terça-feira, agosto 09, 2011

DO MEU DIÁRIO

No rés-do-chão do edifício pintado de branco era o ARCÁDIA

o café onde nos encontrávamos com regularidade


Santa Iria de Azóia, 4 de Agosto de 2011 – Confesso, muito sinceramente, que fui surpreendido com um longo comentário, no meu blogue, do António Apolinário Lourenço. Ainda acerca do aniversário do Albano Matos, que, por enquanto, ainda não deu à costa. E talvez só venha a dar, se der, corrida a Volta a Portugal em bicicleta.


António Apolinário (da Silva Lourenço), que para mim será sempre António Apolinário ou simplesmente Apolinário, lembrou-me o nome do nosso amigo Zé dos Bonecos, António Martins Fernandes, e a grafia do apelido Seborro, que eu queria, à viva força, que fosse Ciborro. No sábado passado, perguntei pelo Manuel Seborro a um vendedor de melancias, no Ladoeiro, que não conseguiu, apesar do esforço, dar-me qualquer informação precisa.


Eu já me tinha esquecido que o Luciano de Almeida tinha tido um suplemento ou coisa parecida no Beira Baixa, que, creio, era dirigido por Valentim Alferes e no qual colaborei com um pequeno poema que viria a perder. Efectivamente monárquico, o Beira Baixa desapareceu, porque não tinha a aceitação popular do Reconquista, desde sempre ligado à Igreja Católica. E que era, indubitavelmente, muito mais desempoeirado que o jornal da Rua de S. Sebastião, quase ao lado do edifício dos correios, que ainda lá está, mas onde já não há correios.


Castelo Branco ainda tinha, naquele ano de 1972, duas gráficas: a S. José e a Semedo, onde eram produzidos o Reconquista e o Beira Baixa, respectivamente. Foi na Ausência do António Apolinário que coordenei um número do suplemento juvenil do Reconquista, que implicava rever as provas na tipografia, ao fundo da J A Morão. Ainda que nunca tenha trabalhado em gráficas nem em jornais, havia de ficar para sempre com as imagens visuais da composição e com as olfactivas da tinta. Perto da minha casa há uma gráfica, cujo prioritário, o João Esteves (não é o da Tabacaria, ó Apolinário), é meu amigo. Por isso, de quando em vez, passo por lá para matar saudades.


O Reconquista é hoje um jornal diferente. Feito por jornalistas e outros profissionais, respeita minimamente a pluralidade de opinião e faz a cobertura noticiosa do distrito de Castelo Branco. E acompanha, sem constrangimentos, a evolução tecnológica. Por isso mesmo, sou seu assinante e assíduo leitor.

segunda-feira, agosto 08, 2011

Cá neste labirinto, onde a nobreza,
O Valor e o Saber pedindo vão
Às portas da Cobiça e da Vileza:

Camões

NAS FONTES

1

A vida é um momento tão fugaz,
Mesmo para os que vivem muitos anos.
Imparável a roda roda e traz
Alguns deleites, dores, desenganos.

Os que vivem, contentes e felizes,
Passando pela terra sorridentes,
indo no carril certo, sem deslizes,
Deste mundo estiveram sempre ausentes.

A vida é desafio permanente,
Mil batalhas travadas com ardor,
Com um só fim em mente, ó minha gente,

Tornar este planeta mais decente!
Árduas lutas travo por amor
E sei que tudo passa... fugazmente!


2
Quando, ó sol, te levantas lentamente
Das cristalinas águas do Tejo,
A cidade pressinto tão contente,
Recebendo teus raios como um beijo!

Sem o oiro dos teus raios a cidade
Fica mole, cinzenta, entristecida.
Com Londres parecida, já de idade,
Perde a graça de moça divertida.

Eu tenho preferência p’los dias
De sol doirado e quente. Com calor
A vida é bela e plena de alegrias.

E se perto de mim, ó meu amor,
Te tivesse, decerto, amar-me- ias!
Na cidade do sol, da luz, da cor...


3

Ó lendária serra lusitana,
Alvíssima princesa celebrada!
Tua beleza eterna não engana
E renova-se em cada madrugada.

Por ti tenho um amor puro e constante
Que desde a minha infância perdura,
Quando te via altiva, lá distante,
Ó serra rigorosa, enorme e dura!

Eram outros os tempos... Os pastores
desertaram, cansados, prá cidade.
Deram descanso às flautas. Permanece

A noite povoada de pavores
Muita melancolia, a saudade
E este amor que a beleza rara tece.

4

Estes versos desejo jubilosos,
Ó minha amada! Versos de louvor
à beleza divina; graciosos,
como convém ao nosso fino amor.

Quero versos de rimas aprazíveis,
Decassílabos suaves e correctos,
Para cantar teus dotes mais visíveis,
Sem esquecer a graça dos secretos.

Negros são os teus olhos e cabelos,
Os lábios têm a cor dos morangos.
Fico contente, quando posso vê-los...

Mas como esquecer os alegres tangos,
E o gozo de beijá-los e mordê-los?
Ó delicado aroma dos morangos!

5

Palavras, ide depressa e cumpri
Vossa valiosa e nobre missão!
Ide palavrinhas, que eu já pressenti
Que podeis ser ainda a salvação.

Palavras, correi, correi como o vento
Que o mundo precisa da vossa força!
Precisa de subido pensamento
E não da bruteza de quem o torça.

A História tem apenas guardadas
Narrativas de batalhas e guerras
E as grandes lutas p’la paz olvidadas.

Ó História, quantas fraudes encerras,
Em lindas palavrinhas embrulhadas?!
Desertai do poema e ide... mesmo perras!

6

Continua o mundo desconcertado,
Um mar de mentira e hipocrisia.
Desde Camões, pouco terá mudado,
Continua a mandar a vilania.

Os ricos, ousados e poderosos,
Ditam suas injustas leis ao mundo.
Incapazes de gestos generosos,
Tudo submetem ao dinheiro imundo.

Vivemos um tempo de submissão,
Que ignora princípios e valores.
O estudo, a probidade e a razão,

Deram lugar às cunhas e aos favores.
E assim corre a vida desta nação,
De engenheiros, bacharéis e doutores.

7
Dom Sebastião permanece vivo
E inda mexe no luso imaginário.
Um povo vive, nesta orla, cativo,
À ´spera do rei louco e temerário.

Os outros fazem e nós esperamos,
Que ele nos traga a boa solução.
Para o cerrado nevoeiro olhamos,
Como se fora a nossa salvação.

Ai, esta longa e dolorosa espera!...
Agir, agir, agir sempre e sem medo,
Foi a regra mágica da nossa Era,

O nosso mágico e fértil segredo.
Quem viu o largo mundo desespera,
Com este povinho tristonho e quedo.


in FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, 2005








quarta-feira, julho 27, 2011

DO MEU DIÁRIO

Castelo Branco - entrada norte

Santa Iria de Azóia, 27 de Julho de 2011 – Hoje, é o dia do aniversário do Albano Matos, que, de quando em vez, dá à costa neste blogue, onde deixa um comentário. Conheci-o no Outono de 1971. Éramos um grupo mais ou menos alargado, que se juntava no velho café Arcádia, e do qual faziam parte António Apolinário, Manuel Ciborro, Luciano de Almeida e o Zé dos Bonecos. Zé dos Bonecos, porque me esqueci do nome.


Eu e o Albano, viemos para Lisboa no Outono de 1972. E fomo-nos encontrando até 1976, com muita regularidade. Na Nova Iorque e na Grã-Fina e também numa cervejaria do Campo Pequeno. O Albano recitava bem poesia e a malta divertia-se. Depois deixámos de nos ver com aquela regularidade; porém, fui lendo a sua prosa nos jornais por onde passou até ao “DN”. Temo-nos prometido jantar, mas está quieto. As nossas importantes vidas e os nossos inadiáveis afazeres não nos deixam tempo. É a vida como diria o senhor engenheiro lisboeta do Fundão.


António Apolinário é Professor em Coimbra, na Faculdade de História, e é especialista em literatura espanhola. Sei dele pelos livros e pelos blogues. Veio aqui interpelar-me uma vez – e fez ele muito bem! -, portanto, sei que também passa por aqui. Com ele tive um projecto para traduzir e elaborar uma antologia de Jacques Prévert, mas ficou tudo muito “vert” e nunca fizemos nada em conjunto de muito importante.


Luciano de Almeida, que dirigiu o Politécnico de Leiria, encontrei-o há anos na Duque de Ávila, ainda eu leccionava no Externato Ergon. Bebemos um café e deu-me um cartão que arrumei, porque, afinal de contas, tantos anos depois, só mesmo Fermina Daza e Florrentino Arriza e estes porque viveram sempre na mesma cidade. Do Manuel Ciborro, que António Apolinário acusava, com graça, de só ler as capas dos livros, nunca mais tive notícias. E o mesmo aconteceu com o Zé dos Bonecos.


Eu não chego a sentir nostalgia, mas aqueles tempos foram importantes, e porque o foram, não caíram no olvido. E aqui os rememoro na vã esperança de que algum deles por aqui passe nos próximos dias.

DO MEU DIÁRIO

Mata - Rua do Arrabalde

Santa Iria de Azóia, 26 de Julho de 2011 – Hoje publiquei uma fotografia da minha terra natal no “facebook” e na troca de comentários com uma excelente poeta portuguesa, lembrei-me de que naquela rua, a rua da fotografia, tinham vivido muitos dos meus familiares já desaparecidos. Nomeadamente, o meu bisavô Francisco Lucas, pai de minha avó Maria, que também teve taberna na rua do Arrabalde, numa casa de altos e baixos.


Entre filhos e enteados, o meu bisavô terá criado e ajudado a criar catorze ou quinze pessoas, que, por sua vez também tiveram as suas proles, embora sem a abundância do progenitor. De qualquer modo, Francisco Lucas foi avô e bisavô de pessoas que se interessaram por quase todos os ramos do saber: advocacia, gestão, medicina, engenharia, música, pintura e outras artes do “trivium” e do “quadrivium” que agora não me ocorrem. António Vicente, que é conhecido pelo “Ptchirra” – na Mata ainda não foram completamente abolidas as africadas -, quando se entorna e me encontra, lá me vai dizendo que não há família na Mata como a do velho Canuna.


Recordo-me perfeitamente do meu bisavô falecer e também dos tempos em que apascentava as suas cabras, já depois dos oitenta, encostado ao cajado e à parede norte da tapada da Bemposta, onde passei muitos dias da minha infância. Era um homem alto e magro. Vestia sempre um fato castanho, de verão e de inverno. Diziam os antigos que o que tapava o frio também tapava o calor. E se calhar tapava.

Os anos correm, vertiginosamente, mas parece-me que ainda hoje reconheceria o timbre da voz do meu bisavô Francisco Lucas.

sábado, julho 23, 2011



INSTANTES


Quando o sol –
O grande colorista de Cesário –
Inunda o dia
E os passarinhos
Dão concerto de piano
Nas roseiras
E nos arbustos
Do meu jardim,
Saboreio
Por vezes
A alegria.

É então
-Gozando as delícias da preguiça -
Que mais concordo com Adília.

O resto,
Obviamente,
É conversa.

in FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, 2009

terça-feira, julho 19, 2011

DO MEU DIÁRIO



Santa Iria de Azóia, 19 de Julho de 2011 – Reencontro com Vergílio Ferreira através de conta-corrente. Eu não sei bem porquê, mas de quando em vez agarro-me a este autor que escreveu alguns romances notáveis tais com APARIÇÂO, PARA SEMPRE ATÉ AO FIM. Gosto tanto da escrita deste autor, como o detesto enquanto indivíduo.


Se Ferreira não tivesse escrito conta-corrente – cinco volumes- e se se tivesse quedado pela escrita ficcional, provavelmente este texto seria um simples exercício laudatório e estar-me-ia nas tintas para o indivíduo empírico que foi meu contemporâneo. Porém, Ferreira quis-nos deixar estes volumes de prosa intimista, onde se revela um ser humano desinteressante, sempre de mal com quase tudo e todos.


Óscar Lopes, provavelmente um dos mais prodigiosos trabalhadores das letras portuguesas é depreciado e a sua crítica denominada “oscarina”; Mário Dionísio, que também foi um excelente contista e também poeta e também crítico literário e também grande crítico de arte, nunca passou de um controleiro comunista, no liceu Camões; Torga poderia receber o Nobel, não que o merecesse, mas pela comezinha razão de constituir uma possibilidade de entrada de divisas em Portugal; Eugénio de Andrade é mal tratado, quando o acusa de ter introduzido o “falo” na poesia portuguesa ou coisa parecida. Naquela fúria de homem de maus fígados, salvam-se Eduardo Lourenço e Fernando Namora.


Encontrei uma vez Ferreira na livraria Barata, com aquele seu ar de fauno antigo, tristonho e só, folheando um livro, com cara de poucos amigos. E curiosamente é esse indivíduo que encontro nos volumes de conta-corrente, que, creio, Baptista-Bastos já considerou – e eu estou de acordo - um tratado do ódio.


A escrita intimista tem muitos inconvenientes.

domingo, julho 17, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 17 de Julho de 2011 – Ainda que todos os dias escreva, e escreva muito, desleixo-me com este Diário, que, qualquer dia, para manter o rigor da denominação, deverá chamar-se mensário. Não é que não haja coisas importantes no meu dia-a-dia que mereçam ser relatadas; não, acontece simplesmente que vou dando prioridade a outras coisas.


Na verdade, tenho andado entretido com a ultimação de um livrito de quadras, só de quadras, que terá o originalíssimo título de novas quadras quase populares. Ainda que não possa ser bom juiz em causa própria, creio que será muito mais interessante que o meu livro inaugural, onde me permiti uma série de concessões desnecessárias.


A quadra é um pouco como a fotografia. Capta o instante e/ou o quotidiano, numa estreita relação com a vida. E pelas minhas quadras, que não são populares “stricto sensu”, lá serão encontrados os grandes temas da poesia, tais como a vida e a morte, o amor, a tristeza, a alegria, a passagem do tempo, etc. E por vezes até aspectos burlescos e picarescos que vão colorindo e apimentando a própria vida.

sábado, julho 16, 2011

NOTRE DAME

Às vezes, quando alguma resistência sinto em entrar dentro de mim, mormente nos momentos de grande inquietação, procuro a quietude e a paz das igrejas. É então que este minúsculo território de orografia complicada, onde inúmeras guerras civis têm sido travadas, permite a celebração de todos os armistícios e festeja a doçura da reconciliação.


As catedrais góticas prefiro aos templos de outras épocas. Nelas, tudo é fruto de subida meditação e de um superior exercício da ordem. Dez minutos, meia, uma hora, às vezes, é o tempo necessário para, pegando numa ponta, enrolar o precioso fio de Ariadne e reencontrar-me com a luz.


Creio firmemente que as igrejas – e mormente as catedrais –, foram sempre pensadas para propiciar reencontros com a luz.


in FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005

quarta-feira, julho 13, 2011


um quadro de Ribeiro Farinha

PROMETEU

I

Onde estão os meus corcéis?
Tragam-me os meus corcéis,
Que quero rápido cruzar os céus
À procura de um novo sol.


II

Vinde cá,
Meus cavalinhos de oiro,
Vinde cá!
E levai-me a todas as galáxias,
Que quero encontrar
Uma nova luz.


III

Meus cavalinhos de oiro,
Meus fogosos corcéis!
Levai-me,
Levai-me a todos os pontos do universo,
Que quero encontrar
Uma nova fonte de fogo.

In FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lisboa, 2005

SANTA IRIA DE AZÓIA



QUADRAS PARA UMA OLIVEIRA



da vila de Santa Iria



A oliveira milenar,
Que vive em Santa Iria,
Se nos pudesse falar,
Que histórias contaria?

Esta robusta oliveira,
Plantada ou aqui nascida,
É testemunha primeira
De três mil anos de vida.

De Homero contemporânea
Merece ser bem tratada.
Que viva, pois, espontânea,
E não lhe façam mais nada.

Procedam só à limpeza
E não lhe provoquem danos.
É força da Natureza
P’ra resistir muitos (mais mil) anos.


(inéditas)

domingo, julho 10, 2011

ERICEIRA, A GRANDE SEDUTORA

Ericeira, um amor à primeira
A vila da Ericeira
É um festival de azul.
Linda terra marinheira,
Única de norte a sul.

Seja Inverno seja V’rão,
O que eu gosto da Ericeira!
Ali o mar tem o condão
De ser visto sem canseira.

E depois há os petiscos,
Uns copinhos de cerveja
E os saborosos mariscos.
Venha daí, prove e veja,

Das muitas ondas a alvura,
Dos petiscos o sabor.
Do mar vem música pura,
Que acompanha com primor.

Caldeirada é “Mar d’ Areia”
A Egídio encomendada.
Quem almoça já não ceia,
Que ali não se estraga nada.

Quem visita a Ericeira
Ali volta, de certeza;
É-se encantado à primeira
Com tanta, tanta beleza.

(inéditas)

domingo, julho 03, 2011

ESTADO DE ALMA

Esta tristeza é só minha,
Não a quero partilhar.
Do vinho da minha vinha
Bebamos até cantar.

Quero saber onde mora
Aquela doce alegria,
Tão garrida e tão sonora,
Tão tepleta de magia.

Às vezes, vejo no João
O rapazinho que eu era.
Ó calma de fim de V'rão,
Devolve-me a Primavera!

Deixa-me alegre brincar
À palmada e ao pião;
Ou só à bola jogar,
na rua, com o João.

in FRAGMENTOS COM POESIA, ULMEIRO, Lisboa, 2005.

sábado, julho 02, 2011

na coluna granítica esteve instalada a picota

AUTOBIOGRAFIA BREVE

Cheguei numa manhã de Junho, segunda-feira, e já o sol ia alto. Chovia. Esperavam-me, ansiosas, minha mãe e minha avó paterna.
Cheguei, pois, em dia de sapateiro, como se dizia na minha aldeia.
Cheguei gato-esfolado, contaram-me mais tarde; todavia, com muita vontade de me fazer à vida.

Ao contrário de Daniel Abrunheiro, que daqui quero saudar fraternalmente, eu não cheguei atrasado. Cheguei a tempo, muito a tempo, para da vida ir colhendo múltiplas alegrias e tristezas, que ela é temperada com umas e outras.

Cheguei a tempo de conhecer um país pequenino, que os próceres do regime, dirigido pelo beirão de Santa Comba, estendiam da parte mais ocidental da Europa até Timor. Era um Portugal miserável, triste e sem humor, do qual herdei esta perseverante e amarga ironia.

Cheguei a tempo de conhecer o exílio e de saber quão amargo é viver longe da pátria, mesmo quando o afastamento resulta de uma decisão livre ou ditado pelo amor à liberdade; ou ainda, quando pela pátria nos é imposto. Oh, como eu compreende o imortal Ovídio!

Cheguei a tempo de ajudar à festa e da festa me embriagar e da ressaca, que ainda vai teimosamente perdurando, apesar do vinho bebido não ter sido muito e nem sempre ser da melhor qualidade. Se preciso fosse repetir tudo de novo, tudo de novo repetiria (Por favor, não me macem com os pleonasmos)!

E por cá vou andando, com a pele às costas, nada reclamando do amor e dos amigos. Da pátria sim, reclamo, porque sempre a quis mais livre e mais fraterna!

sexta-feira, julho 01, 2011

O TEMPO

FIM DE TARDE

O tempo – essa coisa misteriosa que se conta em milénios, séculos, anos, meses, dias, horas e segundos – alguém saberá ao certo o que é? E no entanto, nada escraviza mais o Homem do que o tempo, que as gramáticas organizam em passado, presente e futuro, mas que, no fundo, é apenas passado e futuro.


O tempo – essa coisa estranha que dá alento aos tiranos e torna precárias as acções dos heróis, que destrói as verdades eternas dos teólogos e os sistemas infalíveis dos filósofos, que tudo e todos condena ao esquecimento – alguém saberá ao certo o que é?


No seu perpétuo fluir, o tempo é o tempo, como diria o delicioso Caeiro.


Para mim, que não sou poeta nem literato, mas simplesmente um amigo de poetas e literatos, o tempo é o sol a levantar-se preguiçosamente do Tejo - é assim que eu o vejo das janelas da casa onde habito- que depois sobe e roda e desce, devagarinho, para desaparecer por detrás das casas, para de novo se levantar das mansas águas do Tejo e subir e rodar e descer e desaparecer e de novo se levantar das mansas águas do Tejo.

quinta-feira, junho 30, 2011

DUAS QUADRAS
Para Quevedo
Na minha biblioteca
Há mais mortos do que vivos.
É fácil e nunca seca
Conviver com tantos divos!

Com estes defuntos queridos,
Aprendo no dia-a-dia.
Sisudos ou divertidos,
Todos me dão alegria.

(inéditas

segunda-feira, junho 27, 2011

DO MEU DIÁRIO

Praça do Burgo

Torre de Armas (beffroi)


Bruges, 20 de Junho de 2011 – É certo que ninguém poderá conhecer o mundo inteiro; porém, viajante que se preze, há-de, pelo menos uma vez na vida, passar por esta cidade belga.


Apanhei o comboio na estação de Lille-Flandres e lá fui até Bruges, cidade toda ela monumental, desde a casa de habitação mais humilde até aos grandes edifícios públicos ou às magníficas construções religiosas. Tem todas as marcas de um antigo e excepcional entreposto comercial, tal como o fora Veneza durante centenas de anos.


E as comparações com a pérola do Adriático vão até mais longe, porque Bruges também tem água e canais - sem a profusão de Veneza, claro -, onde o visitante também pode fazer a sua volta de barco. E até a confeitaria aproxima estas duas cidades, onde o chocolate é rei. Faltam-lhe o vidro de morano e as máscaras de carnaval.


Quem sai da estação dos caminhos-de-ferro depara-se de imediato com uma enorme mancha verde, que, de certo modo, esconde o que lá mais à frente, seja qual for o caminho que se siga, se verá. E depois cai-se numa espécie de museu a céu aberto, não sabendo o visitante impreparado por onde começar. No entanto, mesmo que não se faça um dos percursos indicados nas publicações turísticas, o visitante acabará sempre pior ter um dia cheio de beleza e agradáveis surpresas.


As praças do Mercado e do Burgo são, sem quaisquer dúvidas, as mais importantes desta cidade belga surgida já tardiamente, no século IX. Na praça do Mercado, encontra-se a famosa torre de armas, o befrroi, que é o verdadeiro ex-libris da cidade. É também nesta praça, um verdadeiro “fórum”, que se juntam os naturais de Bruges e os incontáveis turistas. Lá encontrará o visitante a incontornável – perdoe-me o leitor o abuso deste adjectivo – FNAC.


Enumerar aqui os museus e as igrejas, os canais e as pontes, seria fastidioso. Pegue o leitor nas suas pernas, e, se puder, ponha-se a caminho de Bruges, ou seja, de um vasto museu, onde vivem cerca de cento e quinze mil pessoas. N'oubliez pas votre parapluie!

domingo, junho 26, 2011

DO MEU DIÁRIO

La Grand'Place (Lille)

Lille, 19 de Junho de 2011 – Quem quiser conhecer uma cidade a sério, há-de calcorrear-lhe as ruas. Os autocarros para turistas são úteis, mas mostram de passagem e com conversa pré-gravada. Uma cidade como Lille merece sempre um olhar atento.

A rua Nationale é uma das ruas estruturantes da cidade nova. Subindo-a até ao seu termo, o visitante fica na Grande Praça, ou Grand’ Place ou Place Général Charles de Gaulle, o mais conhecido filho da terra. É uma praça de grandes dimensões, cuja harmonia arquitectónica resulta de uma mistura de estilos e de cores, que lhe conferem um carácter próprio. Por detrás encontra-se o antigo Palácio da Bolsa e numa relação de contiguidade a Ópera de Lille. São bem visível em todo aquele centro da cidade o denominado estilo flamengo “Flamboyant”.

A Place Charles de Gaulle tem sido ao longo dos séculos o coração de Lille, ainda que se encontre já fora do perímetro da cidade velha. Outrora, terá sido um espaço adequado à realização de feiras e mercados, paradas militares e outros acontecimentos de relevo. Na actualidade, dá guarida a cafés e esplanadas, restaurantes e até a uma incontornável FNAC. Dir-se-ia que a praça faz jus ao carácter mercantil que sempre caracterizou esta cidade do norte de França, vizinha dos grandes portos comerciais dos Países Baixos.

Não sei bem porquê, mas lembrei-me do romancista Fernando Campos e de uma das suas personagens de A SALA DAS PERGUNTAS, ou seja, do nosso grande Damião de Góis, que terá sido um amigo de Erasmus de Roterdão e que representou Portugal na antiga Flandres.

DO MEU DIÁRIO

Vitrais- Sacré Coeur - Lille

Lille, 18 de Junho de 2011 – Em Lille, a cidade natal de Charles de Gaulle, que é nome de muitas ruas, avenidas e praças e avenidas, em todo o hexágono – e até de um aeroporto, em Paris - sente-se bem a diferença de temperatura. Céu farrusco. Plúmbeo não que é erudito e eu não estou cá para eufemismos!
A capital da Flandres francesa é uma industriosa cidade – entenda-se industriosa no seu sentido mais lato –, habitada por cerca de duzentas e vinte mil almas, das quais cem mil estudam nos diversos graus de ensino das suas abundantes escolas, públicas e privadas. Daí que Lille seja uma cidade alegre e muito jovem.
A igreja do Sacré Coeur, quase paredes meias com o local onde me encontro alojado, é um monumento que merece visita. E foi o que eu fiz há cerca de uma hora. Tive direito a ouvir o coro e a um passa-bem do prior local.
Começa bem esta visita ao berço do General que simbolizou a resistência francesa no fim da guerra de 39-45 e que os franceses elegeram, na década de sessenta, como presidente da república. E que haveriam de apear do poder na sequência do Maio-68.



Lille (à noite, no hotel), 18 de Junho de 2011 – Vistas bem as coisas, teremos que concluir que a Europa é mais una do que se crê por aí. A Europa “kitch” dos mass media parece-me definitivamente instalada: os mesmos programas de televisão, os mesmos jornais, as mesmas revistas pink, etc. No mínimo o kitch e o pink unem uma certa Europa. E também os mendigos que surgem por todo o lado.
Em França já começou a pré-campanha para as presidenciais. Os candidatos vão surgindo e Sarkozi, o pequeno homem dos saltos altos, será reeleito. Porque os franceses, que todos supúnhamos mais esclarecidos, afinal de contas são como os restantes europeus.
De Gaulle, Pompidou, Giscard d’Estaing e Miterrand já são, até para mim que não sou dado a essas coisas, saudosos presidentes de França.

sexta-feira, junho 24, 2011

DO MEU DIÁRIO

Gare du Nord-TGV

Paris-Lille (TGV), 18 de Junho de 2011 – Apesar da crise portuguesa, eu estava a precisar de uns dias fora, longe dos Crato, dos Medina e dos Duque, que, independentemente de terem razão ou não, foram ao longo de muitos meses contribuindo para a nossa depressão colectiva.


Nada pior do que um país perder a sua saúde mental!


Eu estava a precisar destes dias longe da pátria, porque só eu sei ( e o Zé Ribeiro também), quão difíceis foram este ano e o transacto.E eu quero preservar a minha saúde mental.


Escrevo no TGV. É a primeira vez que utilizo o “Train Grand Vitesse”, que os Drs. Crato, Medina e Duque tanto abominam. Eu cá imagino-me em 1865 e do que seria de Portugal se, com dívidas e deficit, não tivesse ficado ligado à velha Europa. Não teriam chegado os livros e as experiências de que fruíram os homens da geração de 70.


A paisagem é engolida pela velocidade do comboio. Só posso ter desta rápida viagem uma opinião impressiva. Vou ficar por aqui até Lille.

quinta-feira, junho 23, 2011

La Géode

La Grande Halle


Paris, 18 de Junho de 2011 – Ontem, por achar que tinha sido demasiado “kitch”, omiti a voltinha no Sena, numa das “Védettes du Pont Neuf”. Mas juro aqui a pés juntos, que não voltarei a cometer omissões deste jaez. Pois foi, voltinha no Sena, que, ao contrário do ulissiponense Tejo, permite observar sempre as duas margens. Fiquei a saber que a ilha de S. Luís é o sítio mais caro da Cidade e que a ponte Alexandre III é a mais elegante de todas.


Pequeno almoço no hotel, copioso, que o almoço, se acontecer, será em Lille, lá para as quatro da tarde.


Hoje, o dia começou cedo, porque todo o tempo é pouco, quando se anda por estas paragens. Um namoro antigo, obviamente. Ida à cidade da ciência e da Indústria, em la Villette, que começa com esta pergunta a um carteiro:

- Por aqui também se vai para a Cidade da Ciência, senhor?


A resposta não se fez esperar, ainda que muito diferente da que era esperada:


- Como sabe, Senhor, a ciência não é o meu forte. Eu sou apenas um pobre carteiro.


Percebi imediatamente e continuei o meu caminho ao longo do belo canal de La Villette. Trezentos ou quatrocentos metros andados, descobri o “Grand Halle”, que, intuição minha, é parte da construção em ferro que existia no Marais (olá Lídia Martinez!), onde, em 1970, se comemoraram os noventa anos de Pablo Ruiz Picasso. O estilo é Baltard ou Napoleão III.


Entrei na livraria, onde adquiri uma antologia de poesia árabe e constatei a existência de dois poetas portugueses. Fernando António, sim o Nogueira Pessoa, e Herberto Hélder. Curiosa a fotografia do livro de Herberto Hélder; porém, não vos direi porquê. Ou talvez vos diga, lá para o fim destes escritos franceses.


Chuvinha com fartura. Apesar de tudo, ainda tive tempo para fotografar a “Géode”. Depois reapropriei-me das malas e pus-me a caminho da “Gare du Nort”, que o TGV não espera.

quarta-feira, junho 22, 2011

DO MEU DIÁRIO

Orly

Lisboa (aeroporto), 17 de Junho de 2011 – 9h45. O avião permanece em terra. No mínimo, partiremos com vinte minutos de atraso. Se cada minuto deste atraso correspondesse a um ano de nosso atraso em relação aos nossos parceiros mais avançados da Europa, poder-se-ia dizer que andamos vinte anos atrasados.


Paris (Orly), 17 de Junho de 2011 – Vinte minutos à espera por um espaço e por uma escada para sair do avião. O comandante (João Couceiro) vai, fazendo o seu trabalho, debitando estas preciosas informações. Tempo cinzento e ameaçador, nos arredores de Paris.


Finalmente, o espaço e a escada para a saída. Todos para o autocarro, que a Gália não é diferente da Lusitânia!


Odisseia nos transportes públicos até Porte de la Villette, que é nas portas da cidade que os viajantes mais pobres se podem albergar.


Jantarinho no coração da movida parisiense – a dois passos do Boulevard Saint Michel - , alinhando numa daquelas sugestões escritas a giz na ardósia: “petite salade, agneau et verre de vin”. O coração de Paris - S. Michel e Saint Germain – está repleto de restaurantes para turistas e estudantes, que, no caso vertente, é quase a mesma coisa.Restaurantes chineses, japoneses, turcos, espanhóis de tapas e também da boa e celebrada comida tradicional francesa. Um dia encontraremos por ali um Tico-Tico e /ou uma lusa churrasqueira, onde se hão-de celebrar os santos populares de Lisboa, no mês de Junho.


23h00. Nova pancada de água e regresso de metro ao hotel. Na rua de Rivoli há agora inúmeros semelhantes nossos que passam a noite a céu aberto, embrulhados em cobertores e sei lá eu que mais. É a França de Sarkozi e dos seus amigos de direita, que já não faz jus à tradicional tríade: liberdade, igualdade e fraternidade.

quinta-feira, junho 16, 2011



HÁ CINQUENTA ANOS




Há cinquenta anos, quando nós ainda éramos todos, eu tinha seis anos e era feliz.

Nunca festejávamos os meus anos. E só sabia que fazia anos, porque a minha mãe me dizia: “hoje fazes anos, filho!” E eu, contente por fazer nos, corria pela rua e anunciava aos rapazes e às raparigas que era o dia dos meus anos.

Nós brincávamos sempre na rua, que era o prolongamento natural das nossas casas, que tinham quase sempre as portas semiabertas ou semicerradas que para o caso tanto faz. Era a rua Nova da Escola, que não tinha ainda estes paralelos ásperos, que continuam a causar-me irritação. A rua era térrea e quando chovia ficava lamacenta e nós brincávamos com a água das poças e por vezes chapinhávamos e sujávamos as saias das raparigas já casadoiras e fugíamos para nos rirmos delas.

E construíamos casinhas, imitando os nossos pais. E nelas mostrávamos o peixe às raparigas e elas nos mostravam o cochicho, sim, peixe e cochicho, que era assim que, puerilmente, chamávamos aos nossos sexos.

Hoje já não somos todos! E os que somos já não nos alegramos com a candura de outrora. Agora, às vezes, fazemos anos para nos dizermos que ainda somos; porém, arredios da simpleza e da alegria de, quando criança, minha mãe me dizia: “hoje fazes anos, filho!” E eu corria pelo interior do sol de Junho a dizer aos rapazes e às raparigas que fazia anos.

Vertiginosamente, a névoa vai tomando conta dos nossos olhos e os nossos corações deixaram, há muito tempo, de rejubilar com o alvorecer dos dias.


Nota– Sim, Pessoa está presente. Pessoa e Caeiro. Porém, foi assim mesmo a minha infância.

terça-feira, junho 14, 2011

AMEIXEIRA

Florida a vistes e agora aqui a tendes de frutos carregada


AINDA E SEMPRE O TEMPO

Na minha parcimoniosa produção escrita publicável, o tempo tem ocupado um lugar privilegiado. Se me perguntarem porquê, sou capaz de entaramelar uma resposta pouco lógica e plausível. Sobre o tempo escrevo, mesmo quando o tema é a brisa que passa, a frágil rosa, a doce ameixa, o riso divertido de meu pai.

Na verdade, amada, até quando do nosso amor falo, lá aparece o tempo a tudo balizar. Ora cronológico, ora meteorológico, ora psicológico! Ora…

O tempo agarra-se-nos à pele ainda antes do alvorecer e connosco continua para lá do definitivo anoitecer.

sábado, junho 11, 2011



NÃO ME VENHAM DIZER A MIM



Não me venham dizer a mim
Que já não há milagres!...




Inda ontem, sexta-feira,
o milagre aconteceu,
quando à infância regressei,
no sabor dum damasco.




Foi na Mata,
Onde os damascos
São suculentos e doces
Como as laranjas de Jafa.




Não me venham dizer a mim,
Que já não há milagres!...






(10.06.2011)

sexta-feira, junho 10, 2011

POEMA

companheiro!

chegou a hora de juntar
as pedras
e chama-las pelos nomes,
antes que os rios enlouqueçam
e a terra fique seca
como a pele dos sapos.

Um dia
Tiraremos vinho do cotovelo
-sobretudo tinto-
quando as torres das catedrais
forem pássaros de cristal
a cortar o silêncio
de uma gota de água
a cair na areia.

Como vagabundos
sem dinheiro
em cada madrugada
faremos a lenta travessia
entre o deserto
que estreita o futuro
e a arca de porcelana
onde guardamos
os sonhos.

-em nome da paciência
e pelas casas que o teu
construiu
no tempo em que as cerejas
não tinham vergonha
de amadurecer em Maio.

Com um grande abraço de PARABÉNS

Massamá, 09 de Junho de 2011

Manuel Ribeiro Vaz

quarta-feira, junho 08, 2011

DO MEU DIÁRIO





Fotografias da Rua dos Vencedores

Santa Iria de Azóia, 8 de Junho de 2011 – A cidadania também se exerce trazendo ao conhecimento público as mazelas que nos são vizinhas. E não há que levar a mal a denúncia de situações que carecem de soluções rápidas e eficazes.
Eu vivo no Bairro do Cativo, em Santa Iria de Azóia, donde se vê o Tejo e a linha do norte e a ponte Vasco da Gama. Vivo num bairro de vivendas, de génese ilegal quase todas, mas que já tem alvará de loteamento desde 2005. Para o bem e para o mal, tenho pertencido à direcção da AUGI e à Comissão de Melhoramentos. Bem sei que podia trabalhar mais e melhor, mas vou fazendo o que me é solicitado e que mais se coaduna com as minhas competências.


E hoje quero falar do meu Bairro, onde cultivo roseiras e contemplo as rosas e outras flores do meu pequeno jardim. Hoje quero falar da Rua dos Vencedores, a artéria mais movimentada do bairro e que se encontra esburacada, ou seja, capaz de danificar automóveis e até de provocar acidentes. É uma rua que carece de repavimentação urgente.


Bem sei que há logo quem venha dizer que a Junta assim, que a Junta também, que a Junta, etc. A Junta não tem meios para resolver este problema, que implica gastos mais ou menos avultados. É da competência da Câmara Municipal de Loures tratar deste assunto. E não vale vir com conversas da treta.


Nestas coisas, as cores partidárias ficam de fora dos textos.
A DEPRESSÃO

Anda o povo deprimido
Por causa da depressão.
Descobre no comprimido
Um meio de salvação.

Ou num copo de bom tinto
Abundante em Portugal.
Mesmo assim, inda pressinto,
Que não resolve este mal.

Isto, amigos, só lá vai
Combatendo a roubalheira.
E quem a pátria trai
De forma infame e rasteira.


(inéditas)

terça-feira, junho 07, 2011

QUADRAS EM LOUVOR DO SENHOR BELMIRO

As OPA (s) do ti Belmiro,
Não são opas de vestir.
Este homem, que tanto admiro,
Até faz as pedras florir.

Floresce o grupo Sonae
Tão vertiginosamente,
Que produz lucros num ai
Encantando toda gente.

Só Portugal permanece
Na cauda da velha Europa.
Será que quem enriquece,
Tem respeitinho p’la tropa?

Portugal merece mais
Respeito e dedicação.
Há por aí uns pardais
Que comem tudo grão a grão.

(inéditas)

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 7 de Junho de 2011 – Dois dias depois da estrondosa vitória da direita nas eleições legislativas, o tempo continua nublada. Dir-se-ia que ao contrário do que era esperado- um radioso sol de Junho – o país amanhece cinzento e cinzento continua, pelo menos aqui na capital do reino, como se fôssemos agora entrar no outono.


Pode ser que o bom tempo regresse e se instale de vez, porque Portugal precisa de sol e muita luz. É certo que temos tido muito sol e a luz de Lisboa tem sido celebrada por poetas e outros artistas. Até por cineastas famosos. Creio, todavia, que são só visões de artistas. Sobra-nos sol e falta-nos luz, porque só assim se explica esta nossa espécie de vocação pelos abismos.

Mas pode ser, pode ser que tudo, futuramente, seja diferente.

domingo, junho 05, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 5 de Junho de 2011 – Conheci o Luís Telhado em Julho de 1976, quando o PREC ainda escaldava. Tivemos pequenas escaramuças verbais; porém, soubemos sempre deixar as pontes de pé, que é assim que deverá ser. No dia do meu casamento – e porque não fizera convites – o Luís apareceu de surpresa para me dar um abraço. E cumprimentar a minha família. Por mais anos que eu viva, nunca esquecerei esse gesto. Como não esquecerei as roupas que ofereceu à Filipa, quando era bebé.


O Luís atravessava então um período muito complicado da sua vida particular. Hesitava entre o Bº Azul, onde residiam os pais, e a sua bem-amada Cascais. Decidiu-se por Cascais, de onde vinha, quotidianamente, trabalhar em Moscavide. Num minúsculo Fiat grená, que parecia estar equipado com um motor de rega. Chegava, poisava as chaves, os óculos escuros e o seu inseparável maço de Português Suave, cumprimentava os colegas e quase invariavelmente dizia: “Lúcia, vou tomar café.” Da Lúcia bem se pode dizer que era uma segunda mãe do Luís Telhado, porque era esta amiga que lhe aturava as madurezas e os atrasos. A vida dá as voltas que dá, mas sei que o Luís, nunca se esqueceu de nenhum de nós e nomeadamente da Lúcia.


O ano passado, encontrei-o em Vila Franca, nos primeiros dias de Maio. Um curto cumprimento de circunstância, porque ia em peregrinação a Fátima. A vida e a idade tornaram-no um homem de fé. Feliz ou infelizmente, não o posso acompanhar em matéria de fé. E este ano já nos vimos novamente e conversámos alguns minutos, no Parque das Nações, junto ao Vasco da Gama. Lá ia nas suas inseparáveis calças de ganga, magro como sempre, mas como sempre afável.


Quando deixar de ter obrigações profissionais, hei-de ir a Cascais almoçar com o Luís e rememorar histórias passadas. Muitas. E algumas rocambolescas. Até breve.

sexta-feira, junho 03, 2011

HÁ MUITAS VOZES NA MINHA VOZ

Para o Vítor Morais, meu amigo.

Há muitas vozes na minha voz
E de todas o timbre reconheço:
Alegres umas, outras tristes,
Todas límpidas e harmoniosas.

Há muitas vozes na minha voz:
A de meu pai sempre presente
- Não a de minha mãe, curiosamente –
E as dos poetas que mais amei.

Há muitas vozes na minha voz
E de todas elas gosto por igual.
No cerzir do verso tento ignorar a mescla;
E, humildemente, procuro ser original.

quinta-feira, junho 02, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 2 de Junho de 2011 – Passos Coelho, tudo o indica, chefiará o próximo (des)governo de Portugal. Foi levado ao colo por um exército de comentadores, politólogos e economistas, quase todos de direita, que acertaram o passo para derrubar o arrogante Sócrates.

Sendo tudo farinha do mesmo saco, vamos aguardar serenamente pela concretização dos acordos com a “troika” e esperar pela resposta do povo português ao desatino que se prevê e avizinha a passos largos.


No domingo, irei votar, ao fim da manhã. Farei a minha voltinha a pé e depois esperarei pela última e definitiva sondagem destas eleições. Espero que a CDU tenha uma boa votação. Uma boa votação na CDU é a garantia de que nem todas as medidas ruinosas serão implementadas.

A CDU é mais decisiva do que parece.

quarta-feira, junho 01, 2011

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 31 de Maio de 2011 – No próximo dia 5 de Junho, os portugueses vão votar para eleger um novo parlamento; e, por conseguinte, e/ou em consequência dos resultados, para a nomeação pelo presidente da república de um novo 1º ministro.


Estas eleições vão decorrer num tempo particularmente difícil para os portugueses e para Portugal. Nomeadamente, para os portugueses mais carenciados. Com a corda ao pescoço – a corda da bancarrota – a lusa gente vai pronunciar-se, pela primeira vez, em condições de pouca liberdade, porque os três maiores partidos, segundo as sondagens, têm um programa imposto pelo estrangeiro. Sim, que a Europa a que pertencemos, também é estrangeira e como tal se comporta em relação aos seus membros mais frágeis.


O que me surpreende no meio disto tudo é a capacidade do dr. Portas dos bonés e chapéus para aceitar ser um capataz ao serviço dos senhores que tutelam o protectorado. Era espectável que este varão de velha e rija têmpera ousasse pegar em armas contra o “dicktat” do triunvirato e lutasse bravamente pela lusa gente.

Contradições que o poder tece.

segunda-feira, maio 30, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 30 de Maio de 2011 – Estou farto de economistas, politólogos e comentadores de tudo e de coisa nenhuma, que assaltaram definitivamente os meios de comunicação social, nomeadamente as televisões, não para ajudarem a resolver o grande imbróglio que é Portugal, no momento presente; mas antes para nos acusarem de gastadores e outras coisas afins, tratando-nos como verdadeiros atrasados mentais.


Os charlatães que pululam por aí são os próceres do regime; são os arranjistas do regime; são os gastadores compulsivos do regime; são, ainda, os inefáveis conselheiros do regime. Foram, em suma, os criadores dessas novas divindades que dão pelo nome de lucro e mercado, que todos os dias atormentam as nossas pacatas existências, como, outrora, as vozes tonitruantes dos patriarcas do Antigo Testamento.


Cheguei há momentos de Alverca do Ribatejo, onde, numa só rua, deparei com três dessas casas de compra de ouro, de compra de ouro e prata, de compra de ouro prata e jóias, que um dia ainda hão-de comprar também os dedos dos portugueses, para que nunca mais tenham a ousadia de usar anéis. Já tinha notado a existência destas casas, que alguém, hoje, equiparou a agências funerárias. Abrem em todos os locais da cidade e brevemente chegarão às mais recônditas aldeias. Sabendo da dimensão da crise, os agiotas não perdem tempo.

Portugal fede.

domingo, maio 29, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 29 de Maio de 2011 – A campanha eleitoral vai decorrendo desinteressante, com os candidatos a correr os distritos respectivos e os presidentes e secretários-gerais a percorrer o país inteiro, numa azáfama tal que poderiam ir todos de férias depois da campanha.


Só neste rectângulo de ângulos obtusos é que os debates entre candidatos se efectuam antes da campanha. Acontecessem agora os debates e tudo seria mais útil e interessante. Sabe-se agora que não há só uma versão do documento assinado com a troika – o dr. Portas diz triunvirato, não se sabendo quem vai ser Crasso e sabendo-se que nenhum deles terá a grandeza de Júlio César -; sabe-se também que o dr. Coelho não é capaz de perceber à primeira e de responder de forma elegante a uma rapariga que lhe falou de novas oportunidades; sabe-se agora que Sócrates não tem uma só ideia para o futuro do país para além das dos triúnviros e que os restantes assinantes do famigerado documento também não. Têm pois os portugueses razões para não votar nesta gente, que, de uma forma ou outra, tem responsabilidades no estado lamentável a que chegámos.


Percebe-se também que há medos instalados e acordos ditos de cavalheiros, que bem podiam ter outro nome, porque há assuntos que ninguém discute e responsabilidades que ninguém ousa atribuir. Porquê? Há silêncios a mais na sociedade portuguesa e direitos mais ou menos obscenos, que em tudo se parecem com a celebérrima “omertà”. Não foram só os banqueiros que beneficiaram com a crise e que delapidaram as finanças públicas. Outros beneficiaram - o leque seria enorme -, nomeadamente, do “forró” do consumismo e vêm agora que nem virgens imaculadas falar de responsabilidades. Até parece que os únicos responsáveis são os paus-mandados dos políticos que propiciaram as coisas.


Em Portugal, dizia um amigo meu há muitos anos, não há adversários. Somos todos compadres. E, no momento que passa, começo a dar razão ao Eduardo Berjano.

sábado, maio 28, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 28 de Maio de 2011 - Eu acho que o dia 28 de Maio, de tão má memória para Portugal, não é dia para se nascer. Quis o acaso, que agora as coisas até podem ser programadas, que o meu amigo Carlos Godinho nascesse neste dia. Hei-de chateá-lo toda a vida com a data do seu nascimento, apesar de não ter sido chamado a pronunciar-se, como tão sabiamente escreveu António Gedeão.


Estou de partida para o Cartaxo, terra que conheço mal, a fim de almoçar com amigos do meu sogro, que, vistas bem as coisas, também são meus amigos. E se há valor que eu preze, sobre quase todos os outros, esse é indiscutivelmente a amizade. No Cartaxo, faremos honra ao vinho local com uma saúde para todos os presentes e ausentes, que nossos familiares ou amigos sejam. Até ao Cartaxo, pois, e de carro, que os tempos já não são os de Garrett, que me ensinou a fazer estes excursos nas suas célebres “Viagens”.


E para o Cartaxo, pois, longe deste quotidiano acinzentado, em que os auto-intitulados partidos do arco da governação nos omitem toda a extensão da desgraça que aí vem. Discutem todos as tricas deles, mais ou menos artificiais, ou seja, as “pentelhices, para usar a linguagem colorida do catedrático a tempo 0%. Que parte das responsabilidades são de Sócrates não tenho quaisquer dúvidas; porém, também são de quem lhe prolongou a governação e esta obstruiu, não aceitando a vontade do povo, expressa livremente em 2009.


Um bom dia, Carlos Godinho! Um bom dia Teresa Guerreiro!

sexta-feira, maio 27, 2011

QUADRAS

Tenho uma quadra singela
Pra te dizer ao ouvido.
Quando ta disser não digas
Que sou rapaz atrevido.

De hoje não pode passar,
Se não passa a validade.
Quero-te dizer, amor,
Que te amo de verdade!

Este amor é tão sincero,
Tão sincero e delicado,
Que já não posso, meu bem,
Tê-lo no peito guardado!

A noitinha à janela,
Vai ser grande a emoção,
Quando de forma singela,
Te falar ao coração.

(inéditas)
QUADRAS

Neste Portugal Belmiro,
Vive um povo acomodado,
Que acha bom e muito giro
Ter NET e supermercado.

Meu Portugal azevedo,
Hipócrita e arranjista,
Quando é que perdes o medo?
Reage! Levanta a crista!

Podes fingir alegria
Agarrado ao té-lé-lé.
Que grande hipocrisia!,
Confessa, é ou não é?
......................................
.....................................
in QUADRAS QUASE POPULARES, Ulmeiro, 2003.

quinta-feira, maio 26, 2011

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 26 de Maio de 2011 – Na sua imensa sabedoria, diz o povo, e a meu ver com razão, que o sabe tudo ainda não nasceu. É evidente que a sabedoria popular vale o que vale; mas, de qualquer modo, deve ser valorizada. Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje é um daqueles ditados que podemos e devemos levar a sério.


Eu que pensava que sabia tudo, ou quase tudo, em relação ao falar da Mata, de onde saí definitivamente há mais quatro décadas, aprendi no sábado passado, em amena cavaqueira com o Manuel de Sousa, que de um vinho se pode falar sem aqueles lugares comuns dos enólogos e de uma forma muito mais divertida.


Estávamos a beber um tinto e a ver a vinha onde as uvas crescem e amadurecem, quando o Manel qualificou o vinho de marrão. Percebe-se intuitivamente que se está a falar de um vinho muito graduado, que, bebendo-se sem precauções, se pode tornar implicativo. E continuando a dissertação sobre vinhos, ainda me falou dos vinhos cantantes e dançantes. É evidente que as últimas qualificações já têm a ver com o comportamento de cada qual relativamente à ingestão dos crudes.


De qualquer modo, talvez naquelas garrafas de vinho de 14º, ou mais, se pudesse escrever no rótulo: vinho marrão. Fica à consideração dos enólogos.

terça-feira, maio 24, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 24 de Maio de 2011 – Correia de Campos, o mais neo-liberal dos ex-(des)governantes do PS, tornou-se agora num pedinchão vulgar. Foi posto a andar por tratar mal da saúde dos portugueses e agora volta para pedir os votos de uma parte dos portugueses mais humildes. Bem merecia que lhe fizessem um “mega”, seja lá isto o que for, um toma ou mesmo um ostensivo Raphael Bordalo Pinheiro.


É evidente que nestas coisas – para mim é mesmo assim – não é a pessoa que está em questão, que, apesar da calvície, o senhor tem um aspecto limpo e parece muito compenetrado do seu papel. Ora o meu ponto é mesmo a política e a política de pôr portugueses a nascer em Badajoz, não cabe na cabeça de ninguém a não ser na de um neo-liberal, a quem pouco interessam os sentimentos. Eu dou um exemplo: a minha senhora nasceu em Lisboa, na Rua da Palma; porém, o senhor meu sogro resolveu registá-la em Alhandra, onde moravam, naquele ano de sessenta e dois.


Eu gosto de Alhandra e do Soeiro e do Batista Pereira e doutros alhandrenses ilustres. Até das figuras de ficção dos Esteiros, Gaitinhas e Gineto, mas ninguém há-de convencer a minha senhora de que é natural de Alhandra. Enquanto ela for viva, nunca! Ora Correia de Campos é o senhor que pôs portugueses a nascer propositadamente em Badajoz. E um homem que faz uma coisa destas, não pode apelar ao voto de portugueses humildes. Essa coisa de nascer fora tem a ver com reis e rainhas e nunca com o povo mais genuíno.


Correia de Campos, que tem um aspecto limpo e até fala sem pontapés na sintaxe do português, tratou mal da saúde dos portugueses, que é o bem mais precioso que os cidadãos têm. E estes, seguramente, far-lhe-ão orelhas moucas.

segunda-feira, maio 23, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia,23 de Maio de 2011 – Dentro de quinze dias, já saberemos quem nos vai (des)governar nos próximos tempos. Tendo em conta a natureza do actual PS, é-me indiferente que seja o Zé da Amélia ou o Toino da Joaquina. E no entanto, dia 5 lá irei votar, como sempre, desde 25 de Abril de 1975. E escolherei os do costume, ou seja, aqueles que não traem, aqueles que respeitam o meu voto.
Sinto-me desencantado com este regime, ou melhor dizendo, com os sucessivos governos constitucionais que tudo têm feito para fazer esquecer Abril e as suas conquistas. Em nome de economia, dos mercados e do deus-cifrão, têm sido muito esforçados, os nossos queridos governantes, numa luta sempre inacabada contra os direitos conquistados a seguir àquela redentora madrugada de Abril de 1974.
Há um grande paradoxo na sociedade portuguesa: aumenta o número dos pobres e os nossos ricos tornam-se ainda cada vez mais ricos, incólumes a todas as crises. A começar pelos merceeiros e a acabar nos donos dos combustíveis e das energias. Portugal, que eu sempre sonhei mais fraterno e solidário, precisa de um vendaval que o reponha nos caminhos de Abril.
Olá se precisa!...

domingo, maio 22, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 22 de Maio de 2011 – Pela segunda vez, participei no almoço dos antigos alunos da E.I.C. de Castelo Branco, lá, nos arredores da cidade. Saí de casa às 8H00 e cheguei à minha aldeia natal, pouco depois das dez. Com tempo suficiente para visitar minha mãe, que, com as maleitas próprias da idade, ainda vive, por vontade própria, na sua casa, na Mata.
Uma ida à Tapada, uma pequena propriedade que possuímos a quatro cinco minutos da localidade, que o carro não pode andar depressa nos caminhos rurais. Tudo cheio de ervas, que, apesar de querermos lavrar, não há quem queira fazer o trabalho em tempo útil. Ou porque os tractores não podem, ou porque avariam, ou, ainda, porque é preciso esperar que os terrenos permitam a lavoura.
Quando meu pai tratava das suas terras e das suas árvores, aquela fazenda era uma espécie de terra santa, no dizer de minha mãe. Tudo produzia para haver fartura de fruta, legumes e outros produtos da terra, em nossa casa. É certo que nada falta a minha mãe, mas tudo mudou radicalmente na sua vida com a ida de meu pai e as suas terríveis artroses.
O almoço foi na Quinta das Onelas, no Retaxo. Oportunidade para rever antigos condiscípulos, não tantos como seria espectável, mas mesmo assim em número suficiente para conversar abundantemente. Para além de pessoas da Mata, também reencontrei gente da cidade e das aldeias vizinhas, que forneciam os alunos que animavam, conjuntamente com os militares, a vida da cidade.
E lá estava o Carlos Barata, de máquina fotográfica pronta para registar o momento. Fomos colegas de turma e amigos. Lá estava o João Rolo e a Maria do Rosário de quem sou amigo; dele desde sempre e dela há várias décadas. Foi um dia bem passado com uma larga conversa com o Manuel de Sousa e com a Fátima. E tudo isto, porque o António Pereira se lembrou de mim. Para o ano, se tudo estiver bem, hei-de marcar presença. Porque, afinal de contas, só temos uma vida.

sábado, maio 21, 2011

MATA

Viram-te nascer e conhecem de cor os teus segredos. Foram a tua companhia, silenciosa e segura, durante centenas de anos.

Deram-te sombra, nem sempre boa, é certo, nos tórridos dias do verão; a luz possível, antes do advento da electricidade; o calor nos invernos, às vezes, tão longos e rigorosos; o tempero para a panela pobre, que tornava o feijão e a couve menos ásperos; o dinheiro para muitos dos restantes e indispensáveis bens.

E como a generosidade foi recíproca, também é justo que não olvidemos o muito e aturado trabalho e até servidão que foram exigindo a sucessivas gerações.

De qualquer modo, moldaram-te o carácter. Com elas aprendeste a mansidão e a austeridade. Por isso mesmo, nunca foste dada a sobressaltos e a paixões. Em toda a minha vida, apenas ouvi falar de um crime passional, perpetrado por um homem, a quem o amor de uma mulher não quis servir. Foi muito antes de eu ter nascido e já passei há muito pelos cinquenta.

Benditas sejam para sempre as nossas oliveiras!

quinta-feira, maio 19, 2011

INTIMIDADES



DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 19 de Maio de 2011 - Tenho grande estima pessoal por Jerónimo de Sousa, que conheço há trinta e tal anos e de quem sou quase vizinho. Jerónimo de Sousa, que encontro nos mais variados locais e com quem troco, quando calha, meia dúzia de palavras, é um genuíno filho do povo, cujo sentir mais profundo interpreta na perfeição. Muito jovens ainda pertencemos aos corpos sociais de uma colectividade de Santa Iria de Azóia – a 1º de Agosto Santiriense - apanhávamos o mesmo comboio, todas as manhãs, no apeadeiro de Santa Iria. Jerónimo já era então deputado. E era muito giro irmos de comboio, num compartimento sem bancos, que, creio, era destinado aos revisores.


Sigo a par e passo a actividade do secretário-geral do PCP; nomeadamente, aquilo que as televisões mostram e que eu consigo ver. É um homem sério, batalhador e generoso, que tem sabido granjear o respeito de muitos dos seus adversários políticos. De grande estatura moral e humana, Jerónimo desempenha o seu papel o melhor que sabe e pode, defendendo os interesses dos comunistas portugueses.


É certo que Jerónimo tem as suas limitações nomeadamente no plano discursivo, mas nem por isso deixa de se bater com galhardia com economistas, engenheiros e licenciados em direito para desespero de comentadores e profissionais da comunicação, que, amiúdo, lembram o chinquilho, os bailes populares, o carinho pelas colectividades de cultura e recreio, o prazer de um copo ou de uma boa comezaina. E agora há até quem lhe chame “habilidoso”, “ignorante”, “intuitivo” e outros mimos. Saídos das universidades, onde se formaram os sábios que conduziram o país à bancarrota, estes idiotas pretendem apenas achincalhar o homem, esquecendo-se que achincalham simultaneamente uma parte significativa do povo português. E não são só os votantes do PCP.


Pobres idiotas!

quarta-feira, maio 18, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 18 de Maio de 2011 – Desconheço qual seja a polémica do dia, neste tempo chamado pré-eleitoral. Ontem, falou-se copiosamente do programa “Novas Oportunidades” e o senhor Passos Coelho voltou a falar para que não digam que está calado. Novo tiro no pé.


Admito perfeitamente que haja algum facilitismo no programa “Novas Oportunidades”. Nenhum programa do género há-de atingir a perfeição absoluta; porém, desta vez até estou de acordo –oh, milagre dos milagres!- com o engenhoso Sócrates. De facto há que respeitar as pessoas que se esforçaram e obtiveram equivalência a um grau da escolaridade obrigatória. Só eu sei da indescritível alegria da minha vizinha Manuela, quando me disse, com um sorriso de enorme contentamento, que tinha obtido a equivalência ao 9º ano. De dia trabalhava no seu negócio e à noite ia estudar, quando teria sido muito mais fácil ter ficado no sofá a ver telenovelas.


Eu tenho um primo por afinidade, que foi meu condiscípulo de escola primária, que também obteve o 9º ano no âmbito deste socrático programa. E não tenho quaisquer dúvidas, que o meu primo, carpinteiro de profissão, tem conhecimentos mais do que suficientes para ter aquele grau de escolaridade. Ainda antes do cumprimento do Serviço Militar Obrigatório, emigrou para França onde começou a ganhar a vida aos dezasseis ou dezassete anos. Veio cumprir o SMO – esteve em Angola até princípios de 75 -, casou e voltou a emigrar para França e a partir deste país fez estágios na Argélia, no Egipto(!) e noutros sítios. Levou consigo uma cunhada com dois ou três anos, órfã, e em França lhe nasceram os dois filhos. Regressaram a Portugal e o meu primo por afinidade tornou-se empresário da construção civil, na área da carpintaria. A cunhada licenciou-se, a filha licenciou-se e o filho licenciou-se. E o Pedro trabalhou e educou da melhor forma aqueles que tinha ao seu cuidado. Vai fazer sessenta anos e decidiu dedicar-se apenas à sua quintinha e aos seus “hobbies”. Produz um vinho para consumo pessoal, que até rotula com esmero. Sempre foi um apaixonado pela fotografia.


Chegados aqui, há uma pergunta que não pode deixar de ser feita: poderá alguém, com um mínimo de bom senso, contestar a atribuição de uma habilitação equivalente ao 9º ano a um cavalheiro com um percurso de vida assim e com tantos saberes?

terça-feira, maio 17, 2011

SACAVÉM (parte baixa)




São estas casas, onde às vezes se vivem horas de grande aflição,

mormente quando o Trancão se liberta das apertadas

margens, que conferem o carácter à cidade.





sábado, maio 14, 2011

Comício da CDU em Santa Iria de Azóia





"Portugal não é um país pobre"

"O mar é uma riqueza imensa"

"O nosso subsolo é dos mais ricos da Europa"

Jerónimo de Sousa, em Santa Iria de Azóia.

domingo, maio 08, 2011

SENHORA DO ALMORTÃO





Senhora do Almortão,
Ó minha rosa encarnada,
Trata bem o São Romão,
Nunca lhe faltes com nada!


Vejo-te sempre solteira,
Tão bonita, tão vistosa.
Não há santinha na Beira,
Como tu tão virtuosa.

(inéditas)

terça-feira, maio 03, 2011

DUAS QUADRAS
Passei pelo blogue amigo
Do poeta João Teixeira;
Não vi lá campos de trigo,
Que ali é outra a sementeira.


Palavras bem arrumadas
E tão belas como as flores;
Estas ficam perfumadas,
Aquelas de muitas cores.

inéditas