viver.
Há um paradoxo na minha relação com a França. Nunca percebi o fascinio que o país exerce sobre mim e o desamor que tenho pelos franceses. Um dia resolverei, teoricamente, este paradoxo, Lídia. Os franceses, na verdade, nunca gostaram dos portugueses. Gostavam do trabalho dos portugueses e do modo mais ou menos "guethizado" do nosso viver fora das fonteiras da pátria.
Hoje, as coisas não são diferentes. Houve apenas uma mudança qualitativa. Muitos portuguses tornaram-se empresários e influentes e já não são os patuscos dos anos sessenta. Acresce ainda o facto de muitos luso-descendentes ocuparem hoje altos cargos e possuírem "uma carta de identidade" da "République".

quarta-feira, outubro 10, 2007

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 10 de Outubro de 2007 – Foi hoje inaugurada, em Paris, uma exposição que tem por tema a EMIGRAÇÃO portuguesa em França. E o evento assume uma particular importância, partindo do pressuposto que os fenómenos migratórios para e/ou no interior da EU não merecem na actualidade a simpatia das populações e dos governos.

Fui emigrante nos anos setenta do século passado – quantas vezes já escrevi século passado? - e precisamente em França, onde os meus pais estiveram alguns anos. Conheço, assim, com o tal saber de experiência feito e não através de narrativas livrescas, com suas grandezas e misérias, o fenómeno da emigração. E posso asseverar que os portugueses, inicialmente, não tiveram vida fácil naquele país de acolhimento - e será que a têm agora, apesar de serem cidadãos europeus? -, onde já pontificavam as comunidades italiana e espanhola.

Os árabes eram muitos, nomeadamente os argelinos e os marroquinos; porém, ainda estavam muito vivas as feridas da guerra da Argélia; e c’os diabos, os magrebinos não eram europeus. Não mereciam a confiança dos empregadores e trabalhavam como serventes na construção civil.

Os homens portugueses trabalhavam na construção civil, onde eram, de um modo geral, pedreiros e serventes. Muitos tornaram-se pedreiros, após curtas aprendizagens, porque até aí tinham sido, muitas vezes, assalariados rurais. A indústria automóvel também absorveu mão-de-obra masculina lusitana. Fui amigo de muitos operários da Renault e da Citroen.

Os operários portugueses, antes de se tornarem respeitados e imprescindíveis, tiveram de obedecer às ordens de italianos e espanhóis, que tinham chegado antes e ocupavam os lugares de chefia nas obras. Foram sujeitos a muitas arbitrariedades e velhacarias. Mas foram os portugueses, quando italianos e espanhóis começaram a regressar às suas penínsulas, que ocuparam os seus lugares.

Os franceses gostavam muito dos portugueses, ou seja, do trabalho dos portugueses e do modo subserviente como o executavam. Gostavam, sobretudo, do seu modo de viver, pacífico e pouco exigente.



terça-feira, outubro 09, 2007

TRIPTICO PARA CHE GUIEVARA

Republicação

I

Ernesto
Tinha uma moto
E gostava
De viajar.

Ernesto sabia
De firme saber
Que a geografia
Se aprende
Em cada lugar.

Um dia,
Deixou mulher e filhos
E partiu.


II

A melancolia
Era só exterior.

Ernesto
Tinha
dentro de si
um indomável
corcel.

E um coração
Apaixonado
Como Carlos Gardel.



III

Cansado
Da pátria placidez
E de sonhos
A transbordar
Deixou mulher e filhos
Para não mais voltar.

E o ignoto médico dentista
- asmático por sinal –
Transformou-se
No símbolo
Da revolução universal.

segunda-feira, outubro 08, 2007

DO MEU DIÁRIO

Rememorando um mestre.
Santa Iria de Azóia, 15 de Outubro de 2002 – Mário Castrim, antigo professor de caligrafia, mas principalmente um grande utilizador da língua portuguesa e um excelente crítico de televisão - quiçá o melhor e mais profícuo de todos os que fizeram crítica televisiva em Portugal - , deixou-nos hoje definitivamente.

Aprendi a ler e a respeitar Mário Castrim nos idos de sessenta do século passado, quando a Pátria era governada pelos manholas do Estado Novo e os portugueses eram vigiados até na intimidade pelo aparelho repressivo do dito.

As crónicas de Mário Castrim, quase sempre truncadas pela censura, constituíam um hino à inteligência e à liberdade. Valiam sobretudo pelo desassombro das suas opiniões e pela graça do seu estilo – essa coisa que individualiza e que é a nossa única e verdadeira propriedade como diria um tal Carl Marx -, com que iludiu, frequentemente, os argutos coronéis do lápis azul. Castrim foi, não raras vezes, a brisa que passava e refrescava os nossos corações.

De Aveiro, só podia ser velado na igreja de Santa Joana Princesa.

domingo, outubro 07, 2007

DO MEU DIÁRIO

Charneca da Cotovia, 5 de Outubro de 2007 – No fundo, o 5 de Outubro é um feriado nacional e uns quantos discursos repetitivos, previsíveis e inconsequentes. Antes do 25 de Abril, um pouco por todo o país, a data era aproveitada para a (re)afirmação dos valores da democracia e da liberdade. Realizavam-se jantares comemorativos, que eram vigiados pela polícia do contabilista de Santa Comba.

Este ano, o Senhor Presidente da República falou de EDUCAÇÃO. Disse coisas mais ou menos óbvias, que em princípio são aceites pela maioria da população: necessidade de estabilidade dos corpos docentes das escolas e empenhamento de professores, alunos e pais, no processo educativo.

Quanto à estabilidade, quer-me parecer que as novas regras de colocação de professores apresentam, à partida, um carácter positivo. Não agradarão a todos os professores, mas nesta como noutras matérias não haverá unanimidade.

Já o funcionamento da comunidade escolar – professores, alunos e pais –, vai contar com grandes dificuldades. A ESCOLA tem sido organizada em função dos interesses dos docentes, desde a elaboração de horários até às horas de atendimento dos pais e/ou encarregados de educação. E assim continuará a ser, se a gestão dos estabelecimentos escolares continuar entregue aos professores.

Do alto dos seus canudos, não fazem autocrítica e convivem mal com as críticas feitas ao seu trabalho por pais e/ou encarregados de educação. Por norma prestam mais atenção aos melhores alunos e preocupam-se pouco com os menos dotados. Os pais mais intervenientes são olhados de soslaio pelos directores de turma e pelos pais dos alunos com melhor aproveitamento. No interior das escolas, defendem-se corporativamente. Fui professor durante quinze anos e ainda sou encarregado de educação.

È justo que se reconheça, no entanto, que os professores têm sido maltratados pela 5 de Outubro. E não vai ser com a ministra Rodrigues que as coisas vão melhorar. Este socrático governo abomina os trabalhadores e os seus sindicatos representativos e os docentes não serão excepção à regra. E com o “super havit” de professores que vai por aí, é de louvar a coragem com que têm defendido os seus direitos.

Decorrente ainda das comemorações do 5 de Outubro e do seu tema central, a educação, há a realçar a tirada de Sócrates que exortou aqueles que dizem que a educação é cara a experimentarem a ignorância. Creio, todavia, que fez sua uma máxima sindical e tendo a pessoa em questão os sindicatos em tão má conta, melhor seria que argumentasse com ciência própria.

E era bom ainda, que o chefe do governo desse provas inequívocas de que tem a educação e a qualificação dos portugueses no rol das suas prioridades. E ajudasse a estimular o funcionamento da chamada comunidade escolar. Para bem de Portugal.

Pró ano há mais.

quarta-feira, outubro 03, 2007

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 3 de Outubro de 2007 – Quando deixei Paris, em Agosto de 1971, a cidade era muito diferente da actual. A demolição dos antigos Halles e a construção, no mesmo espaço, do”Fórum” e do Centro Georges Pompidou, assim como os novos enquadramento, transformaram completamente o “Quartier”.

É certo que se perderam as construções em ferro, o chamado estilo Baltard ou Napoleão III (será assim Lídia? Pergunta-se a quem sabe); porém, libertou-se o espaço do mercado abastecedor e as múltiplas ofertas criadas entretanto, nos domínios da cultura e do lazer, demonstram que a opção foi acertada.

Um tal Pablo Diego de Paula Juan Nepomuceno Maria de los Remedíos Cipriano de la Santísima Trinidad Martyr Patrício Clito Ruiz y Picasso completaria 90 anos em Outubro daquele ano, mas as comemorações começaram muitos meses antes, com exposições e outros eventos. Foi o momento para idolatrar um dos grandes génios da pintura do séc. XX. Escrevo aqui o nome completo de Pablo Picasso, porque me lembrei de um poema de Rafael Albertí, no qual o poeta de Puerto de Santa María reflecte acerca da felicidade da escolha feita por Picasso. Juan Nepomuceno teria tido o mesmo sucesso? E Patrício Clito? Perguntas minhas sugeridas pelas de Albertí.

As comemorações dos 90 anos de Pablo Picasso – ou a parte mais significativa delas – , tiveram lugar nos antigos Halles. A demolição estende-se, assim, à minha própria memória cultural. Devo dizer, no entanto, que foi nos novos Halles que entrei, pela primeira vez, numa loja FNAC. Atraído pelo cheiro do papel, obviamente.
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terça-feira, outubro 02, 2007

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 2 de Outubro de 2007 – António Coimbra era, obviamente, António Coimbra Martins, professor na Sorbonne e queirosiano com algum mérito. Recebeu-nos uma vez, quando lhe propusemos a edição de uma revista bilingue de temas portugueses. Exilado, mas já a pensar no regresso, estava ali para viver a sua “aurea mediocritas”, calmamente e sem riscos. A Revolução(?) de Abril fê-lo deputado e não sei se ministro. Entretanto, passou o seu prazo de validade para a política.

Nesse Varão, o Verão de todos os Martins, apareceram o P. Álvaro e o Joaquim Leonardo, este último ainda estudante de História. O Joaquim encontrei-o muitas vezes, anos depois, em Castelo Branco, onde tem sido professor e autarca. O Álvaro Martins encontrei-o vinte e cinco anos mais tarde, durante as cerimónias fúnebres de um amigo, no cemitério de Carnide, em Lisboa.

Reconheci-o pela voz e já não era o P. Álvaro que conheci na capital francesa, magro e jovem, que me lembro de ter exclamado a meio da ponte “Saint Michel”: “ estamos no centro do mundo!” Imaginei-o muitas vezes despadrado, ao longo dos anos. Mas não! E ali estava à minha frente, com os paramentos adequados para a celebração das cerimónias fúnebres do Jorge Silva. Não o voltei a ver. É o pároco da freguesia lisboeta da Ameixoeira.

Estes encontros aconteciam no “foyer” da Aliança Francesa, que também frequentei até ao 5º grau, mas que abandonei para me dedicar a outras matérias. Na verdade, poder-se-á dizer com todo o rigor, que era ali, na “Rue Fleurus”, que liga o Boulevard Raspail ao jardim do Luxembourg, que se podia encontrar gente de todo o mundo: europeus, americanos, africanos e asiáticos. Resumindo: o mundo!, através das pessoas.

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ÓSCAR LOPES

Santa Iria de Azóia, 2 de Outubro de 2007 – Óscar Lopes, vulto maior da cultura portuguesa do séc. XX, está a ser homenageado pela Câmara Municipal de Matosinhos. Já tinha lido a notícia numa das últimas edições do JL e ontem, logo de manhã, ouvi notícia nova na Antena-1 da RDP.

Para quem não saiba – e eu também não sei muito –, o co-autor da História da Literatura Portuguesa, para além do Latim e do Grego, que ensinou enquanto pode nos liceus, é versado em diversas áreas da linguística, nomeadamente lógica matemática aplicada à dita, foi professor universitário de méritos indiscutíveis, um dos críticos mais profícuos da literatura portuguesa dos séculos XIX e XX e ainda um melómano praticante do piano.

Enumerar os diversos trabalhos de Óscar Lopes, seria fastidioso no âmbito deste apontamento diarístico, que pretende somente que a homenagem não passe despercebida, divulgando-a entre o meu modesto pecúlio de leitores. É que Óscar Lopes, contra a vontade de muitos pigmeus que pululam por aí, afirmou-se como um dos maiores e melhores portugueses do seu tempo. E quiçá, o mais generoso de todos eles, dando a ler aos seus concidadãos uma verdadeira míriade de autores. Que muitas vezes não coincidiam como as suas opções estéticas e ideológicas.

Arrisco a dizer, aqui e agora, que não houve portugueses mais sábios do que Lopes, durante todo o séc. XX.

segunda-feira, outubro 01, 2007

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 1 de Outubro de 2007 – Disseram-me há dias que a vida, em França, está pelas horas da morte. E acredito. Outra coisa não seria de esperar, no país da gorjeta instituída.

Não piso solo gaulês desde 2000. Vontade não me falta, mas a vida é o que é e ainda não chegou a minha vez de viajar pelo vasto mundo a expensas do Orçamento de Estado. E a expensas próprias, a coisa está complicada. De qualquer modo, já podia ter ido a Paris neste interim.

Quando vou a Paris, faço sempre as minhas romagens de saudade. Procuro os sítios onde fui feliz: Montparnasse, onde havia uma “Taverne Alsacienne”, que tinha cave e uma máquina de discos, que tocava tardes inteiras e onde bebíamos cafés e dançávamos.

Que será feito do Gilberto Bandeira, da Maria Augusta, da Irene, do Manuel António Nunes, da Zaida, do Jorge Silva, da Lisete e da Marília? Será que ainda estarão todos entre nós? E que farão agora o João e a Jacinta Crisóstomo, se vivos ainda forem?

Vem-me à memória o Tony, que num dia de muito sol, no jardim do Luxembourg, teve o atrevimento de beijar uma turista, para espanto dela e de nós, os acompanhantes, apesar do ambiente libertário que ainda se vivia em Paris. Disse libertário e disse bem, porque libertina sempre a França foi, no remanso dos castelos e palácios. Rimos copiosamente e ainda hoje preservo nítido, na memória, esse dia.

Descíamos Saint Michel e acabávamos a comprar livros usados no Gilbert Jeune, que não tinha ainda a dimensão actual. Foi em frente deste livraria emblemática, que vi a polícia arrêter Simone de Beauvoir e outros “gauchistes”, num sábado à tarde, enquanto Sartre continuou a vender “La Cause du Peuple J’Accuse”.

Sartre, que poderia jogar na minha equipa de basquetebol, tinha uma enormíssima dimensão intelectual e tornara-se um símbolo da França. Era um dos intocáveis. Ele sabia-o e escarnecia das instituições.

E Montparnasse funcionou neste rememorar de tempos felizes como um mero anacoluto, para usar um termo da retórica.

domingo, setembro 30, 2007

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 30 de Setembro de 2007 – Cheguei a Paris ao princípio da noite do dia de Reis de 1970. Fui viver para Sceaux, que é assim como que uma Cascais dos arredores da Cidade Luz, sem a Quinta da Marinha com aqueles muros como castelos. E também sem o paupérrimo Bairro da Torre. E muito, muito longe do mar.

Eu explico a comparação. Sceaux é uma cidade rica, habitada por muitos “directores-presidentes-gerais”, e onde as mulheres portuguesas arranjavam trabalho com certa facilidade, nas casas das senhoras francesas, as “madames”. Em Sceaux viveram inúmeras famílias da Mata, incluindo a minha.

Cheguei a França com o bilhete de identidade e sujeito, por conseguinte, a ser detido; porém, três ou quatro dias depois fui a “Porte de la Chapelle”, ao comissariado da polícia, onde me foi concedido um “récépissé” para alguns dias e depois uma “carte de séjour”por seis meses. Ainda era menor e o meu pai estava legalizado.

Levava uma carta de recomendação para Afonso Rato, director do jornal “Portugal Popular”. E que a minha mãe pedira ao advogado José Venâncio Leão, de quem não voltei a ter notícias, e que era cunhado do sobredito Afonso Rato. Chegou-me às mãos, entretanto, um exemplar do “Portugal Popular”, não gostei do que vi e li e não cheguei a conhecer a distinta personalidade. E francamente, nunca me arrependi.

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 30 de Setembro de 2007 – Setembro, tão simpático até ontem, despede-se de forma violenta: a parte baixa de Sacavém inundada e Salvaterra de Magos destelhada. E isto para falar apenas dos casos mais dramáticos, que os mass media noticiaram esta manhã.

Começamos a pagar caro as ofensas à mãe Natureza. E na verdade, se até somos dos que poluímos mais, por que carga de água havíamos de estar protegidos das intempéries?

É bom que comecemos, cada indivíduo de per si, a pensar mais nas questões climáticas e ambientais. Sendo um problema planetário, deve convocar e confrontar todos os indivíduos com as suas responsabilidades. A começar, obviamente e com responsabilidade mil vezes acrescida, pelos que detêm o comando dos países.

sábado, setembro 29, 2007

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 29 de Setembro de 2007 – É sempre gratificante receber cartas simpáticas. Nomeadamente, de pessoas com a qualidade de Lídia Martinez, com quem tenho descascado a cebola, nos últimos tempos, como diria o Gunter Grass. Mesmo sem trema, pois, que ainda não domino bem esta máquina fantástica.

Um dia hei-de aprender a trabalhar com os computadores, que utilizo apenas como máquinas de escrever e pouco mais, e hei-de fazer um “blog” bonito. Não como o da Lídia, que tem muita estética aprendida e praticada. Tão-pouco como o da Alex, que tem muita sensibilidade e bom gosto.

Continuando a descascar a cebola, revelo-lhe, Lídia, que assisti, já não sei onde, a uma representação da peça de Peeter Weiss, que se chamaria o AUTO DO FANTOCHE LUSITANO. Não sei se o encenador era o Benjamim, mas que vi a peça, vi. Nos arredores de Paris, em 1970 ou 71. Tive um exemplar da peça, que perdi, não sei onde nem quando.

Nessa época, ainda com o Maio de 68 fresquinho, os estudantes esquerdistas tinham uma simpatia muito grande pelos emigrantes. Foi por essa altura que conheci Armand Gatti, que escreveu uma peça, cujo tema era a emigração portuguesa. Bebi um sumo em sua casa, onde havia enormes estantes metálicas cheias de livros. Gilbert, Nicolas e Monique, eram os meus amigos de Anthony e Chatenay Malabry, que me proporcionaram esse encontro, já não sei bem para quê.

Foram tempos bons. António Coimbra pontificava no Centro Cultural da Gulbenkian na Av. Iéna. Henry Kissinger discutia por ali a paz no Vietname. Um tal José Augusto era o correspondente da RTP em Paris. No café do Luxembourg planeavam-se revoluções em Portugal. As mandíbulas da PIDE não chegavam a Paris, ainda que todos nós conhecêssemos muitos bufos.

Como vivia à conta do orçamento familiar, devorei, mas provavelmente sem proveito, todo o teatro de Santareno e Sttau, Sartre e Sastre, Camus e muitos outros. Calcorreei as ruas de Paris e namorei o que me foi possível. Em Paris, nos anos de 1970 e 71, na ressaca da borracheira que foi o Maio de 68.
(tem continuação)

quinta-feira, setembro 27, 2007

SONETO

"Rudes e breves as palavras pesam
mais do que as lajes ou a vida, tanto,
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra;
mina obscura e insondável, quis
acender-te o granito das estrelas
e nestes versos repetir com elas
o milagre das velhas pederneiras:
mas as pedras do fogo transformei-as
nas lousas cegas, áridas, da morte,
o dicionário que me coube em sorte
folheei-o ao rumor do sofrimento:
ó palavras de ferro, ainda sonho
dar-vos a leve têmpera do vento."

OLIVEIRA, CARLOS, TRABALHO POÉTICO, Vol. 1,
Livraria Sá da Costa, Lx, s/d.

domingo, setembro 23, 2007

A BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA

Às vezes, dou por mim a pensar nas cinzas da biblioteca de Alexandria. E pergunto-me o que num só fogo perdeu a humanidade.

Quantos séculos terá o mundo regredido por obra de um fogo? Esta é a pergunta clássica e inteligente, que todos os sábios fizeram.

Há outra pergunta, talvez impertinente e talvez cretina, que ninguém ousou fazer: onde estaríamos hoje, se hoje ainda houvesse, sem o fogo de Alexandria?


O TRABALHO E A ESCRITA

De quando em vez, sinto-me invadido por uma espécie de moleza, que me tolhe o físico e o cérebro. Talvez não seja nada de grave.

Quando passo muitos dias sem escrevinhar, lembro-me do Professor Mário Dionísio (sim, o maior crítico de artes plásticas que Portugal pariu no século passado e em todos os anteriores), que dizia que quando somos felizes, temos mais que fazer. Mário Dionísio sabia do que falava.

Pelos vistos, a mim basta-me não estar infeliz para me tornar num execrável calaceiro. Isto não pode ser. Isto não é justo. Isto não é exemplo que se dê aos filhos. Isto tem de acabar.
Tenho de ser mais aprumado. Tenho de perseverar para para fazer coisas interessantes.
Sobretudo, futuramente, não posso ser refractário ao trabalho.

domingo, setembro 16, 2007

ERICEIRA

Gosto das terras ribeirinhas, apesar de ter nascido longe do mar. E a Ericeira não foge à regra. A Ericeira, donde partiu a família real, em 1911, para o seu exílio inglês.
Não tem a luz forte e nítida de outras localidades congéneres situadas a Sul. O mar e o céu não têm na Ericeira aquele azul limpo e sadio do mar e do céu de Sesimbra. Porém, esta bela vila do concelho de Mafra é sempre acolhedora e aprazível. Falo da parte velha desta velha vila piscatória, porque o urbanismo selvagem dos últimos trinta anos apenas trouxe outros costumes e muita confusão.
Os fins-de-semana descaracterizam-na muito. Fica excessivamente movimentada e barulhenta; porém, quem vier durante a semana, de segunda a sexta, encontra na Ericeira sítios privilegiados para descansar e até trabalhar. Ainda tem cafés onde se pode ler e escrever ou cavaquear manhãs inteiras.
A Ericeira é excepcionalmente bela nos dias claros e mornos de Abril e Maio.

ERICEIRA














































quinta-feira, setembro 13, 2007

O PECADO DA GULA

Republicação (Este texto tem 14 anos)
“O pecado da gula anda associado aos excessos de comida e de bebida. E é, indiscutivelmente, um dos pecados mais recorrentes nos países católicos, apostólicos e romanos e protestantes da Europa Ocidental. Poder-se-á dizer, para evitar discriminacões obvias, que é o pecado mais recorrente de toda a Civilização Ocidental.

Quando os portugueses reflectem acerca da vida e dos seus valores mais altos, dizem normalmente que não há nada melhor do que comer, beber e... passear. E se atentarmos na prática dos povos da União Europeia, verificamos, com muita facilidade, que todos incorrem no mesmo tipo de delito, à luz da doutrina da Igreja: os protestantes do Norte bebendo álcool em excesso, os católicos do Sul, comendo e bebendo excessivamente.

No caso concreto do português comum, ainda que não conheça casos como os descritos por Rabelais no Pantagruel ou por Garcia Marquez nos Cem Anos de Solidão, poder-se-á dizer que se trata de um bom garfo e de um bom copo e a sua imaginação não tem limites: come bifes de atum, de espadarte, de porco, de peru e até de frango. Mas o verdadeiro português - o mais arreigado às tradições nacionais - adora sopinha de feijão e juliana, favas cozinhadas de todas as formas e feitios, feijoada à transmontana, grão com bacalhau e bacalhau cozinhado de trezentas e sessenta e cinco formas diferentes, nos anos comuns, rancho à transmontana, grão à campaniço, carne de porco à alentejana e... até cabra de chanfana, etc., porque a lista, podia ser mais exaustiva.

No domínio das sobremesas refiro o vulgar arroz-doce, o pudim, a musse de chocolate, o leitinho-creme, o molotove, a tarte de maçã, a tarte de amêndoa, a torta de laranja, a torta de cenoura, as farófias, as tigeladas, a baba de camelo, as barrigas-de-freira e os suspiros.
Quanto às bebidas é como o Jacinto: ou branco ou tinto. De preferência muito e português. E para rematar um opíparo repasto - nada de uísques ou conhaques- uma bagaceira genuína, produzida por um parente, na província.

Lidos ou ouvidos os últimos parágrafos, qual de vós, caros leitores ou ouvintes, não cometeu já o pecado da gula, pelo menos em pensamento? Qual de vós terá esquecido o resto da sobremesa que o colesterol e a diabetes desaconselha, do bagacinho que o Código da Estrada pune, do pastelinho que a linha reprime?

Não falarei, por uma questão de decoro, das múltiplas acepções do verbo comer. Romanizados muito cedo, permanecemos irredutíveis seguidores desse grande povo que adorava o convívio e a mesa. Peço-vos encarecidamente que transmitais aos vossos filhos o gosto imoderado pela comida, para que jamais sejamos assimilados por hábitos alimentares estranhos à nossa tradição cultural. Confesso que sofreria imenso se visse os portugueses rendidos à cultura do hamburger e da Coca-Cola . O exemplo americano é paradigmático: grandes e desconformes físicos, passe a pequena redundância, mas um chocante desconhecimento no tocante ( conheço uma gaja dos impostos, que substitui tocante por tange, na prosa das circulares. Acode-lhe, Orfeu!) aos prazeres da mesa. Preservemos, pois, caríssimos concidadãos, o queijo da serra genuíno, as fêveras e a entremeada dos nossos porcos de montado; os rojões à moda do Minho e a carne de porco à alentejana; o vinho das nossas adegas particulares, porque esta é a forma mais autêntica de afirmarmos a nossa identidade nacional .

quarta-feira, setembro 12, 2007

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 23 de Setembro de 2000 - A ETA voltou a matar. Em Barcelona, a última vez. Por toda a Magna Espanha, os povos manifestam-se contra o terrorismo que, às cegas, vai fazendo vítimas e mais vítimas. Digo às cegas, porque as figuras do PP que têm sido abatidas são de secundaríssimo plano. Este terrorismo é igualmente de segundo plano e representa o estado de desespero a que chegou uma organização que, na década de setenta, merecia a simpatia das forças de esquerda. Franco era o homem do leme. O franquismo era um regime totalitário.

Vivia em Paris aquando do celebérrimo processo de Burgos. Lia todas as notícias concernentes à ETA e ao dito processo de Burgos, onde pontificava um valente de nome Mario Onaíndia(?). Trocava opiniões com amigos e conhecidos oriundos das províncias bascas. Participei em sessões de apoio ao povo basco. Lembro-me perfeitamente de, conjuntamente com o Manuel António Nunes, Gilberto Bandeira e outros companheiros, ter ido pedir à direcção da Alliance Française autorização para realizar um comício nas instalações da instituição. Essa lídima representante do colonialismo francês disse não, obviamente.

Muita água correu sob as pontes, entretanto. A Espanha democratizou-se e tornou-se um país desenvolvido e rico. Criaram-se as Juntas Autonómicas com governos eleitos por sufrágio universal, que pugnam pelos interesses das respectivas regiões: Fraga preside na Galiza, Pujol na Catalunha, etc. Os bascos têm tido idênticas oportunidades no seio deste grande país com muitas nações. E todavia... Todavia, continua esta espiral de violência reles e irracional, de contornos fascistas e mafiosos, que só pode levar à asfixia da própria autonomia basca.

Com este comportamento irracional, a ETA cava diariamente um fosso intransponível entre os seus apoiantes e os restantes povos de Espanha, de Málaga a Barcelona, de Madrid a Valência, de Vigo a Salamanca, o repúdio só pode aumentar Enquanto estrangeiro, comecei a evitar as belas cidades de Pamplona, Vitória, S. Sebastião e outras. Eu sei que a ETA mata em qualquer região de Espanha, mas sinto uma repulsa simultaneamente forte e subtil pela região berço desta violência inqualificável.

terça-feira, setembro 11, 2007

DO MEU DIÁRIO

Mata, 17 de Setembro de 2000 - Passei à porta da minha primeira escola, na Mata, onde levei muita pancada dos professores Ester e Falcão, esposa e marido, que durante muitos anos foram “donos” da escola e dispunham também para trabalhar da maioria dos alunos. Era um verdadeiro casal de falcões numa terra de gente humilde e espoliada.

Ensinaram várias gerações de matenses a ler, a escrever e a contar, que era aquilo que o Estado Novo queria que as populações rurais soubessem. Mais os rios e as serras e as linhas dos comboios. Da História de Portugal aprendia-se os nomes dos reis, das rainhas e os nomes das batalhas travadas contra os mouros e castelhanos. E mais umas quantas coisas que após os exames todos esquecíamos.

As salas e os recreios estavam separados por um muro, embora as turmas fossem mistas. Não porque isso correspondesse a uma posição progressista, mas apenas por uma questão de gestão. A senhora com a primeira e terceira e o senhor com a segunda e a quarta classes. O método era o da chapada e da reguada. Constituíam excepções a esta regra os filhos e netos dos “terra tenentes”. A Ana Vitória, filha do senhor Joaquim Capinha e neta do senhor António Tomé, suponho que nunca levou reguadas. E a Maria Hermínia Bernardo também não. Os outros levavam todos, ou porque era suposto serem mais rudes ou por não se saberem comportar.

Quando o professor se aproximava do pequeno portão os alunos formavam por alturas. Um aluno escolhido pelo mestre dava as ordens de “firme” e “sentido”. Com um gesto já conhecido do professor fazia-se “direita volver” e lá começava a marcha e um hino que começava assim :”Somos pequenos lusíadas”. Por vezes, era ao som do “um, dois, três, quatro”, que era a versão escolar da versão militar “ope, dois, erdo, direito “. E só depois deste desfile pseudo-cívico, pseudo-militar, pseudo-patriótico, pseudo..., que Deus lhe tenha a alma em sossego, se entrava na sala de aula.

Prometo que voltarei a este assunto. Não para ajustar contas, não para denegrir quem quer que seja, não para reabrir velhas feridas. Quero apenas fazer a minha catarse pessoal e deixar um testemunho de um salazarismo rasca, perpetrado por um servidor acérrimo de um regime sem alma nem coração.

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 29 de Março de 2005 – Almocei no Adelino com a Umbelina e a Filipa. A comida é sempre saborosa e abundante. Dir-se-ia que este simpático restaurante da Reinaldo Ferreira é destinado a bons garfos, que se estão nas tintas para o fino e a etiqueta. Por ali me tenho cruzado com gente muito diversa: cantores, políticos, sócios-gerentes, polícias, desportistas, funcionários e também muitos impostores.

Ainda hoje, quando cheguei, perguntei ao Adelino pelo Jerónimo. E para surpresa minha, alguns minutos depois, ali tinha o Jerónimo a cumprimentar-me, sob o olhar simpático do anfitrião. Não conto o Jerónimo no rol dos meus amigos. É antes de mais um santiriense, um vizinho, alguém com quem partilho – no plano ideológico –, muitos anseios e inquietações. E que, curiosamente, almoça, quando pode, no Adelino.

Conheçi o Jerónimo nos idos de setenta do século passado. Fizemos parte da Mesa da Assembleia Geral da 1º de Agosto de Santa Iria, que foi colectividade de cultura e recreio de grande prestígio. Cunhal gozava de muita saúde, o mundo ainda estava dividido em dois grandes blocos e ninguém ousaria sonhar com o Jerónimo no cargo de Secretário-Geral. Nem mesmo a velha Olímpia, tão carinhosa e expressiva como o filho.

A Umbelina, que hoje entrou neste Diário, foi minha aluna durante vários anos no Externato Ergon e diz a toda a gente que a chumbei três vezes. Parece confirmar o ditado “quanto mais me bates mais gosto de ti”. Ficámos amigos, e, de quando em vez, almoçamos. No Adelino, foi a primeira vez.

O Adelino – uma espécie de Lisboa do séc. XVI -, é o sítio onde, graças à bonomia dos irmãos, o Adelino e o Alberto, comem e confraternizam muitos credos e religiões. Que o Grande Arquitecto os proteja.