quarta-feira, dezembro 31, 2008

MANUEL BARATA

PALESTINA MINHA AMADA
1980
I

(Jerusalém é o teu nome cidade)
Ruy Belo

Trazemos nas veias
A cor das tuas pedras mártires.

Por isso perseveramos,
Por isso te amamos,
Por isso continuamos a morrer por ti.


II

No sul do Líbano,
Na faixa de Gaza,
Nas margens do Jordão,
Na diáspora multicontinental,
Choramos em silêncio as tuas mágoas
Cidade mãe,
Cidade santa,
Jerusalém.

(Porque tu choras
As nossas mágoas também).



III

Não haverá napalm,
Não haverá TNT,
Não haverá traição,
Que ponham fim
A esta vontade desmedida de vencer.

E um dia,
Pela estrada de Jericó,
Voltaremos:
A Ramala,
A Belém,
A Lida,
A Jerusalém.

Para comer laranjas em Jafa!,
Laranjas doces e suculentas,
Porque em todo o mundo
Não há laranjas como as de Jafa.



JOÃO DE SOUSA TEIXEIRA


Com a devida vénia.

1980
MÉDIO ORIENTE

Em Gaza não há sossego,
nem nos Golan por haver.
Só o mostrengo que é cego
não sabe ou não quer ver.

Povo vivo à queima roupa,
a defender mesmo quem trai.
Ai, povo, que coisa pouca
é morrer pelo sinai.

Um patriota árabe sucumbiu
à bala sionista e colossal,
mas a verdade que floriu
no campo de batalha, é imortal.

É escusado veneno mais fecundo:
a Palestina vive no coração do mundo.

terça-feira, dezembro 30, 2008

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 30 de Dezembro de 2008ENCONTRO EM CAPRI ou O DIÁRIO ITALIANO DE GORKI, da autoria de Marcello Duarte Mathias, é uma excelente narrativa romanesca, que terá exigido muito trabalho e imaginação ao antigo embaixador.

Parte do exílio de Gorki em Capri, na Itália, onde é visitado por Lenine e por outras celebridades, para construir um universo romanesco que nos dá conta do ambiente oposicionista ao regime dos Romanov, no exterior e no interior da Rússia. A amizade entre Gorki e Lenine é o grande «leit-motiv» que permite a Mathias a feitura de retratos excepcionais - Gorki, Lenine, Staline e Trotsky -, e a criação da ambiência política e social antes e depois da Revolução de Outubro. Num registo de grande serenidade como é seu timbre.

De certo modo, pode-se estabelecer um paralelo entre esta ficção e O Ano da Morte de Ricardo Reis, de Saramago. Este faz regressar a Portugal o autor das odes clássicas, que o seu criador, Fernando Pessoa, exilara no Brasil, onde o deixara quando morreu. E serve-se do heterónimo pessoano para criar o ambiente em que foram surgindo as instituições do Estado Novo, naquele ano de 1936.

È um livro para ler como grande literatura.
Mathias, Marcello Duarte, ENCONTRO EM CAPRI OU O DIÁRIO ITALIANO DE GORKI, ed. Oceanos, Nov. 2008.

domingo, dezembro 28, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 28 de Dezembro de 2008 – De novo a guerra, no Médio Oriente, com os do costume a morrerem como tordos; de novo o coro de protestos da chamada comunidade internacional, com os do costume a fazer ouvidos de mercador.
E assim se vai eternizando um conflito, que ninguém parece interessado em resolver. Nomeadamente Israel, a quem daria até um certo jeito que o conflito alastrasse à Síria e ao Irão.
E quer-me parecer que ainda não será com o senhor Obama que a paz vai chegar ao Médio Oriente. Quantos palestinos terão ainda de morrer, para que a terra do poeta Darwich possa ser independente?
Puta de vida! Puta de guerra!

DO MEU DIÁRIO

Rotunda com repuxos
e casario do Cansado
Castelo Branco, 27 de Dezembro de 2008 – Passei pelo quiosque Vidal, logo ao princípio da tarde, para me inteirar da venda do livrito Mata…, a que a empregada chama o livro da Mata. Chovia impiedosamente.

Eu sei que o faz por uma questão prática, embora o uso da preposição, neste caso concreto, confira ao enunciado um efeito quantificador inesperado, ou seja, confere-lhe um carácter único, o que corresponde inteiramente à verdade e afaga o ego do autor.

No interim, surgiu dentro do quiosque a dr.ª Manuela Conde (Chichorro?), que foi minha professora de História nos anos sessenta e que nunca mais voltara a ver. Ali estava olhando para as revistas expostas no escaparate, com todas as marcas dos anos passados, mas conservando alguns dos traços juvenis. Com ela visitei Vila Viçosa e o palácio onde D. Carlos havia de dormir a sua última noite. Recordei-a pelos anos fora como uma docente competente e com grande sentido de justiça.

Mais um café na Pastelaria Montalvão, dois dedos de conversa com a Maria e ala que se faz tarde. Lisboa ainda é longe e a tarde está de chuva. Que tarde chuva, na verdade!

sexta-feira, dezembro 26, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 26 de Dezembro de 2008 – Recebi mensagens de Boas Festas até à tarde de ontem. Há sempre um esquecido ou outro que se lembra à última hora. Não tem importância. Não contabilizo estas coisas; e, por conseguinte, nada há-de constar do meu deve e haver. Tudo permanecerá na mais absoluta puridade.

Telefonei a quem tinha de telefonar; recebi os telefonemas de quem tinha que receber; tudo se desenrolou na mais estrita normalidade. As chamadas mensagens de telemóvel, mais ou menos estereotipadas, aborrecem-me, mormente as que não trazem agarrado o remetente. Estas mensagens são, de certo modo, um descargo de consciência. Talvez descarga fosse a palavra mais adequada.

Com o advento dos telemóveis nasceu esta febre comunicacional, ganhando foros de cidadania a palavra escrita, muitas vezes abreviada, onde não segue a voz peculiar de cada remetente. É a comunicação a pataco e quase sem emoção. Em tempo de Natal, os amigos e aqueles que nos merecem estima, merecem um telefonema, uma carta tradicional, um postal ou até uma cartinha via Internet. Tudo personalizado, obviamente.

Eu, também pecador, me confesso. Contritamente.

terça-feira, dezembro 23, 2008

EM TEMPO DE NATAL

MEMÓRIA

Republicação

Nas manhãs de Junho,
quando o sol tudo doirava,
a nossa casa era também
a sombra da oliveira
do outro lado da rua.

Guardo memória, mãe!,
da nossa rua térrea
e vejo-te jovem
algodão dobando
à sombra da oliveira
do outro lado da rua.

Nas manhãs de Junho,
quando o trigo amadurecia
e eu brincava brincava
à sombra da oliveira
do outro lado da rua.

Fazia-te mil perguntas
- mil ou muitas mais -
e tu respondias sem enfado
à sombra da oliveira
do outro lado da rua.

E eu era feliz
e tu eras feliz, mãe!,
à sombra da oliveira
do outro lado da rua.

Do outro lado da rua
à sombra da oliveira.


segunda-feira, dezembro 22, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 21 de Dezembro de 2008 – Sorrateira, a Velha senhora veio, deitou as garras de fora e levou o MÁRIO JOÃO PIRES. Tinha 57 anos e era um Homem bom.
É nestes momentos – os que me tocam mais de perto -, que mais concordo com Sartre: “a morte é um escândalo”.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 17 de Dezembro de 2008 – As medidas aprovadas pelo governo para avaliar os professores – deixando de fora os profissionais que estejam em condições de se aposentarem nos próximos três anos – mostram à saciedade até onde pode ir a má-fé deste executivo, que apenas pretende dividir os docentes, a fim de impor um modelo já amplamente rejeitado.

Escudado na maioria absoluta, este governo tem tiques verdadeiramente totalitários, porque a sua visão da democracia é estreita, ou seja, não concebe a oposição às suas políticas. Dir-se-ia que estes insignes democratas apenas concebem, que os seus concidadãos se exprimam de quatro em quatro anos, no silêncio das urnas, diminuindo-os a todos enquanto cidadão.

É espantoso que um partido dito democrático e socialista aja contra as mais diversas camadas da população com tanta arrogância e mesmo desrespeito. E é ainda mais espantoso querer incluir-se na esquerda, quando a sua prática política é de centro direita.

Este governo, no qual pontificam os ministros Pereira e Silva, tem o desplante de nos tomar a todos por parvos. Até quando?

segunda-feira, dezembro 15, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 15 de Dezembro de 2008 – Finalmente, Manuel Alegre parece disposto a romper com o PS e a adequar a sua praxis política aos seus estados de alma, tantas vezes expressos através de discursos épicos e aos quais tem emprestado aquela sua voz única de patriarca bíblico.

Eu gosto do autor de Um Barco para Ítaca – e de tantos outros livros que me ajudaram a ser quem sou -, porém, sempre achei que Manuel Alegre se contentava com o seu papel de consciência crítica do PS. E acho mesmo que se outros fossem os protagonistas – Sócrates nem é socialista nem de esquerda e os seus próximos também não – Alegre jamais ousaria o discurso de ontem à tarde. A arte socrática de governar – intransigente com os fracos e muito compreensivo com os poderosos – fez transbordar o copo do poeta político.

Agora, aguardemos pacientemente pelo desenrolar do ano de 2009, que vai ter muitos e difíceis combates. Até para ver quem os vai travar com mais convicção e denodo.

sábado, dezembro 13, 2008

TEORIA DA QUADRA

1

Uma quadra bem urdida,
Em dia de inspiração,
Pode, se for atrevida,
Causar dano até mais não.

Eu quero estar sempre a salvo
Dos efeitos de uma quadra.
Tiro certeiro no alvo,
Faz pior que o cão que ladra


2

Quatro versos podem ter
Um final devastador.
É por isso, ‘stá-se a ver,
Que a quadra exige rigor.

Em tempos de roubalheira,
Uma quadra pode ser
A espingarda mais certeira
Para os pilantras vencer.


3

O governo da nação
Governa contra o país.
Nega a constituição
Ignorando o que ela diz.

Este governo trinta e três
Tem almas do outro mundo
Pelo que faz, bem se vê,
Que mer’cia ir ao fundo.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

MANOEL DE OLIVEIRA

Cem anos hoje e continua a querer fazer fitas rindo-se do tempo como ninguém!
Manoel de Oliveira é um caso notável. Direi mesmo notabilíssimo!
Eis um português que, por alguns séculos mais, da lei da morte se libertou, como diria Camões.

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 10 de Dezembro de 2008 – Há uma ideia que se vai entranhando na sociedade portuguesa e que qualquer dia merecerá teses universitárias: “quem ganha eleições tem legitimidade para governar sem oposição”. As aspas são minhas, obviamente, e ainda ninguém ousou formular a questão assim cruamente; mas há tiques e bocas, bastante mais eloquentes que as claras formulações.

A coisa tem-se acentuado mais com a luta dos professores. E só não se tornou ainda mais consistente e dura, porque uma fatia considerável de fazedores de opinião e “blogueiros”, ligados ao PPD-PDS e ao CDS-PP, estão conjunturalmente com a luta dos docentes. Não estivessem aqueles partidos interessados em capitalizar alguma coisa e muitos mais seriam os adeptos dos governos sem oposição.

A gente de direita – e o governo do PS também, porque faz aquilo que a direita nunca teve força para fazer – enche-nos a boca com democracia e Estado de direito, mas este mesmo Estado tem de se conformar com os seus interesses permanentes e conjunturais. Se pudessem, suprimiriam de bom grado a CGTP, que, no fundo, só complica. E também o PC, que, obviamente, se quer apoderar, para proveito próprio, da riqueza do país. E assim, o país ficaria mais limpinho - se não mesmo asséptico -, e sem essa gente que está sempre disposta a estragar as festas. E tudo decorreria, paulatinamente, sem a vozearia animalesca desses pretensos donos da rua.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Santa Iria de Azóia, 9 de Dezembro de 2008 – Há muito tempo que não falava de Daniel Abrunheiro, nestas páginas deste meu sensaborão Diário. E no entanto, falamos amiúde e continuo a lê-lo com o mesmo entusiasmo de sempre, ainda que o poeta prefira ao cronista e este ao romancista. Escasseia-me o tempo para o poder estudar com algum rigor.

O Daniel vem hoje a este Diário empurrado por uma sua leitora, que lhe gaba o tamanho dos poemas, por oposição a uma poesia de poemas curtos, aos quais chama “caganitas de cabra”. O autor confessa que gosta da imagem e num tom “savant” acrescenta. “O que escrevo, corresponde perfeitamente a essas reticências caprinas”. É de Mestre!

E já agora, mesmo que a despropósito, deixo aqui uma pergunta: quanto é que um editor competente edita poesia deste autor?


domingo, dezembro 07, 2008

TERRAS DO MUNDO

SESIMBRA
"A PRINCESA DO MAR"

REFLEXÃO

Não me venham falar da Pátria.
Não quero ouvir falar de pátrias
- nem desta, nem doutras -,
Que as pátrias,
À semelhança dos deuses,
Só sabem exigir sacrifícios,
Desmedidos e vãos.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

DO MEU DIÁRIO

CASTELO DE PIRESCOXE
Santa Iria de Azóia, 3 de Dezembro de 2008 – Na SIC-Notícias, ontem, Ricardo Costa e Luís Delgado teceram rasgados elogios a Jerónimo de Sousa. Luís Delgado disse mesmo que Jerónimo é melhor comunicador do que Cunhal, etc. e tal.

Eu gosto de ouvir estas coisas, porque tenho grande estima por Jerónimo de Sousa e também simpatia e também admiração. Jerónimo Carvalho de Sousa não tem a cultura política e a cultura, lato sensu, de Álvaro Cunhal. Não tem tão-pouco os dotes oratórios do antigo secretário-geral, que conhecia as técnicas retóricas como poucos. Porém, o discurso de Jerónimo soa-nos mais genuíno e, porque não dizê-lo, patético. Às vezes não basta dizer as verdades; às vezes, é necessário encontrar o tom e a forma para dizer as verdades.

Reeleito secretário-geral do PCP, no XVIII congresso, cabe-lhe a difícil tarefa de dirigir o partido, em tempos particularmente difíceis. Jerónimo conhece a receita: manter uma estreita ligação ao povo e lutar, com o colectivo que dirige, pelo progresso e pelo bem-estar dos portugueses e de Portugal.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 1 de Dezembro de 2008 – O último romance de José Saramago, A VIAGEM DO ELEFANTE, é, certamente, um dos melhores que o nosso Prémio Nobel escreveu, na sua já longa vida de autor. Poderá mesmo ombrear com Levantado do Chão, O Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis.

No seu estilo único, Saramago conta-nos as peripécias da viagem do elefante Salomão e do cornaca Subhro de Lisboa até Viena, num itinerário através de Portugal, Espanha, França, Itália e finalmente a Áustria, com travessias marítimas e fluviais.

Salomão é oferecido ao arquiduque Maximiliano II da Áustria pelos réus de Portugal, João e Catarina, assim como uma prenda complementar de casamento. Esta dádiva, longe de ser generosa, foi apenas a forma expedita que os lusos soberanos encontraram para se livrar de um paquiderme que devorava palha e água e nada dava em troca.

Maximiliano aceitou o presente, que implicou as diplomacias portuguesa e austríaca, e a viagem iniciou-se com a presença de D. João III, dez dias após a tomada da decisão pelo régio casal. A entrega de Salomão fez-se em Castelo Rodrigo, ainda que o comandante da lusa força tivesse acompanhado o animal até Valladolid, onde se encontrava Maximiliano e Maria, recorrentemente chamada de “a filha de Carlos V”. Em Valladolide o elefante e o cornaca haviam de receber novos nomes, por decisaõ do arquiduque: Salomão passou a chamar-se Solimão e Subhro, o tratador, Fritz.

Em solo italiano hão-de ocorrer os acontecimentos mais importantes da viagem, nomeadamente o milagre de Pádua, encomendado pelas entidades religiosas, no preciso momento em que se reunia o concílio de Trento. Em Veneza, soube Maximiliano do prodígio do paquiderme, que após treino, e às ordens do seu tratador, se ajoelhou à porta da Catedral de Santo António. Depois foi a épica subida dos Alpes e ainda a viagem através do Danúbio até às proximidades de Viena.

Num estilo vivíssimo, Saramago aproveita A Viagem do Elefante Salomão para fazer uma profunda reflexão sobre a condição humana, não se coibindo de abordar alguns dos temas que lhe são mais caros, nomeadamente o religioso. Neste romance excepcional, Saramago usa abundantemente da ironia e do anedótico, tornando-o um livro divertido, o que é um facto verdadeiramente extraordinário, conhecendo nós as circunstâncias em que foi escrito.

sexta-feira, novembro 28, 2008

DAS MIL E UMA NOITES

Deve a vasta humanidade
Aos cornos de Xariar
A divina Sherazade
E seus contos de encantar;


Deve-lhe a gentil irmã
- de seu nome Dinarzade -,
que, cedo, cada manhã,
acordava Sherazade.


“ Minha irmã, se não dormis…”
E começa a narração.
Sherazade tudo diz
Para encantar o Sultão.


Histórias mil desfia
(Oh, qual delas a melhor?)
E o tirano ludibria,
Calmamente, e sem temor.


Salvando assim a vida
Às donzelas de Bagdade,
Foi, claro, muito atrevida,
Mas ganhou a liberdade.

quarta-feira, novembro 26, 2008

JOSÉ GOMES FERREIRA

Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de dizer as coisas, da sua retórica única, do modo natural como metia mulheres nuas nos poemas.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de ser solidário, dos seus protestos viris, do modo simples como transformava o real em poesia.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de andar na lua, mas sempre a olhar a Terra, que enchia de árvores e folhas e flores e frutos.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava, sobretudo, dos violinos que tão habilmente escondia em cada verso.

Barata, Manuel, Fragmentos com Poesia, Ulmeiro, Lisboa-2005.



sábado, novembro 22, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 20 de Novembro de 2008 – Dias Loureiro, o ex-ministro das polícias de Cavaco Silva, ex-banqueiro-BPN e actual conselheiro de Estado, pretendia ser ouvido na Assembleia da República, onde, naturalmente, ainda tem muitos amigos e se sentiria como peixe na água, para explicar as trapalhadas do denominado banco laranja.

Entendeu a maioria que não deveria ser ouvido e a meu ver bem. Que a justiça e os investigadores ou os investigadores e a justiça façam o seu trabalho e Dias Loureiro que espere pelo veredicto da investigação e dos tribunais.

Se a moda pegasse - e já vi defender que o homem pode ver o seu nome enlameado durante muito tempo, isto é, até que haja decisão dos tribunais -, tratar-se ia este português diferentemente dos outros portugueses. Infelizmente, eu sei que a democracia, que deveria pugnar sempre por uma igualdade de tratamento para todos, trata muitas vezes os cidadãos de maneira desigual. Desta vez, louve-se a decisão da maioria PS.

Eu sei que Dias Loureiro só queria explicar. Então que explique fora das instituições. Explique no “Expresso” ou no “Povo Livre”. Pior estaria eu, porque me fechariam todas as portas na cara.

quarta-feira, novembro 19, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 19 de Novembro de 2008 – A comunidade educacional vive à beira de uma guerra civil, porque uma ministra teimosa quer impor um modelo de avaliação aos professores, pouco lhe importando se o dito é bom ou mau. Avaliar, avaliar, avaliar, é a palavra de ordem.

Escorado numa maioria absoluta, este governo tem-se esmerado em afrontar as pessoas, como se “a choldra” tivesse de ser ainda pior do que efectivamente é. E arroga-se o direito de nos querer meter Lisboa pelos olhos dentro, como se tivesse recebido divina inspiração e fosse detentor de puras e definitivas verdades. È um governo altista e com tiques totalitários.

Este (des)governo, que quis atacar as chamadas corporações e os privilegiados do país, há-de ficar para a História como o governo que mais defendeu o capital financeiro e que mais atacou os interesses legítimos dos trabalhadores. É o governo que fecha centros de saúde e maternidades, escolas e outros serviços públicos de reconhecido interesse. Este não é um governo fazedor. Este é um governo exterminador. È um governo de leões contra os pequenos e de cordeiros em relação aos poderosos, tal como sentenciou Fernão Lopes em relação a D. João I.

O governo do combate ao défice, vai deixar o país mais deficitário em múltiplos domínios. Este governo e esta maioria são um desastre nacional.

terça-feira, novembro 18, 2008

S. MARTINHO II

Traz-nos o bom S. Martinho,
Sem nada em troca pedir,
Castanhas, chouriço e vinho
E vontade de curtir.

Este santo sem altar
- da terra do Rabelais -,
Tem o condão de alegrar
Os amantes de água-pé.

Quase às portas do Inverno,
Dá-nos dias de Verão.
Ò meu S. Martinho eterno,
Pura é minha devoção!

Mais um copinho de três
Só mais um pr’ assossega,
Só mais um de cada vez,
Porque aqui ninguém se nega.

sexta-feira, novembro 14, 2008

QUATRO QUADRAS PINGA-AMOR

Tenho uma quadra singela
Pra te dizer ao ouvido.
Quando ta disser não digas
Que sou rapaz atrevido.

De hoje não pode passar,
Se não passa a validade.
Quero-te dizer, amor,
Que te amo de verdade!

Este amor é tão sincero,
Tão sincero e delicado,
Que já não posso, meu bem,
Tê-lo no peito guardado!

A noitinha à janela,
Vai ser grande a emoção,
Quando de forma singela,
te abrir o coração.


segunda-feira, novembro 10, 2008

S. MARTINHO

São Martinho é português,
Ninguém pode duvidar.
Dá-nos tinto aragonês
E outros vinhos de encantar.


Não há outra santidade
Deste povo mais querida.
Há festas por toda à parte,
Alegres e divertidas.



Castanhas, chouriço e pão,
Tudo regado com vinho!
Haverá melhor razão,
Pra gostar do S. Martinho?


in Barata, Manuel, Fragmentos com poesia, Ulmeiro, Lisboa 2005.

sexta-feira, novembro 07, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 7 de Novembro de 2008 – É claro que prefiro Barack Obama a Mcaine, na presidência dos EUA, ainda que não alimente grandes ilusões quanto às futuras políticas da superpotência, mormente no plano internacional. Os interesses americanos instalados em Washington, e nomeadamente a indústria da guerra, hão-de acabar conflitos e começar conflitos, porque é este o húmus da política americana.

Barack Obama ganhou as eleições, porque os oito anos de Bush contribuíram para desprestigiar os EUA aos olhos dos próprios seguidores, na Europa e no resto do Mundo, pois tantos foram os disparates do patusco George W., que vai deixar o Mundo menos seguro do que antes do 11 de Setembro de 2001. E sobretudo, deixa a América e o Mundo a braços com uma crise financeira deplorável, que se há-de tornar crise económica, e que os povos dos países hão-de pagar com língua de palmo e meio.

O poderoso timbre da voz de Obama ouvir-se-á em todos os cantos do planeta. Até nas aldeias mais recônditas do Quénia. Porém, esta ordem mundial iníqua não será alterada por vontade da poderosa América. A construção de um mundo melhor há-de ser obra dos povos do Mundo. E necessariamente contra os interesses da América instalados em Washington.

E eu queria tanto que a eleição de Obama fosse o prenúncio de um mundo mais justo e pacífico!

domingo, novembro 02, 2008

QUATRO QUADRAS

Vão as horas, vão os dias,
No seu constante fluir;
Mesmo as poucas alegrias
Me visitam a fugir.

Sob a ponte passa a água
a caminho do vasto mar.
Só em mim, teimosa, a mágoa
não tem pressa de passar.

Velozes correm os anos;
Pra onde, não sei ao certo;
só ficam os desenganos
e as marcas do desconcerto.

Que consertar não consigo
Esta vida sem sentido.
O fado é severo comigo;
Mas, não me dou por vencido!

sexta-feira, outubro 31, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 31 de Outubro de 2008 – E cá estou de novo, só com o computador, nesta já longa luta com as palavras, a fim de alinhavar algumas linhas sobre o meu dia-a-dia. Ou melhor dizendo, sobre o que me ocorrer, a partir deste preciso momento.

Iniciei o primeiro Diário, no já distante Verão de 1988. Em Tavira registei impressões sobre o decorrer das férias e sobre a cidade. Rasguei ou perdi, quer as folhas manuscritas, quer, depois, as dactilografadas. Como diria Edith Piaf, je ne regrette rien.

Reiniciei o actual Diário, em 1994.

Com o Manuel Ramos Ribeiro, que quando morreu Ruben A. ficou ainda mais apreensivo com a sua leucemia, discuti largamente algumas das questões que estão subjacentes à escrita de um diário. O Manel tinha a ideia de que a prosa memorialista é pertença dos grandes, seja qual for o domínio em que se movimentem. Eu, que sou um diarista pertinaz, pensava e penso que o diário é um modo de expressão como outro qualquer. E por mais voltas que se dêem, nunca deixará de ser uma narrativa autobiográfica.

O Manel, que foi um distinto latinista, de quem Rosado Fernandes, porventura, se lembrará bem, dizia-me que esta prosa é sempre datada e efémera. Eu sou o primeiro a reconhecer o carácter precário desta prosa; porém, não resisto à tentação de registar, com a regularidade possível, as minhas impressões acerca da vida e do mundo.

Este é um daqueles direitos que nenhum Sócrates me poderá impugnar.

terça-feira, outubro 28, 2008

CONVENTO DE MAFRA


ESTREIA

Este não é só mais um romance. Atrevo-me a declarar "urbi et orbi", que este era o romance que faltava para melhor podermos compreender uma época da História de Portugal. E no entanto, o autor nunca sai do domínio estrito da ficção.
O lançamento é amanhã, na FNAC do Chiado, às 19H00.
Este romance é de leitura obrigatória!
Morais, Vitor Cunha, James Dean Fez Carreira no Bombarral, Ed. Caderno (Leya), Alfragide, 2008

sexta-feira, outubro 24, 2008

DO MEU DIÁRIO

CORRUPÇÃO (Republicação)
O senhor Presidente da República tomou posição, recentemente, sobre a problemática da corrupção, que é, a fazer fé no que se diz, uma praga nacional. É estranho, todavia, que o tenha feito apenas na recta final do seu segundo mandato, ou seja, quando a Constituição o impede de se recandidatar. Receio que daqui a dez anos, outro Presidente esteja a fazer o mesmísssimo discurso em relação ao tema.

É sabido que o Presidente é um homem sereíssimo. Sabemos até que se indigna muito quando alguém faz insinuações a seu respeito. Mas sabemos igualmente que o Presidente não governa o país, quer a nível central, quer a nível municipal. Quando muito, poderá exercer a já conhecidíssima magistratura de influência.

Desconheço a totalidade da comunicação presidencial sobre o tema da corrupção. Para além dos corruptos e corruptores e da trapalhada da corrupção activa e passiva, há todo um mundo de perguntas e respostas, a que não se pode fugir. Aqui deixo algumas. Por que razão a corrupção passiva é mais penalizada que a corrupção activa? Na relação custo-proveito, quem mais beneficia com a corrupção? Que estranhas razões conduzem os corruptores ao silêncio? Sabendo-se o que se sabe do problema, que estranhas razões impedem um combate continuado e sem quartel ao flagelo?

Seria importante saber, igualmente, se só é corrupção o recebimento de vantagens pecuniarias ou outras de natureza patrimonial. Quer-me parecer que há corrupção e da grossa, ora no preenchimento de lugares no aparelho e Estado e nas EP, ora nos lugares de topo das empresas de maior nomeada. Quem estiver atento, basta ler os apelidos nos jornais e nas televisões, para topar que há muitas mãozinhas a influenciar as escolhas. Ás vezes até parece que os filhos de certas famílias são sempre mais dotados que os de outras famílias portuguesas. Ás vezes até parece que a República virou Monarquia.

Era bom que o senhor Presidente, ainda antes de ir repousar, pudesse falar deste tormentoso problema nacional. Aqui fica um tema: " Empregos e Corrupção".

Posted by mpbarata at 07:10 PM Comentários: (0) , OUTUBRO DE 2005, no blogue "CATILINÁRIAS

quarta-feira, outubro 22, 2008

FRAGMENT(À)RIAMEMTE

GRATAS
RECORDAÇÕES

A minha idade é assim – verde, sentada.
Tocando para baixo as raízes da eternidade.

Herberto Hélder







JUNHO

Nas manhãs de Junho,
Quando o sol tudo doirava,
A nossa casa era também
A sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Guardo memória, mãe!,
Da nossa rua térrea
E vejo-te jovem
Algodão dobando
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Nas manhãs de Junho,
Quando o trigo amadurecia
E eu brincava, brincava
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Fazia-te mil perguntas
- Mil ou muitas mais –,
E tu respondias sem enfado
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

E eu era feliz
E tu eras feliz, mãe!
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Do outro lado da rua
À sombra da oliveira.





E O TEMPO FLUÍA


Plácido o tempo fluía,
As cigarras cantavam
E as cerejas amadureciam.


E dentro de nós,
Ai, amiga!,
O divino fogo ardia.


De mão na mão,
Apressados,
Descíamos até ao rio
E era à sombra dos freixos,
Pausadamente,
Que tudo acontecia.



COM A NATUREZA


Nos regatos e nas fontes
Água cristalina bebi.


Nos silvedos dos caminhos,
Amoras bravias colhi.


Nos cocurutos das figueiras,
Sadios figos comi.


Nas sombras amigas dos choupos,
Lindas histórias ouvi.


Mas um dia,
Pelos sonhos embalado,
Fui ver o mundo
E tudo perdi.





O VERÃO


No verão,
Quando o sol
Incendiava os dias,
Era à sombra
Da figueira branca,
Junto ao poço,
Que a nossa família
Se acolhia.


Pacientemente,
Meu avô
Descascava então
Figos de piteira
Que eu comia.


Saciada a sede
E distribuído o pão,
Muito feliz,
Minha avó dizia:
- Abençoado seja o verão!...




MEMÓRIA – 1

(Em memória de minha avó paterna)


Muito erecta em seu balcão,
De cores tristes vestida,
Cantava toda a manhã.

Os cabelos penteava
E rimas lançava ao vento
Pr’ afastar a solidão.

Sua voz tinha magia,
Tristeza muita e profunda,
E cantava todo o dia…

Ó querida velha tonta!,
-Minha esmeralda perdida,
Onde cantarás agora?




MEMÓRIA – 2

(Em memória de minha avó paterna)

Vejo-te sempre ali
Junto à lareira
No teu banquinho sentada
Os olhos muito abertos
Mas já sem brilho.


Vejo-te sempre ali
Junto à lareira
De viuvez vestida
Ansiosamente olhando
Mas não vendo nada.


Vejo-te sempre ali
Junto à lareira
Velho tronco devastado
Pelo simples fluir
Inexorável dos dias.


Vejo-te sempre ali
Junto à lareira
Vivo o lume
Os olhos muito abertos
Mas já sem brilho.




terça-feira, outubro 21, 2008

MATA

AS NOSSAS OLIVEIRAS

Viram-te nascer e conhecem de cor os teus segredos. Foram a tua companhia, silenciosa e segura, durante centenas de anos.

Deram-te sombra, nem sempre boa, é certo, nos tórridos dias do Verão; a luz possível, antes do advento da electricidade; o calor nos Invernos, às vezes, tão longos e rigorosos; o tempero para a panela pobre, que tornava o feijão e a couve menos ásperos; o dinheiro para muitos dos restantes e indispensáveis bens.


E também, é justo que se diga, muito e aturado trabalho e servidão.


De qualquer modo, moldaram-te o carácter. Com elas aprendeste a mansidão e a austeridade. Por isso mesmo, nunca foste dada a sobressaltos e a paixões. Em toda a minha vida, apenas ouvi falar de um crime passional, perpetrado por um homem, a quem o amor de uma mulher não quis servir. Foi muito antes de eu ter nascido e já passei há muito pelos cinquenta.


Benditas sejam para sempre as nossas oliveiras!

sexta-feira, outubro 17, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 16 de Outubro de 2008 – Confesso que o Orçamento de Estado, apesar de saber que vai mexer muito com a minha vida, me estimula pouco. As discussões são muito sisudas e os médiuns que tentam traduzir do clássico para o vulgar, normalmente falham os seus sãos propósitos. E eu, confesso sem constrangimentos, que não sei resistir à secura como as figueiras.

Agrada-me muito mais a leitura de Miguel Veiga, apesar de estar sempre a reiterar as suas raízes portuenses, porque escreve com bom gosto e em português de lei. Por português de lei, entenda-se aqui e agora, um português sem concessões ao analfabetismo reinante, ou seja, o português de Vieira, Garrett, Camilo e Eça. E também o de Mário Dionísio, Mário Castrim e Mário de Carvalho. No fundo, um português com História e Gramática.

Ao contrário de Miguel Veiga, não herdei bibliotecas. Na minha casa reinava o mais puro analfabetismo, porque os meus pais apenas tinham, ainda que não certificadas, as suas competências de pau-para-toda-a-obra. Eu explico melhor: meu pai ajudava a construir casas, pedra a pedra ou tijolo a tijolo; minha mãe trabalhava no campo e tratava da nossa casa, que, sendo pequena e o mobiliário escasso, não lhe dava muito trabalho. Por isso mesmo, ainda tinha tempo para fazer pares de meias, em algodão, para mim e para o meu pai, que era uma forma de poupar e de estar ocupada.

O gosto pelos livros aprendi-o na convivência com os meus amigos. Hoje, também me invadem o espaço, mas estou-me nas tintas para tal facto. De e com livros é feita a minha vida.

domingo, outubro 12, 2008

QUADRAS QUASE POPULARES

I

Ah, Américo Amorim
É um português genial!
Até com cortiça ruim
Enriquece Portugal.

Tem tanta, tanta energia
e é tão empreendedor…
Receio que qualquer dia
dê um ataque ao senhor.

Dizem que está a perder
muitos, muitos triliões.
Tal não pode acontecer,
porque não joga a feijões.

II

Que dizer do madeirense
- Joe Berardo, o poderoso –
na ilha, nem amanuense!,
E em Portugal tão famoso?

Que fabrica este senhor
pra tal riqueza ostentar?
Muito. È ‘speculador,
tem euros a trabalhar.

III

Oh, gosto deste heróis
de jornal e tel’visão!
São verdadeiros faróis
qu’ iluminam a nação.

sexta-feira, outubro 10, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 10 de Outubro de 2008 – Quem não se pode queixar do momento presente é Jean-Marie Le Clézio, a quem foi atribuído ontem o Prémio Nobel da Literatura. E com toda a justiça, para que não fique a pairar qualquer suspeição.

Este grande escritor francês, que publicou o seu primeiro romance LE Procès-Verbal, em 1963, é autor de cerca de cinquenta obras. É, portanto, para além de um grande escritor, um trabalhador original e metódico. Escreveu obras como Désert, Le Chercheur d’Or, Voyage à Rodrigues, etc., que fizeram dele um escritor amado e incontornável.

Nestes dias, a par da queda da bolsa de Paris, vai estar em alta a obra de Le Clézio e a auto-estima dos franceses. Para o autor de Printemps et autres saisons as coroas suecas, independentemente do jeito que sempre hão-de dar, acabam por ser uma ninharia perante a consagração universal.

Il y a des jours heureux. M. Le Clézio!


quinta-feira, outubro 09, 2008

PRÉMIO NOBEL 2008

LE CLÉZIO

Jean Marie Le CLézio, prémio Nobel da literatura 2008, declarou que vai continuar a ler romances e a questionar-se. Com esta atitude, o autor de Printemps et autres saisons, que é também um ensaísta de mérito, demonstra que o Nobel está em boas mãos.

quarta-feira, outubro 08, 2008

DO MEU DIÁRIO




Santa Iria de Azóia, 7 de Outubro de 2008 – Faz hoje quarenta e nove anos que transpus, pela primeira vez, o portão da Escola Primária da Mata. Era um edifício igual a muitos outros, porque o Estado Novo tinha um número muito limitado de plantas de edifícios escolares: uma sala para rapazes e outra para raparigas, ambas precedidas de um amplo vestiário. Um muro de altura variável dividia teoricamente, digamos assim, o mundo dos meninos do mundo das meninas.

Por conveniência do casal de docentes, que eram um casal no verdadeiro sentido da palavra, a primeira e a segunda classes estavam a cargo da Sr.ª D. Ester e a segunda e a quarta a cargo do Sr. Professor Falcão, numa mistura muito saudável de rapazes e raparigas. Só voltaria a ter uma turma mista, anos mais tarde, quando frequentei a Secção Preparatória para ingresso nos institutos comerciais.

As salas eram muito frias e escuras, no Outono e no Inverno, ainda que estivessem voltadas a Nascente. Não cheguei a conhecer naquela escolinha querida, onde agora é desenvolvido o projecto educativo “Belgais”, os benefícios da electricidade; porém, guardo gratas recordações dos anos que a frequentei, porque nunca mais o convívio seria idêntico, nas outras escolas que frequentei.

E é talvez aquele convívio pueril, que me faz recordar aquele tempo e aquele espaço com alguma saudade.

terça-feira, outubro 07, 2008

SONETO

NUNO ÁLVARES PEREIRA

Nuno foi o braço e a mente

Que Portugal defendeu
Da castelhana gente.
Títulos e riquezas recebeu
De seu amigo João de Avis,
Cujo arnês envergou
Quando Leonor, mãe de Beatriz,
Cavaleiro o armou.
Destemido herói medieval,
Escolheu o caminho certo
E terçou armas por Portugal.
Ilustre patrono da infantaria,
Nuno foi o grande arquitecto
Da lusitana soberania.

sexta-feira, outubro 03, 2008

MEMÓRIA

CASTELO BRANCO 2

E havia aqueles dois senhores,
que eram da PSP e trajavam à paisana:
um era o senhor Pudico e o outro era o outro.
Tinham por missão zelar pelos costumes
e impor o respeitinho.
Visitavam o subversivo Vidal,
que vendia muita prosa vil
e acolhia perigosos homens do contra:
o alfaiate Matos Pereira,
o industrial Armindo Ramos
e o advogado João Vieira.
E outros, que o quiosque estava licenciado
e a entrada era livre.

O senhor Pudico usava gabardina, no Inverno,
como o inspector Colombo de uma série televisiva,
e chapéu todo o ano, por respeito à convenção.
O outro, já não me recordo se tinha gabardina,
mas também usava chapéu. E óculos
para poder ver melhor os títulos subversivos,
que um tal Vilhena teimava em publicar:
O Filho da Mãe,
Marmelada,
A Vaca Borralheira,
As Canetas dos Amantes, etc.
E quedo-me por aqui para não alongar o rol.

O senhor Pudico e o senhor outro,
que levavam a sua nobre missão a sério,
eram pessoas muito sós,
porque, lá bem no fundo, só se tinham um ao outro.
A cidade olhava-os com desdém,
porque o senhor Pudico e o senhor outro
eram o retrato vivo da vigilância, num país vigiado
até nas coisas mais simples e íntimas.

O senhor Pudico e o senhor outro não liam livros.
apreendiam livros.
O senhor Pudico e o senhor outro não conversavam.
ouviam conversas
O senhor Pudico e o senhor outro não viviam,
andavam por ali,
enquanto a cidade vigiada
trabalhava, lia e conversava.

domingo, setembro 28, 2008

CASTELO BRANCO

NA RUA DE SANTO ANTÓNIO

Era nas águas-furtadas a nossa casa.
Era velha e com poucas condições,
mas tinha uma clarabóia,
por onde, quando havia, entrava a luz do sol.
Era no número vinte e um da rua de Santo António,
quase no coração da cidade.
No rés-do-chão,
era a mercearia do senhor António Canaveira.

Em frente,
havia uma agência de viagens,
onde trabalhava uma rapariga vistosa,
com quem, na solidão dos meus pensamentos,
fiz as primeiras grandes viagens.
Era uma rapariga alegre,
que vestia roupas alegres
e tinha um sorriso alegre e branco e amplo
e um corpo ágil de gazela.
Um dia a agência fechou as portas
e a rapariga mudou de ares,
qual ave de arribação.
Se me tivesse pedido,
apesar da idade,
creio bem que tinha partido com ela.
Ah, como batia forte e apressado,
naqueles dias,
o meu pobre coração!

E o tempo,
esse inigualável fazedor,
fluía placidamente.
Placidamente, que é assim que deverá fluir o tempo.
E tudo era normal e rotineiro,
até a passagem diário do batalhão,
o seis de caçadores,
que passava na rua de Santo António
ao som do tã…tão…tã-ta-ra-rã dos tambores
e do op, dois, erdo, direito dos cabos milicianos.

A nossa casa era nas águas-furtadas
do número vinte e um da rua de Santo António
e era a foz de um rio
de gente
que ali vinha pedir um pequeno favor,
como visitar, no hospital, um doente
ou comer um simples prato de sopa.

Aquelas águas-furtadas eram a casa da gente.

sexta-feira, setembro 26, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 26 de Setembro de 2008 – Falei há momentos com o poeta Daniel Abrunheiro – o que acontece agora com alguma regularidade –, a quem perguntei se conhecia o pintor viseense Luís Calheiros. Que sim, que conhecia e que até frequentam o mesmo café. Com um bocadinho de sorte, ainda vou retomar a conversa com o Calheiros, que interrompemos no final da nossa estada no SISMI, na bonita cidade de Tavira.

Conhecemo-nos nas Caldas da Rainha, no antigo Regimento de Infantaria -5, no Outono de 1973. Fomos da mesma companhia e, apesar de não sermos do mesmo pelotão, tínhamos uma relação de camaradagem muito estreita. O Luís dormia muito e por isso mesmo ficava sujeito a algumas patifarias de instruendos mais divertidos. Ali conhecemos e fomos amigos do pintor Aurélio Veloso, instruendo como nós, que havia de desertar das fileiras meses depois. Ainda me enviou de Braga, donde era natural, um trabalho seu, que guardo religiosamente. Nunca nos voltámos a reencontrar.

Em Tavira, o Luís Calheiros arrendou quarto junto ao Gilão, na margem esquerda. Ali nos encontrávamos para conversar e para as saídas de fim-de-semana. Foi naquele quarto que o Luís Calheiros fez uma caricatura da minha pessoa, que baptizou de “projecto para um pisa-papéis” e que eu guardo, numa moldura, com fé idêntica, à do trabalho do Aurélio Veloso.

Pela mão do Daniel, um dia destes, vou mostrar a caricatura ao Luís.

terça-feira, setembro 23, 2008

FRAGMENT(Á)RIAMEMTE

INTRÓITO
1

De e com livros tem sido feita a minha vida:
Bons, maus, e assim-assim.
Neles, aprendi metade do pouco que sei;
Sem eles, não sei dizer o que de mim seria!

Outro homem, decerto, seria…

2

Com Fonseca, Manuel como eu,
No culto das musas me iniciei:
Ainda hoje vejo passar a tuna do Zé Jacinto
E me delicio com as alvas rolas,
Que Maria Campaniça escondia sob a blusa.

Por mil anos que um homem viva
Há metáforas que nunca morrem nem esquecem.

3

A prosa chegou com a colecção seis balas.
Só depois chegou Ferreira de Castro
E o seu casto português.
Fiz-me amigo de Manuel da Bouça e de Ricardo;
E, sobretudo, de Marreta e Horácio.

(E é chegado o momento de dizer,
Que se dane o espanhol que não quer
Referências culturais na poesia.
Que se dane pois o espanhol,
Cujo nome já esqueci).



4

Santareno,
Veio ainda antes de Vicente!
Primeiro, o Édipo de Alfama;
Só depois, chegou o pai de Antígona.

Que milagre terá acontecido?

5

De e com livros tem sido feita a minha vida.
VÁRIA



AMAR

É estar sentado,
Contigo,
À porta da nossa casa
Numa noite de Verão.
E ao luar,
Absorto
No voo
Dos meus pensamentos,
Comer tâmaras,
Em paz.


E saber,
Amor,
Que esperas
Que a brisa passe
E eu procure,Ternamente,
A tua face.



DESENCONTRO


Sempre desejei
Um coração
De camponesa
Para gémeo do meu.

Só assim,
Pensava eu,
Poderia sentir,
Plenamente,
O alor
E o respirar
Da terra.

Outra coisa;
Porém, ditou
O poderoso destino.
E por isso
Vivo
O desatino
Dos desencontros.

Até um dia…
Ou talvez
Para sempre!





ROUXINOL


Eu tenho inveja de ti

– Ó sublime rouxinol! -,
Que voas
E cantas
E longe
E alto levas
O teu canto!

Enquanto eu
– Simples aspirante a cantor –,
Sou incapaz
De dar asas
E levar longe
E alto
O meu humilde canto.

Eu,
Humano
E sensível,
Tudo faço
Ao rés-da-terra.










INSTANTES


Quando o sol –
O grande colorista de Cesário –
Inunda o dia
E os passarinhos
Dão concerto de piano
Nas roseiras
E nos arbustos
Do meu jardim,
Saboreio
Por vezes
A alegria.

É então
-Gozando as delícias da preguiça -
Que mais concordo com Adília.

O resto,
Obviamente,
É conversa.




DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 21de Setembro de 2008 – Por muito esforço que se faça, o real quotidiano impõe-se-nos, muitas vezes, de forma tão contundente, que se torna difícil fintá-lo. Aqui ficam, para que conste, algumas notas sobre esse inevitável real:

A primeira concerne ao General António dos Santos Ramalho Eanes, meu compatriota, que nunca ajudei a eleger, mas cuja verticalidade sempre admirei. Passado o desvario dos últimos tempos do seu segundo mandato como Presidente da República, nomeadamente o episódio da fundação do PRD, soube afastar-se da ribalta e constituir-se como uma espécie de reserva moral desta velha Nação. A recusa de 1, 3 milhões de euros, que os tribunais lhe atribuíram por ter sido espoliado, demonstra a grandeza deste Homem. Outros, que o combateram e lhe negaram aquilo a que tinha direito, seriam incapazes de um gesto idêntico.

A segunda diz respeito a Maria Keil, que conheci nos idos de setenta do século passado, numa Repartição de Finanças, onde trabalhava então. A grande pintora e ceramista, viúva de Francisco Keil do Amaral, deslocara-se a Moscavide para tratar de um assunto do agora defunto Imposto Sucessório e foi atendida por este vosso amigo. Já teria setenta e tal anos, mas mantinha uma grande frescura, como se o tempo passasse e não deixasse mossas. Conversámos de várias coisas: Camarate, José Gomes Ferreira, Cochofel e Carlos de Oliveira. Em circunstâncias mais ou menos idênticas havia de conhecer Fernando Campos, alguns anos mais tarde.

Maria Keil, para quem não saiba, pintou os primeiros azulejos para o metropolitano de Lisboa e nunca recebeu um chavo. Parece que os engenheiros, economistas e gestores que mandam no Metro - e também no país -, se preparam para destruir aquilo que generosamente a pintora e ceramista doou à cidade. Isto não é comportamento de gente civilizada. Esta atitude é mesquinha e é uma afronta à obra de uma grande criadora. Indmissível!!!
E por fim, o novo Código do Trabalho, que há-de fazer alguns portugueses ainda mais desgraçados, deixando-os nas mãos dos nossos audaciosos e competentes patrões. Foi aprovado pelo PS e com a abstenção matreira e oportunista do PPD-PDS, ou seja, com o sim de um dos manos e o nim do outro. Em nome de quê, concretamente?

E por agora é tudo.

domingo, setembro 21, 2008

DOS PRESSÁGIOS

Santa Iria de Azóia, 4 de Setembro de 2008 – Num blogue famoso, Causa Nossa, um constitucionalista famoso, Vital Moreira, escreve que os sindicatos da função pública querem “nutridos aumentos” para o ano que vem, que é ano de eleições.

Este senhor Doutor Vital Moreira, que em tempos foi militante do PCP – um ilustre militante do PCP -, que ficou famoso pelos seus inflamados discursos, na Assembleia da República, tornou-se posteriormente um político próximo do PS, que é o mais anticomunista dos partidos portugueses. Não espanta, por isso mesmo, que tenha pelos trabalhadores da Administração Pública a alta estima e consideração que os seus novos amigos têm demonstrado no Governo.

Não sei como vive, nem isso tem qualquer interesse, o ex-camarada Vital Moreira. Provavelmente, vive bem e à custa de muito, generoso e douto trabalho. E provavelmente, coabita bem – ele que é um professor de direito - com as leis iníquas que vão sendo produzidas para fustigar o mundo do trabalho.

Por isso me parece pertinente a pergunta: o que é que os professores de direito têm a ver com a justiça?

quarta-feira, setembro 17, 2008

HÁ CINQUENTA ANOS

Há cinquenta anos,
quando nós ainda éramos todos,
eu tinha seis anos
e era feliz.

Nunca festejávamos os meus anos.
Eu só sabia que fazia anos,
porque a minha mãe me dizia:
“hoje fazes anos, filho!”
E eu, contente por fazer anos,
corria pela rua
e anunciava aos rapazes e às raparigas
que era o dia dos meus anos.

Nós brincávamos sempre na rua,
que era o prolongamento natural das nossas casas
e que tinham quase sempre a porta semiaberta ou semicerrada
que para o caso tanto faz.
Era a rua Nova da Escola,
que não tinha ainda estes paralelos ásperos,
que continuam a causar-me irritação.
A rua era térrea
e quando chovia ficava lamacenta
e nós brincávamos com a água das poças
e por vezes chapinhávamos
e sujávamos as saias alvas das raparigas já casadoiras
e fugíamos para nos rirmos delas.

E construímos casinhas,
imitando os nossos pais
(quase todos profissionais da alvenaria).
E nelas mostrávamos o peixe às raparigas
e elas nos mostravam o cochicho,
sim, peixe e cochicho,
que era assim que puerilmente denominávamos os nossos sexos

Hoje já não somos todos!
E os que somos
já não nos alegramos com a lhaneza de outrora.
Agora, às vezes, fazemos anos,
para nos dizermos que ainda somos;
porém, arredios da simpleza e da alegria
de, quando criança, minha mãe me dizia:
“hoje fazes anos, filho!”
E eu corria pelo interior do sol de Junho
a dizer aos rapazes e às raparigas
que fazia anos.

Vertiginosamente,
a névoa vai tomando conta dos nossos olhos
e os nossos corações deixaram,
há muito tempo,
de rejubilar com o alvorecer dos dias.






domingo, setembro 14, 2008

SESIMBRA



Quando irado o mar te zimbra
O povo e o casario,
Tu sabes bem, ó Sesimbra,

Lutar com bravura e brio!



Quantas vezes, ó beleza,
Punida pelos vendavais,
Te bateste com nobreza,
No meio de gritos e ais?!



Linda princesa do mar,
Ó sedutora Sesimbra,
Tua beleza sem par
Só com o meu canto timbra!

sábado, setembro 13, 2008

COM A NATUREZA

Nos regatos e nas fontes
Água cristalina bebi.


Nos silvedos dos caminhos,
Amoras bravias colhi.


Nos cocurutos das figueiras,
Sadios figos comi.


Nas sombras amigas dos choupos,
Lindas histórias ouvi.


Mas um dia,
Pelos sonhos embalado,
Fui ver o mundo
E tudo perdi.

quarta-feira, setembro 10, 2008

SE EU FOSSE COMO CAMÕES

Republicação


Se eu fosse como Camões,
Havia de te fazer,
Amor, versos geniais,
Muitas trovas de encantar!

Pintar-te-ia morena
E de outras cores sadias.
Blusa vermelha decerto
E calças de ganga azul.

Assim irias à fonte
- Discreta como se vê -,
Leda e bela ao meu encontro.

E haveria de deixar
Teu rosto ruborizado
Com mil beijos, mil ou mais.

quinta-feira, setembro 04, 2008

EPITÁFIO

Eu sempre quis
que a minha voz
fosse clara,
melodiosa,
única.

E que as palavras
ganhassem
com o meu timbre
a graça
e a leveza
dos pássaros.

E voassem
e se ouvissem
longe
e alto.

Eu sempre quis.

quarta-feira, setembro 03, 2008

RAFAEL ALBERTÍ

CANCIÓN 5

Versos largos, versos largos,
caminos interminabes
pies y pulmones cansados.

Me basta una sola línea
para la risa o el llanto.
Y hasta me sobra essa línea
para el llanto.

Cuando uma lágrima corre,
o dejo correr en blanco.

Rafael Albertí, Baladas y Canciones del Parana, Alianza Editorial, Madrid, 1989.

VIANA DO CASTELO

SANTA LUZIA

A CORUÑA

Torre de Hércules

quinta-feira, agosto 28, 2008

NAMBUANGONGO

Ansiosos,
como loucos,
esperávamos a DO.

E quem não recebia carta
ou aerograma
ficava mais triste
e só.

Era a puta da guerra
- já sem guerra -,
no degredo
de Nambuangongo.

Lá,
onde até o céu
parecia mais alto
e inclemente.

Lá,
onde o napalm
devastara a paisagem
e matara gente.

Lá.

segunda-feira, agosto 25, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 25 de Agosto de 2008 – Há muitos anos que conheço o nome de António Osório. Sabia-o poeta, com ligações a Setúbal e à Arrábida e também à advocacia. Lera meia dúzia de poemas seus em publicações periódicas, mas nunca ousara comprar uma obra sua.

Graças ao Daniel Abrunheiro, grande poeta e homem de generosidade muita, comecei a comprar as obras de Osório, um pouco ao acaso, e tenho-o lido com alguma avidez. Penso que já o cataloguei como poeta da amabilidade, num outro texto deste meu diário; porém, de Osório queria hoje dizer que é um poeta de recorte clássico, que nos presenteia com uma poesia de grande equilíbrio e serenidade.

De Osório estou a ler a obra VOZES ÍNTIMAS, que sendo um conjunto de textos acerca das pessoas com quem o poeta conviveu e dialogou, ajuda a escorar a opinião que expressei no parágrafo anterior. Neste livro poderá o leitor ler também quatro sonetos de Vivaldi, que correspondem às quatro estações, integrados num texto mais vasto sobre as vicissitudes que conheceu a obra do célebre compositor.

Osório é um daqueles poetas que não podemos ignorar, sob pena de ignorarmos alguma da grande poesia do século XX.


domingo, agosto 24, 2008

DO MEU DIÁRIO

Charneca da Cotovia, 24 de Agosto de 2008 – O país anda sobressaltado com a onda de assaltos, e, sobretudo, com o grau de sofisticação de alguns deles. Algo começa a fazer-se com requinte no reino de Portugal. Não há recurso às novas tecnologias propriamente ditas, mas as coisas fazem-se, nalguns casos, com o uso de muita massa encefálica.

Eu não sei se é impressão minha, mas a presente vaga parece ter-se intensificado com a divulgação da lista dos mais ricos de Portugal. Claro que não tem nada a ver, porque crime é crime, e as reivindicações fazem-se nos locais apropriados. Mas que esta vaga de assaltos é obra de bandidos que esta sociedade vai sornamente gerando, não tenho quaisquer dúvidas.

Os partidos de direita aproveitam esta magna ocasião para desancar no governo de esquerda dito, mas com alma e práticas de direita. Não há-de ser por acaso que o poder é sempre exercido pela trindade PS, PPD-PSD e CDS-PP, que vai (des)governando o reino desde os idos de 1976. E com soluções idênticas, mais coisa, menos coisa. No caso vertente, com mais dois mil polícias.

Eu não tenho o hábito de reflectir acerca destes fenómenos, mas alguma coisa deve estar mal, quando todo o mundo ocidental investe tanto em polícias, armamento e equipamentos de vídeo vigilância. E até em condomínios fechados, que são os castelinhos que, de certo modo, são réplicas modernas dos castelos medievais.

Por que razão ou razões andarão os títeres que nos governam com tantas preocupações de segurança? O que motiva esta onda de assaltos? Eu não sei o quê, mas algo fede por aqui. Eu vou-me embora para Elsinor. Lá, onde o príncipe também tem dúvidas!

quarta-feira, agosto 20, 2008

DO MEU DIÁRIO (NOTA AOS LEITORES)

Santa Iria de Azóia, 20 de Agosto de 2008 – Reitero a ideia – e pelos vistos partilhada -, de que a realidade actual do meu país me estimula pouco. E não é por estarmos em pleno período de férias.

Eu escrevi e quero dizer pe-rí-o-do e não "priudo", que é como diz a maioria dos nossos concidadãos, referindo-se àquela coisa mensal que as nossas concidadãs têm na idade fértil. Confesso que vou aos arames com o dito “priudo”, ou antes, ia, que agora já vou menos, tal como acontece com o tu “comestes”, bebestes”, “cantastes” e ainda com a sintaxe e a conjugação do verbo haver, do género “houveram” muitas trovoadas naquele mês de Agosto ou vocês “hádem” ver como elas mordem. Isto para não falar nos “aitems” três e quatro ou na Torre “Aifel”, no Sadam “Hussain”, etc.

É obvio que não sou um fundamentalista da gramática e tão-pouco dono da língua portuguesa. Quer-me parecer, no entanto, que sempre é preferível o rigor excessivo ao moderado laxismo. E falando de rigor, não sei se vou dizer alguma barbaridade, mas parece-me que os grandes problemas nacionais resultam do fraco conhecimento da língua portuguesa e do nosso consabido desprezo pela matemática. E até talvez do pouco interesse que dedicamos à filosofia.

Talvez.

domingo, agosto 17, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 17 de Agosto de 2008 – Há muitos anos que não me ausentava de Roma por um período de três semanas. Eu até pensava que a vida se tornaria mais monótona e sensaborona sem a minha presença. Verifico ao fim destas três semanas de lazer que se tratava da mais pura ilusão. Não houve golpes de Estado e tudo funcionou na perfeição. Estou a pensar que, mais dia, menos dia, vou mesmo morar o mais longe possível da Cidade.

A actualidade não me motiva. Portugal é um país excessivamente repetitivo. Repetitivo pela negativa, diga-se em abono da verdade. Por isso mesmo, sinto-me pouco inclinado a comentar a actualidade que, se o acordo ortográfico já estivesse em uso, se poderia escrever atualidade.

No último “Jornal de Letras”, um magnífico reitor de uma universidade qualquer publicou umas quantas teses que, na sua douta e magnífica opinião, deveriam ser acolhidas pelos “fabianos” que vão vociferando contra o dito acordo. Eu estou em crer que o senhor deverá ser “Professor Doutor Engenheiro”, de escola contrária à do eng.º Jorge de Sena (o que pensaria Sena acerca do Acordo Ortográfico?), ou então “Professor Doutor Economista”, porque de linguística não deve perceber muito.

No mesmo número do mesmo jornal, Eugénio Lisboa, de uma forma claríssima e brilhante, disse aquilo que tinha de ser dito e ponto final. Procurai o “JL” e lede, caros leitores, o magnífico artigo de Eugénio Lisboa! É uma ordem, ouvistes?

Deixo o registo que seria o de José Gomes Ferreira e vou aqui rememorar aquele episódio contado por Raul Brandão nas Memórias. Diz-se que quando a rainha velha, a sereníssima Maria Pia, saiu de Mafra para apanhar o iate real na Ericeira, foi vista com um casqueiro de Mafra debaixo do braço. Eu creio que Brandão leu bem o episódio, quando diz que Maria Pia, que fora toda a vida uma perdulária etc. e tal, e que finalmente percebera o valor de um simples pão. A minha filha, que estuda Brandão, acha o episódio muito ternurento e acha que Maria Pia queria levar consigo um pedaço do país. Um pedaço perecível do país, digo eu, que nestas coisas vou mais com Sancho Pança.

Reinstalado nos arredores de Roma, amanhã – segunda-feira –, cumprirei o ritual. Irei reencontrar os amigos. No forum, para dois dedos de conversa e alguma inofensiva maledicência.



MAHMOUD DARWICH

L' ENFANT RÉFUGIÉ



Algumas estrofes



Racontez! Peut-être me rappellerais-je

quelque image de mon pays,

quelque souvenir déposés

sur mes lèvres

et que ne puis pas exprimer.





Mais je ne me rappelle pas

«les jours de sérénité».

Évoquez-les encore,

et que leur échoà mes oreilles parvienne!





Parlez, et que vos paroles réveillent

sur mes lèvres, écho à leur appel strident,

un bruissement à l'unisson

de leur murmure.





Non, li m'est impossible

de faire revivre leur mémoire;

mais je sais qu'ils sont l'espérance

òu s'abreuve encore le monde

qui a nourri mon père.





........................................





Racontez-moi mon pays

ce pays qui semble un rêve

où se perd, où se noie

l'horizon de ma vie.





........................................





in La Poésie Arabe, Éditions Phébus, Paris, 1995

segunda-feira, agosto 11, 2008

DO MEU DIÁRIO

TERMINAÇÃO DO ANJO


Passada a surpresa do “estremeção” inicial, a leitura de TERMINAÇÃO DO ANJO de Daniel Abrunheiro decorreu-me sem sobressaltos, embora me tenha exigido uma grande concentração.

Apesar de já ter no activo muitas narrativas e algum cinema, nomeadamente de autores como Arthur Conan Doyle, Poe, Agatha Christy e Alfred Hitchcok, seria excessiva presunção da minha parte afirmar que nada me surpreendeu e não reconhecer a originalidade deste excelente autor de língua portuguesa. Se a leitura me decorreu sem sobressaltos, isso fica a dever-se à engenhosa forma de conduzir a narrativa, que tornou Camilo Ardenas e a sua actuação perfeitamente
verosímeis.

A surpresa maior há-de o leitor encontrá-la no diálogo entre Camilo Ardenas, o anjo terminador - de António Tomás Jesus Duque, Ismael Janeiro Lonas Arco e Orlando Gil Coura Serafim, ourives o primeiro, arquitecto o segundo e professor de latim o último – e Francisco Gabriel Andrade Corvo, o arcanjo, que trás colado ao nome outro Gabriel, bíblico e anunciador de vida.

O longo diálogo entre o anjo Camilo e o arcanjo Gabriel, que poderia ser apresentado sob outra forma, é em minha opinião uma intrusão curiosa do género dramático neste romance, como que a demonstrar que em literatura não há géneros puros.

O próprio título merece algumas palavras, porque permite que se instale desde o início alguma ambiguidade, que só vai desaparecer com a terminação do anjo terminador. Dir-se-ia que o investimento literário começa no próprio título.

Os futuros leitores de Daniel Abrunheiro, aqueles que desconhecem a sua produção lírica, hão-de, se de Eça tiverem sido leitores, notar o mesmo gozo na utilização inusitada das palavras, num romance onde não falta sequer uma ou mais referências à Senhora D. Patrocínia da RELÍQUIA.

Aqui ficam estas notas e uma pequena relação de verbos inventados por Daniel: “douraverdear”, “carneirar”, “mesmerizar”, “esponjar”, “nadegar”, “ginvermutar”, etc., para abrir o apetite a potenciais leitores.

Abrunheiro, Daniel, Terminação do Anjo, Portugália Editora, 1º Ed., Lx. 2008.


domingo, agosto 03, 2008

SESIMBRA




1
Quando o sol te morder a pele
E sentires o chamamento do mar,
Não hesites. Vai.

2

O meu reino daria
Por uma varanda sobre o mar.

Em Sesimbra,
Pois claro!

3

A proximidade do mar me basta.

Infelizmente,
Falta-me o pulmão
Para o desafiar
Em possantes braçadas.

4

Nunca aprendi a nadar.

Ah, os pequenos nadas
Da já longínqua infância!

5

Talvez um dia,
mãe,
Te traga comigo a ver o mar.

…Em Sesimbra.

Só então saberás
Quão bom seria
Saber nadar.

Sim, só então.



domingo, julho 27, 2008

VOU DE FÉRIAS

Caras Amigas
Caros Amigos
Caros Leitores

Durante 15 dias, estarei a banhos; porém, convosco no pensamento.

Um grande abraço para todos.

quinta-feira, julho 24, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 23 de Julho de 2008 – Vasco Graça Moura persevera – e bem -, na sua já longa luta contra o acordo ortográfico (AO), que umas quantas criaturas de Deus querem, à viva força, que entre depressa em vigor.

Eu raramente estou de acordo com o tradutor de Dante e Petrarca; sobretudo, em matéria de política partidária, porque o considero muito fiel ao PPD-PSD, seja qual for o cabo que estiver de serviço. Nas coisas da cultura, a música é outra, obviamente. VGM até pode ter inúmeros defeitos – e tem-nos com certeza -, mas, no domínio das letras, é um trabalhador incansável e de grande qualidade.

Subscrevi o documento contra o AO que está a circular na NET e voltaria a subscrevê-lo, porque as línguas não necessitam de despachos, decretos e leis para viver e morrer. As línguas todos os dias vão morrendo e renascendo, porque todos os dias caem em desuso determinadas palavras e todos os dias surgem palavras novas. Mas, no presente, não é este o ponto.

O AO que os governantes querem implementar a todo o vapor, como já foi amplamente explicado, é um mar de incoerências e só vai lançar a confusão entre os utentes do código escrito. Para nada, porque a descontinuidade geográfica já criou umas quantas variedades do português, que, a longo prazo, se constituirão como novas línguas. E este é que é o ponto.

quarta-feira, julho 23, 2008

SÓ UMA ROSA

Há dias,
Despudoradamente,
Roubei um verso
Ao poeta Albertí.

Coisa sem importância
Dirão os (des)entendidos
Que pululam
Por aí.

Roubar, meu amor,
Só na loja das flores,
Uma rosa
Para ti!




segunda-feira, julho 21, 2008

QUADRAS DE FIM DE ÉPOCA

ESTA EQUIPA DO BENFICA

Esta equipa do Benfica
Faz-me mal ao coração.
Quando o conjunto claudica
Aumenta-me a pulsação.

É tão triste e doloroso
Ver esta equipa perder.
Ó meu Benfica famoso
Que te deram a beber?

O grão Maestro, Rui Costa,
Era digno de melhor.
Não merecia esta bosta,
Um Benfica perdedor.

Vieira que vá à vida
Que não tem classe nem jeito.
A nação anda perdida,
Vai ter angina de peito.




CINCO GOLOS DE RAJADA

Cinco golos de rajada,
Em coisa de meia hora,
Deixa a malta envergonhada
E Portugal mais à nora.

Este Benfica sem alma
Até nos faz impressão.
Não nos venham pedir calma.
Por favor, mais calma não!


sábado, julho 19, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 19 de Julho de 2008 – Este ano tem-se mostrado muito produtivo, em termos literários, na minha roda de amigos. O João Teixeira, que publicou RO(S)TOS DO MEU PAÍS, no já longínquo ano de 1972, publicou o mês passado REBUÇADOS, CARAMELOS E SONETOS, dando continuidade à sua veia satírica e humorística, sempre muito atento ao mundo que o rodeia.

O Daniel Abrunheiro publicou a TERMINAÇÃO DO ANJO, na renascida Portugália, que teve apresentação pública, em 24 do mês transacto. Afazeres múltiplos têm-me impedido de fazer uma leitura atenta deste romance, escrito num português imaculado e onde o génio inventivo de Daniel está patente do princípio ao fim. TERMINAÇÃO DO ANJO é um romance inquietante cuja leitura exige tempo e reflexão.

Ontem, foi a vez do Vítor Morais, um jurista tributário, a anunciar-me o lançamento para breve do seu primeiro romance JAMES DEAN FAZ VIDA NO BOMBARRAL. Terei sido o primeiro leitor deste romance, ainda antes da versão final. Sempre achei que merecia publicação e o Zé Ribeiro considerou então o título um verdadeiro achado. A seu tempo se dará notícia aqui deste romance do Vítor Morais, que vale muito mais que o seu precioso título.

Lá para o fim do ano, moi-même, darei à estampa FRAGMENTOS COM POESIA – II.

quinta-feira, julho 17, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 17 de Julho de 2008Por obra e graça de declarações de Vítor Constâncio, constante governador do Banco de Portugal, foi abalada a proverbial acalmia lusitana. É certo que houve 1383-1385, o nosso século de oiro, 1640, 1820 e a Guerra Civil subsequente, que correu de feição aos liberais de então, 1910, e, finalmente, 1974; porém, passado o bruá que as revoluções por cá provocam, constata-se que o nosso povo é efectivamente de costumes brandos e pouco dado a rupturas violentas. E as chamadas elites, rapaces, acabam sempre por se apropriar do pouco que o país produz e tem.

Omito propositadamente 1926 e outras datas trágicas, como foi, sem quaisquer dúvidas, o dia 23 de Maio de 1536 – o dia da concessão da Bula que criou a Inquisição, em Portugal. Omito, portanto, alguns dos marcos mais ignominiosos da nossa História colectiva, que só serviriam para demonstrar como a nossa gente aceitou abjectas servidões.

É muito da mentalidade portuguesa os pais dizerem aos filhos:”tem juizinho, não te metas em avarias; vê lá, não dês cabo da tua vida”. Não conheço pais que tenham dito: “filho, nunca te submetas aos tiranos; não tenhas medo de enfrentar os poderosos e as injustiças; nunca aceites viver de cócoras”. É evidente que haverá excepções, mas encontrá-las-emos, seguramente, ao nível das elites. O povo, que os românticos e os partidos revolucionários do séc. XX mitificaram, evita, sempre que pode, a confusão.

Não quer isto dizer que, perante certas situações limite, o povo não adira a determinadas formas de luta, incluindo, naturalmente, as violentas. Eu venho dizendo, de há vários anos a esta parte, que tudo se vai decidir de novo na rua. E há-de ser a nível europeu, como notava, recentemente, Odete Santos, num programa de televisão. E bem podem ir construindo os seus castelinhos modernos – os chamados condomínios fechados –, com segurança privada e outras coisas de mentalidade medieval, que um dia as ruas voltarão encher-se e os audazes e valentões, que tudo controlam e dominam, perante as multidões ululantes, hão-de fazer de novo nas calças.

quarta-feira, julho 16, 2008

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 15 de Julho de 2008O caso Ingrid Betancourt interessa-me, mas apenas na mesma medida em que me interessam outros casos de sequestros. Por princípio, sou contra todo e qualquer tipo de sequestro, porque não concebo sequestros bons e sequestros maus, em função das colorações políticas dos sequestradores.

No caso da colombiano-franca, há qualquer coisa que não joga certo. Depois de ter sido dada a conhecer ao mundo, através de fotografias que asseguravam doenças terríveis e provavelmente mortais, eis que e senhora aparece de boa saúde e em grande forma. E elegantíssima, dentro de roupas de puro estilo parisiense, para receber a Legião de Honra das mãos de Sarkosy.


Clara Rojas, por exemplo, poderá ajudar a esclarecer muita coisa; temo, todavia, que não haja muitos interessados em conhecer a verdade em toda a sua extensão. Há por aí muitos espíritos arrebatados aos quais interessam apenas meias verdades e as verdades reveladas por determinadas personagens. “O que se passou na selva, deve ficar enterrado na selva”, terá dito Ingrid. Provavelmente, porque sim.

Verdade e mistério, cá para mim, nunca andaram de mãos dadas.

Certo, certo, é que acerca de Guillermo Rivera Fúlquene nem uma palavrinha, nos sítios do costume.

terça-feira, julho 15, 2008

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 23 de Maio de 1994 – Todos os anos, em Maio, me reencontro com Cesário Verde. Grato reencontro, diga-se, porque me permite falar do maior poeta português do séc. XIX, e, quiçá, um dos maiores da nossa História da Literatura.
Ouve-se dizer, com alguma frequência, que Portugal é um país de poetas. Não compartilho desta opinião, que rejeito totalmente, porque no século passado só temos quatro nomes para reter: Garrett, Antero, António Nobre e Cesário Verde. Então parece-me mais adequado falar-se de país de versejadores. Mas é de Cesário que quero falar.
Foi curta a vida de José Joaquim Cesário Verde. Decerto, porque Deus não podia dispensar, junto de si, a voz pouco hierática do autor d' O Sentimento dum Ocidental, para que tudo no céu continuasse eternamente equilibrado. Deixou, contudo, marcas indeléveis na sua passagem breve pela Terra. O Cesário se haveriam de referir dois dos heterónimos de Pessoa: Campos e Caeiro. Um para lhe chamar «Mestre»; o outro, para lhe lamentar a desgraça de ser um camponês preso na cidade, ainda que nela pudesse deambular em liberdade, mais palavra menos palavra.
Ambos tinham razão: sem Cesário não tinha existido Campos tal como o conhecemos; e na verdade, Cesário, o mais citadino dos nossos poetas oitocentistas, amava o campo e a vida em contacto com a Natureza. E á à luz da dicotomia campo/cidade, notada por David Mourão-Ferreira, que é verdadeiramente produtivo ler a poesia de Cesário.

sexta-feira, julho 11, 2008

A PÁTRIA (IN)GRATA

Republicação


Pertenço a uma geração

Que tudo deu à pátria
E da pátria só agravos recebeu.
Nasci sob a pata e a bota
Do déspota de Santa Comba;
A Angola fui parar,
Longe da pátria e dos meus;
E lutei pela democracia
E por uma pátria fraterna.
Rapazes de cueiros dizem agora
Que gozo de muitos privilégios.
E eu digo (lhes) livremente:
A puta que os pariu!
A puta que os pariu!

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 11 de Julho de 2008 – Grande e sonorosa foi a solidariedade manifestada a favor de Ingrid Betancourt. Dir-se-ia que o mundo inteiro de uniu (não para tramar como cantou Rui Veloso) para libertar a antiga senadora colombiana, que as FARC mantiveram cativa durante anos.

Soube, entretanto, que Guillermo Rivera Fúquene, comunista e dirigente sindical “dos funcionários da autarquia” de Bogotá, desapareceu em 22 de Abril último, dele se desconhecendo o paradeiro.

Se o mundo fosse um espaço limpo, todos aqueles que exigiram, justamente, a libertação de Ingrid Betancourt, deveriam agora exigir que sejam feitos todos os esforços para encontrar Guillermo Rivera Fúquene, questionando o poder instituído em Bogotá e o presidente Álvaro Uribe.

Vamos esperar para saber se a generosidade de muitos dos nossos escribas dos jornais e dos “blogues” esbarra no preconceito ideológico. Estou convencido que Guillermo Rivera Fúquene não vai contar com tantos empenhos. E no fundo, é tão-somente um colombiano, tal como Ingrid Betancourt, distinguindo-o apenas as particularidades de ser comunista e dirigente sindical.

Quem vai chorar o pai da pequena Chiara Rivera?