sexta-feira, fevereiro 25, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 25 de Fevereiro de 2011 – Esta noite, se tudo correr como está previsto, vou jantar e dormir à Quinta de Santa Iria, Teixoso, concelho da Covilhã. Está visto que Santa Iria me atrai, apesar da padroeira da minha terra natal ser a Santa Margarida. Pela terceira ou quarta vez vou pernoitar no concelho da Covilhã, a velha cidade dos lanifícios, de Horácio, Ricardo e Marreta, ou seja, de três das personagens de Ferreira de Castro. E mesmo que assim não seja exactamente passa a ser, porque quero que assim seja.

Não se trata de desamor, não, que eu gosto muito da minha Beira natal; mas a Covilhã fica já numa ponta do distrito, lá onde as Beiras mudam de adjectivo. E para ser franco, também não tenho nada contra a Beira Alta, que, tal como a minha, é interior e está também a caminho da desertificação.
A ideia é confraternizar e sair de casa. Para ser franco, confesso que sou muito caseiro e muito agarrado às minhas coisas pessoais. Sei que Karl Marx estaria em desacordo, mas eu confesso que não sigo o alemão ao pé da letra. É claro que gosto de ser original e de cultivar o meu estilo. Sei igualmente que o meu estilo é a minha única e verdadeira propriedade privada; mas gosto do meu canto, ainda que um dia possa ser o canto de outro.

Eu não vou perder-me em detalhes, mas acho que a nossa casa pode ser o sítio mais acolhedor e também o mais hostil. Contas de outro rosário que não vou desfiar agora. Fiquem bem, que eu, invariavelmente, vou pôr-me a caminho de Santa Iria. No Teixoso, Covilhã, lá onde as beiras mudam de adjectivo qualificativo.

domingo, fevereiro 20, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 20 de Fevereiro de 2011 – Neste fim de tarde, que contrariou um pouco as previsões dos meteorologistas, após um passeio pelos arrabaldes, entreguei-me è leitura de Marcello Duarte Mathias. Mais concretamente, do volume de pequenos ensaios, A Memória dos Outros.

Eu gosto muito deste autor, que, tal como eu ou eu como ele, cultiva o gosto pela escrita diarística. Marcello Duarte Mathias é um escritor de grande erudição e com muito mundo. Por isso mesmo, pelos seus diários perpassam inúmeras personalidades da política, da cultura e dos negócios. Escreve num português muito suave, facto que o torna um autor amável e que se lê sem enfado.

Hoje detive-me nos textos sobre Albert Camus, que é provavelmente o autor francês magrebino que mais admiro. Encontrei referências a L’Etranger e a um tal Mersaut. L’ Étranger, que, conjuntamente com La Peste, é o melhor da obra romanesca do antigo director de Le Combat.

Mas a surpresa foi a referência a Les Noces, que é um “récit” escrito numa prosa verdadeiramente luminosa, que talvez todo o Norte de África devesse ler nos dias que correm. É em Les Noces que Camus escreve: “le monde finit toujours par vaincre l’histoire”.

sábado, fevereiro 19, 2011

DO MEU DIÁRIO

Mr. FRED, um verdadeiro felino
Santa Iria de Azóia, 19 de Fevereiro de 2011 - Agora me lembro que há mais de um mês que não ponho os pés na minha “datcha” de Sesimbra. Eu gostava muito de saber cirílico e escrever “datcha” em russo, porque emprestava mais estilo ao estilo e conferia-me outro estatuto. Mas passemos à frente que o tempo está de chuva e não se pode desperdiçar com as frivolidades deste escriba pindérico.

Ontem à noite, por volta das vinte e uma, apesar deste tempo invernoso e melancólico, fui forçado a deixar o remanso do doce para cumprir com os meus deveres profissionais. Popó estacionado à frente do Governo Civil, na Rua Capelo e depois foi seguir pela Rua Ivens até à Rua Garrett, cortar ligeiramente à esquerda para ganhar a Rua Serpa Pinto e subi-la até ao Largo Rafael Bordalo Pinheiro, já a dois passos do belo Teatro da Trindade. Sempre sob uma chuvinha pertinazmente chata.

E que viu este vosso amigo no seu caminhar pelas ruas do Chiado, que têm o nome de antigos exploradores de África? Cerca de uma dúzia de restaurantes, alguns com grande dimensão, repletos ou mais ou menos repletos de comensais, numa noite de chuva pertinazmente chata. E os restaurantes que vi, cheios e com grande animação, não são propriamente baratos. Portanto, cerca das dez da noite, aquela zona da cidade era bem o contrário de um país em crise.
A crise, é bom de ver, atinge fundamentalmente os desempregados, alguns funcionários públicos e os jovens à procura de primeiro emprego. Ou mais fundamentalmente os desempregados e as respectivas famílias. Porque, lá bem no fundo, heureusement, ainda há muito happy few.
E prontos, como agora se diz, acabei de vos demonstrar que todos os caminhos podem ir dar a Roma.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

SE EU FOSSE COMO CATULO

Se eu fosse como Catulo
Poeta de inspiração,
Em teu corpo, amor, havia
De gravar mil versos, mil!,
De grata recordação.

Com os dedos e os lábios,

lascivos e enlouquecidos,
nele havia de escrever
a mais pura poesia.

Disse bem, amor, havia!

(inédito)

sábado, fevereiro 12, 2011

SE EU FOSSE COMO CAMÕES

Se eu fosse como Camões,
Havia de te fazer,
Amor, versos geniais,
Muitas trovas de encantar!

Pintar-te-ia morena
E de outras cores sadias.
Blusa vermelha decerto
E calças de ganga azul.

Assim irias à fonte
- Discreta como se vê -,
Leda e bela ao meu encontro.

E haveria de deixar
Teu rosto ruborizado
Com mil beijos, mil ou mais.

O TEMPO
I
É o tempo
- o inexorável tempo -,
Que atenua a mágoa
E mostra
Quão profundas
Eram as raízes.

II
Um Verão vai
E outro vem.
E neste vaivém,
Decorre
A minha vida.

Esta vida que vai,
Vai e não vem.

III
Lentas,
As nuvens vêm
E vão.

Umas deixam (m)água
E outras não.

Ah, só o Verão,
Esplendoroso,
Alegra
O meu coração.

IV
O Outono

e o Inverno,
Decididamente,
Não!


(inédito)


quarta-feira, fevereiro 09, 2011


A LUSITANA MANIA

A lusitana mania
De esperar por quem não vem
Provoca melancolia,
Muito mal e nenhum bem.

Sempre de calças na mão
Ou esta à esmola estendida.
Tão estranha condição,
Tornou-se um modo de vida.


Era preciso matar
Esse rei Sebastião,
que não pára de enganar
a nossa triste nação!


Ao mito do desejado
Dê-se um combate eficaz.
Traz este país castrado
Ou capado, tanto faz.


(Barata, Manuel, Fragmentária Mente, ed. Alecrim, 2009)

terça-feira, fevereiro 08, 2011

PARQUE URBANO DE SANTA IRIA

FLORES BRAVIAS
O REBANHO

OVELHA CHURRA(?)



DO MEU DIÁRIO

LIVROS E LIVRARIAS
Santa Iria de Azóia, 8 de Fevereiro de 2011 – Nos finais dos anos sessenta, Castelo Branco não tinha – ou eu não me lembro de ter-, uma livraria a sério. E no entanto, lia-se muito na capital da Beira Baixa e coisas com qualidade.


É certo que a Semedo, ao cimo da rua D. Dinis, papelaria e livraria, tinha sempre alguns títulos nacionais e estrangeiros com muito interesse. Foi lá que comprei o meu primeiro Rimbaud e também José Gomes Ferreira, que era então um poeta muito em voga. Nuno Semedo, sempre descaído para o lado da literatura, para além de ser uma pessoa afável, também ia dando algumas dicas em relação a certos títulos e autores.


Porém, creio que o local dos livros por excelência era o quiosque Vidal, onde um tal José Fernandes – é o do Vidal, não o do Eça -, aconselhava e guardava os livros que iam resistindo à brigada dos costumes. O Zé Fernandes lia muito; nomeadamente lombadas, facto que lhe permitia depois fazer as suas próprias sinopses. Acresce que, apesar da sua juventude, José Fernandes era um “jeune homme” de formação democrática.


O quiosque Vidal, que ainda existe, é hoje um sítio atascado de jornais e revistas, com alguns livros ainda nas prateleiras mais altas, mas já não é o ponto de encontro de uma certa intelectualidade albicastrense. Contudo, é talvez o sítio onde se podem encontrar mais publicações de carácter etnográfico.


As papelarias Nogueira, Narciso e S. José, também comercializavam livros; porém, faltava-lhes a qualidade da Semedo e do quiosque Vidal. Ou melhor, ter-lhes-á faltado Nuno Semedo e José Fernandes.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

DO MEU DIÁRIO

LIVRARTE-LIVROS E ARTE
Moscavide, 7 de Fevereiro de 2011 - Eu sempre gostei de livros e de livrarias, e, talvez por isso mesmo, quando vou a centros comerciais com a família, marco sempre o reencontro numa livraria.


Tive uma infância sem livros. O primeiro que aportou a minha casa, para além do manual da 1ª classe, chamemos-lhe assim, foi um livro de capa amarela, escrito em latim, que me foi dado pelo Pe. António Tavares Valente, pároco da Mata, e ainda hoje não sei porquê. Perdi-lhe o rasto sem nunca o ter folheado de fio a pavio, porque o latim só havia de chegar 20 anos depois, em dose económica, com a ajuda do grande linguista, poeta e também padre, de seu nome Tarcísio Alves.


O primeiro grande livro que me chegou às mãos, a obra poética de Manuel da Fonseca, edição da Portugália, foi-me igualmente oferecido. Por um amigo de infância e adolescência, que ainda considero meu amigo, embora não no modo como a amizade era encarada por Frei Amador Arrais. Na verdade, há muitos anos que não vejo o Raul Cabrito Paulo, que, ao que julgo saber, vai dividindo a vida entre Queluz e Malpica do Tejo, no concelho de Castelo Branco.


Depois veio o ano de 1969 e as eleições para a Assembleia Nacional do Dr. Caetano e capangas. E os tempos mudaram, e mudaram muito, ou melhor dizendo, começaram a mudar vertiginosamente, nos planos político, económico e social. E também no que concerne à minha relação com os livros. De 1969 à actualidade, comprei milhares de livros e ofereceram-me centenas. Sou autor de alguns títulos, de méritos duvidosos, e tenho planos para livros futuros, meus e alheios.


Estou convencido de que o cheiro do papel velho ou recentemente impresso e das tintas me hão-de acompanhar até ao fim d vida. Na verdade, "De e com livros tem sido feita a minha vida".

sábado, fevereiro 05, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 5 de Fevereiro de 2011 – Ontem, 4 de Fevereiro, não quis propositadamente falar de 4 de Fevereiro, porque há dois 4 de Fevereiro importantes para mim: o início da guerra colonial em Angola, no já distante ano de 1961, e o desaparecimento de meu pai, em 2009. Portanto, tenho a minha vida ligada ao 4 de Fevereiro e assim continuará a ser, doravante.

No dia 4 de Fevereiro de 1975, há trinta e seis anos, portanto, eu estava em Luanda e estava doente. Já não sei qual era a maleita, mas estava doente. Cumpria o serviço militar obrigatório na CCS de um batalhão importante, o 4511, comandado já por Francisco Granjo de Matos, tenente-coronel de infantaria. Tinha interrompido, voluntariamente, pela primeira vez, a minha actividade de fumador, que durou até Julho desse ano.

O meu batalhão estava sedeado no GAC-1, em Alvalade, ali a dois passos do cinema com o mesmo nome e da emissora oficial de Angola. Tinha quarto num dos últimos edifícios construídos pelo exército português, naquelas instalações militares, quase junto à rede da estrada que dava acesso ao aeroporto e a outros quartéis, nomeadamente os Adidos e a PM. E tudo isto vem a propósito do 4 de Fevereiro de 1975, pois foi naquele dia que regressou a Luanda o autor de Sagrada Esperança, António Agostinho Neto.

O desfile durou horas: muitas centenas de camionetas carregadas de nativos, centenas de milhar de pessoas desfilando e dançando com os seus melhores trajes e cantando canções autóctones, numa poderosa manifestação de patriotismo e desejo de independência. Apesar de estar doente, sentei-me nas traseiras do edifício e fiquei horas a gozar também o regresso do mítico dirigente do MPLA. Mais tarde foi o regresso de Savimbi. Holden Roberto, que mais tarde havia de nos surgir como um velho simpático, nunca chegou a regressar.

A esta distância, e numa análise sem paixão, acho que tudo valeu a pena, ainda que muitos dos dirigentes de Angola se tenham revelado mais tarde verdadeiros tiranos, verdadeiros crápulas, verdadeiros bandidos. Naquele contexto, todavia, não havia volta a dar. Todos nós estávamos cansados e aqueles territórios não eram, de facto, o prolongamento do Portugal europeu.


sexta-feira, fevereiro 04, 2011

COM O NETO JOÂO
Santa Iria de Azóia, 4 de Fevereiro de 2011 – À hora a que alinhavo estas linhas, sei bem que minha mãe lá estará na Mata, de lágrima ao canto do olho, só e corroída de saudades. Faz hoje dois anos que deixámos o meu pai no Campo da Verdade. E neste dia, mais uma vez, fico a dever-lhe um ramo de flores.
Eu recordo o meu pai com uma enorme saudade. É certo que não era dado a grandes manifestações de ternura; porém, por detrás daquela máscara, por vezes rude, existia um homem imensamente sensível e um bom, capaz de abundantes gestos de generosidade, que incluíam mesmo aqueles que não eram da nossa família. Na nossa casa, quem entrava era bem tratado.
Não sei se a Filipa se lembrará, hoje, do avô. Provavelmente sim e é capaz de telefonar e falar com a avó. Os restantes familiares, entretidos com as suas importantes vidas e com as suas importantes pessoas, não se lembrarão. E se calhar é assim mesmo que deverá ser, que a comiseração não faz bem a ninguém. Também não tenho intenções de falar mais, hoje, deste assunto, a não ser com minha mãe, com quem falo todos os dias e por vezes mais do que uma vez.
E aqui ficam estas palavras desajeitadas, que é a forma que tenho de prestar uma homenagem a uma das pessoas que mais amei.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

LISBOA GOSTA DE FARRA

Lisboa gosta de farra,
Festeja todos os santos.
É como a leda cigarra,
Não vai com choros e prantos.

Com ar triste canta o fado
- Faz parte da convenção –
Bebe um tinto, passa ao lado
E lá se vai a paixão.

Velha Lisboa querida,
Sempre leal e valente,
Sempre audaz e destemida
E ilustre resistente.

Nas curvas mais apertadas,
Faz das tripas coração.
Vence! Águas passadas,
Volta à sua vocação.

Ora séria matrona,
Ora mocinha garrida,
Tratada por tu ou dona,
É alegre e divertida.

segunda-feira, janeiro 31, 2011

É TÃO FELIZ O MEU AMOR

Esta quadra é um primor
- Tem perfeita construção -.
É pra dar ao meu amor,
Que trago no coração.

Há quem dê flores e rosas
E outras coisas de valor.
Eu só dou versos e prosas
E é tão feliz o meu amor.

Meu amor pede-me versos
Para animar o serão.
Já anda farta de terços
Rezados sem devoção.

E assim vamos vivendo,
Em paz e muita harmonia,
O coração entretendo
Com afagos de magia.

sábado, janeiro 29, 2011

PEQUENA HOMENAGEM

João Teixeira, ao centro, de cachecol, na sessão de lançamento de
FRAGMENTÁRIA MENTE de Manuel Barata, de pulôver encarnado.
Quadra bem João Teixeira
- Oh, que belas quadras faz! –
Ironia de primeira,
Em ritmo calmo e sagaz.

Eu gosto deste poeta
Do “coisismo” já chamado.
Para mim tem a faceta
De ser firme e delicado.

Usa o verbo com mestria
E cada dia melhor.
É do Alentejo a magia
Deste poeta de valor.


(Manuel Barata, Inéditas)
CASAS DE ALTERNE


Entro nas casas de alterne
Por obrigação profissional;
Mas topam imediatamente
Os frequentadores habituais
E aquelas noctívagas mulheres
Quão estranho me sinto e sou
Dentro de tais aquários.
Lisboa tem para todos os gostos
E para todas as carteiras:
Moldavas, lusas, brasileiras,
De cabelos pretos, ruivos, loiros.
O à-vontade ganha-se indo,
Os pidgins aprendem-se falando.
O fundamental é ter pilim!




domingo, janeiro 23, 2011

TERRAS DO MUNDO C. BRANCO)

PRAÇA VELHA(CAMÕES)
PRAÇA VELHA (CAMÕES)

CENTRO DA CIDADE (G. CIVIL)

EDIFÍCIO DA CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS
Castelo Branco é cidade
De muito frio e calor.
Rica terra, na verdade,
Pra viver c'o meu amor.




TERRAS DO MUNDO (MATA-CASTELO BRANCO)



CAPELA DE S. PEDRO AO CIMO
OLIVAIS TRADICIONAIS



sábado, janeiro 22, 2011

TERRAS DO MUNDO (MATA-CASTELO BRANCO)

A MINHA ESCOLA PRIMÁRIA - É A ESCOLA DO PROJECTO BELGAIS
Rua do Arrabalde

Rua do Adro


Minha Mata solitária
Eu jamais te olvidarei;
Não és muito solidária,
Mas és ladina, bem sei.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 19 de Janeiro de 2011 – O caso Castro continua a encher espaços informativos nas televisões e a coisa parece estar para durar. Basta que o presumível assassino não se declare culpado e, por mais célere que seja a justiça americana, teremos festim com duração imprevisível. Na verdade, algo fede neste velho reino da Lusitânia.

A campanha para as presidenciais tem sido ofuscada por este caso macabro, que as televisões, quais abutres, não largam. Não me espantará, portanto, que a abstenção aumente ou que os portugueses, hoje menos exigentes do que ontem, vão votar maioritariamente num candidato medíocre. O caso Castro até vai distraindo os portugueses do endividamento do país e do modo como o governo tem estado a lidar com o problema.

Eu queria que esta campanha fosse viva e esclarecedora. Eu explico melhor: gostava que o presidente de Portugal, que volta a ser candidato, pudesse esclarecer cabalmente as questões que lhe têm sido postas, sim, as de natureza patrimonial, para que quem nele vota não o faça só porque sim. E gostava também que todos esclarecessem os portugueses sobre matérias como a educação, o estado social, a justiça, etc.

Tenho dúvidas, se o resultado for o que é espectável, que o presidente de Portugal, que não o de todos os portugueses, possa cumprir até ao fim o seu mandato. Se tudo o que há para esclarecer não for esclarecido até sexta-feira, sê-lo-á mais tarde ou mais cedo e com graves custos para Portugal. A não ser que aceitemos definitivamente que a nossa pátria é uma república das bananas.

quinta-feira, janeiro 13, 2011

DO MEU DIÁRIO

Moscavide, 11 de Janeiro de 2011 - Imbecilizada, a populaça entretém-se com o assassinato de Carlos Castro, um cronista social. Para esta adesão doentia muito têm contribuído os media, nomeadamente as televisões, que servem deste menu doses exageradas.

Para dizer a verdade, vi a vítima duas ou três vezes na televisão e não apreciei o género. Posso até dizer que, se tivesse morrido sem alarido, nunca mais me lembraria do cronista dito social. De resto, como não me lembraria de muitas outras figuras das revistas cor-de-rosa e da tv. Não fazem o meu género. Ponto. Lembro-me da morte de Luís Miguel Nava, um grande poeta português, e não me recordo de tanto “arroído”. Escrevia versos e morreu em Bruxelas.

Enquanto esperava para fazer um electrocardiograma, hoje, em Moscavide, ouvi um relato do caso de Nova Iorque, aos solavancos, com a justiça de permeio, que me arrepiou durante vários minutos. Nas televisões, nos jornais e nas redes sociais, posso evitar o caso; porém, o pior é quando somos assaltados assim, desarmados, numa sala de espera.

Ainda me apeteceu pedir à mulher para se calar; no entanto, mandou o decoro que me mantivesse em silêncio, que a língua daquela nossa concidadã poder-me-ia aspergir com o seu, por certo, letal veneno.

domingo, janeiro 09, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 9 de Janeiro de 2011 – Quando viajo por esse país fora, fico contente quando vejo os campos lavrados, as oliveiras limpas, a cortiça tirada, manadas ou rebanhos a pastar. Sinto a mesma emoção na Beira Baixa, no Alentejo e noutras regiões de Portugal.


Antes de sermos um país mais ou menos industrializado, fomos um país rural. De resto, a minha infância foi passada na Beira Baixa, em contacto com o campo e com as actividades ao campo ligadas. É por isso que me alegro quando vejo os campos tratados e entristeço quando os vejo abandonados.


Sei bem quão difícil é a vida do campo; sobretudo, onde os homens e as mulheres têm que fazer todo o trabalho. Sei quanto custa colher azeitona à unha, de sol-a-sol; sei quanto custa tratar das hortas nas leiras da sobrevivência; sei quanto custa tratar do gado - ainda que a antiga transumância tenha desaparecido -, na região onde nasci. Compreendo, portanto, as razões primeiras da desertificação do interior e a consequente litoralização de um país inteiro.


Nos últimos tempos, com a crise instalada, tem-se falado na necessidade de fazer aumentar a produção agrícola nacional. Tem-se falado, igualmente, na necessidade de olhar de novo para o mar. E creio bem que esses sejam os caminhos que terão que ser percorridos. Ter-se-á que voltar aos sítios de onde se partiu ou a onde deixou de se ir. Agora, certamente, com sacrifícios redobrados.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

DO MEU DIÁRIO


Lisboa, 3 de Janeiro de 2011 – De Vila Nova de Milfontes até Monforte, o Alentejo oferece ao viajante uma multiplicidade de rostos. Enganam-se, portanto, todos os que dizem que o Alentejo é monótono.
Ainda ontem, quando fui de Évora para Viana, a fim de visitar o meu amigo João Teixeira, pude apreciar a variedade da paisagem: mansas ovelhas aqui, vacas e mais vacas além, agora porcos pretos, e, a seguir, mais vacas, toiros e porcos. E muitas cegonhas, vaidosas, que tanto apreciam as alturas e têm o privilégio de lhes construírem as casas. Disse-me o João Teixeira que os pardais, finos como a pólvora, se aproveitam, à grande, das mordomias concedidas às cegonhas.
Logo à saída de Évora, o viajante é surpreendido pela presença de eucaliptos, ainda rasteirinhos, junto às bermas da estrada; porém, a seguir surgem os pinheiros mansos, que mais à frente dão o lugar aos sobreiros e às azinheiras. E também às inevitáveis e quiçá multi-centenárias oliveiras.
Finalmente Viana - onde o poeta João Teixeira vive há vários anos - e a alegria de um reencontro. E pela primeira vez, nos últimos anos, nem uma única palavra acerca de livros. Pois as conversas, como já atrás ficou dito, também se fazem de seres como cegonhas e pardais.

DO MEU DIÁRIO


Évora, 1 de Janeiro de 2011 – Acordei tal como entregara o corpo a Morfeu: cansado e apreensivo.
À partida, a chegada de um Ano Novo costuma ser celebrada com alegria; no entanto, ainda que o Ano Velho não me tenha deixado saudades, e desejasse vê-lo pelas costas, este que agora se inicia não augura grandes coisas.
Haja saúde e aguardemos todos, eu disse todos!, o 2012 com mais optimismo.

Évora, 2 de Janeiro de 2011 – Manhã cinzenta, em Évora, a condizer com o nevoeiro que envolve a minha alma – essa que vou construindo paulatinamente (olá Isabel Mendes Ferreira!, um bom ano para si) -, neste começo de Janeiro.
Do local onde escrevo, vêem-se os cocurutos de igrejas de Évora. E também da catedral, que ontem se encontrava de portas fechadas, o que já se tornou uma rotina e uma fatalidade.
Pela primeira vez, estive, ontem, no Redondo, que os irmãos Salomé celebrizaram. Uma terrinha simpática com muitas casas listadas de azul (barrões azuis), onde ainda ardia o madeiro natalício. E muitas laranjeiras bravas que, para além de serem um elemento decorativo interessante, me trazem à memória moiras encantadas.
Moiras encantadas! Vá-se lá saber porquê…

terça-feira, dezembro 28, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 27 de Dezembro de 2010 - No próximo ano, se nada de extraordinário acontecer, deixarei de ser funcionário público. Deixarei de ser funcionário, sem qualquer mágoa, de uma empresa falida. Tropa incluída, sairei com mais de trinta e oito anos de serviço e cerca de três de penalização, ou seja, com a chamada pensão de aposentação reduzida em cerca de 18%. Para gáudio da dr.ª Ferreira Leite, que, vaticino eu, um dia ainda terá de se haver com algum funcionário público mais ousado ou tresloucado.

No próximo ano vou deixar de ser um activo a comer do OE para passar a ser um aposentado a comer do OE, com todos os descontos legais efectuados, e a caminhar inexoravelmente para os sessenta anos. Bem sei que não sou velho no sentido actual da palavra. Velhos, para além dos trapos, são aqueles que conseguem entregar a alma ao criador já depois dos noventa. Vistas bem as coisas, eu ainda podia fazer umas peladinhas com as velhas glórias. No entanto, estou farto. Farto!

É certo que nunca gostei de ser funcionário público. Gostaria de ter sido professor a tempo inteiro e de ter estudado e produzido trabalho intelectual com interesse. Nunca tratados de economia ou artiguinhos sobre economia ou ciência económica. Mas podia ter estudado poetas e romancistas e, devagarinho e de forma mais atenta, ter tratado da minha própria produção. No fundo, e tendo em conta o pensamento dominante, podia ter feito umas tretas.

A vida é o que é - o senhor De La Palisse não diria melhor - e não vou ficar para aqui a lamentar-me. Vou deixar a função pública e com a convicção de que não fico a dever nada à dr.ª Ferreira Leite. E isto é para mim um consolo muito grande.


segunda-feira, dezembro 27, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 27 de Dezembro de 2010 - No próximo ano, se nada de extraordinário acontecer, deixarei de ser funcionário público. Deixarei de ser funcionário, sem qualquer mágoa, de uma empresa falida. Tropa incluída, sairei com mais de trinta e oito anos de serviço e cerca de três de penalização, ou seja, com a chamada pensão de aposentação reduzida em cerca de 18%. Para gáudio da dr.ª Ferreira Leite, que, vaticino eu, um dia ainda terá de se haver com algum funcionário público mais ousado ou tresloucado.

No próximo ano vou deixar de ser um activo a comer do OE para passar a ser um aposentado a comer do OE, com todos os descontos legais efectuados, a caminhar inexoravelmente para os sessenta anos. Bem sei que não sou velho no sentido actual da palavra. Velhos, para além dos trapos, são aqueles que conseguem entregar a alma ao criador já depois dos noventa. Vistas bem as coisas, eu ainda podia fazer umas peladinhas com as velhas glórias. No entanto, estou farto. Farto!

É certo que nunca gostei de ser funcionário público. Gostaria de ter sido professor a tempo inteiro e de ter estudado e produzido trabalho intelectual com interesse. Nunca tratados de economia ou artiguinhos sobre economia ou ciência económica. Mas podia ter estudado poetas e romancistas e, devagarinho e de forma mais atenta, construído a minha própria obra.

A vida é o que é - o senhor De La Palisse não diria melhor - e não vou ficar para aqui a lamentar-me. Vou deixar a função pública e com a convicção de que não fico a dever nada à dr.ª Ferreira Leite. E isto é para mim um consolo muito grande.


PONSUL

ALI ONDE A MATA ACABA

domingo, dezembro 26, 2010

TERRAS DO MUNDO

RUÍNAS E UM PAINEL DE AZULEJOS

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 26 de Dezembro de 2010 – Sócrates falou ao país; porém, confesso que não o ouvi. De resto, já oiço pouco Sócrates que, passe o truísmo, já não é solução para Portugal. Se calhar nunca foi.
Negrito
Confesso também que não vejo Passos como solução para Portugal. É igualmente um político sem densidade e com receitas que já deram o que tinham a dar, ou seja, o pior para Portugal e o mundo.

Chegados aqui, é-me indiferente que Sócrates caia ou se levante, porque, com ou sem Sócrates, teremos mais do mesmo, numa versão mais rasteirinha e radical. Isto só lá vai, meus amigos, isto só lá vai com uma nova política. Uma política que mande às urtigas o “mercado” e as agências de “rating” e recoloque os cidadãos no centro das atenções da governação.
E por hoje, “ missa dicta est”.

sábado, dezembro 25, 2010

19

Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de dizer as coisas, da sua retórica única, do modo natural como metia mulheres nuas nos poemas.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de ser solidário, dos seus protestos viris, do modo simples como transformava o real em poesia.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de andar na lua, mas sempre a olhar a Terra, que enchia de árvores e folhas e flores e frutos.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava, sobretudo, dos violinos que tão habilmente escondia em cada verso.

Manuel Barata, FRAGMEMTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005
Santa Iria de Azóia, 25 de Dezembro de 2010 – Mais pormenor, menos pormenor, dir-se-ia que este foi mais um Natal da convenção, como diria o grande Fernando Pessoa. Polvo ao almoço e bacalhau à noite, regados com um tinto alentejano bastante honesto. A costumada doçaria, talvez menos este ano, mas que como com parcimónia, que a diabetes espreita e há que ter juizinho.

E depois a cerimónia das prendas, que os mais novos esperam com ansiedade. O senhor meu sogro ofereceu-me uma tese de doutoramento, que já comecei a ler com alguma gula, porque trata de um poeta muito importante, mas que os rótulos conduziram ao esquecimento, como muito bem nota a autora Carina Infante do Carmo. O poeta é José Gomes Ferreira, escritor de diários e memórias e que foi o primeiro poeta por quem tive verdadeira admiração. E a obra tem um nome muito comprido como é habitual nestas matérias:
A MILITÂNCIA MELANCÓLICA OU A FIGURA DE AUTOR EM JOSÉ GOMES FERREIRA.

O dia está muito frio e chuvoso aqui na região de Lisboa. É consabido que amo os dias de sol e muita luz; porém, terei de esperar até ao próximo solstício para ter o tempo de que tanto gosto.

No ínterim, continuação de Boas Festas!

quinta-feira, dezembro 23, 2010

MEMÓRIA

CASTELO BRANCO


NA RUA DE SANTO ANTÓNIO

Era nas águas-furtadas a nossa casa. Era velha e com poucas condições, mas tinha uma clarabóia, por onde, quando havia, entrava a luz do sol. Era no número vinte e um da rua de Santo António, quase no coração da cidade. No rés-do-chão, era a mercearia do senhor António Canaveira.

Em frente, havia uma agência de viagens, onde trabalhava uma rapariga vistosa, com quem, na solidão dos meus pensamentos, fiz as primeiras grandes viagens. Era uma rapariga alegre, que vestia roupas alegres e tinha um sorriso alegre e branco e amplo e um corpo ágil de gazela.

Um dia a agência fechou as portas e a rapariga mudou de ares, qual ave de arribação. Se me tivesse pedido, apesar da idade, creio bem que tinha partido com ela. Ah, como batia forte e apressado, naqueles dias, o meu pobre coração!

E o tempo, esse inigualável fazedor, fluía placidamente. Placidamente, que é assim que deverá fluir o tempo. E tudo era normal e rotineiro, até a passagem diário do batalhão, o seis de caçadores, que passava na rua de Santo António ao som do tã-tã…ta-ra-ra-tã-tã dos tambores e do op, dois, erdo, direito dos cabos milicianos.

A nossa casa era nas águas-furtadas do número vinte e um da rua de Santo António e era a foz de um rio de gente que ali vinha pedir um pequeno favor, como visitar, no hospital, um doente, ou comer um simples prato de sopa.

Aquelas águas-furtadas eram a casa da gente.

QUINTA DA FEITEIRA (CASTELO BRANCO)


AS CEGONHAS

Partem antes do equinócio
E antes do equinócio chegam.

Nos cocurutos das árvores
E nos velhos campanários,
Constroem as suas habitações;
Donde, com indiferença,
Gloterando, placidamente,
Espreitam as nossas vidas.

Falo das cegonhas
E da sua mania das alturas.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

DO MEU DIÁRIO

DAS SUAS MÃOS BROTAVAM OS FRUTOS

Santa Iria de Azóia, 22 de Dezembro de 2010 – Meu pai, se não tivesse ido com as aves à descoberta do vasto céu, poderia estar ainda entre nós. Completaria hoje oitenta anos e estaríamos todos juntos, no próximo fim-de-semana, para os festejar. Fora assim anos a fio e a tradição havia de se manter.
Por incúria alheia, e também por desistência pessoal, deixou-nos com tristeza, certamente, mas sem lamúrias. Conhecera o sofrimento desde criança, pois o reumatismo e a ciática e outras dores dos ossos sempre o apoquentaram muito. A tudo foi resistindo com coragem, até ao aparecimento de uma doença da moda, como se diz eufemísticamente, que o havia de esbarrondar para sempre.
Embora temperamental, tinha um coração largo. E é esse coração largo e generoso que hoje recordo aqui comovidamente.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

EUROPA

Europa!... Não há direito.
Claudica amolecida,
Já ninguém lhe tem respeito,
É vexada e ofendida.

É uma velhinha tonta,
Ninguém lhe passa cartão;
Mas anda a fazer de conta
Que inda tem opinião.

Esta Europa bizantina,
De muitas leis e decretos,
Procura mas não atina
Com os melhores projectos.

Manuel Barata, QUADRAS QUASE POPULARES, Ulmeiro, Lx. 2003



quarta-feira, dezembro 15, 2010

7


Dom Sebastião permanece vivo
E inda mexe no luso imaginário.
Um povo vive, nesta orla, cativo,
À ´spera do rei louco e temerário.


Os outros fazem e nós esperamos,
Que ele nos traga a boa solução.
Para o cerrado nevoeiro olhamos,
Como se fora a nossa salvação.

Ai, esta longa e dolorosa espera!...
Agir, agir, agir sempre e sem medo,
Foi a regra mágica da nossa Era,


O nosso mágico e fértil segredo.
Quem viu o largo mundo desespera,
Com este povinho tristonho e quedo.

Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005






D. PEPE

UM GATINHO MUITO ESPECIAL

NORAS DE LOURES

O RÚSTICO E O URBANO
RESTOS DE RURALIDADE

E LISBOA AQUI TÃO PERTO



terça-feira, dezembro 14, 2010

PARIS

Chamam-lhe a cidade luz,
Mas que luz tem a cidade?
Que fascínio seduz
Quase meia humanidade?

Oh, grande e bela Paris!
Oh, generosa cidade!
Não, não se engana quem diz,
Que deixas sempre saudade!

Um café no Luxembourg,
Descer o Saint Michel,
Os faquires no Baubourg,
Namorar na Torre Eiffel.

Confesso que fui feliz,
No tempo que lá vivi.
Oh, doce e gentil Paris,
Como é bom gostar de ti!

(Manuel Barata, Inéditas)

domingo, dezembro 12, 2010

A BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA

Às vezes, dou por mim a pensar nas cinzas da biblioteca de Alexandria. E pergunto-me o que num só fogo perdeu a humanidade.

Quantos séculos terá o mundo regredido por obra de um fogo? Esta é a pergunta clássica e inteligente, que todos os sábios fizeram.

Há outra pergunta, talvez impertinente e talvez cretina, que ninguém ousou fazer: onde estaríamos hoje, se hoje ainda houvesse, sem o fogo de Alexandria?
Manuel Barata, FRAGMENTÁRIA MENTE, ED. ALECRIM, 2009

sábado, dezembro 11, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 11 de Dezembro de 2010 – Dormi mal. Durmo sempre mal quando tenho algo de importante para fazer, nem que seja o compromisso mais simples com quem quer que seja. É-me já constitucional dormir mal e não vou pedir a revisão da Constituição para que possa despedir as insónias.
Uma amiga querida alertava-me ontem, afim da tarde para o desaparecimento deste blogue, que, creio firmemente, é importante para mim e para meia dúzia de boas almas que me vão acompanhando. Agradeço-lhes e louvo-lhes a paciência. Hão-de merecer o céu, mas até lá o céu que espere, que a vida, por vezes triste e difícil, cá no planeta dito azul, é o que mais de importante temos.
Se o blogue tivesse desaparecido, não viria de aí mal ao mundo. Criava-se outro, que. por enquanto ainda vão sendo de borla. O que seria dramático era a perda de alguns amigos virtuais, que, sei-o bem, passam por aqui amiúde para lerem as minhas larachas. Agora vou tomar o pequeno-almoço e vou ao trabalho, que a vida não se condói com calaceiros.
Bom dia, estimados leitores.
12

Para o Manuel Vaz


Com palavras constroem verdadeiros monumentos: precários, às vezes; às vezes, teimosamente resistentes. Alguns chegam até nós, vindos do fundo do tempo, frescos e incorruptíveis; outros, igualmente frescos, trazem a pequena mossa da corrupção em notas de rodapé.

Todos esses monumentos – de que os poetas são arquitectos e pedreiros, engenheiros, pintores, carpinteiros -, se falar pudessem, dariam conta de inumeráveis batalhas ganhas com galhardia e perseverança, desde o surgir da pura ideia até ao assentamento da última pedra.

Acreditai-me, ó gentes profanas!, que não é fácil recriar permanentemente o mundo com as humílimas palavras, para vo-lo servir pleno de harmonia em esplendorosas bandejas de oiro.
Manuel Barata, Fragmentos com poesia, Ulmeiro, 2005



segunda-feira, dezembro 06, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 6 de Dezembro de 2010 – Sá Carneiro – não o autor de Salomé – regressa todos os anos, nos primeiros dias de Dezembro. E assim vai ser, enquanto viverem os herdeiros “ideológicos” do malogrado congregador da direita portuguesa, no pós 25 de Abril.

Eu não sei que ideologia tinha Sá Carneiro, apesar de ter acompanhado o seu percurso desde os tempos da chamada Ala Liberal, na defunta Assembleia, onde pontificava um deputado muito patusco chamado Casal Ribeiro. E lembro-me de o ter ouvido, talvez em Julho de 1974, num comício com Mário Soares e Álvaro Cunhal, no estádio 1º de Maio em Lisboa. De perto vi-o apenas uma vez, no também defunto Lisboa Penta Hotel, onde foi recebido por Yasser Arafat. Decorriam os últimos dias do mês de Novembro do ano de 1979. Governava Portugal, nesse já distante Novembro, Maria de Lurdes Pintassilgo.

Era bom tribuno, e apesar de ter granjeado a fama de truculento, teve a paciência para andar cá e andar lá, esperando que o poder lhe viesse cair às mãos. O que de facto veio a acontecer, após as desastradas governanças do dr. Soares e do dr. Soares com o Dr. Freitas do Amaral. E depois teve aquele sonho de unir a direita, que não chegou a concretizar pelas razões conhecidas. E creio que o legado político de Sá Carneiro é sobretudo o sonho de uma maioria parlamentar, um governo e um presidente. No fundo, uma fórmula para o exercício do poder.

domingo, dezembro 05, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 5 de Dezembro de 2010 – Quando falo de Trás-os-Montes, há um nome que se apressa a ocupar-me a mente: Miguel Torga. E pelos vistos não sou caso único, porque, aqui e ali, ainda se vão ouvindo referências ao filho mais famoso de S. Martinho de Anta.

Eu estou convencido que Miguel Torga resiste, bravamente, pela estreita ligação que a sua obra tem com Portugal e os portugueses. Num certo sentido, creio que a obra de Torga se constitui como uma nova lusa epopeia. É certo que Torga não louva Portugal e os portugueses como Camões. Nem tão-pouco como Pessoa, na Mensagem; no entanto, Torga foi um homem particularmente atento ao rectângulo e a tudo o dentro dele se passava. É tocante, nomeadamente, o apreço pela obra realizada ao longo do curso do Douro.

Falta-lhe universalidade? É possível que sim; porém, esse já é outro problema e do qual Torga não será o único responsável.

sábado, dezembro 04, 2010

VOU A SILVES ESTE VERÃO

Vou a Silves este Verão
Pra subir o rio Arade.
Vai ser grande a emoção
Quando chegar à cidade,

Onde Al Mu’tamid, poeta,
Cantou as lindas gazelas
E com carinhosa seta
D’amor feriu muitas delas.

Quero andar pela cidade
E auscultar-lhe o coração.
Que esta moura ainda há-de
Dar-me, alegre, a sua mão.

Há-de ser neste Verão,
Que eu já morro de saudade.
Meu amor virou paixão,
Bela paixão, na verdade.


Manuel Barata, FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, 2009
PALAVRAS PERDIDAS


Há quanto tempo, mãe, não te falo de amor
Com aquelas palavras de encantar
Com que as crianças falam do amor?!


Há dias corei de vergonha,
Corei de vergonha quando li,
Num livro de cartas de Saint-Exupéry,
As palavras mágicas que ele escreveu a sua mãe
E que eu nunca te disse a ti.


Deixei que entre nós se interpusesse
Um pudico silêncio ancestral
E disse-te apenas coisas imediatas e triviais.


Eu esqueci, mãe, aquelas palavras claras e pueris
Que tanto alegravam o teu coração.


Eu coro de vergonha, mãe!



Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx. 2005)

QUADRAS

5
Já se nota bem o medo,
Entre o povinho rasteiro,
Que se mantém surdo e quedo
Sem trabalho e sem dinheiro.

6
Neste Outono quase Inverno,
Portugal está doente.
Isto vai ser um inferno,
Uf, um inferno inclemente!
7
Já dizem que falta o pão,
Em muitas das lusas casas.
O casqueiro, patrões, não!,
Que isto vai ficar em brasas.

8
Quando chegar a tal hora,
A hora de toda a verdade,
Os da massa vão-se embora
E o povinho berrar há-de.

(Manuel Barata, inéditas)

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 4 de Dezembro de 2010 – Sábado feio de quase fim de Outono. Chuva e frio com abundância, que me fizeram lembrar os Outonos e os Invernos da minha infância.

Felizmente, as nossas casas têm agora mais conforto. Mudaram os processos de construção e há agora múltiplas possibilidades de climatização, tornando estas os Outonos e os Invernos menos penosos. Não estaremos no melhor dos mundos como constataria, certamente, uma personagem célebre de um romance de Voltaire; porém, não há comparação possível com as condições de habitabilidade das nossas casas de há cinquenta anos.

Apesar das nossas lamúrias quotidianas, que são mais do que justas, o mundo pula e avança, como escreveu António Gedeão.
*
O Zé Vilela, que é meu amigo há décadas, celebrou hoje o seu aniversário. É um homem da minha geração, ligeiramente mais novo, que se tornou um profissional do foro competente e respeitado. Com muito trabalho e inteligência. Transmontano de nascimento, é rijo como o granito da sua província natal.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 2 de Dezembro de 2010 – Há muito tempo que ando fugido deste Diário, que venho escrevendo, com intermitências mais ou menos longas, desde 1994.

Escrever um diário não é tarefa fácil, apesar de a prosa diarística ser amiúde desconsiderada. É tarefa que exige trabalho, muito trabalho, e quem pensar que não, que inicie uma destas viagens. A minha já leva dezasseis anos, dezasseis!, e não pretendo chegar a nenhum porto. É um espaço para a minha reflexão pessoal, sem preciosismos e sem quaisquer compromissos.

O Manuel Ramos Ribeiro, que foi um dos últimos grandes latinistas portugueses, perguntou-me um dia: “Manuel, porque escreve você um diário, se não é um famoso?” A pergunta era pertinente e pertinente continua a ser, decorridos tantos anos e sem que tenha conseguido desalojar este vício. Grande toleima minha, certamente. Mas vou continuar, “malgré tout”.
Eu gostava de ter o talento de Marcello Duarte Mathias, ou de Torga, ou de Saramago ou de Vergílio Ferreira. Sim, que Conta Corrente também é um diário. Porém, apesar de não ter o talento daqueles egrégios escritores lusos, vou perseverar, do mesmo modo que continuarei a deliciar-me com diários alheios. O próximo vai ser o inédito de José Gomes Ferreira, que a Dom Quixote vai publicar.
E assim retomo a viagem, deixando uma nota sobre o fim do blogue o Jumento. Na verdade, tudo tem que ter um fim; porém, quero que a terra lhe seja leve, leve como pétalas, porque me proporcionou bons momentos de leitura e reflexão.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

QUATRO QUADRAS

1
Está de volta o Outono
- Muita chuva e ventania -,
Agora tenho mais sono
Preguiça e melancolia.

2
Detesto os dias cinzentos
Com o céu ameaçador
E as noites longas e os ventos,
Que são, ó deus, um pavor.

3
Este Outono é muito triste:
Falta o trabalho e o pão.
E o povinho a tudo assiste,
Incapaz de dizer não.

4
Somos animais de carga
Ou de canga, tanto faz.
Dão-nos esta vida amarga
E mantém-se tudo em paz.