domingo, setembro 28, 2008

CASTELO BRANCO

NA RUA DE SANTO ANTÓNIO

Era nas águas-furtadas a nossa casa.
Era velha e com poucas condições,
mas tinha uma clarabóia,
por onde, quando havia, entrava a luz do sol.
Era no número vinte e um da rua de Santo António,
quase no coração da cidade.
No rés-do-chão,
era a mercearia do senhor António Canaveira.

Em frente,
havia uma agência de viagens,
onde trabalhava uma rapariga vistosa,
com quem, na solidão dos meus pensamentos,
fiz as primeiras grandes viagens.
Era uma rapariga alegre,
que vestia roupas alegres
e tinha um sorriso alegre e branco e amplo
e um corpo ágil de gazela.
Um dia a agência fechou as portas
e a rapariga mudou de ares,
qual ave de arribação.
Se me tivesse pedido,
apesar da idade,
creio bem que tinha partido com ela.
Ah, como batia forte e apressado,
naqueles dias,
o meu pobre coração!

E o tempo,
esse inigualável fazedor,
fluía placidamente.
Placidamente, que é assim que deverá fluir o tempo.
E tudo era normal e rotineiro,
até a passagem diário do batalhão,
o seis de caçadores,
que passava na rua de Santo António
ao som do tã…tão…tã-ta-ra-rã dos tambores
e do op, dois, erdo, direito dos cabos milicianos.

A nossa casa era nas águas-furtadas
do número vinte e um da rua de Santo António
e era a foz de um rio
de gente
que ali vinha pedir um pequeno favor,
como visitar, no hospital, um doente
ou comer um simples prato de sopa.

Aquelas águas-furtadas eram a casa da gente.

sexta-feira, setembro 26, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 26 de Setembro de 2008 – Falei há momentos com o poeta Daniel Abrunheiro – o que acontece agora com alguma regularidade –, a quem perguntei se conhecia o pintor viseense Luís Calheiros. Que sim, que conhecia e que até frequentam o mesmo café. Com um bocadinho de sorte, ainda vou retomar a conversa com o Calheiros, que interrompemos no final da nossa estada no SISMI, na bonita cidade de Tavira.

Conhecemo-nos nas Caldas da Rainha, no antigo Regimento de Infantaria -5, no Outono de 1973. Fomos da mesma companhia e, apesar de não sermos do mesmo pelotão, tínhamos uma relação de camaradagem muito estreita. O Luís dormia muito e por isso mesmo ficava sujeito a algumas patifarias de instruendos mais divertidos. Ali conhecemos e fomos amigos do pintor Aurélio Veloso, instruendo como nós, que havia de desertar das fileiras meses depois. Ainda me enviou de Braga, donde era natural, um trabalho seu, que guardo religiosamente. Nunca nos voltámos a reencontrar.

Em Tavira, o Luís Calheiros arrendou quarto junto ao Gilão, na margem esquerda. Ali nos encontrávamos para conversar e para as saídas de fim-de-semana. Foi naquele quarto que o Luís Calheiros fez uma caricatura da minha pessoa, que baptizou de “projecto para um pisa-papéis” e que eu guardo, numa moldura, com fé idêntica, à do trabalho do Aurélio Veloso.

Pela mão do Daniel, um dia destes, vou mostrar a caricatura ao Luís.

terça-feira, setembro 23, 2008

FRAGMENT(Á)RIAMEMTE

INTRÓITO
1

De e com livros tem sido feita a minha vida:
Bons, maus, e assim-assim.
Neles, aprendi metade do pouco que sei;
Sem eles, não sei dizer o que de mim seria!

Outro homem, decerto, seria…

2

Com Fonseca, Manuel como eu,
No culto das musas me iniciei:
Ainda hoje vejo passar a tuna do Zé Jacinto
E me delicio com as alvas rolas,
Que Maria Campaniça escondia sob a blusa.

Por mil anos que um homem viva
Há metáforas que nunca morrem nem esquecem.

3

A prosa chegou com a colecção seis balas.
Só depois chegou Ferreira de Castro
E o seu casto português.
Fiz-me amigo de Manuel da Bouça e de Ricardo;
E, sobretudo, de Marreta e Horácio.

(E é chegado o momento de dizer,
Que se dane o espanhol que não quer
Referências culturais na poesia.
Que se dane pois o espanhol,
Cujo nome já esqueci).



4

Santareno,
Veio ainda antes de Vicente!
Primeiro, o Édipo de Alfama;
Só depois, chegou o pai de Antígona.

Que milagre terá acontecido?

5

De e com livros tem sido feita a minha vida.
VÁRIA



AMAR

É estar sentado,
Contigo,
À porta da nossa casa
Numa noite de Verão.
E ao luar,
Absorto
No voo
Dos meus pensamentos,
Comer tâmaras,
Em paz.


E saber,
Amor,
Que esperas
Que a brisa passe
E eu procure,Ternamente,
A tua face.



DESENCONTRO


Sempre desejei
Um coração
De camponesa
Para gémeo do meu.

Só assim,
Pensava eu,
Poderia sentir,
Plenamente,
O alor
E o respirar
Da terra.

Outra coisa;
Porém, ditou
O poderoso destino.
E por isso
Vivo
O desatino
Dos desencontros.

Até um dia…
Ou talvez
Para sempre!





ROUXINOL


Eu tenho inveja de ti

– Ó sublime rouxinol! -,
Que voas
E cantas
E longe
E alto levas
O teu canto!

Enquanto eu
– Simples aspirante a cantor –,
Sou incapaz
De dar asas
E levar longe
E alto
O meu humilde canto.

Eu,
Humano
E sensível,
Tudo faço
Ao rés-da-terra.










INSTANTES


Quando o sol –
O grande colorista de Cesário –
Inunda o dia
E os passarinhos
Dão concerto de piano
Nas roseiras
E nos arbustos
Do meu jardim,
Saboreio
Por vezes
A alegria.

É então
-Gozando as delícias da preguiça -
Que mais concordo com Adília.

O resto,
Obviamente,
É conversa.




DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 21de Setembro de 2008 – Por muito esforço que se faça, o real quotidiano impõe-se-nos, muitas vezes, de forma tão contundente, que se torna difícil fintá-lo. Aqui ficam, para que conste, algumas notas sobre esse inevitável real:

A primeira concerne ao General António dos Santos Ramalho Eanes, meu compatriota, que nunca ajudei a eleger, mas cuja verticalidade sempre admirei. Passado o desvario dos últimos tempos do seu segundo mandato como Presidente da República, nomeadamente o episódio da fundação do PRD, soube afastar-se da ribalta e constituir-se como uma espécie de reserva moral desta velha Nação. A recusa de 1, 3 milhões de euros, que os tribunais lhe atribuíram por ter sido espoliado, demonstra a grandeza deste Homem. Outros, que o combateram e lhe negaram aquilo a que tinha direito, seriam incapazes de um gesto idêntico.

A segunda diz respeito a Maria Keil, que conheci nos idos de setenta do século passado, numa Repartição de Finanças, onde trabalhava então. A grande pintora e ceramista, viúva de Francisco Keil do Amaral, deslocara-se a Moscavide para tratar de um assunto do agora defunto Imposto Sucessório e foi atendida por este vosso amigo. Já teria setenta e tal anos, mas mantinha uma grande frescura, como se o tempo passasse e não deixasse mossas. Conversámos de várias coisas: Camarate, José Gomes Ferreira, Cochofel e Carlos de Oliveira. Em circunstâncias mais ou menos idênticas havia de conhecer Fernando Campos, alguns anos mais tarde.

Maria Keil, para quem não saiba, pintou os primeiros azulejos para o metropolitano de Lisboa e nunca recebeu um chavo. Parece que os engenheiros, economistas e gestores que mandam no Metro - e também no país -, se preparam para destruir aquilo que generosamente a pintora e ceramista doou à cidade. Isto não é comportamento de gente civilizada. Esta atitude é mesquinha e é uma afronta à obra de uma grande criadora. Indmissível!!!
E por fim, o novo Código do Trabalho, que há-de fazer alguns portugueses ainda mais desgraçados, deixando-os nas mãos dos nossos audaciosos e competentes patrões. Foi aprovado pelo PS e com a abstenção matreira e oportunista do PPD-PDS, ou seja, com o sim de um dos manos e o nim do outro. Em nome de quê, concretamente?

E por agora é tudo.

domingo, setembro 21, 2008

DOS PRESSÁGIOS

Santa Iria de Azóia, 4 de Setembro de 2008 – Num blogue famoso, Causa Nossa, um constitucionalista famoso, Vital Moreira, escreve que os sindicatos da função pública querem “nutridos aumentos” para o ano que vem, que é ano de eleições.

Este senhor Doutor Vital Moreira, que em tempos foi militante do PCP – um ilustre militante do PCP -, que ficou famoso pelos seus inflamados discursos, na Assembleia da República, tornou-se posteriormente um político próximo do PS, que é o mais anticomunista dos partidos portugueses. Não espanta, por isso mesmo, que tenha pelos trabalhadores da Administração Pública a alta estima e consideração que os seus novos amigos têm demonstrado no Governo.

Não sei como vive, nem isso tem qualquer interesse, o ex-camarada Vital Moreira. Provavelmente, vive bem e à custa de muito, generoso e douto trabalho. E provavelmente, coabita bem – ele que é um professor de direito - com as leis iníquas que vão sendo produzidas para fustigar o mundo do trabalho.

Por isso me parece pertinente a pergunta: o que é que os professores de direito têm a ver com a justiça?

quarta-feira, setembro 17, 2008

HÁ CINQUENTA ANOS

Há cinquenta anos,
quando nós ainda éramos todos,
eu tinha seis anos
e era feliz.

Nunca festejávamos os meus anos.
Eu só sabia que fazia anos,
porque a minha mãe me dizia:
“hoje fazes anos, filho!”
E eu, contente por fazer anos,
corria pela rua
e anunciava aos rapazes e às raparigas
que era o dia dos meus anos.

Nós brincávamos sempre na rua,
que era o prolongamento natural das nossas casas
e que tinham quase sempre a porta semiaberta ou semicerrada
que para o caso tanto faz.
Era a rua Nova da Escola,
que não tinha ainda estes paralelos ásperos,
que continuam a causar-me irritação.
A rua era térrea
e quando chovia ficava lamacenta
e nós brincávamos com a água das poças
e por vezes chapinhávamos
e sujávamos as saias alvas das raparigas já casadoiras
e fugíamos para nos rirmos delas.

E construímos casinhas,
imitando os nossos pais
(quase todos profissionais da alvenaria).
E nelas mostrávamos o peixe às raparigas
e elas nos mostravam o cochicho,
sim, peixe e cochicho,
que era assim que puerilmente denominávamos os nossos sexos

Hoje já não somos todos!
E os que somos
já não nos alegramos com a lhaneza de outrora.
Agora, às vezes, fazemos anos,
para nos dizermos que ainda somos;
porém, arredios da simpleza e da alegria
de, quando criança, minha mãe me dizia:
“hoje fazes anos, filho!”
E eu corria pelo interior do sol de Junho
a dizer aos rapazes e às raparigas
que fazia anos.

Vertiginosamente,
a névoa vai tomando conta dos nossos olhos
e os nossos corações deixaram,
há muito tempo,
de rejubilar com o alvorecer dos dias.






domingo, setembro 14, 2008

SESIMBRA



Quando irado o mar te zimbra
O povo e o casario,
Tu sabes bem, ó Sesimbra,

Lutar com bravura e brio!



Quantas vezes, ó beleza,
Punida pelos vendavais,
Te bateste com nobreza,
No meio de gritos e ais?!



Linda princesa do mar,
Ó sedutora Sesimbra,
Tua beleza sem par
Só com o meu canto timbra!

sábado, setembro 13, 2008

COM A NATUREZA

Nos regatos e nas fontes
Água cristalina bebi.


Nos silvedos dos caminhos,
Amoras bravias colhi.


Nos cocurutos das figueiras,
Sadios figos comi.


Nas sombras amigas dos choupos,
Lindas histórias ouvi.


Mas um dia,
Pelos sonhos embalado,
Fui ver o mundo
E tudo perdi.

quarta-feira, setembro 10, 2008

SE EU FOSSE COMO CAMÕES

Republicação


Se eu fosse como Camões,
Havia de te fazer,
Amor, versos geniais,
Muitas trovas de encantar!

Pintar-te-ia morena
E de outras cores sadias.
Blusa vermelha decerto
E calças de ganga azul.

Assim irias à fonte
- Discreta como se vê -,
Leda e bela ao meu encontro.

E haveria de deixar
Teu rosto ruborizado
Com mil beijos, mil ou mais.

quinta-feira, setembro 04, 2008

EPITÁFIO

Eu sempre quis
que a minha voz
fosse clara,
melodiosa,
única.

E que as palavras
ganhassem
com o meu timbre
a graça
e a leveza
dos pássaros.

E voassem
e se ouvissem
longe
e alto.

Eu sempre quis.

quarta-feira, setembro 03, 2008

RAFAEL ALBERTÍ

CANCIÓN 5

Versos largos, versos largos,
caminos interminabes
pies y pulmones cansados.

Me basta una sola línea
para la risa o el llanto.
Y hasta me sobra essa línea
para el llanto.

Cuando uma lágrima corre,
o dejo correr en blanco.

Rafael Albertí, Baladas y Canciones del Parana, Alianza Editorial, Madrid, 1989.

VIANA DO CASTELO

SANTA LUZIA

A CORUÑA

Torre de Hércules