segunda-feira, agosto 09, 2010

DO MEU DIÁRIO

Charneca da Cotovia, 8 de Agosto de 2010 – Acordei com o ribombar de trovões. Há muito tempo que não me acontecia acordar com música assim e confesso que não é agradável.
Outrora estas situações eram-me mais ou menos familiares e até lhes descobria alguma graça. Agora, que Santa Bárbara me perdoe, confesso que prefiro acordar com outros sons. Depois foi a forte chuvada, que havia de deixar tudo da cor do barro.
Apesar deste agitado despertar, o meu Agosto decorre placidamente.
Charneca da Cotovia, 8 de Agosto de 2010 – Realizou-se hoje o funeral de António Dias Lourenço, antigo operário fabril, ex-director do jornal “Avante”, ex-dirigente do PCP. Morreu aos 95 anos de idade.

Da sua longa vida outros saberão falar melhor do que eu. No entanto, será bom lembrar que 17 foram vividos nas prisões de Oliveira Salazar. Nunca vacilou. Nunca traiu. Nunca voltou a cara à luta pela democracia.

Foi amigo de romancistas e poetas. Até por isso, Dias Lourenço terá sido lembrado por trabalhadores da palavra. Este homem merece um poema.

Charneca da Cotovia (9H00), 9 de Agosto de 2010 – Levantei-me cedo e não foi para ir a casa do meu médico "Hermogène", ainda que bem precisasse. Mas adiante que se faz tarde.

O dia está risonho e aproveitei para dar um passeio a pé, que as férias estão a ser muito sedentárias e com alguns abusos alimentares. Gosto de respirar no pinhal, dentro deste condomínio fechado que é o parque de campismo Valbom, onde posso ainda, com toda a tranquilidade, ver como os campistas são criativos.

Este campismo de casinha, com águas quentes e frias e cozinha, já pouco terá a ver com o campismo tradicional. É mesmo condomínio fechado de classe média, onde às vezes se intrometem alguns estranhos com hábitos menos ortodoxos. Barulhentos, às vezes. Dados a algazarras. Com língua muito livre.

O pior, no entanto, é mesmo o medo que sinto perante a queda iminente de uma pinha que me possa dar cabo da cabeça.

domingo, agosto 08, 2010

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 13 de Abril de 1994 - Lobo Antunes acaba de nos anunciar, em entrevista ao JL, que resolveu radicar-se definitivamente em Portugal. Assim sendo, viveremos todos com mais paz interior, ou seja, sem a ameaça do autor de Cus de Judas exilado em Berlim ou Nova York. Continuaremos a ser o país pequenino que sempre fomos, mas todos juntinhos nesta terra de clima doce, onde medram, espontaneamente, a urze, a esteva, o alecrim e o rosmaninho, como notou Garrett.

E (o) António é, indubitavelmente, um dos nossos.

sábado, agosto 07, 2010

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 20 de Abril de 1994 - Não sei onde pára a História da Cultura Clássica do Pe. Manuel Antunes. No entanto, chegou-me às mãos um livrinho de sua autoria, Repensar Portugal, que estou a ler com a lentidão devida aos grandes textos. Nunca me cruzei com o Prof. Manuel Antunes, nem tinha necessariamente que me cruzar, mas creio que era um homem excepcional, isto é, um daqueles seres raros que as sociedades só produzem de tempos a tempos. Datado de 1977, Repensar Portugal revela-nos um pensador atento à realidade circundante, que nos incita a tentar a mudança e a experimentar a utopia.

segunda-feira, agosto 02, 2010

DO MEU DIÁRIO

ANTÓNIO GEDEÃO
Torres Vedras, 19 de Fevereiro de 1997 - António Gedeão, poeta de mensagem facilmente apreensível, pereceu ontem no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
Nos próximos dias, os jornais, a rádio e a televisão, falarão com grande cópia do autor da “Pedra Filosofal”, que um “baladeiro” dos anos sessenta – e que ainda vai aaparecendo -, popularizou e trouxe ao convívio do grande público.

Passado o luto, abater-se-á sobre este autor de mensagem fácil, um silêncio de chumbo. É que poetas como Gedeão, que o povo ouve e estima, são muito perigosos. E depois, poesia que não for essencialmente forma não merece o interesse dos nossos iluminados críticos e dos nossos inefáveis professores universitários.

Que a ninguém pareça mal, mas não resisto a transcrever três versos de António Gedeão, que são a medida de uma incomensurável tolerância:

Ajuda-me a esquecer as tuas faltas
e a ignorar os teus crimes
para melhor te amar.
( do poema “espelho de duas faces”)

DO MEU DIÁRIO

ÓSCAR LOPES
Lisboa, 20 de Outubro de 1997 - Oscar Lopes, Homem de cerviz direita, que, por mais voltas que se dêem, terá de ser encontrado entre os portugueses mais generosos deste nosso tão peculiar séc. XX, não foi convidado para integrar a representação portuguesa à feira do livro de Frankfurt.

Se Portugal fosse um país decente - e tudo indica que o não é -, o co-autor da História da Literatura Portuguesa e um dos ensaístas mais fecundos de toda a nossa História Literária, não teria sido esquecido pelos senhores do mando. À generosidade de Òscar Lopes, que deu a ler aos portugueses dezenas e dezenas de autores, respondem as autoridades com o olvido.

Sei que Òscar Lopes paira mais alto. Sei que este é apenas mais um acidente com que a Pátria o quis brindar. Não porque a Pátria seja madrasta ou velhaca. A Pátria, entidade abstracta e mais ou menos mítica, nunca poderia ser apodada com tais epítetos. Estas coisas acontecem, porque aos destinos da Pátria presidem criaturas menores e intolerantes, capazes de glorificar todos os champalimauds e de crucificar todos os Camões.

DO MEU DIÁRIO

ERRATA

No texto anterior, com fotografia e tudo, na legenda há uma gralha grave: onde se lê Quinta da Bicuda, deve ler-se QUINTA DA BIGORNA. O erro foi notado, e muito justamente, por Cristina Carvalho

DO MEU DIÁRIO

ENTRADA DO RESTAURANTE
QUINTA DA BICUDA
Santa Iria de Azóia, 2 de Agosto de 2010 – Uma ida à Mata, que eu considero a minha São Martinho de Anta, é sempre um acontecimento íntimo. É a minha mãe, a minha modesta casinha, as laranjeiras do quintal, a tapada da Bemposta, as figueiras e restantes árvores plantadas pelo meu pai, a memória também de meus avós paternos e até do meu bisavô Francisco Lucas.



Ontem fui mostrar à minha companheira – vá-se lá saber porque não digo mulher -, a estrada que há-de ligar a Mata a Idanha-a-Nova dentro de pouco tempo. E revi uma paisagem já esquecida, de azinheiras, que me fora também familiar na infância, quando atravessava, com o meu pai, a ribeira de Alpreade. Esta ligação é um sonho antigo das gentes da Mata e está prestes a concretizar-se.



Na noite de sábado, no largo de S. Pedro, ao som de música pimba, ainda deu para rever antigos companheiros e também familiares, bebericar umas imperiais e visitar a Quinta da Bigorna, paredes meias com a Mata e os Escalos de Baixo. Um empreendimento turístico interessante, com várias valências e que também vai ter um hotel. Ali comi ontem, com familiares, um leitão divinal.



E depois…Depois, foi o regresso a casa, pela A-23, que ainda continua SCUT.

O TEMPO

I
É o tempo
- o inexorável tempo -,
Que atenua a mágoa
E mostra
Quão profundas
Eram as raízes.

II
Um Verão vai
E outro vem.
E neste vaivém,
Decorre
A minha vida.

Esta vida que vai,
Vai e não vem.

III
Lentas,
As nuvens vêm
E vão.

Umas deixam (m)água
E outras não.

Ah, só o Verão,
Esplendoroso,
Alegra
O meu coração.

IV
O Outono,
Decididamente,
Não!


sábado, julho 31, 2010

terça-feira, julho 27, 2010

AS PALAVRAS
Com palavras constroem verdadeiros monumentos: precários, às vezes; às vezes, teimosamente resistentes. Alguns chegam até nós, vindos do fundo do tempo, frescos e incorruptíveis; outros, igualmente frescos, trazem a pequena mossa da corrupção em notas de rodapé.

Todos esses monumentos – de que os poetas são arquitectos e pedreiros, engenheiros, pintores, carpinteiros -, se falar pudessem, dariam conta de inumeráveis batalhas ganhas com galhardia e perseverança, desde o surgir da pura ideia até ao assentamento da última pedra.

Acreditai-me, ó gentes profanas!, que não é fácil recriar permanentemente o mundo com as humílimas palavras, para vo-lo servir pleno de harmonia em esplendorosas bandejas de oiro.
in FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx, 2005

DO MEU DIÁRIO



Santa Iria de Azóia, 27 de Julho de 2010 – Às vezes, quando penso na minha condição de leitor de poetas, sinto que há na minha vida um paradoxo insanável. Citadino inveterado, quando chegam estes dias quentes de fim de Julho, dentro de mim fala mais alto o filho e neto de camponeses.


Vêm-me há memória as horas de calor passadas sob a figueira branca, o meu avô paterno sempre de chapéu na cabeça, as refeições frugais, a voz de minha avó, a figura franzina e jovem de minha mãe, o canto das cigarras e dos melros, o zumbir dos moscardos.


A água, fresquíssima, era tirada do poço novo com a picota e nela refrescávamos os pêssegos, os figos, as framboesas e as ameixas. E até os figos das piteiras, que o meu avô descascava para eu comer.


Daquela paisagem íntima só existe o poço, cuja água é imprópria para consumo. E até eu, um dos poucos sobreviventes, sou apenas a memória daquelas coisas elementares, que o tempo, inexorável, se encarregou de levar e transformar.
Mas como minha avó dizia: “Abençoado seja o Verão!”

segunda-feira, julho 26, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 26 de Julho de 2010 – Ontem encontrei JCdeS, que conheço há mais de três décadas. Estimamo-nos, mas não temos uma relação de amizade. Tratamo-nos com grande cordialidade, que se aviva cada vez que nos encontramos.

Ontem, perguntou-me pela saúde de um familiar muito querido e ouviu a minha narrativa com muito interesse e apreensão. E quando nos despedimos, disparou-me esta que aqui partilho, sim, que esta Diário já é um espaço público: “tens de fazer boa cara ao mau tempo”.

Genuinamente popular, mas sobretudo pela sua modéstia e vasta humanidade, JCdeS é credor de todo o meu respeito e admiração.

domingo, julho 25, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 11 de Julho de 2010 – As auto-estradas dão-nos tempo, mas roubam-nos o dinheiro e o país. Antes de haver A-23 – uma das SCUTS das pátrias desavenças -, chegava a demorar quatro horas para ir à Mata e demorava outras quatro no regresso. Agora vou e venho e nem chego a gastar as quatro horas.

Eu conhecia topónimos como Azervadinha, Rosmaninhal, Barreiras, Arez e tantos outros, que vou esquecendo, inevitavelmente. Para não falar do Afonso, em Mora, um restaurante simpático, onde “matei a malvada” vezes sem conta. Ou do Café Central, em Ponte de Sor, onde espantei o sono igualmente vezes sem conta.

Ainda me lembro de, num dia de Greve Geral, ter acabado a confraternizar com os trabalhadores do Couço, que, ao que julgo saber, é a terra natal de José Casanova. E de histórias de furos, avarias e até de um despiste sem consequências, na passagem de nível do Crato, em 1 de Janeiro de 1980.

E tudo isto para dizer que as auto-estradas nos dão tempo, mas nos roubam Portugal. Só por este crime, os utentes das auto-estradas deveriam ser indemnizados.

domingo, julho 18, 2010

AO CONTRÁRIO DE REIS


De mãos dadas, vamos, Marta, até à beira rio. E aproveitemos, quais hedonistas inveterados, a mansidão da tarde, para nos amarmos, sôfregos, como os velhos faunos, que as nossas vidas são breves e o tempo muito veloz.

De mãos dadas, vamos, Marta, até à beira rio. E saibamos desfrutar todos os instantes, e, juntos, ouvir apenas o apressado bater dos nossos corações, indiferentes ao rio e a quem por nós passa.

Amemo-nos, pois, uma e outra vez e outra ainda, para, quando o tal barqueiro vier separar-nos, de nada possamos lamentar-nos, nem do Amor sermos devedores.

De mãos dadas, vamos, Marta, até à beira rio.

quinta-feira, julho 15, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 23 de Setembro de 2005 – Quando eu for grande, quero viver num país decente e não nesta «choldra», como lhe chamava o Eça, nos finais do século XIX. Quando eu for grande, quero viver numa República de homens livres, livres no mais amplo sentido da palavra, e não de títeres representativos de interesses inconfessáveis. Quando eu for grande, quero que aos meus concidadãos sejam reconhecidos os méritos e que não possam singrar os medíocres e oportunistas. Quando eu for grande, farei esforços para acabar com as comendas oficiais, que são sempre dadas às mesmas famílias e não propriamente àqueles que à pátria tudo dão sem nada pedirem em troca. Quando eu for grande, quero viver numa República cujo Presidente não o seja com o pretexto de o já ter sido. Quando eu for grande, não quero a presidir aos destinos da Pátria um choraminga, que também seja um dos beneficiários dos favores da Pátria. Quando eu for grande, quero ter filhos que amem e honrem a Pátria, mas recusem prebendas, reformas antecipadas e outros benefícios. Quando eu for grande, quero ensinar aos meus filhos que a Pátria não é uma vaca à qual se sugam as tetas. Quando eu for grande...

domingo, julho 11, 2010


POEMA

Há dias,
Despudoradamente,
Roubei um verso
Ao poeta Albertí.

Coisa sem importância
Dirão os (des)entendidos
Que pululam
Por aí.

Roubar, meu amor,
Só na loja das flores,
Uma rosa
Para ti!

sexta-feira, julho 09, 2010

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 9 de Julho de 2010 – Acontece-me agora, um ano e meio depois, sonhar com e acordar a pensar em meu pai. Ao contrário do que outrora pensaria, agora acho tudo isto normal e não sinto qualquer receio ou angústia. Acordar a pensar em e a sonhar com meu pai é agora um momento de apaziguamento comigo mesmo. Diria até de reencontro. Vá-se lá saber, portanto, o que estas coisas significam, nomeadamente para mim, que não sou psicólogo e sempre desconfiei da interpretação dos sonhos de um tal Sigmund Freud.

Nem sempre tive uma boa relação com meu pai, que era um homem muito contraditório, sempre a oscilar entre as coisas divertidas da vida e um arreigado pessimismo quanto ao devir histórico. O fim do mundo estava sempre iminente para aquele homem de estrutura baixa e franzina. Sempre disposto a defender a ordem, a disciplina e os costumes tradicionais.

Hoje, em conversa com o Ruela, fiquei a saber que um “guru” de grande reputação terá dito que havemos de voltar ao cultivo da nossa batata, do nosso tomate, do nosso feijão-verde e de outros produtos da horta. Ora isto significaria o triunfo de uma das teses de meu pai, que sempre defendeu o cultivo da terra e das pequenas produções domésticas.

O sonhar com e o acordar a pensar em meu pai, se calhar, tem a ver com este período que estamos a viver. Com este período de grande pessimismo, em que o céu parece querer desabar sobre as nossas cabeças
.

terça-feira, julho 06, 2010

2 QUADRAS POPULARES

Dizes que não tens amores.
Luta pra que tudo mude.
Pede amor com devoção
À Senhora da saúde.



À Senhora da Saúde,
À Virgem da Piedade,
Roga Amor filha querida,
Que é chegada a bela idade.

quinta-feira, julho 01, 2010

PALAVRAS PERDIDAS

Há quanto tempo, mãe, não te falo de amor
Com aquelas palavras de encantar
Com que as crianças falam do amor?

Há dias corei de vergonha,
Corei de vergonha quando li,
Num livro de cartas de Saint-Exupéry,
As palavras mágicas que ele escreveu a sua mãe
E que eu nunca te disse a ti.

Deixei que entre nós se interpusesse
Um pudico silêncio ancestral
E disse-te apenas coisas imediatas e triviais.

Eu esqueci, mãe, aquelas palavras claras e pueris
Que tanto alegravam o teu coração.

Eu coro de vergonha, mãe!


Manuel Barata, FRAGMEMTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx. 2005

sábado, junho 26, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 26 de Junho de 2010 – A União Cultura e Acção (UCA), colectividade de cultura e recreio de Santa Iria de Azóia, ressuscitou graças ao trabalho da Gabriela, do Leandro, da Ana Maria e de outras pessoas, que, generosamente, a eles se foram juntando.

A ideia de ressurreição foi introduzida por José Morais, advogado, que conheci ainda estudante liceal no já longínquo ano de 1972. Convivemos muito naquele ano lectivo de 1972/73 e temo-nos encontrado por aí ao acaso, mantendo ambos o gosto pelos livros e pelos grandes autores. Na UCA nos encontrámos ontem e de livros e autores falámos, como não poderia deixar de ser.
Feito este parêntesis para justificar a ideia de ressurreição da UCA, chegou o momento de dizer que fiquei surpreendido com os números que ouvi, relativamente às inscrições nas diversas disciplinas ensinadas na “instituiçãozinha”. Dir-se-ia que se conjugam ali, exemplarmente, os verbos aprender e ensinar. E depois de uma forma quase informal, sem ninguém falar de cátedra e com muito carinho.
Ora aqui está uma iniciativa com muito mérito, que deverá ser apoiada pela sociedade civil e pelas entidades oficiais – e creio que o tem sido -, permitindo-lhe o crescimento que os “refundadores” pretendem.

sexta-feira, junho 25, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 24 de Junho de 2010 – As polémicas à volta de Saramago ganharam uma nova vida com a sua morte. Afinal de contas, muitos cristãos deste pobre reino aproveitaram o momento para um novo, que não será certamente último, ajuste de contas com o autor de Levantado do Chão.

Falaram do dinheiro gasto com o avião, dos dois dias de luto nacional e do autor ter defendido em tempos uma União Ibérica e também por ter ido residir para Lanzarote. Um tal Lara, que não pertence à estirpe dos sete infantes com o mesmo apelido, voltou a não manifestar qualquer arrependimento pelo uso do lápis azul, aquando da exclusão de Saramago de um prémio europeu; um tal Cavaco, que nunca terá dado nada de seu ao país, recusou-se a comparecer nas cerimónias fúnebres oficiais, apesar de dizer frequentemente que sabe muito bem quais são os seus deveres; o Osservatore Romano, misericordioso, escreveu uma série de disparates acerca do homem e da obra.

Todos estes episódios, quer queiramos quer não, demonstram que Portugal vive em permanente guerra civil. O Portugal ultramontano, incapaz de se regenerar, estulto e videirinho, não conseguiu pôr de parte guerrinhas estéreis e homenagear condignamente o autor de O MEMORIAL DO CONVENTO, O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS, ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA. Não soube, em suma, estar à altura de um gigante nacional, que tão alto e longe levou o nome do seu país.

sábado, junho 19, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 19 de Junho de 2010 – A Igreja Católica não perdoa e não desperdiça as oportunidades para atacar quem, mesmo que nunca a tenha directamente afrontado, não se coibiu de nos dar a sua visão da vida e do mundo. Nomeadamente, no plano religioso.

A Igreja Católica, que qualquer um de nós considera uma sábia instituição, demonstrou hoje, relativamente a José Saramago, um fanatismo digno dos seus pergaminhos passados e que julgávamos já ultrapassados.

A Igreja que hoje emitiu opinião acerca da obra de José Saramago, no órgão oficial do Vaticano, demonstrou não só um fervoroso fanatismo, mas também uma grosseira apreciação da obra de Saramago.
Um dia mais tarde, daqui a muitos anos, há-de vir, com o atraso do costume, pedir desculpas públicas. O que nos vai valendo é que esta Igreja Católica já não tem os poderes de outrora, o que livra Saramago de um auto de fé post mortem.

sexta-feira, junho 18, 2010

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 18 de Junho de 2010 – Soube do desaparecimento de Saramago, há cerca de uma hora, num serviço de finanças. E através de um leitor de Saramago que, teve a coragem de me dizer, não apreciava como pessoa. Lá aproveitei para dizer que não era importante gostar-se de Saramago como pessoa, porque importante era o seu legado literário.

Cheguei a casa e o meu filho, que hoje fora a Mafra para visitar o convento, disse-me imediatamente que até parecia ironia ter ido a visitar o convento por causa do Memorial e o nosso Saramago ter morrido. O possessivo é dele, mas é evidente que também é meu, porque sou velho leitor de Saramago e previ no início dos anos noventa, neste já longo Diário, a atribuição do Nobel ao autor de Levantado do Chão.

A obra de José Saramago, a quem o meu amigo Fernando Grade chamava José de Sousa, ficará a perdurar, múltipla, pelo tempo fora, nomeadamente a romanesca, porque escreveu, no mínimo três ou quatro grandes romances, a saber e pela ordem das minhas preferências: Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis.

Neste nota mais ou menos de circunstância, quero aqui deixar o nome de algumas das personagens de Saramago, que são a garantia de que vai vencer o esquecimento durante muitos anos: João Mau Tempo, Blimunda, Baltazar, Cipriano e Marta Algor, Marcenda, Lídia, Ricardo Reis, etc.

Quanto a Saramago cidadão, diga-se aqui e para que conste que soube estar ao lado daqueles que mais necessitavam das suas posições corajosas. Os Chiapas e os palestinos perderam hoje um amigo de peso.

quinta-feira, junho 17, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 17 de Junho de 2010 – As crises, confesso, não me estimulam a pena. Para dizer a verdade, passo agora dias e dias sem escrever uma linha. Dir-se-ia que gosto mais de assistir ao debitar voluptuoso de outros escribas, muitos dos quais debitam disparates à velocidade da luz.

Os defensores de Sócrates esgrimem argumentos e mais argumentos, caninos muitos, mas que esbarram diariamente nas paredes espessas e consistentes da realidade. Sócrates é apenas, no momento que passa, o cabo que vai cumprindo as ordens dos donos de Bruxelas, Berlim e Paris, que, por sua vez, andam ao toque de caixa das chamadas agências de notação financeira.

O dr. Coelho vai dando os seus passos como dirigente, ora associando-se ao eng. Sócrates, ora dissociando-se do eng. Sócrates, convencido que um dia vai, e provavelmente vai, ser o cabo de serviço. Porém, o dr. Coelho não tem nada de diferente a propor ao país e por isso diz que não tem pressa de chegar ao poder. Acredita que este lhe cairá no regaço por obra e graça de uma profunda crise que não se sabe bem quando e como acabará.
O que eu sei de ciência segura é que a Europa vive hoje a sua maior crise do pós-guerra, porque os europeus, laxistas, entregaram o governo dos respectivos países, os do Sul e também os do Centro, aos inimigos ideológicos do seu modelo de sociedade. A dona Merkel, o senhor Sarkozy e o senhor Berlusconi (?), são apenas alguns dos exemplos que me ocorrem. E andamos para aqui todos a fazer de conta, que nem baratas tontas, que a crise tinha que acontecer, porque os estados gastam mais do que deviam.

quarta-feira, junho 16, 2010

TRÍPTICO PARA VAN GOGH

I

Subitamente,
no auge da devoção,
recebeu do céu
divina inspiração.

Desenfreado,
de paleta na mão,
desatou a pintar
ao ritmo do coração.

Sóis,
ciprestes
miosótis
e girassóis.

II

Do fundo da mina
- qual vagabundo -,
trouxe as cores
com que iluminou o mundo.

E no entanto
- moderno Prometeu -,
o pobre do Vincent
nem uma tela vendeu.

III

E um dia,
quando o voo rasante dos corvos
se tornou ameaçador,
fitou o cocuruto dos ciprestes
e entregou a alma ao Criador.

Barata, Manuel, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx, 2005

sábado, junho 12, 2010

ANTÓNIO NOBRE
Às vezes, dou por mim agarrado ao Só de António Nobre e sinto uma imensa tristeza. Eu sei que parte daquele sofrimento é fingido, porque todos os poetas são fingidores. Mas usa uma máscara tão autêntica, tão dramaticamente convincente, que a tristeza de Anto me esfarrapa todo por dentro.

Às vezes, ponho-me a imaginar António Nobre, sozinho, nas ruas de Paris, rememorando a igreja de Leça, o mártir S. Sebastião, o Senhor de Matosinhos... Eu imagino Anto, naquele ambiente moderno e cosmopolita, corroído de saudades dos manéis, do mar, de barcos, de fanfarras, eiras, pescadores, camponeses, arraiais.

Às vezes, agarrado àqueles versos que até parecem conversa fiada, pelos meus olhos perpassa um Portugal beato, atrasado e rural. Que permanece, cem anos depois de Nobre, apesar de tudo, tremendamente real.

sexta-feira, junho 11, 2010

QUANDO O SOL...

Quando, ó sol, te levantas lentamente
Das cristalinas águas do Tejo,
A cidade pressinto tão contente,
Recebendo teus raios como um beijo!


Sem o oiro dos teus raios a cidade
Fica mole, cinzenta, entristecida.
Com Londres parecida, já de idade,
Perde a graça de moça divertida.


Eu tenho preferência p’los dias
De sol doirado e quente. Com calor
A vida é bela e plena de alegrias.


E se perto de mim, ó meu amor,
Te tivesse, decerto, amar-me ias!
Na cidade do sol, da luz, da cor...



quinta-feira, junho 10, 2010

A PASSAGEM DO TEMPO

A vida é um momento tão fugaz,
Mesmo quando se vivem muitos anos...
Imparável a roda roda e traz
Alguns deleites, dores, desenganos.


Os que vivem, contentes e felizes,
Passando pela terra sorridentes,
indo no carril certo, sem deslizes,
Deste mundo estiveram sempre ausentes.


A vida é desafio permanente,
Mil batalhas travadas com ardor,
Com um só fim em mente, ó minha gente,


Tornar este planeta mais decente!
Árduas lutas travo por amor
E sei que tudo passa... fugazmente!


segunda-feira, junho 07, 2010

JUNHO

Nas manhãs de Junho,
Quando o sol tudo doirava,
A nossa casa era também
A sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Guardo memória, mãe!,
Da nossa rua térrea
E vejo-te jovem
Algodão dobando
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Nas manhãs de Junho,
Quando o trigo amadurecia
E eu brincava, brincava
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Fazia-te mil perguntas
- Mil ou muitas mais – ,
E tu respondias sem enfado
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

E eu era feliz
E tu eras feliz, mãe!
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Do outro lado da rua
À sombra da oliveira.

Manuel Barata, Fragmentária Mente. ed. Alecrim, 2009.






quinta-feira, junho 03, 2010


DOM SEBASTIÃO

Dom Sebastião permanece vivo
E inda mexe no luso imaginário.
Um povo vive, nesta orla, cativo,
À ´spera do rei louco e temerário.


Os outros fazem e nós esperamos,
Que ele nos traga a boa solução.
Para o cerrado nevoeiro olhamos,
como se fora a nossa salvação.

Ai, esta longa e dolorosa espera!...
Agir, agir, agir sempre e sem medo,
Foi a regra mágica da nossa Era,


O nosso mágico e fértil segredo.
Quem viu o largo mundo desespera,
Com este povinho tristonho e quedo.





terça-feira, junho 01, 2010

PEQUENO CANCIONEIRO DE LISBOA

TENTATIVA

Canção de amores vadios
- Vai de barco é marinheiro -,
Não enjeita desafios,
Dá volta ao mundo inteiro.

Em Lisboa junto ao Tejo,
Tem o fado sua morada,
Um afago, um desejo,
Uma rixa anunciada.

Fado velho sempre novo,
Alma vera deste povo.

Canta amores traídos,
Ausências, amizades,
Em versos muito sentidos
E repletos de saudades.


Onde um tintinho houver
É cantado à desgarrada.
Na presença da mulher
É canção civilizada.

Fado velho sempre novo,
Alma vera deste povo

LISBOA – I

Lisboa gosta de Farra,
Festeja todos os santos.
É como a leda cigarra,
Não vai com choros e prantos.

Com ar triste canta o fado
- Faz parte da convenção –
Bebe um tinto, passa ao lado
E lá se vai a paixão.

Velha Lisboa querida,
Sempre leal e valente,
Sempre audaz e destemida
E ilustre resistente.


Nas curvas mais apertadas,
Faz das tripas coração.
Vence! Águas passadas,
Volta à sua vocação.

Ora séria matrona,
Ora mocinha garrida,
Tratada por tu ou dona,
É alegre e divertida.

LISBOA – II

Um tal Fernando Pessoa,
Que não era pensador,
Pensava por aí à toa,
Com ironia e rigor.

Travestido de Caeiro,
Ah, tinha tanta piada!...
Era alegre e galhofeiro,
Fingia não pensar nada.

Quando de reis se vestia,
Era Horácio em pessoa.
As coisas que ele dizia,
Velho romano em Lisboa.

Ah!, sempre tão sonolento,
Cansado… Campos dizia,
Com tristeza e desalento,
Que da vida nada qu’ria.

Pessoa só não sabia
Amar Ofeliazinha:
Por isso, tanto escrevia…
Ela?! Pobre tiazinha…

LISBOA –III

Descer a Guerra Junqueiro,
De manhãzinha, em Agosto.
É bom. Não custa dinheiro
E deixa-me bem disposto.

Como Cesário vejo
As feridas da cidade;
E não raro sinto pejo
De tanto luxo e vaidade.

Eu lembro-me do poeta
Pelas ruas a caminhar.
Trazia sempre a paleta
Para Lisboa pintar.

Era poeta e pintor,
Amigo da populaça
Cesário!... Um senhor
Tão sensível à desgraça.

Tinha aquela mania
De passear por Lisboa…
Quadros e fotos fazia,
Com palavras, numa boa.

Manuel Barata, QUADRAS QUASE POPULARES, Ulmeiro, Lx. 2003



LISBOA


Ter Lisboa nos meus braços,
Apertada contra o peito.
Saber-lhe as curvas e traços,
Possuí-la com respeito.

Queria dar-te mil beijos,
Oh, minha rosa encarnada!
Mas são tantos os desejos,
Que mil beijos não é nada.

Tuas pétalas osculo
Com ânsia desvairada.
É assim este Catulo
Oh, minha rosa adorada!

Lisboa tem mil encantos,
Mas o Tejo é o maior.
De tantos feitos e prantos
Foste Tejo o causador.


Lisboa tem mil segredos
E mil lendas por narrar.
Nobre cidade sem medos,
Que os poetas sabem cantar.

As colinas de Lisboa
São todas muito famosas.
Nelas vive gente boa,
Raparigas tão vistosas!

Eu nunca senti enfado
Ao cantar esta cidade,
Que o mundo tem deslumbrado
Com cantigas de saudade.

Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005



LISBOA - 1

Há nas ruas de Lisboa
Uma graça, um encanto,
Que nelas inda ressoa
Um pregão em cada canto.

O cauteleiro teimoso
Inda persiste, coitado!
Deixou o grito ruidoso,
Vende o jogo sem enfado.

Galhofeiras, as varinas
Têm tanta, tanta graça!
Suas línguas viperinas
São a pimenta da praça.

Eu sinto tanta saudade
Dos ardinas barulhosos.
Coloriam a cidade
Com seus pregões saborosos!...

À tardinha, no Rossio,
- Oh, era bonito de ver!
Os ardinas, em desvario,
Apregoar e a correr.

Mudou tanto esta cidade!
Marcas do tempo imparável,
Causam-me tanta saudade...
Oh, mudança inexorável!

Do pitoresco a saudade,
Que do resto nem pensar!
Nada paga a liberdade
Que o povo pode gozar.

Mas tudo o que permanece,
Genuíno e popular,
Minha alma tanto enternece,
Meu coração faz pulsar.



LISBOA - 2

A nobre Lisboa tem
O vasto Tejo a seus pés
‘ma porta aberta ao vaivém
Rumoroso das marés.


Este Tejo que o Poeta
Morada das musas quis,
Foi a companhia certa
Deste pequeno país.

Cais de partida e chegada,
Quantos segredos ouviu?
Nunca quis revelar nada
Das muitas coisas que viu.

Companheiro e confidente,
Nas horas boas e más,
Esteve sempre presente,
Discreto, calmo, sagaz.

Manuel Barata, FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, 2009.

sábado, maio 29, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 29 de Maio de 2010 – Muitos milhares de portugueses, convocados pela CGTP-IN, manifestar-se-ão hoje em Lisboa contra as políticas de austeridade impostas pelo (des)governo do Eng. Sócrates, em obediência aos ditames do PEC.

No momento que passa, dir-se-ia que este governo já não governa. Anuncia medidas e mais medidas de eficácia duvidosa, com a concordância de Passos Coelho, com a finalidade de reduzir o famigerado défice. Os trabalhadores e os desempregados, os jovens sem cunha e os reformados pobres, serão as maiores vítimas desta desgovernação cega, que apenas protege os poderosos.

Há por aí quem proclame que a hora é de superar a crise e que temos é de viver de harmonia com as nossas possibilidades. Aparentemente, estas seriam palavras sensatas e às quais nem seria difícil aderir. Há um porém, nesta história: nem todos se abotoaram com os milhares de milhões da EU; nem todos beneficiaram da complacência destes governos de arrangismos; nem todos fizeram fortuna à custa do sistema e há fortunas fraudulentas, em Portugal.

É justo, portanto, que os menos favorecidos e que agora são os mais atingidos por esta parafernália de medidas gritem alto e bom som, que as ditas medidas penalizam os do costume, para que os beneficiários do costume continuem a beneficiar.

É que na teta da pátria só alguns mamam.
CORETO DO S. PEDRO(MATA)
SENHORA DO ALMORTÃO



I

A Senhora do Almortão,
Em Idanha tem morada.
Sempre rosa em botão,
Ora rosa , ora encarnada.

A Senhora do Almortão
É santinha recatada.
‘stá naquela solidão
E não se queixa de nada.

A Senhora tem morada,
Numa bonita capela.
Para a Mata ‘stá virada,
Que também é terra dela.






II


A Senhora do Almortão
É ‘ma rosa perfumada.
Em todo o solo beirão,
Não há outra tão amada.

A Senhora tem vestidos
A oiro e prata bordados,
Que lhe foram of’recidos
Ou por milagres trocados.

Na cabeça usa coroa
De perfeição sem igual.
Foi mandada de Lisboa
P´la rainha de Portugal.

Ali perto da fronteira,
A nossa linda Senhora,
Que não tem queda guerreira
Quis ser nossa protectora.

Ó virgem do Almortão,
Dai-nos voz para cantar!
Dai-nos também devoção
Para o ano cá voltar.


Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, LX 2005.

SENHORA DO ALMORTÃO




Para o Dr. Rui Rodrigues.



Senhora do Almortão,

Dai-nos paz e harmonia.

Dai-nos muita devoção

E vontade de folia.



Em frente desta capela,

Cantaram nossos avós.

Trazidos p’la mesma estrela,

Agora cantamos nós.



Nossas mães aqui cantaram

Com alegria e paixão

E com nossos pais dançaram

Ao som do acordeão.



Nossos filhos hão-de vir

Pra manter a tradição.

É promessa pra cumprir,

Ó virgem do Almortão!


NOSSA SENHORA DA PÓVOA
Ao Dr. Domingos Torrão



Nossa Senhora da Póvoa,


No Vale, tem sua morada,

Onde vela toda à hora

Por quem passa na estrada.



Por quem passa na estrada,

Por quem vai ao Sabugal.

Vive ali tão recatada

No seu meio natural.



O seu sereno sorriso

Transmite serenidade.

Vive ali no paraíso,

Vero reino da bondade.



Nossa Senhora da Póvoa

Dai-nos saúde e alegria;

E aos nossos moços e moças

Dai-lhes força e valentia.



Eu hei-de dar à Senhora

Um vestido de valor

De puro linho de outrora

Vindo de Penamacor.



Manuel Barata, FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, Sta. Iria, 2009


S. PEDRO DA MATA



S. Pedro, Senhor S. Pedro,
Ó minha cereja madura!
Detrás da tua capela,
Põe-se o sol e nasce a lua.


S. Pedro, Senhor S. Pedro,
Ó minha cereja maior!
Detrás da tua capela,
Nasce a lua e põe-se o sol.


S. Pedro, Senhor S. Pedro,
Quem vos varreu a capela?
- Foram as moças da Mata,
Com raminho de marcela.


S. Pedro, Senhor S. Pedro,
Quem vos varreu o terreiro?
- Foram as moças da Mata
Com raminho de loureiro (*)




É uma cantiga de romaria, em honra de S. Pedro.
Pertence ao folclore da Mata. Fica aqui reproduzida para
Que se não perca.




Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx, 2005



SÃO PEDRO (Romaria da Mata)


Prò Carlos Rolo


S. Pedro vive sozinho,

Numa capela modesta.

Ao cimo do Azendinho,

Onde o povo vai em festa.



Onde o povo vai em festa,

E com muita devoção.

Leva merenda na cesta,

Cantigas no coração.



Toalha ‘stendida no chão

Do mais fino e alvo linho.

E sobre ela muito pão,

Chouriço, presunto e vinho.



Manuel Barata, FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, Sta. Iria, 2009



sexta-feira, maio 28, 2010

SONETO

Continua o mundo desconcertado,
Um mar de mentira e hipocrisia.
Desde Camões, pouco terá mudado,
Continua a mandar a vilania.


Os ricos, ousados e poderosos,
Ditam suas injustas leis ao mundo.
Incapazes de gestos generosos,
Tudo submetem ao dinheiro imundo.


Vivemos um tempo de submissão,
Que ignora princípios e valores.
O estudo, a probidade e a razão,


Deram lugar às cunhas e aos favores.
E assim corre a vida desta nação,
De engenheiros, bacharéis e doutores.

segunda-feira, maio 24, 2010

TERRAS DO MUNDO


95



Boa sopa de cação,
Por poetas celebrada,
É na vila de Mourão
Numa adega recatada.

96


Adega Velha chamada,
Vai-se lá por devoção:
Saborear a encharcada
E o bom guisado de grão.

97



Ali tudo é saboroso:
Peixe, carnes, vinho e pão.
Ah, até o bolo rançoso
Merece degustação.

sábado, maio 22, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 21 de Maio de 2010 - Vai-se discutindo o futuro do livro tal como o conhecemos hoje, com argumentos bons e maus e mesmo com não-argumentos. Eu confesso sem quaisquer constrangimentos que já leio menos do que lia, ainda que tenha centenas de romances para ler. Nunca fui um leitor compulsivo e nunca lia trinta e nove à hora. Apesar dos medos, e um deles é a internete (deixem-me lá usar o neologismo), nunca se produziu tanto livro como nos tempos que correm.

E a provar que o negócio não é mau, aí estão as grandes editoras, pujantes e endinheiradas, sempre prontas para investir neste ou naqueloutro segmento do mercado. E mesmo os pequenos editores, choramingões, lá vão resistindo e alguns rindo do que se vai escrevendo da crise de vocações para a leitura. Poucos, porque também os há, fecham as portas e dedicam-se a outras culturas.

E há também os livreiros, organizadores de feiras, aqui e além, que vão ganhando paulatinamente a vida, comprando restos de edições por tuta-e-meia e tentando vender pelo melhor preço. É gente que, diz-se, não gosta muito de livros. E há os ALFARRABISTAS, que gostam de livros e deles sabem falar com interesse, com eles ganhando também a vida como os anteriores, entre os quais podemos encontrar verdadeiros sábios.

Cá para mim o problema é mesmo de espaço, porque os livros são uns trastes que se insinuam insidiosamente e nos roubam quotidianamente o espaço.

PAISAGEM

REGIÃO DO ALQUEVA

sexta-feira, maio 21, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 21 de Maio de 2010 – Sempre proclamei urbi et orbi, apesar de saber da inutilidade das minhas proclamações, o apoio ao comboio de alta velocidade, vulgo TGV. E continuo convencido de que o país precisa do TGV e que só fará sentido adiar as obras, se a Espanha suspender as que têm que ser feitas do outro lado da fronteira.

Eu bem sei que esta minha posição é pouco patriótica, porque o patriotismo é monopólio da direita. No entanto, assumo, por minha conta e risco, a defesa do TGV, no qual ainda nunca viajei, mas que já vi passar em várias paragens do pouco mundo que conheço. Olha, e aqui está um verdadeiro achado: tenho visto passar o TGV, como Portugal tem visto passar muitos comboios. Gente com muito mundo quer o TGV fora das prioridades deste pobre país de pequenos e grandes crápulas.

Eu sou pelo TGV, incondicionalmente, mas reconheço que era necessário que se dissesse tudo com muita transparência ao povo. Ainda há dias, um português insuspeito, de nome Luís Delgado, defendeu a construção do TGV na televisão do senhor de Balsemão, porque é necessário aproveitar os fundos da EU. Como vou desconfiando da própria sombra, gostava que no mesmo dia e à mesma hora, o senhor Coelho e o senhor Sócrates, dissessem qual é a percentagem da comparticipação por parte da EU. E, ou ambos diziam o mesmo número, ou ficar-se-ia a saber que um deles estaria a mentir aos portugueses.

Eu quero o TGV, porque não quero que o meu país fique permanentemente a ver passar os comboios.

terça-feira, maio 18, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 18 de Maio de 2010 – Ouvi com atenção a entrevista de José Sócrates à RTP-1 e fiquei surpreendido com a ideia de que o mundo mudou imenso nas últimas três semanas. Eu já sabia que em 1917, o mundo mudara imenso em dez dias.

Pertenço aquele grupo de portugueses que lerem Jonh Reed e que ainda acham que a Revolução de Outubro foi o momento em que os russos e depois o mundo acreditaram que era possível fazer grandes transformações à escala planetária. A realidade, no entanto, foi bem diferente, porque os homens são naturalmente egoístas e não têm disponibilidade para abdicarem de privilégios. Estas, no entanto, são contas do meu diário.

Sócrates acha que os portugueses entendem as medidas tomadas pelo governo. Os portugueses não percebem o que está a acontecer, porque já lhes foram pedidos sacrifícios durante vários anos, pelos vistos inutilmente, e agora ainda lhe exigem mais, não se sabendo muito bem onde se quer levar o barco, se é que se quer levar o barco a sítio algum.

Sócrates esteve igual a si próprio, tal como Judite de Sousa, ainda que o facto da senhora estar igual a si própria não nos faça grande mossa. Já o facto de Sócrates estar igual a si próprio é grave, porque terá repercussões nas nossas vidas. Não pede desculpas, porque o mundo mudou, ou seja, a realidade foi tão dinâmica, que não foi possível fazer previsões e evitar a grande crise.
Aquela cara muito cerrada cheira-me a pose estudada. Sócrates, goste-se ou não dele, é um político a sério. Tem estofo, tem fibra, tem garra. Dizer que os portugueses são todos convocados para fazer sacrifícios, de forma equitativa, foi, em minha opinião, a coisa menos verosímil, das muitas coisas inverosímeis que debitou.

segunda-feira, maio 17, 2010

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 17 de Maio de 2010 – Este mês de Maio, que normalmente decorre morno e sem histórias, será recordado durante muitos anos como o mais terrível da nossa História recente. Tantas e tão gravosas são as medidas anunciadas, que as almas mais crentes poderão ser levadas a crer que estamos no fim do Tempo.

Parece nada escapar à fúria da governação e da oposição que se prepara para governar. Aumentam-se os impostos, cortam-se as despesas e anunciam-se outras malfeitorias para os do costume poderem continuar a dançar o tango. O tango da tanga para os dos costume, mas não para quem conduziu o país ao descalabro presente.

Pouco me interessam as opiniões dos ex-ministros das finanças e de outros actores da cena política actual. Pouco me interessam as opiniões de economistas, que sabem fazer contas, mas que parece desconhecerem que em matéria de economia não basta saber que três vezes nove são vinte sete, como dizia o meu amigo António Raimundo. Pouco me interessa o destino de Sócrates e de todos os Sócrates, que, decerto, sempre há-de ser melhor do que o da generalidade dos portugueses.

Interessa-me muito, no entanto, que as leis não tenham carácter retroactivo e que muitos dos beneficiários de reformas principescas, que agora debitam receitas para os outros, não sejam também atingidos como aqueles que no presente, trabalhando, garantem essas mesmas reformas. Interessa-me muito, no entanto, saber onde os políticos no activo e ex-ministros e outros políticos e também administradores de empresas públicas, têm o seu dinheiro depositado. Interessa-me muito saber, porque têm sido silenciados os escândalos do BPN e do BPP.

Interessa-me, por exemplo, que Portugal não seja um país transparente e solidário. Interessa-me que Portugal não seja o lodaçal onde os pescadores de águas turvas vão pescando a seu favor e a seu bel-prazer.

É que a crise não é para todos e os bois têm de ser chamados pelos nomes.

sábado, maio 15, 2010

Santa Iria de Azóia, 15 de Maio de 2010 - Baltasar Garzón, o célebre juiz espanhol que quis julgar Pinochet e quis, digamos assim, julgar crimes cometidos pelo franquismo, foi suspenso por um tribunal superior espanhol.

Eu nunca foi amigo de juízes, ou melhor dizendo, nunca tive juízes entre os meus amigos e não lhes credito qualquer simpatia. No entanto, o juiz Garzón goza da minha simpatia, porque tem mostrado uma coragem muito grande, quando enfrentou ou pretendeu enfrentar poderes com poderes excepcionais.

Para dizer o que me vai na alma, aqui fica escrito que a suspensão do juiz Garzón é mais um episódio da Guerra Civil de Espanha, que, como é bom de ver, é prolongada com mais este episódio. Em bom rigor, a Espanha nunca chegou a chamar os bois pelos nomes e aceitou a transição pacífica para a democracia sob inúmeras condições, nomeadamente, a de não tocar nos crimes hediondos perpetrados pelo regime de Franco.

O juiz Garzón calculou mal a correlação de forças. Meia Espanha, digo eu, ainda terceria armas por Franco. É assim a Espanha, a nossa vizinha e irmã Espanha, que assassinou Lorca e condenou ao exílio milhões de espanhóis.

quarta-feira, maio 12, 2010

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 12 de Maio de 2010 – Há vários dias que não dou continuidade a este Diário. E não é por falta de assuntos. Acontecimentos extraordinários da minha vida pessoal, muito mais importantes que a crise e a visita do Papa a Portugal, têm-me impedido de lhe dedicar o tempo habitual.

A visita do Papa tem sido indiscutivelmente um acontecimento; porém, nada que não fosse esperado neste território republicano, de regime político teoricamente laico e de pretensa matriz socialista. Portugal é isto mesmo: um país de brandos costumes, cujos governantes não têm, nem nunca terão, a ousadia de Zapatero. E ali os vemos, nos seus postozinhos protocolares, a assistirem à missa, inabaláveis na sua fé católica, apostólica e romana.

Mas o meu ponto hoje não era este. Fui surpreendido, logo pela manhã, com a notícia de que Sarkozy se atrasou para conversar com outro e/ou outros estadistas, porque ele a sua esposa tiveram vontade de fazer sexo. Pobre Mundo, pobre Europa, pobre França!

É bom que os políticos tenham sexo, para não serem confundidos com os anjos, mas não políticos destes, que têm a lata de fazer e publicitar actos desta natureza. Este Sarkozy será uma excepção, mas é a prova provada de que a França é agora uma coisa sem grandeza, onde pululam sarkozys.

Estamos entregues a boa gente.

sábado, maio 08, 2010

" No me digan a mí
que el canto de la cigueña
nos es bueno para dormir"
Rafael Albertí
6


Continua o mundo desconcertado,
Um mar de mentira e hipocrisia.
Desde Camões, pouco terá mudado,
Continua a mandar a vilania.


Os ricos, ousados e poderosos,
Ditam suas injustas leis ao mundo.
Incapazes de gestos generosos,
Tudo submetem ao dinheiro imundo.


Vivemos um tempo de submissão,
Que ignora princípios e valores.
O estudo, a probidade e a razão,


Deram lugar às cunhas e aos favores.
E assim corre a vida desta nação,
De engenheiros, bacharéis e doutores.

Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA,Ulmeiro, Lx., 2005.





sexta-feira, maio 07, 2010

3



Ó lendária serra lusitana,
Alvíssima princesa celebrada!
Tua beleza eterna não engana
E renova-se em cada madrugada.


Por ti tenho um amor puro e constante
Que desde a minha infância perdura,
Quando te via altiva, lá distante,
Ó serra rigorosa, enorme e dura!


Eram outros os tempos... Os pastores
Desertaram, cansados, prá cidade.
Deram descanso às flautas. Permanece


A noite povoada de pavores
Muita melancolia, a saudade
E este amor que a beleza rara tece.

terça-feira, maio 04, 2010

10


Passou pelo mundo, excêntrico e atrevido, um argentino a quem os deuses, um dia, negaram a luz. Onde quer que ia, diz-se, inundava os sítios com preciosas pedras, que irradiavam mais luz do que muitos sóis.

Modestamente, dessas pedras disse que uma só, se boa fosse, lhe daria todo o contentamento que os humanos podem experimentar. Enganou-se! Feitos os necessários testes, os sábios confirmaram que todas aquelas preciosas pedras eram veras fontes de luz.

Hoje, há uma legião de fiéis que se esforça para ordenar e descrever para todas as línguas do mundo as tais preciosas pedras, que são também sábias e raras.

Normal não é; porém, às vezes, os humanos vingam-se dos deuses.
Barata, Manuel, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005.

domingo, maio 02, 2010

DO MEU DIÁRIO

MATA -CENTRO CULTURAL JOAQUIM MOURÃO
Santa Iria de Azóia, 2 de Maio de 2010 - A Mata, diga-se em abono da verdade, tinha uma toponímia, no mínimo, curiosa. Eu creio que o inventor da toponímia matense foi um senhor de nome Manuel Luís - a tuberculose levou-o tão cedo! – que era acordeonista e que com a chegada da electricidade à Mata, também se tornou electricista.

Que foi Manuel Luís o contratado para pintar os rectângulos e desenhar as letras, não tenho quaisquer dúvidas. Já no que à autoria dos topónimos concerne, tenho as minhas dúvidas, que não são muitas, porque a Mata não teve nenhuma rua Professor António de Oliveira Salazar, nem Almirante Américo Tomás, nem com qualquer outro nome sonante do regime deposto, em 25 de Abril. E este facto não deixa de ser extraordinário, se se atender à circunstância de os regedores e os membros da junta de freguesia serem pessoas alinhadas com o regime. Não escreverei aqui, até porque já dormem o sono eterno, o nome de nenhum dos servidores do salazarento regime.

A única rua que tinha um nome histórico era a 1º de Dezembro, porque as restantes tinham o nome dos santinhos da devoção do povo e outra do Espírito Santo. S. Pedro e S. Sebastião tiveram direito a rua e travessa e Santa Margarida, na sua qualidade de padroeira, teve direito à rua maior e mais larga, ainda que só o 25 de Abril a viesse a calcetar, bem como as restantes do Entrego, ou seja, todas as ruas da Mata situadas para além da Igreja Matriz.

Nos últimos anos a coisa mudou: já havia a rua Melo Sanches e também a Professor Lucas Falcão. Não vou discutir a justeza da atribuição daqueles nomes a ruas da Mata, porque ambos foram pessoas muito importantes e à Mata ligados. O segundo até era o meu padrinho do crisma e a boca de um afilhado deve manter-se calada, mesmo quando possa discordar de tal atribuição. A Torre do Tombo, se alguém lhe tivesse perguntado, provavelmente, daria uma excelente resposta. Mas como agora se diz, está feito, está feito e prontos.

Os últimos baptizados, o Centro Cultural e uma nova rua ou avenida, receberam o nome do senhor Presidente da Cãmara Municipal e de um senhor Botelho, de não sei donde; um, decerto, por ser Presidente e amigo da Mata; o outro, porque terá facilitado a construção da semicircular, que também dará continuidade à via que há-de ligar a Mata a Idanha-a-Nova, quando a ponte vier a ser feita. Boas razões, portanto.

O bom povo da Mata, que sempre foi muito ordeiro e obediente, premeia sempre, com imensa justeza, aqueles que lhe fazem bem. E desta vez… Desta vez, como habitualmente, tudo voltou a acontecer sem surpresas.

sexta-feira, abril 30, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 30 de Abril de 2010 – Confesso que já começo a ficar farto de certos basbaques que não se cansam de repetir que é preciso dizer a verdade ao povo. Ora se estes detentores de verdades, mais ou menos teológicas, só agora ou recentemente se tornaram adeptos de falar a verdade ao povo, algo fede neste nosso reino da Dinamarca.

Portugal é hoje um lugar perigoso, porque há gente muito influente na política sem cultura democrática. É evidente que um aldrabão é um aldrabão, mas ninguém se pode arrogar a posse de verdades únicas para dizer ao povo. O PPD-PSD tem sido o campeão nesta matéria, mas pela razão comezinha de que quer voltar a sentar-se à mesa do orçamento quanto mais depressa melhor. Porém, era bom que não comesse tanto queijo e que nos dissesse que verdades nos disseram no passado, nomeadamente quando houve dinheiro a rodos para modernizar o aparelho produtivo nacional e deixaram tudo piorar.

Era bom que o PPD-PSD dissesse verdades simples como estas: connosco, as contas das obras públicas também derraparam e as construtoras encheram-se à tripa forra; companheiros nossos, que foram ministros e secretários de Estado, cometeram crimes económicos que o povo vai ter que pagar com língua de palmo e meio; companheiros nossos, com a ajuda do partido, foram nomeados para administradores de empresas públicas e ou pelo Estado participadas, auferindo, num país onde grassa a mais abjecta pobreza, ordenados e prémios obscenos; etc.

Dizer que se vai dizer a verdade ao povo é apenas um cliché, que, no momento actual, serve para mentir ao povo. Falar verdade ao povo seria, por exemplo, dizer coisas simples como estas: todos os carros ao serviço da governação, nos seus diversos escalões, têm de durar, no mínimo, quatro anos, mesmo que entretanto se mude de governo; nenhum ministro poderá, seja a que pretexto for, comprar mobiliário novo e remodelar aposentos; nenhum ministro ou outro mandante qualquer, poderá ter mais de três (este número poderá ser revisto) secretárias; nenhum ministro ou outro mandante qualquer, poderá encomendar estudos fora do seu ministério, desde que no mesmo haja pessoal qualificado para o efeito; nenhum governante poderá nomear filhos, enteados, sobrinhos e outros parentes seus, ou que tenham um vínculo idêntico com outro membro do governo.

Falar a verdade ao povo, antes de mais, passa por dar o exemplo. O exemplo valeria por milhares de palavras e o nosso amado P. António Vieira poderia descansar eternamente em paz.


QUADRAS DE ESCÁRNIO

Abril vai passando, lento,
E com poucas emoções.
O país vive o momento
Dos pulhas e dos ladrões.

Meu Portugal videirinho,
Onde tanto se labuta,
Tudo metes no cuzinho
De certos filhos de puta.

Ergue a cabeça e explode,
Como naquele outro Abril
E verás que quem te fode
Vai de novo pró Brasil

Ou outro sítio qualquer,
Com a fortuna aumentada.
Até te leva a mulher,
Deixando-te cá sem nada.

II

Eu amo este belo país,
Que espera quem não vem.
Terra de gente infeliz
De olhar vago e sempre aquém.

Obediente aos tiranos,
Pouco preza a liberdade.
Passa séculos e anos
Muito atido à caridade.

Um povo quer-se viril
E capaz de fazer frente
Aos que por maroscas mil
O querem triste e indigente.

Eu sei que não fico bem
Em tão severo retrato.
Azar. Português também,
Não mereço melhor trato.

quarta-feira, abril 28, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 27 de Abril de 2010 – Uma sigla e uma notação puseram um país habitualmente tranquilo em polvorosa. S&P e “A-“, são as causadoras das nossas apreensões, que já eram muitas e agora passam a ser muito mais.

Sócrates e Passos vão encontrar-se hoje para concertarem não sei quê, porque se soubessem concertar fosse o que fosse, já tinham dado um conserto nesta coisa toda.
Não há, pois, nada de bom a esperar deste encontro, porque vão servir-se de um receituário velho e que deu os bonitos resultados que estão à vista.

Na minha humílima opinião, garanto que o mundo está perigoso, porque os tratantes de anteontem são os mesmos que agora aparecem virtuosos a dar notas e a recomendar o que se deve fazer, que, inevitavelmente, nos há-de conduzir, debelada a crise actual, a crises futuras. Dir-se-ia que o capital especulador tomou conta do mundo, relegando a economia para um secundaríssimo plano.

Nós estamos agora a pagar as favas pelo desmoronamento do nosso aparelho produtivo, que, de cedência em cedência, se resume agora a meia dúzia de coisas sem grande importância. Valham-nos as temperaturas altas de ontem e de hoje, que até parecem estar em consonância com o terramoto que nos está a atingir.

Valha-nos Santa Quitéria!

segunda-feira, abril 26, 2010

Malveira, 26 de Abril de 2010 – Ontem, 25 de Abril, meti-me no comboio em Santa Iria de Azóia – coisa que já não ousava fazer há vários anos -, e fui com o senhor meu sogro desfilar na Avenida da Liberdade, que é a única artéria da cidade que merece receber aqueles milhares de celebradores contumazes. E a viagem até foi rápida e nada maçadora.

Antes de falar das pessoas que vi e das palavras de ordem que ouvi, quero aqui dizer que os comboios foram extremamente pontuais e já possuem asseio e conforto que não destoam dos seus congéneres franceses, que são os que conheço melhor.

A Avenida encheu-se de gente – não à pinha, obviamente -, e por ali se viam as “vacas sagradas” destas coisas e aquele genuíno povo de Lisboa e arredores, sempre generoso e combativo. Sim, aquele povo que só sonhou com um Portugal mais solidário e nunca com este território de desigualdades mais ou menos obscenas. Era esse povo que gritava a urgência de mudar de rumo às políticas do governo. Francisco de Assis ( eu não sei se é com “de”, como o outro que era filho e de um negociante de tecidos e veio a ser santo) não pôde deixar, ainda que em ambiente festivo, as profundas preocupações dos que ainda festejam Abril.

Tempo para ver Miguel Urbano Rodrigues, à distância, que chegou a dormir com a cabeça encostada no meu ombro direito, entre a Venda Nova e Santa Iria de Azóia, nos tempos dos comícios, colóquios e outras actividades lúdicas e culturais. Miguel Urbano, que é autor de um romance muito ousado e bem escrito, ALVA, lá ia com a família, ainda em muito bom estado, apesar da sua vida cheia de aventuras.

Quem não vi, e que também andou na minha Dyane azul-celeste, foi a D. Zita Seabra. Desencontrámo-nos, provavelmente.

sexta-feira, abril 23, 2010

Jardim Ary dos Santos

SANTA IRIA DE AZÓIA





Ó vila de Santa Iria,

Minha terra de adopção,

Ao 25 de Abril

Deste o braço e o pulmão!




Deste o braço e o pulmão,

Numa louca correria.

Foram tempos de paixão

E de fraterna utopia.



Manuel Barata, QUADRAS QUASE POPULARES, ULMEIRO, 2003.

quinta-feira, abril 22, 2010

QUADRA DESTE TEMPO

Nevoeiro de manhã
Não casa nada comigo.
Prefiro o sol de Junho
Pra ir à praia contigo.

quarta-feira, abril 21, 2010

CONFISSÃO

Há dias,
Despudoradamente,
Roubei um verso
Ao poeta Albertí.

Coisa sem importância
Dirão os (des)entendidos
Que pululam
Por aí.

Roubar, meu amor,
Só na loja das flores,

uma rosa
para ti.

sexta-feira, abril 16, 2010

ACERCA DOS LIVROS
1


De e com livros tem sido feita a minha vida:
Bons, maus, e assim-assim.
Neles, aprendi metade do pouco que sei;
Sem eles, não sei dizer o que de mim seria!

Outro homem, decerto, seria…

2



Com Fonseca, Manuel como eu,
No culto das musas me iniciei:
Ainda hoje vejo passar a tuna do Zé Jacinto
E me delicio com as alvas rolas,
Que Maria Campaniça escondia sob a blusa.

Por mil anos que um homem viva
Há metáforas que nunca morrem nem esquecem.

3


A prosa chegou com a colecção seis balas.
Só depois chegou Ferreira de Castro
E o seu casto português.
Fiz-me amigo de Manuel da Bouça e de Ricardo;
E, sobretudo, de Marreta e Horácio.

(E é chegado o momento de dizer,
Que se dane o espanhol que não quer
Referências culturais na poesia.
Que se dane pois o espanhol,
Cujo nome já esqueci).

4


Santareno
Veio ainda antes de Vicente!
Primeiro, o Édipo de Alfama;
Só depois, chegou o autor das barcas
e o pai de Antígona.

Franzino, António Martinho do Rosáro
Teve artes para ganhar a dianteira.

Em boa hora.

5


De e com livros tem sido feita a minha vida.

Manuel Barata, FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, Santa Iria, 2009




sábado, abril 10, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 10 de Abril de 2010 – Escolhido o lidere, o PSD reúne-se em congresso para tentar arrumar a casa e transmitir ao país a ideia de que é a grande alternativa à actual governação do PS. O novo Messias aí está, rodeado de apóstolos, pronta para pregar um Portugal novo, enquanto a comunicação social o quiser e os seus não decidirem pela crucificação.

Passos, que dos paços pouca experiência tem, tem boa imagem e fala sem gaguejar. Reúne todas as condições para vir a substituir Sócrates, que, sendo engenheiro, também conhecia bem o poder da retórica. E a retórica, como escreveu Roland Barthes, é efectivamente um poder. Dir-se-ia que só Cavaco, que nem sequer sabia o número de cantos da epopeia nacional, constituiu uma excepção. Sabia de economia e tinha uma imagem de austeridade, que, na época, colheu junto dos portugueses.

O grande espectáculo está montado, nomeadamente na SIC-Notícias do tio Balsemão, por onde passam Passos e os seus ajudantes, futuros isto e aquilo, comentadores, analistas e muitos jornalistas. Em bom rigor, podemos dizer que estão a ser criadas as condições subjectivas para mudar de chefe e de governo.

Eu sei de ciência exacta que o que aí vem não é bom. Não digo isto pela pessoa de Passos. Não digo isto por nenhum dos outros Passos, incluindo os da minha cor política. O que conta são as políticas protagonizadas e que os actores querem levar à prática. Do simpósio conhecido do novo senhor PPD-PSD não consta nada de novo para receitar.

E este, como agora se diz por aí, é que é o ponto.

quarta-feira, abril 07, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 5 de Abril de 2010 – E agora que se andava a falar de submarinos e de alta corrupção, desenterra-se a actividade de Agente Técnico de Engenharia de Sócrates e deixam-se afundar os referidos submarinos. De um momento para o outro, numa espécie de truque de magia à Luís de Matos, recolocam-se no centro da discussão política os projectos de engenharia assinados pelo actual primeiro-ministro, quando era deputado a tempo inteiro, ou seja, em regime de exclusividade. Um caso com barbas de vinte anos ou quase.

Eu não gosto de Sócrates e já o escrevi inúmeras vezes; no entanto, parece-me haver um exagero na perseguição ao passado do homem. E quer-me parecer que com o intuito pouco claro de deixar morrer ou marinar sem consequências situações muito mais graves e lesivas do interesse nacional.

Não gosto de Sócrates, repito. Tem feito muito mal ao país e aos portugueses. No entanto, os seus inimigos não são, certamente, as vítimas maiores das suas políticas. Os seus inimigos são aqueles que gostariam de ver os da sua cor no poleiro. Os grandes inimigos de Sócrates são os que querem alternar no exercício do poder.
Portugal não precisa de alternância no poder. Portugal precisa de políticas alternativas. E essas não virão, com certez, das fileiras da direita.

Bem ou mal, os portugueses deram a vitória ao PS e a Sócrates, nas últimas eleições legislativas. Por isso mesmo, tem toda a legitimidade democrática para governar. E talvez seja este o momento de relembrar a parábola bíblica da adúltera.

sábado, abril 03, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 3 de Abril de 2010 – Acabei de ver o programa “Plano Inclinado”, na SIC-Notícias, onde pontificam Medina Carreira, Nuno Crato, Mário Crespo e João Duque. Nada menos que três distintos professores e um insigne jornalista, que têm entre si dois traços comuns notórios: um enorme pessimismo e uma grande animosidade em relação ao actual executivo.

Durante uma hora, os intervenientes falaram de coisas importantes, nomeadamente de algumas das chagas do sistema educativo. Medina, sempre mais acutilante e recorrendo as expressões patuscas, ditou para a acta que este país não tem nada bom.

Eu não tenho quaisquer dúvidas de que nem tudo vai bem neste nosso reino da Dinamarca. Penaliza-me ver a anciã Maria Barroso, por exemplo, ser madrinha de um dos submarinos do nosso escusado endividamento; penaliza-me saber que a justiça tem dois pesos e duas medidas; penaliza-me que os governantes não tenham rasgo e não resolvam os grandes problemas nacionais.

Penaliza-me saber Portugal prisioneiro destes críticos e destes governantes, porque não é com uns e outros que venceremos a crise e nos tornaremos numa pátria mais fraterna. Portugal precisa de querer e saber ousar novas soluções governativas. Portugal precisa de políticas que apostem no renascimento do nosso aparelho produtivo.