terça-feira, dezembro 28, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 27 de Dezembro de 2010 - No próximo ano, se nada de extraordinário acontecer, deixarei de ser funcionário público. Deixarei de ser funcionário, sem qualquer mágoa, de uma empresa falida. Tropa incluída, sairei com mais de trinta e oito anos de serviço e cerca de três de penalização, ou seja, com a chamada pensão de aposentação reduzida em cerca de 18%. Para gáudio da dr.ª Ferreira Leite, que, vaticino eu, um dia ainda terá de se haver com algum funcionário público mais ousado ou tresloucado.

No próximo ano vou deixar de ser um activo a comer do OE para passar a ser um aposentado a comer do OE, com todos os descontos legais efectuados, e a caminhar inexoravelmente para os sessenta anos. Bem sei que não sou velho no sentido actual da palavra. Velhos, para além dos trapos, são aqueles que conseguem entregar a alma ao criador já depois dos noventa. Vistas bem as coisas, eu ainda podia fazer umas peladinhas com as velhas glórias. No entanto, estou farto. Farto!

É certo que nunca gostei de ser funcionário público. Gostaria de ter sido professor a tempo inteiro e de ter estudado e produzido trabalho intelectual com interesse. Nunca tratados de economia ou artiguinhos sobre economia ou ciência económica. Mas podia ter estudado poetas e romancistas e, devagarinho e de forma mais atenta, ter tratado da minha própria produção. No fundo, e tendo em conta o pensamento dominante, podia ter feito umas tretas.

A vida é o que é - o senhor De La Palisse não diria melhor - e não vou ficar para aqui a lamentar-me. Vou deixar a função pública e com a convicção de que não fico a dever nada à dr.ª Ferreira Leite. E isto é para mim um consolo muito grande.


segunda-feira, dezembro 27, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 27 de Dezembro de 2010 - No próximo ano, se nada de extraordinário acontecer, deixarei de ser funcionário público. Deixarei de ser funcionário, sem qualquer mágoa, de uma empresa falida. Tropa incluída, sairei com mais de trinta e oito anos de serviço e cerca de três de penalização, ou seja, com a chamada pensão de aposentação reduzida em cerca de 18%. Para gáudio da dr.ª Ferreira Leite, que, vaticino eu, um dia ainda terá de se haver com algum funcionário público mais ousado ou tresloucado.

No próximo ano vou deixar de ser um activo a comer do OE para passar a ser um aposentado a comer do OE, com todos os descontos legais efectuados, a caminhar inexoravelmente para os sessenta anos. Bem sei que não sou velho no sentido actual da palavra. Velhos, para além dos trapos, são aqueles que conseguem entregar a alma ao criador já depois dos noventa. Vistas bem as coisas, eu ainda podia fazer umas peladinhas com as velhas glórias. No entanto, estou farto. Farto!

É certo que nunca gostei de ser funcionário público. Gostaria de ter sido professor a tempo inteiro e de ter estudado e produzido trabalho intelectual com interesse. Nunca tratados de economia ou artiguinhos sobre economia ou ciência económica. Mas podia ter estudado poetas e romancistas e, devagarinho e de forma mais atenta, construído a minha própria obra.

A vida é o que é - o senhor De La Palisse não diria melhor - e não vou ficar para aqui a lamentar-me. Vou deixar a função pública e com a convicção de que não fico a dever nada à dr.ª Ferreira Leite. E isto é para mim um consolo muito grande.


PONSUL

ALI ONDE A MATA ACABA

domingo, dezembro 26, 2010

TERRAS DO MUNDO

RUÍNAS E UM PAINEL DE AZULEJOS

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 26 de Dezembro de 2010 – Sócrates falou ao país; porém, confesso que não o ouvi. De resto, já oiço pouco Sócrates que, passe o truísmo, já não é solução para Portugal. Se calhar nunca foi.
Negrito
Confesso também que não vejo Passos como solução para Portugal. É igualmente um político sem densidade e com receitas que já deram o que tinham a dar, ou seja, o pior para Portugal e o mundo.

Chegados aqui, é-me indiferente que Sócrates caia ou se levante, porque, com ou sem Sócrates, teremos mais do mesmo, numa versão mais rasteirinha e radical. Isto só lá vai, meus amigos, isto só lá vai com uma nova política. Uma política que mande às urtigas o “mercado” e as agências de “rating” e recoloque os cidadãos no centro das atenções da governação.
E por hoje, “ missa dicta est”.

sábado, dezembro 25, 2010

19

Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de dizer as coisas, da sua retórica única, do modo natural como metia mulheres nuas nos poemas.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de ser solidário, dos seus protestos viris, do modo simples como transformava o real em poesia.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de andar na lua, mas sempre a olhar a Terra, que enchia de árvores e folhas e flores e frutos.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava, sobretudo, dos violinos que tão habilmente escondia em cada verso.

Manuel Barata, FRAGMEMTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005
Santa Iria de Azóia, 25 de Dezembro de 2010 – Mais pormenor, menos pormenor, dir-se-ia que este foi mais um Natal da convenção, como diria o grande Fernando Pessoa. Polvo ao almoço e bacalhau à noite, regados com um tinto alentejano bastante honesto. A costumada doçaria, talvez menos este ano, mas que como com parcimónia, que a diabetes espreita e há que ter juizinho.

E depois a cerimónia das prendas, que os mais novos esperam com ansiedade. O senhor meu sogro ofereceu-me uma tese de doutoramento, que já comecei a ler com alguma gula, porque trata de um poeta muito importante, mas que os rótulos conduziram ao esquecimento, como muito bem nota a autora Carina Infante do Carmo. O poeta é José Gomes Ferreira, escritor de diários e memórias e que foi o primeiro poeta por quem tive verdadeira admiração. E a obra tem um nome muito comprido como é habitual nestas matérias:
A MILITÂNCIA MELANCÓLICA OU A FIGURA DE AUTOR EM JOSÉ GOMES FERREIRA.

O dia está muito frio e chuvoso aqui na região de Lisboa. É consabido que amo os dias de sol e muita luz; porém, terei de esperar até ao próximo solstício para ter o tempo de que tanto gosto.

No ínterim, continuação de Boas Festas!

quinta-feira, dezembro 23, 2010

MEMÓRIA

CASTELO BRANCO


NA RUA DE SANTO ANTÓNIO

Era nas águas-furtadas a nossa casa. Era velha e com poucas condições, mas tinha uma clarabóia, por onde, quando havia, entrava a luz do sol. Era no número vinte e um da rua de Santo António, quase no coração da cidade. No rés-do-chão, era a mercearia do senhor António Canaveira.

Em frente, havia uma agência de viagens, onde trabalhava uma rapariga vistosa, com quem, na solidão dos meus pensamentos, fiz as primeiras grandes viagens. Era uma rapariga alegre, que vestia roupas alegres e tinha um sorriso alegre e branco e amplo e um corpo ágil de gazela.

Um dia a agência fechou as portas e a rapariga mudou de ares, qual ave de arribação. Se me tivesse pedido, apesar da idade, creio bem que tinha partido com ela. Ah, como batia forte e apressado, naqueles dias, o meu pobre coração!

E o tempo, esse inigualável fazedor, fluía placidamente. Placidamente, que é assim que deverá fluir o tempo. E tudo era normal e rotineiro, até a passagem diário do batalhão, o seis de caçadores, que passava na rua de Santo António ao som do tã-tã…ta-ra-ra-tã-tã dos tambores e do op, dois, erdo, direito dos cabos milicianos.

A nossa casa era nas águas-furtadas do número vinte e um da rua de Santo António e era a foz de um rio de gente que ali vinha pedir um pequeno favor, como visitar, no hospital, um doente, ou comer um simples prato de sopa.

Aquelas águas-furtadas eram a casa da gente.

QUINTA DA FEITEIRA (CASTELO BRANCO)


AS CEGONHAS

Partem antes do equinócio
E antes do equinócio chegam.

Nos cocurutos das árvores
E nos velhos campanários,
Constroem as suas habitações;
Donde, com indiferença,
Gloterando, placidamente,
Espreitam as nossas vidas.

Falo das cegonhas
E da sua mania das alturas.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

DO MEU DIÁRIO

DAS SUAS MÃOS BROTAVAM OS FRUTOS

Santa Iria de Azóia, 22 de Dezembro de 2010 – Meu pai, se não tivesse ido com as aves à descoberta do vasto céu, poderia estar ainda entre nós. Completaria hoje oitenta anos e estaríamos todos juntos, no próximo fim-de-semana, para os festejar. Fora assim anos a fio e a tradição havia de se manter.
Por incúria alheia, e também por desistência pessoal, deixou-nos com tristeza, certamente, mas sem lamúrias. Conhecera o sofrimento desde criança, pois o reumatismo e a ciática e outras dores dos ossos sempre o apoquentaram muito. A tudo foi resistindo com coragem, até ao aparecimento de uma doença da moda, como se diz eufemísticamente, que o havia de esbarrondar para sempre.
Embora temperamental, tinha um coração largo. E é esse coração largo e generoso que hoje recordo aqui comovidamente.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

EUROPA

Europa!... Não há direito.
Claudica amolecida,
Já ninguém lhe tem respeito,
É vexada e ofendida.

É uma velhinha tonta,
Ninguém lhe passa cartão;
Mas anda a fazer de conta
Que inda tem opinião.

Esta Europa bizantina,
De muitas leis e decretos,
Procura mas não atina
Com os melhores projectos.

Manuel Barata, QUADRAS QUASE POPULARES, Ulmeiro, Lx. 2003



quarta-feira, dezembro 15, 2010

7


Dom Sebastião permanece vivo
E inda mexe no luso imaginário.
Um povo vive, nesta orla, cativo,
À ´spera do rei louco e temerário.


Os outros fazem e nós esperamos,
Que ele nos traga a boa solução.
Para o cerrado nevoeiro olhamos,
Como se fora a nossa salvação.

Ai, esta longa e dolorosa espera!...
Agir, agir, agir sempre e sem medo,
Foi a regra mágica da nossa Era,


O nosso mágico e fértil segredo.
Quem viu o largo mundo desespera,
Com este povinho tristonho e quedo.

Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005






D. PEPE

UM GATINHO MUITO ESPECIAL

NORAS DE LOURES

O RÚSTICO E O URBANO
RESTOS DE RURALIDADE

E LISBOA AQUI TÃO PERTO



terça-feira, dezembro 14, 2010

PARIS

Chamam-lhe a cidade luz,
Mas que luz tem a cidade?
Que fascínio seduz
Quase meia humanidade?

Oh, grande e bela Paris!
Oh, generosa cidade!
Não, não se engana quem diz,
Que deixas sempre saudade!

Um café no Luxembourg,
Descer o Saint Michel,
Os faquires no Baubourg,
Namorar na Torre Eiffel.

Confesso que fui feliz,
No tempo que lá vivi.
Oh, doce e gentil Paris,
Como é bom gostar de ti!

(Manuel Barata, Inéditas)

domingo, dezembro 12, 2010

A BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA

Às vezes, dou por mim a pensar nas cinzas da biblioteca de Alexandria. E pergunto-me o que num só fogo perdeu a humanidade.

Quantos séculos terá o mundo regredido por obra de um fogo? Esta é a pergunta clássica e inteligente, que todos os sábios fizeram.

Há outra pergunta, talvez impertinente e talvez cretina, que ninguém ousou fazer: onde estaríamos hoje, se hoje ainda houvesse, sem o fogo de Alexandria?
Manuel Barata, FRAGMENTÁRIA MENTE, ED. ALECRIM, 2009

sábado, dezembro 11, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 11 de Dezembro de 2010 – Dormi mal. Durmo sempre mal quando tenho algo de importante para fazer, nem que seja o compromisso mais simples com quem quer que seja. É-me já constitucional dormir mal e não vou pedir a revisão da Constituição para que possa despedir as insónias.
Uma amiga querida alertava-me ontem, afim da tarde para o desaparecimento deste blogue, que, creio firmemente, é importante para mim e para meia dúzia de boas almas que me vão acompanhando. Agradeço-lhes e louvo-lhes a paciência. Hão-de merecer o céu, mas até lá o céu que espere, que a vida, por vezes triste e difícil, cá no planeta dito azul, é o que mais de importante temos.
Se o blogue tivesse desaparecido, não viria de aí mal ao mundo. Criava-se outro, que. por enquanto ainda vão sendo de borla. O que seria dramático era a perda de alguns amigos virtuais, que, sei-o bem, passam por aqui amiúde para lerem as minhas larachas. Agora vou tomar o pequeno-almoço e vou ao trabalho, que a vida não se condói com calaceiros.
Bom dia, estimados leitores.
12

Para o Manuel Vaz


Com palavras constroem verdadeiros monumentos: precários, às vezes; às vezes, teimosamente resistentes. Alguns chegam até nós, vindos do fundo do tempo, frescos e incorruptíveis; outros, igualmente frescos, trazem a pequena mossa da corrupção em notas de rodapé.

Todos esses monumentos – de que os poetas são arquitectos e pedreiros, engenheiros, pintores, carpinteiros -, se falar pudessem, dariam conta de inumeráveis batalhas ganhas com galhardia e perseverança, desde o surgir da pura ideia até ao assentamento da última pedra.

Acreditai-me, ó gentes profanas!, que não é fácil recriar permanentemente o mundo com as humílimas palavras, para vo-lo servir pleno de harmonia em esplendorosas bandejas de oiro.
Manuel Barata, Fragmentos com poesia, Ulmeiro, 2005



segunda-feira, dezembro 06, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 6 de Dezembro de 2010 – Sá Carneiro – não o autor de Salomé – regressa todos os anos, nos primeiros dias de Dezembro. E assim vai ser, enquanto viverem os herdeiros “ideológicos” do malogrado congregador da direita portuguesa, no pós 25 de Abril.

Eu não sei que ideologia tinha Sá Carneiro, apesar de ter acompanhado o seu percurso desde os tempos da chamada Ala Liberal, na defunta Assembleia, onde pontificava um deputado muito patusco chamado Casal Ribeiro. E lembro-me de o ter ouvido, talvez em Julho de 1974, num comício com Mário Soares e Álvaro Cunhal, no estádio 1º de Maio em Lisboa. De perto vi-o apenas uma vez, no também defunto Lisboa Penta Hotel, onde foi recebido por Yasser Arafat. Decorriam os últimos dias do mês de Novembro do ano de 1979. Governava Portugal, nesse já distante Novembro, Maria de Lurdes Pintassilgo.

Era bom tribuno, e apesar de ter granjeado a fama de truculento, teve a paciência para andar cá e andar lá, esperando que o poder lhe viesse cair às mãos. O que de facto veio a acontecer, após as desastradas governanças do dr. Soares e do dr. Soares com o Dr. Freitas do Amaral. E depois teve aquele sonho de unir a direita, que não chegou a concretizar pelas razões conhecidas. E creio que o legado político de Sá Carneiro é sobretudo o sonho de uma maioria parlamentar, um governo e um presidente. No fundo, uma fórmula para o exercício do poder.

domingo, dezembro 05, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 5 de Dezembro de 2010 – Quando falo de Trás-os-Montes, há um nome que se apressa a ocupar-me a mente: Miguel Torga. E pelos vistos não sou caso único, porque, aqui e ali, ainda se vão ouvindo referências ao filho mais famoso de S. Martinho de Anta.

Eu estou convencido que Miguel Torga resiste, bravamente, pela estreita ligação que a sua obra tem com Portugal e os portugueses. Num certo sentido, creio que a obra de Torga se constitui como uma nova lusa epopeia. É certo que Torga não louva Portugal e os portugueses como Camões. Nem tão-pouco como Pessoa, na Mensagem; no entanto, Torga foi um homem particularmente atento ao rectângulo e a tudo o dentro dele se passava. É tocante, nomeadamente, o apreço pela obra realizada ao longo do curso do Douro.

Falta-lhe universalidade? É possível que sim; porém, esse já é outro problema e do qual Torga não será o único responsável.

sábado, dezembro 04, 2010

VOU A SILVES ESTE VERÃO

Vou a Silves este Verão
Pra subir o rio Arade.
Vai ser grande a emoção
Quando chegar à cidade,

Onde Al Mu’tamid, poeta,
Cantou as lindas gazelas
E com carinhosa seta
D’amor feriu muitas delas.

Quero andar pela cidade
E auscultar-lhe o coração.
Que esta moura ainda há-de
Dar-me, alegre, a sua mão.

Há-de ser neste Verão,
Que eu já morro de saudade.
Meu amor virou paixão,
Bela paixão, na verdade.


Manuel Barata, FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, 2009
PALAVRAS PERDIDAS


Há quanto tempo, mãe, não te falo de amor
Com aquelas palavras de encantar
Com que as crianças falam do amor?!


Há dias corei de vergonha,
Corei de vergonha quando li,
Num livro de cartas de Saint-Exupéry,
As palavras mágicas que ele escreveu a sua mãe
E que eu nunca te disse a ti.


Deixei que entre nós se interpusesse
Um pudico silêncio ancestral
E disse-te apenas coisas imediatas e triviais.


Eu esqueci, mãe, aquelas palavras claras e pueris
Que tanto alegravam o teu coração.


Eu coro de vergonha, mãe!



Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx. 2005)

QUADRAS

5
Já se nota bem o medo,
Entre o povinho rasteiro,
Que se mantém surdo e quedo
Sem trabalho e sem dinheiro.

6
Neste Outono quase Inverno,
Portugal está doente.
Isto vai ser um inferno,
Uf, um inferno inclemente!
7
Já dizem que falta o pão,
Em muitas das lusas casas.
O casqueiro, patrões, não!,
Que isto vai ficar em brasas.

8
Quando chegar a tal hora,
A hora de toda a verdade,
Os da massa vão-se embora
E o povinho berrar há-de.

(Manuel Barata, inéditas)

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 4 de Dezembro de 2010 – Sábado feio de quase fim de Outono. Chuva e frio com abundância, que me fizeram lembrar os Outonos e os Invernos da minha infância.

Felizmente, as nossas casas têm agora mais conforto. Mudaram os processos de construção e há agora múltiplas possibilidades de climatização, tornando estas os Outonos e os Invernos menos penosos. Não estaremos no melhor dos mundos como constataria, certamente, uma personagem célebre de um romance de Voltaire; porém, não há comparação possível com as condições de habitabilidade das nossas casas de há cinquenta anos.

Apesar das nossas lamúrias quotidianas, que são mais do que justas, o mundo pula e avança, como escreveu António Gedeão.
*
O Zé Vilela, que é meu amigo há décadas, celebrou hoje o seu aniversário. É um homem da minha geração, ligeiramente mais novo, que se tornou um profissional do foro competente e respeitado. Com muito trabalho e inteligência. Transmontano de nascimento, é rijo como o granito da sua província natal.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 2 de Dezembro de 2010 – Há muito tempo que ando fugido deste Diário, que venho escrevendo, com intermitências mais ou menos longas, desde 1994.

Escrever um diário não é tarefa fácil, apesar de a prosa diarística ser amiúde desconsiderada. É tarefa que exige trabalho, muito trabalho, e quem pensar que não, que inicie uma destas viagens. A minha já leva dezasseis anos, dezasseis!, e não pretendo chegar a nenhum porto. É um espaço para a minha reflexão pessoal, sem preciosismos e sem quaisquer compromissos.

O Manuel Ramos Ribeiro, que foi um dos últimos grandes latinistas portugueses, perguntou-me um dia: “Manuel, porque escreve você um diário, se não é um famoso?” A pergunta era pertinente e pertinente continua a ser, decorridos tantos anos e sem que tenha conseguido desalojar este vício. Grande toleima minha, certamente. Mas vou continuar, “malgré tout”.
Eu gostava de ter o talento de Marcello Duarte Mathias, ou de Torga, ou de Saramago ou de Vergílio Ferreira. Sim, que Conta Corrente também é um diário. Porém, apesar de não ter o talento daqueles egrégios escritores lusos, vou perseverar, do mesmo modo que continuarei a deliciar-me com diários alheios. O próximo vai ser o inédito de José Gomes Ferreira, que a Dom Quixote vai publicar.
E assim retomo a viagem, deixando uma nota sobre o fim do blogue o Jumento. Na verdade, tudo tem que ter um fim; porém, quero que a terra lhe seja leve, leve como pétalas, porque me proporcionou bons momentos de leitura e reflexão.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

QUATRO QUADRAS

1
Está de volta o Outono
- Muita chuva e ventania -,
Agora tenho mais sono
Preguiça e melancolia.

2
Detesto os dias cinzentos
Com o céu ameaçador
E as noites longas e os ventos,
Que são, ó deus, um pavor.

3
Este Outono é muito triste:
Falta o trabalho e o pão.
E o povinho a tudo assiste,
Incapaz de dizer não.

4
Somos animais de carga
Ou de canga, tanto faz.
Dão-nos esta vida amarga
E mantém-se tudo em paz.

domingo, novembro 28, 2010

REGRESSO, o novo livro de Víctor Oliveira Mateus
A mesa da sessão de lançamento com o autor ao centro
"Procuro o meu último pensamento. Um que deixei
algures sem saber como nem porquê. Um que trazia
a imperturbável quietude do rio, a rígida mobilidade
do vento. /.../"
Víctor Oliveira Mateus
TEXTO DE CIRCUNSTÂNCIA
Agora, indiferentes ao meu cansaço, vêm filhos de mães de moral imaculada, cujos avós e quiçá também os pais abancaram à manjedoura do orçamento, donde provavelmente roubaram para dar às filhas e a esses netos, dizer-me que estou a mais; que sou um inqualificável parasita; que não mereço o pão que como.

A esses bondosos cidadãos, que vão enriquecendo sabe-se lá como e encaixam as crias nos melhores empregos, usando os apelidos dos seus compridos nomes; a esses bondosos cidadãos, que vão fintando as leis para que haja pão e leite e carne e peixe, com abundância, nas suas avantajadas mesas; a esses bondosos cidadãos, que tudo esmifram para aconchegarem mais ainda as suas já farfalhudas contas bancárias; respondo com a veemência do costume: a puta que os pariu!

sexta-feira, novembro 26, 2010

DOS PRESSÁGIOS
(Para Carlos de Oliveira)


Galo vagabundo,
não cantes à noitinha,
que o teu canto pressagia
o fim do mundo.


Galo vagabundo,
de crista bem erguida
pela madrugada fora,
anuncia-nos com o teu canto
a fatalidade da vida
hora a hora.


Canta galo vagabundo!
Cantai galos de todo o mundo!






quarta-feira, novembro 24, 2010

TERRAS DO MUNDO

SESIMBRA

TERRAS DO MUNDO

OLIVEIRAS (JARDIM DE PIRESCOXE)

20

Para Eugénio de Andrade


José Fontinha foi o nome que não quis. Muito jovem ainda já era génio e fogo.

Paradoxalmente, as fontes, os rios, a água e o mar, estão desde sempre presentes na sua poesia, a par do deserto e da brancura da cal.

Monfortinho.

Oh, admirável luva para as metáforas do deserto e da brancura da cal!...

Ali aconteceu a revelação da luz, da crueza do sol, dos silêncios e da alegria do verão. Porventura, do zumbido dos moscardos.

Monfortinho.

Só em Monfortinho, na infância longínqua, podia ter aprendido a falar do deserto, da brancura da cal, da incontornável brancura da cal. Foi ali, naquela terra sáfara, que bebeu a música e o silêncio.

Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005



terça-feira, novembro 23, 2010

TRÍPTICO PARA VAN GOGH

I

Subitamente,
No auge da devoção,
Recebeu do céu
Divina inspiração.

Desenfreado,
De paleta na mão,
Desatou a pintar
Ao ritmo do coração:

Sóis,
Ciprestes,
Miosótis
E girassóis.

II

Do fundo da mina
- Qual vagabundo -,
Trouxe as cores
Com que iluminou o mundo.

E no entanto
- Moderno Prometeu -,
O pobre Vincent
Nem uma tela vendeu.

III

E um dia,
Quando o voo rasante dos corvos
Se tornou ameaçador,
Fitou o cocuruto dos ciprestes
E entregou a alma ao Criador.



Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA,
Ulmeiro, Lx., 2005

domingo, novembro 21, 2010

SETE POEMAS DE AMOR

I
Se tu soubesses, amada,
Quanto dói a solidão…,
E inda o peso destas mãos,
Que não sabem fazer nada!

Contigo ausente, esta casa
- Outrora mansão alegre -
É neste preciso momento
O reino da confusão.

Rolam rolos de cotão,
Em minha alma tresloucada.
E dói-me o peso das mãos,
Que não sabem fazer nada.

Ai, soubesses tu, amada,
Quanto dói a solidão!


II

A tua presença, amor,
Mesmo que silenciosa,
Dava-me tanto consolo.

A tua ausência fere-me.
As tardes passam tão lentas
E os dias são tão tristes.

Amor!, contigo presente,
O passarinho cantava
Num perfeito desatino.

Agora tudo é choroso.
Escrevo versos sem graça
e dou-me ao computador.

Bebo copos e mais copos
E o passarinho não canta.
Mas não te rales amor…



III


Pergunto por ti às ondas,
Mas as ondas que são ondas,
Não querem saber de ti,
Nem querem saber de mim.
Virás tarde, virás cedo,
Quem me poderá dizer?

pergunto por ti às ondas,
Aqui junto ao mar, amiga,
Mas as ondas que são ondas,
Não querem saber de ti,
Nem querem saber de mim.
Virás tarde, virás cedo,
Quem me poderá dizer?



IV

O teu sorriso era então
Tão limpo e tão terno, amor.
E nos teus olhos castanhos
Cabiam todos os sonhos.

Não tinhas cabelos ruivos
E usavas roupas garridas.
Tua voz tinha a doçura
das amoras e das tâmaras.

Mas o tempo inexorável
Tudo leva e tudo traz…
E cicatrizes nos deixa,
Tantas, no corpo e na alma!

Continuemos em frente,
Amor, como sempre fomos!
E amemo-nos com a fúria
Dos engenhosos amantes.



V


Tornou-se tão chata, amor,
A vida longe de ti.
A casa é agora um barco
quase, quase a naufragar.

Tenho camadas de pó
Como um bibelô vulgar.
E os copos da cristaleira
Já mudaram de lugar.

Sinto os sofás na cabeça
E toda a casa a abanar.
Mas não fiques em cuidado,
Que isto vai… há-de passar…



VI


Eu queria tanto, amor,
Ter a tua companhia,
O perfume do teu corpo,
A doçura dos teus olhos.

Eu queria tanto, amada,
Com teus abraços folgar
E em teu colo penetrar,
Como manda a natureza.

Eu queria tanto, amor.




VII


Se eu soubesse dedilhar
Como Paco de Lucía
Havia de te encantar
Com momentos de magia.


Dia e noite tocaria
E com imensa paixão.
Tivesse eu a fantasia
De uma noite de verão.


Pra ti havia de compor,
rica, terna melodia.
Somente por puro amor
Como Paco de Lucía.

E tu, decerto, virias



Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005






TERRAS DO MUNDO

LEDA SERENIDADE DELEITOSA

quinta-feira, novembro 18, 2010

UM RETRATO

(para JOSÉ RIBEIRO)

I

“Cada coisa
Em cada momento.”

“E se o amor
For premente,
Que só ele
Habite
A minha mente.”

II

“Os livros...
Os livros
Aconteceram
E foram
A minha glória
E desventura.”

“Aconteça
O que acontecer,
Louvarei
Todas as horas
Que lhes dediquei.”

III

“Oh!, pudesse eu
Resolver
Os meus problemas
Com sorrisos
E bonomia…”

“Claramente,
Outro galo
Cantaria!....”



Manuel Barata,
FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, 2009


terça-feira, novembro 16, 2010

ARIADNE - I

Ariadne chorou,
Chorou muito sentida,
Quando Teseu,
Sem uma palavra,
A deixou.

Podia ter chorado
O novelo do fio
Ou a espada
Que lhe deu. Não.
Ariadne chorou,
Traída e magoada,
O modo
como Teseu zarpou:
Sem uma carícia,
Sem um gesto,
Sem uma palavra.

ARIADNE -II

Quisesses tu,
-Ó doce filha de Minos - !
Dar-me
Por amor
Um novelo de fio
Igual ao de Teseu...

Desvendados os mistérios
Do meu labirinto,
Num veleiro de sonho,
Sem hesitação,
Levar-te-ia
Onde nos levasse
O coração.

Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005

sábado, novembro 13, 2010

INTIMIDADES

A MINHA ROSA ENCARNADA
A CRIANÇA SEM INFÂNCIA


I

A criança sem infância
Aconteceu
O braço cresceu tenso
E jamais vergou.


II

Cresceu de punho erguido
Com uma rosa vermelha
Entre os dedos.

A criança traída
Por seu sorriso
Sem segredos.


III


É em pequenino
Que se aprende
A amar a sério,
Porque o amor,
Aprendido assim,
Não tem mistério.

In FRAGMENTOS COM POESIA, 2009

LISBOA

ALVALADE

sábado, novembro 06, 2010

A ACTUALIDADE DE EÇA
"O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria.

Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce... O comércio definha, A indústria enfraquece. O salário diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo."

Eça de Queirós
(Escrito em 1871)
REFLEXÃO


Não me venham falar da Pátria.
Não quero ouvir falar de pátrias
- nem desta, nem doutras -,
que as pátrias,
à semelhança dos deuses,
só sabem exigir sacrifícios,
desmedidos e vãos.


Lisboa, 28 de Maio de 1999

O INEXORÁVEL TEMPO

É o tempo
- o inexorável tempo -,
Que atenua a mágoa
E mostra
Quão profundas
Eram as raízes.

II
Um Verão vai
E outro vem.
E neste vaivém,
Decorre
A minha vida.

Esta vida que vai,
Vai e não vem.

III
Lentas,
As nuvens vêm
E vão.

Umas deixam (m)água
E outras não.

Ah, só o Verão,
Esplendoroso,
Alegra
O meu coração.

IV
O Outono,
Decididamente,
Não!



DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 9 de Abril de 2008 – A fotografia está-me na massa do sangue. Por isso mesmo, contam-se às centenas cá em casa. É uma forma outra de ir escrevendo as minhas memórias ou de guardar memória de objectos, sítios e pessoas, que, num dado momento, me disseram algo.

A convite da Alexandra, colaboro no “blogue” Duas Lentes, onde, um pequeno escol de fotógrafo(a)s amadore(a)s, publica fotografias de grande beleza, e, por vezes, originais e mesmo insólitas. No que me diz respeito, confesso que gosto da experiência, embora me falte a sensibilidade das colegas do “blogue”.

Graças a esta experiência, agora ando sempre munido de uma máquina para captar imagens, aqui e ali, que, à semelhança dos actos de fala, são momentos únicos e irrepetíveis.

sábado, outubro 30, 2010

DO MEU DIÁRIO


MARADONA

Santa Iria de Azóia, 30 de Outubro de 2010 – Diego Armando Maradona – el Pibe – festeja hoje os seus cinquenta anos. O nem sempre transparente mundo do futebol festeja hoje o aniversário de um dos seus grandes ídolos.

Na sequência da expulsão de Maradona do mundial dos EUA, escrevi um texto em que falava de futebol e poesia. E creio bem que os poetas não me levarão a mal se disser que Diego Armando foi um grande poeta do futebol. O modo como tratava a bola, o modo como se entregava ao jogo, o engenho que ponha em tudo quanto fazia, tornaram-no um verdadeiro mito. Maradona estabeleceu a fronteira entre a prosa e a poesia, metaforicamente falando, obviamente.

Sempre polémico, mas sempre diferente, el Pibe é um ídolo à escala planetária, ao qual ninguém consegue ficar indiferente. Aimar no Benfica, ontem, e, Dí Maria, há momentos, no Real Madrid, marcaram golos que, certamente, não deixarão de ter Maradona no pensamento.

sexta-feira, outubro 29, 2010

MEMÓRIA – 1

(Em memória de minha avó paterna)


Muito erecta em seu balcão,
De cores tristes vestida,
Cantava toda a manhã.

Os cabelos penteava
E rimas lançava ao vento
Pr’ afastar a solidão.

Sua voz tinha magia,
Tristeza muita e profunda,
E cantava todo o dia…

Ó querida velha tonta!,
-Minha esmeralda perdida,
Onde cantarás agora?


Barata, Manuel, FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, 2009

DO MEU DIÁRIO

Foto da autoria do grande fotógrafo José Pedro Barata
Santa Iria de Azóia, 25 de Outubro de 2010 – Num texto publicado numa edição do albicastrense RECONQUISTA, jornal semanário de grande divulgação regional, o autor trouxe-me à memória uma figura castiça da cidade, que vendia jornais, trajava fatos e gravata pretos e camisa branca, que, provavelmente, tinham sido de pessoas com maiores estaturas.

Falo de Zé Gavetas, empregado da Casa Vidal Sestay, que era, indubitavelmente, uma figura do “folk” albicastrense. Zé Gavetas, que vendia o Diário de Notícias e os desaparecidos Mundo Desportivo e Diário Popular, não primava propriamente pela limpeza, tal como o resto do país, em cujas tascas se espalhava serradura no chão e havia pratos com um líquido avermelhado para apanhar moscas.

Lembro-me de Zé Gavetas, um indivíduo patusco e mais ou menos subserviente, a quem a burguesia local achava piada, sobretudo pela extravagância das roupas e do vasto e farfalhudo bigode. Desconhecia-lhe, todavia, o humor e a bondade que o referido texto referia e com exemplos ilustrava.

O João Teixeira, que conheceu Zé Gavetas melhor do que eu, lembrou-me a bonomia do grande apregoador do PIF-PAF e do eterno enamorado, sempre quase quase a casar, segundo ele mesmo, mas que haveria de morrer solteiro.

E tudo isto para dizer que há sempre um tempo para corrigir opiniões. Ainda que só postumamente. O que no caso vertente nem terá grande importância. Zé Gavetas, que teria Meireles no nome, creio que nem primos tinha.

sábado, outubro 23, 2010

JACQUES PRÉVERT
BARBARA

Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest ce jour-là
Et tu marchais souriante
Épanouie ravie ruisselante
Sous la pluie
Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest
Et je t’ai croisée rue de Siam
Tu souriais
Et moi je souriais de même
Rappelle-toi Barbara
Toi que je ne connaissais pas
Toi qui ne me connaissais pas
Rappelle-toi
Rappelle-toi quand même c jour-là
N’oublie pas
Un nome sous un porche s’abritait
Et il a crié ton nom
Barbara
Et tu as couru vers lui sous la pluie
Ruisselante ravie épanouie
Et tu t’es jetée dans ses bras
Rappelle-toi cela Barbara
Et ne m’en veux pas si je te tutoie
Je dis tu à tous ceux que j’aime
Même si je ne les ai vus qu’une seule fois
Je dis tu à tous ceux qui s’aime
Même si je ne les connais pas
Rappelle-toi Barbara
N’oublie pas
Cette pluie sage et heureuse
Sur ton visage heureux
Sur cette ville heureuse
Cette pluie sur la mer
Sur l’arsenal
Sur le bateau d’Ouessant
Oh Barbara
Quelle connerie la guerre
Qu’es-ce-tu devenue maintenant
Sous cette pluie de fer
De feu d’acier de sang
Et celui qui te serrait dans ses bras
Amoureusement
Est-il mort disparu ou bien encore vivant
Oh Barbara
Il pleut sans cesse sur Brest
Comme il pleuvait avant
Mais ce n’est plus pareil et tout est abîmé
C’est une pluie de deuil terrible et désolée
Ce n’est même plus l’orage
De fer d’acier de sang
Tout simplement des nuages
Qui crèvent comme des chiens
Des chiens qui disparaissent
Au fil de l’eau sur Brest
Et vont pourrir au loin
Au loin très loin de Brest
Dont il ne reste rien.


BARBARA

Tradução de Manuel Barata
À Lídia Martinez

Lembra-te Barbara
Chovia sem parar sobre Brest naquele dia
E tu caminhavas sorridente
Alegre feliz resplandecente
Sob a chuva
Lembra-te Barbara
Chovia sem parar sobre Brest
E cruzei-me contigo na rua de Siam
Tu sorrias
E eu sorria também
Lembra-te Barbara
Tu que eu não conhecia
Tu que me não conhecias
Lembra-te
Lembra-te portanto daquele dia
Não esqueças
Um homem sob um pórtico abrigado
Gritou o teu nome
Barbara
E tu correste para ele sob a chuva
Resplandecente feliz alegre
E lançaste-te nos seus braços
Lembra-te disso Barbara
E não me queiras mal por te tratar por tu
Trato por tu todos os que amo
Ainda que os tenha visto uma só vez
Trato por tu todos os que se amam
Ainda que os não conheça
Lembra-te Barbara
Não esqueças
Esta chuva sábia e feliz
Sobre o teu rosto feliz
Sobre esta cidade feliz
Esta chuva sobre o mar
Sobre o arsenal
Sobre o barco de Ouessant
Oh Barbara
Que parvoíce a guerra
Quem és tu agora
Sob esta chuva de ferro
De fogo de aço de sangue
E aquele que te apertava nos braços
Amorosamente
Morreu desapareceu ou é ainda vivo
Oh Barbara
Chove sem parar sobre Brest
Como chovia antes
Mas nada é igual e está tudo destruído
É uma chuva de luto terrível e desolada
Não é a mesma tempestade
De ferro de aço de sangue
Simplesmente nuvens
Que rebentam como cães
Cães que desaparecem
Na torrente da água que cai sobre Brest
E vão apodrecer longe
Longe muito longe de Brest
Da qual nada resta


Publicada por Manuel da Mata em Domingo, Maio 25, 2008

sexta-feira, outubro 22, 2010

A BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA

Às vezes, dou por mim a pensar nas cinzas da biblioteca de Alexandria e pergunto-me o que num só fogo perdeu a humanidade.

Quantos séculos terá o mundo regredido por obra de um fogo? Esta é a pergunta clássica e inteligente, que todos os sábios fizeram.

Há outra pergunta, talvez impertinente e talvez cretina, que ninguém ousou fazer: onde estaríamos hoje, se hoje ainda houvesse, sem o fogo de Alexandria?
In FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, Santa Iria, 2009



quinta-feira, outubro 21, 2010

EM LOUVOR DAS OLIVEIRAS DA MATA
Viram-te nascer e conhecem de cor os teus segredos. Foram a tua companhia, silenciosa e segura, durante centenas de anos.

Deram-te sombra, nem sempre boa, é certo, nos tórridos dias do Verão; a luz possível, antes do advento da electricidade; o calor nos Invernos, às vezes, tão longos e rigorosos; o tempero para a panela pobre, que tornava o feijão e a couve menos ásperos; o dinheiro para muitos dos restantes e indispensáveis bens.

E também, é justo que se diga, muito e aturado trabalho e servidão.

De qualquer modo, moldaram-te o carácter. Com elas aprendeste a mansidão e a austeridade. Por isso mesmo, nunca foste dada a sobressaltos e a paixões. Em toda a minha vida, apenas ouvi falar de um crime passional, perpetrado por um homem, a quem o amor de uma mulher não quis servir. Foi muito antes de eu ter nascido e já passei há muito pelos cinquenta.

Benditas sejam para sempre as nossas oliveiras!

quarta-feira, outubro 20, 2010

TANTO CANSAÇO
Estou a ficar cansado - não do débito e crédito rosiano (Olá grande poeta!) -, mas das alíneas, dos números e dos artigos das leis e dos decretos-leis, produzidos por juristas preclaros, e também dos números das circulares e dos ofícios-circulados, através dos quais os directores –gerais, debitam para o vulgar o que se deve entender que entenderam, repito, os preclaros juristas.

Não sou um funcionário triste nem alegre, porque a um funcionário não se pede nem se paga para ser triste ou alegre. Um funcionário é um funcionário, despido de adjectivos, como diria o sempre delicioso Caeiro. Cansado, sim, que a leitura e a exegese das alíneas, dos números e dos artigos das leis e dos decretos-leis, absorvem e ocupam um espaço desmesurado na minha mente.

Objectivamente, sou um funcionário cansado. E estranho que só agora me ocorra este cansaço, quando passei muitas tardes de domingo a olhar o Tejo e os bandos de aves em viagem e eu fui ficando, sem coragem para mandar às malvas as alíneas, os números e os artigos das leis e dos decretos-leis e de com elas partir à procura de novas paragens.

segunda-feira, outubro 18, 2010

O TEMPO
O tempo - essa coisa misteriosa que se conta em milénios, séculos, anos, meses, dias, horas, minutos e segundos -, alguém saberá ao certo o que é? E no entanto, nada escraviza mais o Homem do que o tempo, que os gramáticos organizam em passado, presente e futuro, mas que, no fundo, é apenas passado e futuro.
O tempo - essa coisa estranha que dá alento aos tiranos e torna precárias as acções dos heróis, que destrói as verdades eternas dos teólogos e os sistemas infalíveis dos filósofos, que tudo e todos condena ao esquecimento -, alguém saberá ao certo o que é?
No seu perpétuo fluir, o tempo é o tempo, como diria o delicioso Caeiro.
Para mim, que não sou poeta nem literato, mas apenas amigo de poetas e literatos, o tempo é o sol a levantar-se preguiçosamente das águas do Tejo - é assim que eu o vejo das janelas da casa onde habito - que depois sobe e roda e desce, devagarinho, para desaparecer por detrás das casas, para de novo se levantar das mansas águas do Tejo e subir e rodar e descer e desaparecer e de novo se levantar das mansas águas do Tejo!
Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lisboa, 2005

sábado, outubro 16, 2010

DO MEU DIÁRIO

O PECADO DA GULA

O pecado da gula anda associado aos excessos de comida e de bebida. E é, indiscutivelmente, um dos pecados mais recorrentes nos países católicos, apostólicos e romanos e protestantes da Europa Ocidental. Poder-se-á dizer, para evitar discriminações obvias, que é o pecado mais recorrente de toda a Civilização Ocidental.

Quando os portugueses reflectem acerca da vida e dos seus valores mais altos, dizem normalmente que não há nada melhor do que comer, beber e... passear. E se atentarmos na prática dos povos da União Europeia, verificamos, com muita facilidade, que todos incorrem no mesmo tipo de delito, à luz da doutrina da Igreja: os protestantes do Norte bebendo álcool em excesso, os católicos do Sul, comendo e bebendo excessivamente.

No caso concreto do português comum, ainda que não conheça casos como os descritos por Rabelais no Pantagruel ou por Garcia Marquez nos Cem Anos de Solidão, poder-se-á dizer que se trata de um bom garfo e de um bom copo e a sua imaginação não tem limites: come bifes de atum, de espadarte, de porco, de peru e até de frango. Mas o verdadeiro português - o mais arreigado às tradições nacionais - adora sopinha de feijão e juliana, favas cozinhadas de todas as formas e feitios, feijoada à transmontana, grão com bacalhau e bacalhau cozinhado de trezentas e sessenta e cinco formas diferentes, nos anos comuns, rancho à transmontana, grão à campaniço, carne de porco à alentejana e... até cabra de chanfana, etc., porque a lista, podia ser mais exaustiva.

No domínio das sobremesas refiro o vulgar arroz-doce, o pudim, a musse de chocolate, o leitinho-creme, o molotove, a tarte de maçã, a tarte de amêndoa, a torta de laranja, a torta de cenoura, as farófias, as tijeladas, a baba de camelo, as barrigas-de-freira e os suspiros.
No domínio das bebidas, é como o Jacinto: ou branco ou tinto. De preferência muito e português. E para rematar um opíparo repasto - nada de uísques ou conhaques- uma bagaceira genuína, produzida por um parente, na província.

Lidos ou ouvidos os últimos parágrafos, qual de vós, caros leitores ou ouvintes, não cometeu já o pecado da gula, pelo menos em pensamento? Qual de vós terá esquecido o resto da sobremesa que o colesterol e a diabetes desaconselha, do bagacinho que o Código da Estrada pune, do pastelinho que a linha reprime?

Não falarei, por uma questão de decoro, das múltiplas acepções do verbo comer. Romanizados muito cedo, permanecemos irredutíveis seguidores desse grande povo que adorava o convívio e a mesa. Peço-vos encarecidamente que transmitais aos vossos filhos o gosto imoderado pela comida, para que jamais sejamos assimilados por hábitos alimentares estranhos à nossa tradição cultural. Confesso que sofreria imenso se visse os portugueses rendidos à cultura do hambúrguere e da Coca-Cola . O exemplo americano é paradigmático: grandes e desconformes físicos, passe a pequena redundância, mas um chocante desconhecimento no tocante ( conheço uma senhora dos impostos, que substitui tocante por tange, na prosa das circulares. Acode-lhe, Orfeu!) aos prazeres da mesa. Preservemos, pois, caríssimos concidadãos, o queijo da serra genuíno, as fêveras e a entremeada dos nossos porcos de montado; os rojões à moda do Minho e a carne de porco à alentejana; o vinho das nossas adegas particulares, porque esta é a forma mais autêntica de afirmarmos a nossa identidade nacional .



sábado, outubro 09, 2010

TRABALHO POÉTICO
Com palavras constroem verdadeiros monumentos: precários, às vezes; às vezes, teimosamente resistentes. Alguns chegam até nós, vindos do fundo do tempo, frescos e incorruptíveis; outros, igualmente frescos, trazem a pequena mossa da corrupção em notas de rodapé.

Todos esses monumentos – de que os poetas são arquitectos e pedreiros, engenheiros, pintores, carpinteiros -, se falar pudessem, dariam conta de inumeráveis batalhas ganhas com galhardia e perseverança, desde o surgir da pura ideia até ao assentamento da última pedra.

Acreditai-me, ó gentes profanas!, que não é fácil recriar permanentemente o mundo com as humílimas palavras, para vo-lo servir pleno de harmonia em esplendorosas bandejas de oiro.

sexta-feira, outubro 08, 2010

QUADRAS

Esta quadra é um primor
- Tem perfeita construção -.
É pra dar ao meu amor,
Que trago no coração.

Há quem dê flores e rosas
E outras coisas de valor.
Eu só dou versos e prosas
E é tão feliz o meu amor.

Meu amor pede-me versos
Para animar o serão.
Já anda farta de terços
Rezados sem devoção.

E assim vamos vivendo,
Em paz e muita harmonia,
O coração entretendo
Com afagos de magia.


(Manuel Barata, NOVAS QUADRAS QUSE POPULARES, inédito


domingo, outubro 03, 2010

SOBRE O TEMPO QUE PASSA
Vão as horas, vão os dias,
No seu constante fluir;
Mesmo as poucas alegrias
Me visitam a fugir.

Sob a ponte passa a água
A caminho do vasto mar.
Só em mim, teimosa, a mágoa
Não tem pressa de passar.

Velozes correm os anos;
Pra onde, não sei ao certo;
Só ficam os desenganos
E as marcas do desconcerto.

Que consertar não consigo
Esta vida sem sentido.
O fado é severo comigo;
Mas, não me dou por vencido!

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 3 de Outubro de 2010 - Os aumentos de impostos e os cortes nos salários da função pública, anunciados na semana passada, deixaram o país em estado de choque. Sim, em estado de choque, porque só assim se justifica o silêncio do povoléu e o coro das cassandras a prever desgraças futuras.

Apesar da brutalidade das medidas anunciadas, parece haver unanimidade por parte dos comentadores habituais quanto à insuficiência das mesmas. Tudo isto quer significar que as discursatas vão continuar, até ao estoiro final das muitas regalias dos funcionários públicos e do povo em geral. Em nome do deus mercado e da deusa competitividade, Portugal corre assim o risco de se tornar numa espécie de Somália.

Sócrates, no momento presente, já não conta muito para uma solução dos problemas do país. Cada solução deste governo já é uma não solução. E as soluções do outro partido do chamado centrão não são aquelas de que o país precisa e merece. Ele diz que garante, garante, garante, mas já não tem ele mesmo prazo de validade para nos desgovernar. A realidade, que é quase virtual, desmente-o na hora seguinte.

Passos Coelho pediu desculpa aos portugueses pela assinatura do PEC dois ou um ou lá o que foi e prometeu que não alinharia em aumentos de impostos futuros. Em nome de uma pretensa estabilidade política, vai deixar passar o OE para 2011. Tornar-se-á assim cúmplice, porque já o era anteriormente, desta desgraçada política que só nos conduzirá ao abismo. Em vez das desculpas, era preciso pedir alto e bom som, porque tem meios para isso, o fim dos organismos que empregam amigalhaços e que consomem fortunas. Que diga também, alto e bom som, que as trapaças do BPN e do BPP foram obra de gente do centrão, onde pontificavam destacados militantes do PSD e ex-governantes.

Portugal está-se a tornar um sítio perigoso. Um lugar de medo!

terça-feira, setembro 28, 2010

SONETO


Continua o mundo desconcertado,
Um mar de mentira e hipocrisia.
Desde Camões, pouco terá mudado,
Continua a mandar a vilania.


Os ricos, ousados e poderosos,
Ditam suas injustas leis ao mundo.
Incapazes de gestos generosos,
Tudo submetem ao dinheiro imundo.


Vivemos um tempo de submissão,
Que ignora princípios e valores.
O estudo, a probidade e a razão,


Deram lugar às cunhas e aos favores.
E assim corre a vida desta nação,
De engenheiros, bacharéis e doutores.


Manuel Barata, Fragmentos com Poesia, Ulmeiro, Lx. 2005

sábado, setembro 25, 2010

SESIMBRA

1
Quando o sol te morder a pele
E sentires o chamamento do mar,
Não hesites. Vai.

2

O meu reino daria
Por uma varanda sobre o mar.

Em Sesimbra,
Pois claro!

3
A proximidade do mar me basta.

Infelizmente,
Falta-me o pulmão
Para o desafiar
Em possantes braçadas.

4

Nunca aprendi a nadar.

Ah, os pequenos nadas
Da já longínqua infância!

5

Talvez um dia,
mãe,
Te traga comigo a ver o mar.

… a Sesimbra.

Só então saberás
Quão bom seria
Saber nadar.

Sim, só então.

quarta-feira, setembro 22, 2010

TRÍPTICO PARA VAN GOGH

I

Subitamente,
No auge da devoção,
Recebeu do céu
Divina inspiração.

Desenfreado,
De paleta na mão,
Desatou a pintar
Ao ritmo do coração:

Sóis,
Ciprestes,
Miosótis
E girassóis.

II

Do fundo da mina
- Qual vagabundo -,
Trouxe as cores
Com que iluminou o mundo.

E no entanto
- Moderno Prometeu -,
O pobre Vincent
Nem uma tela vendeu.

III

E um dia,
Quando o voo rasante dos corvos
Se tornou ameaçador,
Fitou o cocuruto dos ciprestes
E entregou a alma ao Criador.



Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx. 2005

terça-feira, setembro 21, 2010

BORGES
Passou pelo mundo, excêntrico e atrevido, um argentino a quem os deuses, um dia, negaram a luz. Onde quer que ia, diz-se, inundava os sítios com preciosas pedras, que irradiavam mais luz do que muitos sóis.

Modestamente, dessas pedras disse que uma só, se boa fosse, lhe daria todo o contentamento que os humanos podem experimentar. Enganou-se! Feitos os necessários testes, os sábios confirmaram que todas aquelas preciosas pedras eram veras fontes de luz.

Hoje, há uma legião de fiéis que se esforça para ordenar e descrever para todas as línguas do mundo as tais preciosas pedras, que são também sábias e raras.

Normal não é; porém, às vezes, os humanos vingam-se dos deuses.
Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005


domingo, setembro 19, 2010

DO MEU DIÁRIO

CASTELO BRANCO (CENTRO DA CIDADE)
Santa Iria de Azóia, 18 de Setembro de 2010 – Desde a infância que oiço falar da alma; no entanto, confesso com a minha habitual humildade, que ainda hoje não sei o que é a alma. E duvido que alguém me possa dar uma explicação capaz.


O facto de não saber concretamente o que é a alma não faz de mim um incréu qualquer. Acredito que os indivíduos tenham alma, do mesmo modo que acredito na alma das cidades. E neste momento, se fosse possível, alguém me poderia perguntar o porquê deste aranzel. Embora não sendo obrigado a dar explicações, digo já ao que venho e prometo ser rápido.


Castelo Branco, a minha cidade natal, cresceu muito nos últimos cinquenta anos. O perímetro urbano que eu conheci enquanto criança e adolescente terá, seguramente, triplicado em cinquenta anos; porém, o coração da grande urbe continua a pulsar na Praça do Município, na Alameda da Liberdade, Avenida da Liberdade, o cimo da General Humberto Delgado e da 1º de Maio, e, claro está, o Largo da Sé. Ou pelo menos é assim que sinto a cidade, quando nela permaneço algum tempo.


Castelo Branco continua a ter bons cafés, onde ainda é possível encontrar velhos amigos, ler o jornal ou outra coisa qualquer, olhar os abrunheiros. O emblemático Arcádia desapareceu; o Aviz já não é o café de Rolão Preto e dos próceres do regime anterior; a Assembleia fechou as portas e o edifício degradar-se-á para lá se construir outro; outros prédios, que são edifícios da cidade, ali no moderno centro histórico, pedem obras de conservação. Mas é neste espaço, onde o velho e o novo coabitam pacificamente, que se encontra o verdadeiro carácter da cidade, a sua alma.


Numa última palavra, quero realçar a reanimação do Cine Teatro Avenida, que fez parte da minha vida durante vários anos: quatro filmes por semana, bailes de finalistas, teatro, récitas e muitos outros eventos. Até comícios, em 69, com Alçada Batista e demais candidatos da CDE. O Cine Teatro Avenida, que também é uma parte importantíssima da alma da cidade que amo e à qual regresso sempre com muitas saudades.

sábado, setembro 18, 2010

PROMETEU


I

Onde estão os meus corcéis?
Tragam-me os meus corcéis,
Que quero rápido cruzar os céus
À procura de um novo sol.


II


Vinde cá,
Meus cavalinhos de oiro,
Vinde cá!
E levai-me a todas as galáxias,
Que quero encontrar
Uma nova luz.


III


Meus cavalinhos de oiro,
Meus fogosos corcéis!
Levai-me,
Levai-me a todos os pontos do universo,
Que quero encontrar
Uma nova fonte de fogo.


Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, LX. 2005.

sexta-feira, setembro 17, 2010

ANTÓNIO NOBRE
Às vezes, dou por mim agarrado ao Só de António Nobre e sinto uma imensa tristeza. Eu sei que parte daquele sofrimento é fingido, porque todos os poetas são fingidores. Mas usa uma máscara tão autêntica, tão dramaticamente convincente, que a tristeza de Anto me esfarrapa todo por dentro.

Às vezes, ponho-me a imaginar António Nobre, sozinho, nas ruas de Paris, rememorando a igreja de Leça, o mártir S. Sebastião, o Senhor de Matosinhos... Eu imagino Anto, naquele ambiente moderno e cosmopolita, corroído de saudades dos manéis, do mar, de barcos, de fanfarras, eiras, pescadores, camponeses, arraiais.

Às vezes, agarrado àqueles versos que até parecem conversa fiada, pelos meus olhos perpassa um Portugal beato, atrasado e rural. Que permanece, cem anos depois de Nobre, apesar de tudo, tremendamente real.
Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, 2005

quarta-feira, setembro 15, 2010

A "DIVINA" LIVRARIA LELLO

2ª feira passada

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 29 de Agosto de 1994 - Rabiscar notas, mesmo sob a forma de diário, não é tarefa fácil. Ainda que a escrita me esteja na massa do sangue; alinhar notas que suscitem interesse, numa prosa minimamente escorreita e ágil, repito, não é tarefa fácil. E há dias em que o vazio é total e o branco assusta. E no entanto, escrevo pelo prazer que a escrita me proporciona e não com a intenção de ganhar a vidinha. De resto, apenas um escrito me rendeu meia dúzia de patacos.
Concordo que um diário seja um espelho - um espelho muito peculiar - que há-de reflectir do autor a imagem desejada. Torga faz passar meia dúzia de ideias fortes: um homem na cidade, desenraizado, que procura no espaço primordial de S. Martinho de Anta a força para perseverar nos muitos desafios da vida; um homem dotado de uma grande firmeza de ânimo, à boa maneira dos estóicos, visível já nos textos escritos na prisão do Aljube, nos anos trinta; um homem solidário com os seus semelhantes e preocupado com a condição humana; um homem ousado, quando critica o Quixote de Cervantes; etc. Mas há outro Torga que se vai insinuando e que nada tem a ver com o caçador de S. Martinho de Anta: o artista que viaja e lê os autores mais significativos da literatura europeia (Ibérico por convicção, a sua Europa estende-se até aos Urais); homem culto que é capaz de se pronunciar acerca de Rembrant e Beethoven. Ao fim e ao cabo, apesar de reivindicar persistentemente as suas raízes camponesas, lá bem no fundo, Torga não despreza um certo cosmopolitismo. E aqui encontramos, seguramente, uma das razões da sua candidatura ao Nobel.
Seja como for, não há que levar a mal que o autor de Os Bichos tenha as suas estratégias. É um direito que lhe assiste. Há que respeitá-lo enquanto homem e criador.
Retomando o fio à meada e para concluir, compartilho da ideia de que um diário, construído texto a texto, como quem constrói uma casa, é um acto criador como outro qualquer. Com a vantagem de o seu autor se despir perante os leitores, enquanto pessoa empírica, e não poder gozar de um estatuto idêntico ao do narrador que, no entender de Roland Barthes, “é um ser de papel”.

DO MEU DIÁRIO

Praça de Santiago

Guimarães, 12 de Setembro de 2010 – Há, na minha humílima opinião, um paradoxo insanável na bonita cidade de Guimarães. Tendo sido o berço de Portugal e reivindicando o facto desde sempre e de forma patriótica; curiosamente, pelo que conheço de Portugal e do Norte, a cidade de Guimarães é a mais espanhola das cidades portuguesas.

Eu explico depressa, antes que algum vimaranense mais exaltado me dê com a espada de Afonso Henriques, na ignorância das minhas rectas e nobres intenções. Guimarães é uma cidade muito bonita – passe a reiteração desnecessária – e com um centro histórico bem cuidado, onde há esplanadas e mais esplanadas e se cultiva uma cativante vida de relação.

Ontem à noite, por exemplo, a praça da Igreja da Senhora da Oliveira e a praça de Santiago tinham por ali umas centenas de pessoas, que davam vida a um espaço fabuloso, à semelhança do que acontece nas praças da nossa irmã Espanha. Come-se, bebe-se, vêem-se dois desafios de futebol simultaneamente, Real-Osasuna e Sporting-Olhanense, convive-se.

E quem achar que é coisa pouca, que me dê exemplos melhores. Como se faz no “facebook”, eu digo alto e bom som e para que conste: “gosto disto”!

TERRAS DE BOURO 2

RIO CALDO

quarta-feira, setembro 08, 2010

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 25 de Maio de l994 - Não tenho da amizade uma visão utilitária, nem espero dos meus amigos sins incondicionais. Aos amigos, a todos sem excepção, quero apenas lealdade e solidariedade nas horas difíceis.

Os amigos, os verdadeiros amigos, são aqueles que, nas curvas apertadas da vida, se recusam a integrar o pelotão de fuzilamento; são aqueles que, nas situações de doença, nos visitam na cama do hospital e nos trazem uma palavra de esperança; são aqueles que, sendo amigos do coração, nunca nos pedem o impossível; são aqueles, em suma, que participam das nossas alegrias e tristezas. Sendo este o meu conceito de amizade, resta-me a consolação de conhecer muita gente, que me cumprimenta e cumprimento cordialmente.

A família é um mundo à parte.

sexta-feira, setembro 03, 2010

DO MEU DIÁRIO

Sacavém, 30 de Abril de 1994 - Se perguntarem a um avarento, por que nutre tanta apetência pela posse de bens materiais, antes de mais, negará a sua qualidade de avarento. Dirá que, ao contrário do que os outros pensam, é apenas uma pessoa previdente e contará ao seu interlocutor a conhecida fábula da cigarra e da formiga. E dirá que se sente bem na pele desses minúsculos e negros bichinhos que, de uma forma autómata, executam metodicamente o vaivém entre o local onde se encontra a semente - ou seja lá o que for - e o buraco-armazém.
Como é bom de ver, o avarento não é um contemplativo. Será mesmo incapaz de retirar prazer, de ordem estética ou outra, dos seus bens materiais. Não viu, decerto, “Casimiro e Carolina” no teatro do Bairro Alto ou o “Círculo de Giz Caucasiano” no Teatro Aberto. Não frequenta salas de cinema, não aprecia pintura e escultura, não viaja. Em relação às coisas que enriquecem verdadeiramente um ser humano, o avarento é um homem não. E poderíamos ficar por aqui no que à avareza concerne, mas o retrato ficaria incompleto.
O avarento não cultiva a vida de relação. Vive ensimesmado. Prefere a conversa com os seus botões. Inventaria e actualiza permanentemente o valor dos seus bens. Tudo o que esteja para além do estritamente necessário é supérfluo. Quando compra botas novas aos filhos, recomenda-lhes que dêem passos largos. Gosta de ser convidado, mas quando toca a sua vez de pagar a conta, desafia os parceiros para jogar à moedinha. Vai aos arames quando lhe falam em férias. Cria galinhas na varanda de sua casa para poder vender ovos. É o único que não ri, quando lhe contam a nova versão da fábula da cigarra e da formiga, que aqui deixo reproduzida:
No pico do inverno, a cigarra bate à porta da formiga e esta pergunta:
- Quem é?
- Sou eu, a cigarra.
- Que queres?
Quero apenas falar contigo, formiga.
- Já conheço os teus truques desde que o mundo é mundo. Estou farta da tua música.
- Não sejas parva , formiga. Abre lá a porta!...
A formiga abriu o postigo e deparou com a cigarra toda anafada e de casaco de peles. È então que a cigarra diz:
- Vou para Paris. Vim despedir-me de ti.
- Estupefacta, a formiga replicou:
- Olha, cigarra, já que vais para Paris, se vires o La Fontaine, manda-o foder com a história da fábula.
Terão notado, com certeza, que me centrei apenas num tipo de avarento, ou seja, naquele que vive obcecado pelo dinheiro e pelos bens materiais. O discurso poderia, no entanto, ser dirigido noutras direcções. Poupemos, por hoje, os ambiciosos de todos os matizes e os mesquinhos.
A avareza, caríssimos alunos e colegas, é um pecado capital. Pratiquemos todos, todos sem excepção, a prodigalidade, tornando-nos dignos do senhor D. João V, o tal que, com o oiro do Brasil, mandou construir o convento de Mafra e passou à História com o cognome de “o Magnânimo”.