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domingo, agosto 08, 2010

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 13 de Abril de 1994 - Lobo Antunes acaba de nos anunciar, em entrevista ao JL, que resolveu radicar-se definitivamente em Portugal. Assim sendo, viveremos todos com mais paz interior, ou seja, sem a ameaça do autor de Cus de Judas exilado em Berlim ou Nova York. Continuaremos a ser o país pequenino que sempre fomos, mas todos juntinhos nesta terra de clima doce, onde medram, espontaneamente, a urze, a esteva, o alecrim e o rosmaninho, como notou Garrett.

E (o) António é, indubitavelmente, um dos nossos.

sábado, agosto 07, 2010

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 20 de Abril de 1994 - Não sei onde pára a História da Cultura Clássica do Pe. Manuel Antunes. No entanto, chegou-me às mãos um livrinho de sua autoria, Repensar Portugal, que estou a ler com a lentidão devida aos grandes textos. Nunca me cruzei com o Prof. Manuel Antunes, nem tinha necessariamente que me cruzar, mas creio que era um homem excepcional, isto é, um daqueles seres raros que as sociedades só produzem de tempos a tempos. Datado de 1977, Repensar Portugal revela-nos um pensador atento à realidade circundante, que nos incita a tentar a mudança e a experimentar a utopia.

segunda-feira, agosto 02, 2010

DO MEU DIÁRIO

ANTÓNIO GEDEÃO
Torres Vedras, 19 de Fevereiro de 1997 - António Gedeão, poeta de mensagem facilmente apreensível, pereceu ontem no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
Nos próximos dias, os jornais, a rádio e a televisão, falarão com grande cópia do autor da “Pedra Filosofal”, que um “baladeiro” dos anos sessenta – e que ainda vai aaparecendo -, popularizou e trouxe ao convívio do grande público.

Passado o luto, abater-se-á sobre este autor de mensagem fácil, um silêncio de chumbo. É que poetas como Gedeão, que o povo ouve e estima, são muito perigosos. E depois, poesia que não for essencialmente forma não merece o interesse dos nossos iluminados críticos e dos nossos inefáveis professores universitários.

Que a ninguém pareça mal, mas não resisto a transcrever três versos de António Gedeão, que são a medida de uma incomensurável tolerância:

Ajuda-me a esquecer as tuas faltas
e a ignorar os teus crimes
para melhor te amar.
( do poema “espelho de duas faces”)

DO MEU DIÁRIO

ÓSCAR LOPES
Lisboa, 20 de Outubro de 1997 - Oscar Lopes, Homem de cerviz direita, que, por mais voltas que se dêem, terá de ser encontrado entre os portugueses mais generosos deste nosso tão peculiar séc. XX, não foi convidado para integrar a representação portuguesa à feira do livro de Frankfurt.

Se Portugal fosse um país decente - e tudo indica que o não é -, o co-autor da História da Literatura Portuguesa e um dos ensaístas mais fecundos de toda a nossa História Literária, não teria sido esquecido pelos senhores do mando. À generosidade de Òscar Lopes, que deu a ler aos portugueses dezenas e dezenas de autores, respondem as autoridades com o olvido.

Sei que Òscar Lopes paira mais alto. Sei que este é apenas mais um acidente com que a Pátria o quis brindar. Não porque a Pátria seja madrasta ou velhaca. A Pátria, entidade abstracta e mais ou menos mítica, nunca poderia ser apodada com tais epítetos. Estas coisas acontecem, porque aos destinos da Pátria presidem criaturas menores e intolerantes, capazes de glorificar todos os champalimauds e de crucificar todos os Camões.