domingo, novembro 04, 2007

INÊS DE CASTRO

Charneca da Cotovia, 3 de Novembro de 2007 – Fim de tarde de 20 de Março de 1622. Luís Vélez de Guevara, autor de textos dramáticos, atravessa um mau momento da sua carreira profissional. Ainda há instantes deixara a casa de Sánchez de Vargas, que lhe dissera “que as suas comédias haviam deixado de ter valor na bolsa de contratação teatral da Rua de Léon”.
Agora na madrilena Rua de Atocha, Luís Vélez de Guevara parece hesitar no caminho a seguir, tais são os problemas que o atormentam. Sem um ducado nos bolsos, com a prole em casa sem sustento, decide ir até à taberna de Alonso. Aí poderá encontrar um amigo que lhe empreste dinheiro ou lhe pague um “bom vinho de Consuegro”.
É já com a taberna de Alonso em mente, que encontra D. Félix Lope de Vega, que vem do Convento de La Merced, onde se despedira de frei Gabriel Téllez, que na vida secular era conhecido por Tirso de Molina. Os dois homens cumprimentam-se amistosa e respeitosamente e tecem algumas considerações acerca do meio teatral. Porém, apesar do êxito, também D. Lope não parece muito feliz, facto que não passa despercebido a Luís Vélez de Guevara. D. Lope decide acompanhar o amigo e camarada de lides teatrais.
D. Lope sente-se agastado com as suas fraquezas carnais. Apesar dos votos, não consegue evitar as mulheres e nomeadamente a diminuída psíquica Marta de Nevares, de quem tem vários filhos. Os dois homens caminham e conversam até à taberna de Alonso, onde vão encontrar vários companheiros de tertúlia. A conversa anda à volta de sucessos e insucessos literários e artísticos e é neste contexto que os amigos são surpreendidos pela presença de um velho cavaleiro que tem uma boa história para contar. Só Luis Vélez de Guevara e D. Lope aceitam ouvir a história que o cavaleiro desconhecido tem para contar. É a história dos amores trágicos de Pedro e Inês, que Luís Velez Guevara vai dramatizar e que lhe vai trazer de novo o sucesso. Três anos depois, em 1625, com a peça REINAR DESPUÉS DE MORIR.

A narrativa do velho cavaleiro segue a par e passo aquilo que se sabe da História de Portugal, durante os reinados de D. Afonso IV e D. Pedro I. Poder-se-á até dizer que Maria Pilar Queralt del Hierro segue de perto a lição dos poetas e literatos, nomeadamente a de um tal Luís Vaz de Camões, que atribuem ao Amor, ao puro Amor, a causa da tragédia. É certo que os Castros têm projectos; todavia, Inês repele a pressão de seus irmãos, Fernando e Álvaro. Inês ama Pedro desde que o viu, fugidiamente, pela primeira vez e por por seu Pedro sacrificará a sua vida.

É minha opinião convicta que este romance vale sobretudo pelos retratos que traça das personagens principais, ou seja, de Pedro, Inês, Constança e Afonso IV. Pedro é um jovem de vinte anos, dado aos prazeres da caça e que esquece “a sua condição, os seus deveres e as suas necessidades mais básicas”. Na opinião do próprio pai, Pedro é “inconstante, indolente e sem sentido do dever” (pág. 86). Este jovem de olhos azuis é gentil, “sensível, alegre e amante das artes e das letras”(pág.58).
A morte de Inês enlouquece-o; porém, acaba por chegar a um acordo com o pai, a quem nunca perdoará o assassinato da sua bem amada. Quando assume o poder, consumadas as vinganças possíveis, Pedro faz transladar os restos mortais de Inês de Santa Clara para o mosteiro de Alcobaça, onde sob a sua supervisão tinham sido construídos os túmulos para ambos. E faz os nobres desfilar perante o cadáver, em cuja cabeça Pedro tinha colocado a coroa das rainhas de Portugal. Foi a sua última homenagem a Inês, com quem casara com a cumplicidade do bispo da Guarda, que o próprio príncipe trouxera a Santa Clara para o efeito.
Este príncipe português, que terá protagonizou uma das mais belas histórias de amor de todos os tempos, reais ou míticas, foi rei durante cerca de dez anos e governou com grande sabedoria. Dois dos seus filhos foram reis de Portugal: D. Fernando, filho de Constança; e, D. João I, que a História registou como bastardo. Filho de Teresa Lourenço, que presenciara a morte de Inês e que o príncipe violou, segundo o romance de Maria Pilar Queralt del Hierro, na convicção de que possuía Inês, acabaria por ser um rei de Portugal filho de Inês de Castro. Isto, já no domínio da ficção, obviamente. Teresa Lourenço, em cujo ventre a loucura gerou a mais profícua de todas as dinastias portuguesas, merece aqui uma palavra de simpatia!

Galega de nascimento (1320), Inês de Castro é criada em Castela, para onde, após a morte da mãe, o pai decide enviá-la, a fim de “acompanhar D. Constança Manuel nos seus ócios e obrigações”. Constança é filha de D. João Manuel, infante de Castela e há-de ser, por casamento com D. Pedro, princesa de Portugal. Inês, a dos olhos garços, é uma rapariga “Alta, esbelta, ágil de movimentos/…/ “ e /…/”possuía uma frescura especial que dispensava artifícios. Conservava os mesmos caracóis dourados que tinha em criança/…/” (pág. 52), segundo Constança. “Inês era fogo fascinante e arrebatador. Uma fogueira que atraía o olhar de forma hipnótica/…/”. Como Pedro, “amava a leitura, a música, os passeios a cavalo pelo campo”.
A partir do texto do romance, fica-se a saber que Inês fez feliz a infância de Constança e que entre as duas amigas, apesar de Inês ter cedido aos impulsos de Pedro, houve sempre uma amizade fraterna.

Constança “tinha feições correctas, uns olhos escuros e grandes que testemunhavam a sua grandeza de alma e uma educação refinada que a fizera adquirir gestos harmoniosos e cativantes”(pág. 52). Tem a noção dos seus deveres, enquanto filha de um infante de Castela. Domina na perfeição os rituais do poder. É, na opinião de Inês, a mais nobre das mulheres” (pág.65).

D. Afonso IV, o Bravo, tinha um alto sentido do dever. O seu reino estava acima de tudo e todos. Não era dado a quaisquer manifestações de afecto. Encarnou o paradoxo de fazer infeliz aquele que mais amava.

No final do romance ficamos a saber que a peça de Luís Velez de Guevara foi um enorme sucesso. Decorre o Verão de 1634 e o dramaturgo sonha com o cavaleiro, que lhe contara a história dos amores de Pedro e Inês. É o próprio D. Afonso IV que, roído pelo remorso, tenta convencer os artistas a perpetuar a memória de Inês de Castro e deste modo encontrar a paz pessoal. Num encontro com D. Lope, o autor de REINAR DESPUÉS DE MORIR conta o sonho ao amigo, que o aconselha a não levar os sonhos a sério e lhe diz que foi a história que o viajante lhe contou, naquela noite de Inverno de 1622, que lhe abriu definitivamente as portas da consagração.

Hierro, Maria Pilar Queralt del, INES DE CASTRO, Edição do Círculo de Leitores, Dez/2006.


2 comentários:

LM,paris disse...

Bonsoir manuel, bela liçao de historia inesiana. Leu o livrinho da especialista leonor Machado?
Ela fala claro do tal Lope de la Vega, e até dum Semedo...que escreveu uma falsa carta de amor...acredita?
Uma pessoa nao inventa nada, jà se sabe.E as adivinhas de Pedro e Inez, da agostina...ou nao gosta dela?
Eu adorei!Quando eu dançei em Montemor no castelo, foi tal lindo!
na capela, magico...foi ali do julgamento que lhe foi feito, se leu ali a sentença. Disso nao sei bem, foi o senhor da junta que me disse.No entanto, o espirito da Inez esteve connosco os três dias e nos três sitios. Depois conto-lhe como o fantasma da Inez empurrou a enorme porta da igreja St. francisco e ouve um vento tao frio que varreu a cena, as petalas voaram... e aquela porta de lado, està sempre fechada tem uma chave do tamanho da minha mao e uma tranca de lado a lado...e esta? Beijinhos, lidia

Anónimo disse...

ta mt fixe adorei