sábado, fevereiro 04, 2012

Passaram já três anos, mas a mágoa permanece intacta

CONVERSA INACABADA

Nunca diremos tudo o que havia para dizer, porque é da natureza das coisas as conversas ficarem inacabadas. É certo que por pudor – ou outra razão qualquer –, passamos ao lado de coisas importantes, decisivas, fundamentais. Foi sempre assim e assim continuará a ser.

Quando eu era menino e me perguntavas de quem eu gostava mais, se de ti ou de minha mãe, respondia-te da forma mais convencional, ortodoxa, previsível: gosto dos dois. E hoje sei, de ciência segura, quão verdadeira era a minha pueril resposta.

Nunca te terei dito “gosto muito de ti”, ou “és o meu ídolo” ou ainda “amo-te muito”. Estas coisas comezinhas estavam para além da nossa gramática quotidiana e excediam a nossa intimidade comedida. E no entanto, ambos sabemos quanto nos amámos sempre.

Estas palavras, que neste momento escrevo, entre um café e dois goles de água, não as ouvirás jamais da minha boca. Ainda por pudor, não era hoje que te iria dizer estas coisas, que apenas aumentariam a tua comoção. O que te juro – é palavra de homem –, é que tens um lugar único, no meu coração.

in FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, 2009

1 comentário:

Anónimo disse...

E que bela declaração-confissão! Àh! se tivéssemos plena liberdade e transparência para as ideias e os pensamentos saírem de dentro de nós e deixá-las caminhar... indo direitas aos nossos mais queridos e ou mais amados!...

Com admiração e amizade,

Luís Fernandes.