sábado, novembro 06, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 9 de Abril de 2008 – A fotografia está-me na massa do sangue. Por isso mesmo, contam-se às centenas cá em casa. É uma forma outra de ir escrevendo as minhas memórias ou de guardar memória de objectos, sítios e pessoas, que, num dado momento, me disseram algo.

A convite da Alexandra, colaboro no “blogue” Duas Lentes, onde, um pequeno escol de fotógrafo(a)s amadore(a)s, publica fotografias de grande beleza, e, por vezes, originais e mesmo insólitas. No que me diz respeito, confesso que gosto da experiência, embora me falte a sensibilidade das colegas do “blogue”.

Graças a esta experiência, agora ando sempre munido de uma máquina para captar imagens, aqui e ali, que, à semelhança dos actos de fala, são momentos únicos e irrepetíveis.

sábado, outubro 30, 2010

DO MEU DIÁRIO


MARADONA

Santa Iria de Azóia, 30 de Outubro de 2010 – Diego Armando Maradona – el Pibe – festeja hoje os seus cinquenta anos. O nem sempre transparente mundo do futebol festeja hoje o aniversário de um dos seus grandes ídolos.

Na sequência da expulsão de Maradona do mundial dos EUA, escrevi um texto em que falava de futebol e poesia. E creio bem que os poetas não me levarão a mal se disser que Diego Armando foi um grande poeta do futebol. O modo como tratava a bola, o modo como se entregava ao jogo, o engenho que ponha em tudo quanto fazia, tornaram-no um verdadeiro mito. Maradona estabeleceu a fronteira entre a prosa e a poesia, metaforicamente falando, obviamente.

Sempre polémico, mas sempre diferente, el Pibe é um ídolo à escala planetária, ao qual ninguém consegue ficar indiferente. Aimar no Benfica, ontem, e, Dí Maria, há momentos, no Real Madrid, marcaram golos que, certamente, não deixarão de ter Maradona no pensamento.

sexta-feira, outubro 29, 2010

MEMÓRIA – 1

(Em memória de minha avó paterna)


Muito erecta em seu balcão,
De cores tristes vestida,
Cantava toda a manhã.

Os cabelos penteava
E rimas lançava ao vento
Pr’ afastar a solidão.

Sua voz tinha magia,
Tristeza muita e profunda,
E cantava todo o dia…

Ó querida velha tonta!,
-Minha esmeralda perdida,
Onde cantarás agora?


Barata, Manuel, FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, 2009

DO MEU DIÁRIO

Foto da autoria do grande fotógrafo José Pedro Barata
Santa Iria de Azóia, 25 de Outubro de 2010 – Num texto publicado numa edição do albicastrense RECONQUISTA, jornal semanário de grande divulgação regional, o autor trouxe-me à memória uma figura castiça da cidade, que vendia jornais, trajava fatos e gravata pretos e camisa branca, que, provavelmente, tinham sido de pessoas com maiores estaturas.

Falo de Zé Gavetas, empregado da Casa Vidal Sestay, que era, indubitavelmente, uma figura do “folk” albicastrense. Zé Gavetas, que vendia o Diário de Notícias e os desaparecidos Mundo Desportivo e Diário Popular, não primava propriamente pela limpeza, tal como o resto do país, em cujas tascas se espalhava serradura no chão e havia pratos com um líquido avermelhado para apanhar moscas.

Lembro-me de Zé Gavetas, um indivíduo patusco e mais ou menos subserviente, a quem a burguesia local achava piada, sobretudo pela extravagância das roupas e do vasto e farfalhudo bigode. Desconhecia-lhe, todavia, o humor e a bondade que o referido texto referia e com exemplos ilustrava.

O João Teixeira, que conheceu Zé Gavetas melhor do que eu, lembrou-me a bonomia do grande apregoador do PIF-PAF e do eterno enamorado, sempre quase quase a casar, segundo ele mesmo, mas que haveria de morrer solteiro.

E tudo isto para dizer que há sempre um tempo para corrigir opiniões. Ainda que só postumamente. O que no caso vertente nem terá grande importância. Zé Gavetas, que teria Meireles no nome, creio que nem primos tinha.

sábado, outubro 23, 2010

JACQUES PRÉVERT
BARBARA

Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest ce jour-là
Et tu marchais souriante
Épanouie ravie ruisselante
Sous la pluie
Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest
Et je t’ai croisée rue de Siam
Tu souriais
Et moi je souriais de même
Rappelle-toi Barbara
Toi que je ne connaissais pas
Toi qui ne me connaissais pas
Rappelle-toi
Rappelle-toi quand même c jour-là
N’oublie pas
Un nome sous un porche s’abritait
Et il a crié ton nom
Barbara
Et tu as couru vers lui sous la pluie
Ruisselante ravie épanouie
Et tu t’es jetée dans ses bras
Rappelle-toi cela Barbara
Et ne m’en veux pas si je te tutoie
Je dis tu à tous ceux que j’aime
Même si je ne les ai vus qu’une seule fois
Je dis tu à tous ceux qui s’aime
Même si je ne les connais pas
Rappelle-toi Barbara
N’oublie pas
Cette pluie sage et heureuse
Sur ton visage heureux
Sur cette ville heureuse
Cette pluie sur la mer
Sur l’arsenal
Sur le bateau d’Ouessant
Oh Barbara
Quelle connerie la guerre
Qu’es-ce-tu devenue maintenant
Sous cette pluie de fer
De feu d’acier de sang
Et celui qui te serrait dans ses bras
Amoureusement
Est-il mort disparu ou bien encore vivant
Oh Barbara
Il pleut sans cesse sur Brest
Comme il pleuvait avant
Mais ce n’est plus pareil et tout est abîmé
C’est une pluie de deuil terrible et désolée
Ce n’est même plus l’orage
De fer d’acier de sang
Tout simplement des nuages
Qui crèvent comme des chiens
Des chiens qui disparaissent
Au fil de l’eau sur Brest
Et vont pourrir au loin
Au loin très loin de Brest
Dont il ne reste rien.


BARBARA

Tradução de Manuel Barata
À Lídia Martinez

Lembra-te Barbara
Chovia sem parar sobre Brest naquele dia
E tu caminhavas sorridente
Alegre feliz resplandecente
Sob a chuva
Lembra-te Barbara
Chovia sem parar sobre Brest
E cruzei-me contigo na rua de Siam
Tu sorrias
E eu sorria também
Lembra-te Barbara
Tu que eu não conhecia
Tu que me não conhecias
Lembra-te
Lembra-te portanto daquele dia
Não esqueças
Um homem sob um pórtico abrigado
Gritou o teu nome
Barbara
E tu correste para ele sob a chuva
Resplandecente feliz alegre
E lançaste-te nos seus braços
Lembra-te disso Barbara
E não me queiras mal por te tratar por tu
Trato por tu todos os que amo
Ainda que os tenha visto uma só vez
Trato por tu todos os que se amam
Ainda que os não conheça
Lembra-te Barbara
Não esqueças
Esta chuva sábia e feliz
Sobre o teu rosto feliz
Sobre esta cidade feliz
Esta chuva sobre o mar
Sobre o arsenal
Sobre o barco de Ouessant
Oh Barbara
Que parvoíce a guerra
Quem és tu agora
Sob esta chuva de ferro
De fogo de aço de sangue
E aquele que te apertava nos braços
Amorosamente
Morreu desapareceu ou é ainda vivo
Oh Barbara
Chove sem parar sobre Brest
Como chovia antes
Mas nada é igual e está tudo destruído
É uma chuva de luto terrível e desolada
Não é a mesma tempestade
De ferro de aço de sangue
Simplesmente nuvens
Que rebentam como cães
Cães que desaparecem
Na torrente da água que cai sobre Brest
E vão apodrecer longe
Longe muito longe de Brest
Da qual nada resta


Publicada por Manuel da Mata em Domingo, Maio 25, 2008

sexta-feira, outubro 22, 2010

A BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA

Às vezes, dou por mim a pensar nas cinzas da biblioteca de Alexandria e pergunto-me o que num só fogo perdeu a humanidade.

Quantos séculos terá o mundo regredido por obra de um fogo? Esta é a pergunta clássica e inteligente, que todos os sábios fizeram.

Há outra pergunta, talvez impertinente e talvez cretina, que ninguém ousou fazer: onde estaríamos hoje, se hoje ainda houvesse, sem o fogo de Alexandria?
In FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, Santa Iria, 2009



quinta-feira, outubro 21, 2010

EM LOUVOR DAS OLIVEIRAS DA MATA
Viram-te nascer e conhecem de cor os teus segredos. Foram a tua companhia, silenciosa e segura, durante centenas de anos.

Deram-te sombra, nem sempre boa, é certo, nos tórridos dias do Verão; a luz possível, antes do advento da electricidade; o calor nos Invernos, às vezes, tão longos e rigorosos; o tempero para a panela pobre, que tornava o feijão e a couve menos ásperos; o dinheiro para muitos dos restantes e indispensáveis bens.

E também, é justo que se diga, muito e aturado trabalho e servidão.

De qualquer modo, moldaram-te o carácter. Com elas aprendeste a mansidão e a austeridade. Por isso mesmo, nunca foste dada a sobressaltos e a paixões. Em toda a minha vida, apenas ouvi falar de um crime passional, perpetrado por um homem, a quem o amor de uma mulher não quis servir. Foi muito antes de eu ter nascido e já passei há muito pelos cinquenta.

Benditas sejam para sempre as nossas oliveiras!

quarta-feira, outubro 20, 2010

TANTO CANSAÇO
Estou a ficar cansado - não do débito e crédito rosiano (Olá grande poeta!) -, mas das alíneas, dos números e dos artigos das leis e dos decretos-leis, produzidos por juristas preclaros, e também dos números das circulares e dos ofícios-circulados, através dos quais os directores –gerais, debitam para o vulgar o que se deve entender que entenderam, repito, os preclaros juristas.

Não sou um funcionário triste nem alegre, porque a um funcionário não se pede nem se paga para ser triste ou alegre. Um funcionário é um funcionário, despido de adjectivos, como diria o sempre delicioso Caeiro. Cansado, sim, que a leitura e a exegese das alíneas, dos números e dos artigos das leis e dos decretos-leis, absorvem e ocupam um espaço desmesurado na minha mente.

Objectivamente, sou um funcionário cansado. E estranho que só agora me ocorra este cansaço, quando passei muitas tardes de domingo a olhar o Tejo e os bandos de aves em viagem e eu fui ficando, sem coragem para mandar às malvas as alíneas, os números e os artigos das leis e dos decretos-leis e de com elas partir à procura de novas paragens.

segunda-feira, outubro 18, 2010

O TEMPO
O tempo - essa coisa misteriosa que se conta em milénios, séculos, anos, meses, dias, horas, minutos e segundos -, alguém saberá ao certo o que é? E no entanto, nada escraviza mais o Homem do que o tempo, que os gramáticos organizam em passado, presente e futuro, mas que, no fundo, é apenas passado e futuro.
O tempo - essa coisa estranha que dá alento aos tiranos e torna precárias as acções dos heróis, que destrói as verdades eternas dos teólogos e os sistemas infalíveis dos filósofos, que tudo e todos condena ao esquecimento -, alguém saberá ao certo o que é?
No seu perpétuo fluir, o tempo é o tempo, como diria o delicioso Caeiro.
Para mim, que não sou poeta nem literato, mas apenas amigo de poetas e literatos, o tempo é o sol a levantar-se preguiçosamente das águas do Tejo - é assim que eu o vejo das janelas da casa onde habito - que depois sobe e roda e desce, devagarinho, para desaparecer por detrás das casas, para de novo se levantar das mansas águas do Tejo e subir e rodar e descer e desaparecer e de novo se levantar das mansas águas do Tejo!
Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lisboa, 2005

sábado, outubro 16, 2010

DO MEU DIÁRIO

O PECADO DA GULA

O pecado da gula anda associado aos excessos de comida e de bebida. E é, indiscutivelmente, um dos pecados mais recorrentes nos países católicos, apostólicos e romanos e protestantes da Europa Ocidental. Poder-se-á dizer, para evitar discriminações obvias, que é o pecado mais recorrente de toda a Civilização Ocidental.

Quando os portugueses reflectem acerca da vida e dos seus valores mais altos, dizem normalmente que não há nada melhor do que comer, beber e... passear. E se atentarmos na prática dos povos da União Europeia, verificamos, com muita facilidade, que todos incorrem no mesmo tipo de delito, à luz da doutrina da Igreja: os protestantes do Norte bebendo álcool em excesso, os católicos do Sul, comendo e bebendo excessivamente.

No caso concreto do português comum, ainda que não conheça casos como os descritos por Rabelais no Pantagruel ou por Garcia Marquez nos Cem Anos de Solidão, poder-se-á dizer que se trata de um bom garfo e de um bom copo e a sua imaginação não tem limites: come bifes de atum, de espadarte, de porco, de peru e até de frango. Mas o verdadeiro português - o mais arreigado às tradições nacionais - adora sopinha de feijão e juliana, favas cozinhadas de todas as formas e feitios, feijoada à transmontana, grão com bacalhau e bacalhau cozinhado de trezentas e sessenta e cinco formas diferentes, nos anos comuns, rancho à transmontana, grão à campaniço, carne de porco à alentejana e... até cabra de chanfana, etc., porque a lista, podia ser mais exaustiva.

No domínio das sobremesas refiro o vulgar arroz-doce, o pudim, a musse de chocolate, o leitinho-creme, o molotove, a tarte de maçã, a tarte de amêndoa, a torta de laranja, a torta de cenoura, as farófias, as tijeladas, a baba de camelo, as barrigas-de-freira e os suspiros.
No domínio das bebidas, é como o Jacinto: ou branco ou tinto. De preferência muito e português. E para rematar um opíparo repasto - nada de uísques ou conhaques- uma bagaceira genuína, produzida por um parente, na província.

Lidos ou ouvidos os últimos parágrafos, qual de vós, caros leitores ou ouvintes, não cometeu já o pecado da gula, pelo menos em pensamento? Qual de vós terá esquecido o resto da sobremesa que o colesterol e a diabetes desaconselha, do bagacinho que o Código da Estrada pune, do pastelinho que a linha reprime?

Não falarei, por uma questão de decoro, das múltiplas acepções do verbo comer. Romanizados muito cedo, permanecemos irredutíveis seguidores desse grande povo que adorava o convívio e a mesa. Peço-vos encarecidamente que transmitais aos vossos filhos o gosto imoderado pela comida, para que jamais sejamos assimilados por hábitos alimentares estranhos à nossa tradição cultural. Confesso que sofreria imenso se visse os portugueses rendidos à cultura do hambúrguere e da Coca-Cola . O exemplo americano é paradigmático: grandes e desconformes físicos, passe a pequena redundância, mas um chocante desconhecimento no tocante ( conheço uma senhora dos impostos, que substitui tocante por tange, na prosa das circulares. Acode-lhe, Orfeu!) aos prazeres da mesa. Preservemos, pois, caríssimos concidadãos, o queijo da serra genuíno, as fêveras e a entremeada dos nossos porcos de montado; os rojões à moda do Minho e a carne de porco à alentejana; o vinho das nossas adegas particulares, porque esta é a forma mais autêntica de afirmarmos a nossa identidade nacional .



sábado, outubro 09, 2010

TRABALHO POÉTICO
Com palavras constroem verdadeiros monumentos: precários, às vezes; às vezes, teimosamente resistentes. Alguns chegam até nós, vindos do fundo do tempo, frescos e incorruptíveis; outros, igualmente frescos, trazem a pequena mossa da corrupção em notas de rodapé.

Todos esses monumentos – de que os poetas são arquitectos e pedreiros, engenheiros, pintores, carpinteiros -, se falar pudessem, dariam conta de inumeráveis batalhas ganhas com galhardia e perseverança, desde o surgir da pura ideia até ao assentamento da última pedra.

Acreditai-me, ó gentes profanas!, que não é fácil recriar permanentemente o mundo com as humílimas palavras, para vo-lo servir pleno de harmonia em esplendorosas bandejas de oiro.

sexta-feira, outubro 08, 2010

QUADRAS

Esta quadra é um primor
- Tem perfeita construção -.
É pra dar ao meu amor,
Que trago no coração.

Há quem dê flores e rosas
E outras coisas de valor.
Eu só dou versos e prosas
E é tão feliz o meu amor.

Meu amor pede-me versos
Para animar o serão.
Já anda farta de terços
Rezados sem devoção.

E assim vamos vivendo,
Em paz e muita harmonia,
O coração entretendo
Com afagos de magia.


(Manuel Barata, NOVAS QUADRAS QUSE POPULARES, inédito


domingo, outubro 03, 2010

SOBRE O TEMPO QUE PASSA
Vão as horas, vão os dias,
No seu constante fluir;
Mesmo as poucas alegrias
Me visitam a fugir.

Sob a ponte passa a água
A caminho do vasto mar.
Só em mim, teimosa, a mágoa
Não tem pressa de passar.

Velozes correm os anos;
Pra onde, não sei ao certo;
Só ficam os desenganos
E as marcas do desconcerto.

Que consertar não consigo
Esta vida sem sentido.
O fado é severo comigo;
Mas, não me dou por vencido!

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 3 de Outubro de 2010 - Os aumentos de impostos e os cortes nos salários da função pública, anunciados na semana passada, deixaram o país em estado de choque. Sim, em estado de choque, porque só assim se justifica o silêncio do povoléu e o coro das cassandras a prever desgraças futuras.

Apesar da brutalidade das medidas anunciadas, parece haver unanimidade por parte dos comentadores habituais quanto à insuficiência das mesmas. Tudo isto quer significar que as discursatas vão continuar, até ao estoiro final das muitas regalias dos funcionários públicos e do povo em geral. Em nome do deus mercado e da deusa competitividade, Portugal corre assim o risco de se tornar numa espécie de Somália.

Sócrates, no momento presente, já não conta muito para uma solução dos problemas do país. Cada solução deste governo já é uma não solução. E as soluções do outro partido do chamado centrão não são aquelas de que o país precisa e merece. Ele diz que garante, garante, garante, mas já não tem ele mesmo prazo de validade para nos desgovernar. A realidade, que é quase virtual, desmente-o na hora seguinte.

Passos Coelho pediu desculpa aos portugueses pela assinatura do PEC dois ou um ou lá o que foi e prometeu que não alinharia em aumentos de impostos futuros. Em nome de uma pretensa estabilidade política, vai deixar passar o OE para 2011. Tornar-se-á assim cúmplice, porque já o era anteriormente, desta desgraçada política que só nos conduzirá ao abismo. Em vez das desculpas, era preciso pedir alto e bom som, porque tem meios para isso, o fim dos organismos que empregam amigalhaços e que consomem fortunas. Que diga também, alto e bom som, que as trapaças do BPN e do BPP foram obra de gente do centrão, onde pontificavam destacados militantes do PSD e ex-governantes.

Portugal está-se a tornar um sítio perigoso. Um lugar de medo!

terça-feira, setembro 28, 2010

SONETO


Continua o mundo desconcertado,
Um mar de mentira e hipocrisia.
Desde Camões, pouco terá mudado,
Continua a mandar a vilania.


Os ricos, ousados e poderosos,
Ditam suas injustas leis ao mundo.
Incapazes de gestos generosos,
Tudo submetem ao dinheiro imundo.


Vivemos um tempo de submissão,
Que ignora princípios e valores.
O estudo, a probidade e a razão,


Deram lugar às cunhas e aos favores.
E assim corre a vida desta nação,
De engenheiros, bacharéis e doutores.


Manuel Barata, Fragmentos com Poesia, Ulmeiro, Lx. 2005

sábado, setembro 25, 2010

SESIMBRA

1
Quando o sol te morder a pele
E sentires o chamamento do mar,
Não hesites. Vai.

2

O meu reino daria
Por uma varanda sobre o mar.

Em Sesimbra,
Pois claro!

3
A proximidade do mar me basta.

Infelizmente,
Falta-me o pulmão
Para o desafiar
Em possantes braçadas.

4

Nunca aprendi a nadar.

Ah, os pequenos nadas
Da já longínqua infância!

5

Talvez um dia,
mãe,
Te traga comigo a ver o mar.

… a Sesimbra.

Só então saberás
Quão bom seria
Saber nadar.

Sim, só então.

quarta-feira, setembro 22, 2010

TRÍPTICO PARA VAN GOGH

I

Subitamente,
No auge da devoção,
Recebeu do céu
Divina inspiração.

Desenfreado,
De paleta na mão,
Desatou a pintar
Ao ritmo do coração:

Sóis,
Ciprestes,
Miosótis
E girassóis.

II

Do fundo da mina
- Qual vagabundo -,
Trouxe as cores
Com que iluminou o mundo.

E no entanto
- Moderno Prometeu -,
O pobre Vincent
Nem uma tela vendeu.

III

E um dia,
Quando o voo rasante dos corvos
Se tornou ameaçador,
Fitou o cocuruto dos ciprestes
E entregou a alma ao Criador.



Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx. 2005

terça-feira, setembro 21, 2010

BORGES
Passou pelo mundo, excêntrico e atrevido, um argentino a quem os deuses, um dia, negaram a luz. Onde quer que ia, diz-se, inundava os sítios com preciosas pedras, que irradiavam mais luz do que muitos sóis.

Modestamente, dessas pedras disse que uma só, se boa fosse, lhe daria todo o contentamento que os humanos podem experimentar. Enganou-se! Feitos os necessários testes, os sábios confirmaram que todas aquelas preciosas pedras eram veras fontes de luz.

Hoje, há uma legião de fiéis que se esforça para ordenar e descrever para todas as línguas do mundo as tais preciosas pedras, que são também sábias e raras.

Normal não é; porém, às vezes, os humanos vingam-se dos deuses.
Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005


domingo, setembro 19, 2010

DO MEU DIÁRIO

CASTELO BRANCO (CENTRO DA CIDADE)
Santa Iria de Azóia, 18 de Setembro de 2010 – Desde a infância que oiço falar da alma; no entanto, confesso com a minha habitual humildade, que ainda hoje não sei o que é a alma. E duvido que alguém me possa dar uma explicação capaz.


O facto de não saber concretamente o que é a alma não faz de mim um incréu qualquer. Acredito que os indivíduos tenham alma, do mesmo modo que acredito na alma das cidades. E neste momento, se fosse possível, alguém me poderia perguntar o porquê deste aranzel. Embora não sendo obrigado a dar explicações, digo já ao que venho e prometo ser rápido.


Castelo Branco, a minha cidade natal, cresceu muito nos últimos cinquenta anos. O perímetro urbano que eu conheci enquanto criança e adolescente terá, seguramente, triplicado em cinquenta anos; porém, o coração da grande urbe continua a pulsar na Praça do Município, na Alameda da Liberdade, Avenida da Liberdade, o cimo da General Humberto Delgado e da 1º de Maio, e, claro está, o Largo da Sé. Ou pelo menos é assim que sinto a cidade, quando nela permaneço algum tempo.


Castelo Branco continua a ter bons cafés, onde ainda é possível encontrar velhos amigos, ler o jornal ou outra coisa qualquer, olhar os abrunheiros. O emblemático Arcádia desapareceu; o Aviz já não é o café de Rolão Preto e dos próceres do regime anterior; a Assembleia fechou as portas e o edifício degradar-se-á para lá se construir outro; outros prédios, que são edifícios da cidade, ali no moderno centro histórico, pedem obras de conservação. Mas é neste espaço, onde o velho e o novo coabitam pacificamente, que se encontra o verdadeiro carácter da cidade, a sua alma.


Numa última palavra, quero realçar a reanimação do Cine Teatro Avenida, que fez parte da minha vida durante vários anos: quatro filmes por semana, bailes de finalistas, teatro, récitas e muitos outros eventos. Até comícios, em 69, com Alçada Batista e demais candidatos da CDE. O Cine Teatro Avenida, que também é uma parte importantíssima da alma da cidade que amo e à qual regresso sempre com muitas saudades.

sábado, setembro 18, 2010

PROMETEU


I

Onde estão os meus corcéis?
Tragam-me os meus corcéis,
Que quero rápido cruzar os céus
À procura de um novo sol.


II


Vinde cá,
Meus cavalinhos de oiro,
Vinde cá!
E levai-me a todas as galáxias,
Que quero encontrar
Uma nova luz.


III


Meus cavalinhos de oiro,
Meus fogosos corcéis!
Levai-me,
Levai-me a todos os pontos do universo,
Que quero encontrar
Uma nova fonte de fogo.


Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, LX. 2005.

sexta-feira, setembro 17, 2010

ANTÓNIO NOBRE
Às vezes, dou por mim agarrado ao Só de António Nobre e sinto uma imensa tristeza. Eu sei que parte daquele sofrimento é fingido, porque todos os poetas são fingidores. Mas usa uma máscara tão autêntica, tão dramaticamente convincente, que a tristeza de Anto me esfarrapa todo por dentro.

Às vezes, ponho-me a imaginar António Nobre, sozinho, nas ruas de Paris, rememorando a igreja de Leça, o mártir S. Sebastião, o Senhor de Matosinhos... Eu imagino Anto, naquele ambiente moderno e cosmopolita, corroído de saudades dos manéis, do mar, de barcos, de fanfarras, eiras, pescadores, camponeses, arraiais.

Às vezes, agarrado àqueles versos que até parecem conversa fiada, pelos meus olhos perpassa um Portugal beato, atrasado e rural. Que permanece, cem anos depois de Nobre, apesar de tudo, tremendamente real.
Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, 2005

quarta-feira, setembro 15, 2010

A "DIVINA" LIVRARIA LELLO

2ª feira passada

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 29 de Agosto de 1994 - Rabiscar notas, mesmo sob a forma de diário, não é tarefa fácil. Ainda que a escrita me esteja na massa do sangue; alinhar notas que suscitem interesse, numa prosa minimamente escorreita e ágil, repito, não é tarefa fácil. E há dias em que o vazio é total e o branco assusta. E no entanto, escrevo pelo prazer que a escrita me proporciona e não com a intenção de ganhar a vidinha. De resto, apenas um escrito me rendeu meia dúzia de patacos.
Concordo que um diário seja um espelho - um espelho muito peculiar - que há-de reflectir do autor a imagem desejada. Torga faz passar meia dúzia de ideias fortes: um homem na cidade, desenraizado, que procura no espaço primordial de S. Martinho de Anta a força para perseverar nos muitos desafios da vida; um homem dotado de uma grande firmeza de ânimo, à boa maneira dos estóicos, visível já nos textos escritos na prisão do Aljube, nos anos trinta; um homem solidário com os seus semelhantes e preocupado com a condição humana; um homem ousado, quando critica o Quixote de Cervantes; etc. Mas há outro Torga que se vai insinuando e que nada tem a ver com o caçador de S. Martinho de Anta: o artista que viaja e lê os autores mais significativos da literatura europeia (Ibérico por convicção, a sua Europa estende-se até aos Urais); homem culto que é capaz de se pronunciar acerca de Rembrant e Beethoven. Ao fim e ao cabo, apesar de reivindicar persistentemente as suas raízes camponesas, lá bem no fundo, Torga não despreza um certo cosmopolitismo. E aqui encontramos, seguramente, uma das razões da sua candidatura ao Nobel.
Seja como for, não há que levar a mal que o autor de Os Bichos tenha as suas estratégias. É um direito que lhe assiste. Há que respeitá-lo enquanto homem e criador.
Retomando o fio à meada e para concluir, compartilho da ideia de que um diário, construído texto a texto, como quem constrói uma casa, é um acto criador como outro qualquer. Com a vantagem de o seu autor se despir perante os leitores, enquanto pessoa empírica, e não poder gozar de um estatuto idêntico ao do narrador que, no entender de Roland Barthes, “é um ser de papel”.

DO MEU DIÁRIO

Praça de Santiago

Guimarães, 12 de Setembro de 2010 – Há, na minha humílima opinião, um paradoxo insanável na bonita cidade de Guimarães. Tendo sido o berço de Portugal e reivindicando o facto desde sempre e de forma patriótica; curiosamente, pelo que conheço de Portugal e do Norte, a cidade de Guimarães é a mais espanhola das cidades portuguesas.

Eu explico depressa, antes que algum vimaranense mais exaltado me dê com a espada de Afonso Henriques, na ignorância das minhas rectas e nobres intenções. Guimarães é uma cidade muito bonita – passe a reiteração desnecessária – e com um centro histórico bem cuidado, onde há esplanadas e mais esplanadas e se cultiva uma cativante vida de relação.

Ontem à noite, por exemplo, a praça da Igreja da Senhora da Oliveira e a praça de Santiago tinham por ali umas centenas de pessoas, que davam vida a um espaço fabuloso, à semelhança do que acontece nas praças da nossa irmã Espanha. Come-se, bebe-se, vêem-se dois desafios de futebol simultaneamente, Real-Osasuna e Sporting-Olhanense, convive-se.

E quem achar que é coisa pouca, que me dê exemplos melhores. Como se faz no “facebook”, eu digo alto e bom som e para que conste: “gosto disto”!

TERRAS DE BOURO 2

RIO CALDO

quarta-feira, setembro 08, 2010

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 25 de Maio de l994 - Não tenho da amizade uma visão utilitária, nem espero dos meus amigos sins incondicionais. Aos amigos, a todos sem excepção, quero apenas lealdade e solidariedade nas horas difíceis.

Os amigos, os verdadeiros amigos, são aqueles que, nas curvas apertadas da vida, se recusam a integrar o pelotão de fuzilamento; são aqueles que, nas situações de doença, nos visitam na cama do hospital e nos trazem uma palavra de esperança; são aqueles que, sendo amigos do coração, nunca nos pedem o impossível; são aqueles, em suma, que participam das nossas alegrias e tristezas. Sendo este o meu conceito de amizade, resta-me a consolação de conhecer muita gente, que me cumprimenta e cumprimento cordialmente.

A família é um mundo à parte.

sexta-feira, setembro 03, 2010

DO MEU DIÁRIO

Sacavém, 30 de Abril de 1994 - Se perguntarem a um avarento, por que nutre tanta apetência pela posse de bens materiais, antes de mais, negará a sua qualidade de avarento. Dirá que, ao contrário do que os outros pensam, é apenas uma pessoa previdente e contará ao seu interlocutor a conhecida fábula da cigarra e da formiga. E dirá que se sente bem na pele desses minúsculos e negros bichinhos que, de uma forma autómata, executam metodicamente o vaivém entre o local onde se encontra a semente - ou seja lá o que for - e o buraco-armazém.
Como é bom de ver, o avarento não é um contemplativo. Será mesmo incapaz de retirar prazer, de ordem estética ou outra, dos seus bens materiais. Não viu, decerto, “Casimiro e Carolina” no teatro do Bairro Alto ou o “Círculo de Giz Caucasiano” no Teatro Aberto. Não frequenta salas de cinema, não aprecia pintura e escultura, não viaja. Em relação às coisas que enriquecem verdadeiramente um ser humano, o avarento é um homem não. E poderíamos ficar por aqui no que à avareza concerne, mas o retrato ficaria incompleto.
O avarento não cultiva a vida de relação. Vive ensimesmado. Prefere a conversa com os seus botões. Inventaria e actualiza permanentemente o valor dos seus bens. Tudo o que esteja para além do estritamente necessário é supérfluo. Quando compra botas novas aos filhos, recomenda-lhes que dêem passos largos. Gosta de ser convidado, mas quando toca a sua vez de pagar a conta, desafia os parceiros para jogar à moedinha. Vai aos arames quando lhe falam em férias. Cria galinhas na varanda de sua casa para poder vender ovos. É o único que não ri, quando lhe contam a nova versão da fábula da cigarra e da formiga, que aqui deixo reproduzida:
No pico do inverno, a cigarra bate à porta da formiga e esta pergunta:
- Quem é?
- Sou eu, a cigarra.
- Que queres?
Quero apenas falar contigo, formiga.
- Já conheço os teus truques desde que o mundo é mundo. Estou farta da tua música.
- Não sejas parva , formiga. Abre lá a porta!...
A formiga abriu o postigo e deparou com a cigarra toda anafada e de casaco de peles. È então que a cigarra diz:
- Vou para Paris. Vim despedir-me de ti.
- Estupefacta, a formiga replicou:
- Olha, cigarra, já que vais para Paris, se vires o La Fontaine, manda-o foder com a história da fábula.
Terão notado, com certeza, que me centrei apenas num tipo de avarento, ou seja, naquele que vive obcecado pelo dinheiro e pelos bens materiais. O discurso poderia, no entanto, ser dirigido noutras direcções. Poupemos, por hoje, os ambiciosos de todos os matizes e os mesquinhos.
A avareza, caríssimos alunos e colegas, é um pecado capital. Pratiquemos todos, todos sem excepção, a prodigalidade, tornando-nos dignos do senhor D. João V, o tal que, com o oiro do Brasil, mandou construir o convento de Mafra e passou à História com o cognome de “o Magnânimo”.

quarta-feira, setembro 01, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 01 de Setembro de 2010 – Sempre me doeu muito que houvesse modas e escritores na moda na literatura portuguesa e nas outras. E dói-me, fundamentalmente, porque alguns dos autores que amo verdadeiramente caem assim numa espécie de limbo, merecendo apenas a visita de alguns curiosos ou de estudiosos que lhes vão dar a mão e os recuperam para a actualidade.

Este apontamento começa de forma muito arredondada e não sei se conseguirei dizer ao que venho hoje. Sempre gostei muito de Miguel Torga e dos modos literários em que achou por bem exprimir-se. Nomeadamente o diário, que também cultivo de forma mais ou menos sistemática. E dói-me, de facto, que D. Miguel de S. Martinho de Anta, já não seja lido e devidamente apreciado como merece. Bem sei que é preciso dar o lugar aos mais novos e ao novo, mas tenho para comigo que há autores e obras que não envelhecem ou não deveriam envelhecer.

Num tempo em que certos valores como o trabalho, a coragem, a luta por um mundo melhor e a ética parecem ter caído em desuso, parece-me que Miguel Torga continua a ser um autor pertinente e que deveremos indicar aos nossos filhos e netos como um bom luso exemplo a seguir.

Escrevi luso exemplo. E exactamente em relação a um autor que afirmava que a sua pátria telúrica se estendia desta ponta ocidental do Atlântico até aos Pirinéus. Em Torga, e a escolha do pseudónimo não foi inocente, porque quis o poeta ficar conhecido pelo nome da raiz da urze, ou seja, aquela parte do arbusto que fica intimamente ligada à terra.

Este otorrinolaringologista que em criança trabalhou no Brasil e se fixou mais tarde na cidade onde o Mondego preguiçoso se espraia, verdadeiramente, saiu, e não saiu, de S. Martinho de Anta. É ali onde tem os seus penates que pega na enxada, calcorreia os campos e a raiz volta a ganhar força telúrica para trabalhar em Coimbra e percorrer Portugal e o mundo.

Neste autor, só nunca percebi, ou se calhar até percebi, a sua animosidade em relação a Cervantes e ao Quixote, mas estas já são contas de outro rosário.

domingo, agosto 29, 2010

Santa Iria de Azóia, 26 de Agosto de 2010 – Bem sei que Vila Franca de Xira, aquela que mudaria conforme os ventos no dizer sempre pitoresco de Almeida Garrett, foi durante muitos anos um município governado por eleitos CDU; no entanto, e atendendo apenas àquilo que é visível a olho nu, penso que se pode dizer que a actual gestão tem respeitado os valores locais, em particular, e os de Abril, em geral.

Quando se entra em Vila Franca, no sentido N-S, ali encontramos a Rua Alves Redol, que agora até tem estátua num espaço moderno e convive com os clientes da esplanada de um agradável café. Um pouco à semelhança do que se passa com Pessoa no Chiado. Penso que é uma homenagem ao autor de Gaibéus e de Barranco de Cegos, que são duas obras emblemáticas da produção de Redol.

Gaibéus é considerado o romance fundador do neo-realismo e Barranco de Cegos o que rompe, por parte de Redol, com aquele movimento estético-literário, que teve cultores como Soeiro Pereira Gomes, Mário Dionísio, Sidónio Muralha, Manuel da Fonseca e outros. E também Carlos de Oliveira.

Pois bem, apesar de Garrett achar que Vila Franca era terra dada a reviralhos, registe-se o facto desta simpática cidade ter um museu destinado a perpetuar o neo-realismo, cujos autores deram um contributo notável na luta contra o ideário do Estado Novo. O que se calhar explica, num tempo em que dia-sim-dia-não surge uma biografia do ditador de Santa Comba, o esquecimento a que são devotados os autores antes.

Ainda bem que há terras com Vila Franca de Xira.

quinta-feira, agosto 26, 2010

PALAVRAS PERDIDAS

Há quanto tempo, mãe,não te falo de amor
Com aquelas palavras de encantar
Com que as crianças falam do amor?

Há dias corei de vergonha,
Corei de vergonha quando li,
Num livro de cartas de Saint-Exupéry,
As palavras mágicas que ele escreveu a sua mãe
E que eu nunca te disse a ti.

Deixei que entre nós se interpusesse
Um pudico silêncio ancestral
E disse-te apenas coisas imediatas e triviais.

Eu esqueci, mãe, aquelas palavras claras e pueris
Que tanto alegravam o teu coração.

Eu coro de vergonha, mãe!

Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx. 2005
O TEMPO
O tempo – essa coisa misteriosa que se conta em milénios, séculos, anos, meses, dias, horas e segundos – alguém saberá ao certo o que é? E no entanto, nada escraviza mais o Homem do que o tempo, que as gramáticas organizam em passado, presente e futuro, mas que, no fundo, é apenas passado e futuro.
O tempo – essa coisa estranha que dá alento aos tiranos e torna precárias as acções dos heróis, que destrói as verdades eternas dos teólogos e os sistemas infalíveis dos filósofos, que tudo e todos condena ao esquecimento – alguém saberá ao certo o que é?
No seu perpétuo fluir, o tempo é o tempo, como diria o delicioso Caeiro.
Para mim, que não sou poeta nem literato, mas simplesmente um amigo de poetas e literatos, o tempo é o sol a levantar-se preguiçosamente do Tejo - é assim que eu o vejo das janelas da casa onde habito- que depois sobe e roda e desce, devagarinho, para desaparecer por detrás das casas, para de novo se levantar das mansas águas do Tejo e subir e rodar e descer e desaparecer e de novo se levantar das mansas águas do Tejo.
Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005

quarta-feira, agosto 25, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 25 de Agosto de 2010 – Nos últimos dias, António Lobo Antunes (ALA), escritor, tem sido notícia nos jornais e nas televisões por razões extra literárias. E o teor dos comentários na NET, indicia quão vivas ainda estão as questões relativas à guerra colonial.

ALA, do qual fui leitor atento durante mais de vinte anos, não precisa da minha defesa. De resto, ainda que tenha produzido alguns textos acerca da sua obra e/ou de alguns dos seus livros, nunca apertamos as mãos, nunca nos dirigimos uma palavra. No entanto, penso que os exaltados do costume têm ameaçado, soezmente, um dos grandes criadores actuais da língua portuguesa, um ex-combatente, um dos autores a quem devemos das melhores páginas sobre a Guerra Colonial.

Não direi que ALA não tenha, aqui ou ali, carregado nas tintas com que pintou o seu quadro. Creio, todavia, que durante os catorze anos de guerra em Angola, foram cometidos inenarráveis actos a que hoje poderíamos chamar crimes contra a humanidade. Cometidos pelas nossas tropas e pelos combatentes inimigos.

A guerra deixou traumas em milhares de portugueses, que, por incúria do regime anterior e do instituído em 25 de Abril, não tiveram o acompanhamento e o tratamento adequados. Por isso mesmo, ainda há por aí muitos tresloucados capazes de cometimentos idênticos aos de trinta e tal, quarenta, cinquenta anos.

O autor de Os Cus de Judas e de Cartas de Guerra não merece este ódio, que, bem vistas as coisas, já deveria estar enterrado; mas neste pobre país, que nunca foi capaz de cotejar Os Lusíadas e A Peregrinação, tudo é possível.

Os factos narrados pelos media são eloquentes.

segunda-feira, agosto 23, 2010

SONETO DO CANTO E DO AMOR



Cantar!...


A beleza dos nossos corpos
E este desejo nunca extinto
De animais insatisfeitos.


Cantar!...

O instinto bravio
O sentir dos dedos
E o coração dentro do peito.


Cantar!...



Com alegria,
na serena madrugada,
o teu corpo, amor,
que amar não cansa.

Cantar!...


Mata/79


domingo, agosto 22, 2010

EM TEMPO DE FÉRIAS

LOUSAL (GRÂNDOLA
LOUSAL (GRÂNDOLA)

LOUSAL (GRÂNDOLA)


SESIMBRA




JUNHO

Nas manhãs de Junho,
Quando o sol tudo doirava,
A nossa casa era também
A sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Guardo memória, mãe!,
Da nossa rua térrea
E vejo-te jovem
Algodão dobando
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Nas manhãs de Junho,
Quando o trigo amadurecia
E eu brincava, brincava
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Fazia-te mil perguntas
- Mil ou muitas mais – ,
E tu respondias sem enfado
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

E eu era feliz
E tu eras feliz, mãe!
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Do outro lado da rua
À sombra da oliveira.


Barata, Manuel, "FRAGMENTÁRIA MENTE", ed. Alecrim, 2009




sábado, agosto 21, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 21 de Agosto de 2010 – Num texto surgido no último “RECONQUISTA”, Elsa ligeiro, com quem falei apenas uma vez, em Castelo Branco, trata da problemática das amizades nas chamadas redes sociais.

Por sinal eu adicionei Elsa, que, para além de ligada ao mundo da edição e comercialização de livros, também é amiga de um dos meus melhores amigos, o poeta e editor José Antunes Ribeiro. É óbvio que as amizades por aqui são assim como que um faz de conta, ainda que entre as pessoas que adicionei e me adicionaram se encontrem familiares, amigos do coração, amigos de amigos do coração, muitas instituições e pessoas que, observando o movimento da “minha” rede, me merecem consideração.

É evidente que os meus amigos, amigos, são aqueles com quem me sento à mesa (frei Amador Arrais tinha razão), com quem discuto de viva voz, com quem vou ao futebol ou falo de livros, filmes, música, etc. Mas é justo dizer que tenho entre os meus amigos do “facebook” pessoas indiscutivelmente estimáveis e com um grande sentido de partilha. Sei mais sobre Portalegre, cidade tão próxima e tão distante de Castelo Branco, do que sabia antes de adicionar Manuela Mendes, O Clube Robinson, José Serrano e Hernâni Matos.
Começam a manifestar-se alguns receios em relação às redes sociais. Ainda há dias, um conhecido psicólogo falava da “magna questão” das pessoas escarrapacharem as suas vidas nas redes sociais. Eu não tenho dúvidas que há quem o faça; porém, na minha rede de amigos, a coisa não é alarmante e ninguém desvenda segredos. Se publicar uma quadra popular e disser que se trata de uma composicãozinha de um livro ainda inédito, que mal poderá vir daí ao mundo? E que gosto de Brel e Chico Buarque e Tordo e Amália e Shubert e Bach e Van Gogh e Picasso e …?

Republicano inveterado, adicionei ou fui adicionado por Duarte Pio de Bragança e não vejo onde esteja o mal. De resto, ainda não terei ultrapassado os cento e cinquenta amigos, entre os quais se encontram os meus filhos, primos, filhos de primos, amigos, filhos de amigos, pais de amigos, bibliotecas e instituições. Tenho sido selectivo? Tenho, indiscutivelmente, mas não por receios sem quaisquer fundamentos.

Há quem veja moinhos de vento em tudo quanto é sítio.

terça-feira, agosto 17, 2010

VIAGEM DE ESTUDO

Bom almoço no Lousal,
Perto da Vila Morena;
No velho armazém da mina,
Com temperatura amena.

Comi miolos fingidos
Com carne do alguidar.
Ó cozinha alentejana
Nunca te irei olvidar!

Estes miolos fingidos,
De carne frita e assada,
São apenas um pitéu
Duma ementa variada.

No Lousal, é tudo bom:
A linguiça, o queijo e o pão;
A excelente sericaia
E a sopinha de cação.

sexta-feira, agosto 13, 2010

MOMENTOS

Do cimo desta torre,
Que ajudei a construir,
Vejo, para além do casario,
Uma magnífica ponte
Sobre um majestoso rio.

Subitamente,
Ocorre-me Cesário Verde
E também velhas crónicas navais.
Gama,
Nas horas de borrasca,
À divina providência implorando
E Albuquerque,
Pequeno,
Mas firme no seu posto,
Praças e mais praças conquistando.


Do cimo desta torre,
Que ajudei a construir,
Observo agora o risco de fumo
Do último avião
E esqueço-me das velhas crónicas
E dos heróis das batalhas navais.


Para além do casario,
Vejo apenas
Uma magnífica ponte
Sobre um rio.

Uma ponte magnífica
E um rio...


DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 12 de Agosto de 2010 – Regressei esta tarde ao meu castelo, após uma curta ausência de dez dias. E dir-se-ia que dez dias é o tempo certo para me ausentar. Mais de dez dias, afastado do meu ambiente quotidiano, e começo a ficar ansioso.


Eu gosto de sair e de dar as minhas voltinhas e sei que para ir à Patagónia necessito de me ausentar por mais tempo. Se calhar é por isso que ainda não fui à Patagónia. Ir a Paris, a Bruxelas, Madrid, Roma, etc., vou sem quaisquer constrangimentos. Agora partir para estar um mês longe das minhas coisas, nem pensar.


Nos últimos anos tenho passado as férias quase sempre na minha “datcha” da Cotovia, a dois passos de Sesimbra e com a Arrábida à vista. Num sítio de noites fresquinhas, mas onde o calor também é inclemente durante o dia. Gosto daquele espaço verde, onde irrequietos rouxinóis e mansas rolas dão concertos nocturnos; onde, quotidianamente acendo o lume, grelho o peixe e a carne, bebo alguns tintos de eleição e desço à praia da Califórnia, na bela Sesimbra, para molhar os pés e acompanhar a(s) minha(s) mulher(es). E no entanto, nem aquele paraíso me segura lá mais tempo.


E cá estou para o que der e vier, que o futuro, dizem, só a Deus pertence.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Jardim do Paço
Charneca da Caparica, 10 de Agosto de 2010 – Agora me lembro que Castelo Branco tinha uma avenida Marechal Carmona e uma avenida 28 de Maio, ou seja, o nome de um presidente da república eleito por Oliveira Salazar e o nome do golpe que permitiu a ambos amordaçarem Portugal.


A seguir ao 25 de Abril, ambas mudaram de nome, porque não era mais possível, numa cidade capital de distrito, manter o nome do títere das bigodaças e daquela coisa que começada em Braga havia de ter as funestas consequências que todos sabemos. Andou bem, pois, o poder instituído logo a seguir ao 25 de Abril, nomeadamente ao nível autárquico.

Infelizmente, não aconteceu o mesmo em todas as localidades do país. Nos Escalos de Baixo (Castelo Branco) e também na Venda do Valador, na freguesia da Malveira (Mafra), continuam a existir, sem quaisquer interrupções, as Avenidas Professor Doutor António de Oliveira Salazar. E se calhar está certo, porque cada terra tem a toponímia que merece.


Na minha Mata natal, nunca houve ruas com nomes de tiranos ou de golpes de Estado. Só uma data, e patriótica, gozou do privilégio de dar o nome a uma rua: 1º de Dezembro. É certo que a toponímia matense não revelou grande criatividade, mas está à prova de todos os reviralhos.

segunda-feira, agosto 09, 2010

DO MEU DIÁRIO

Charneca da Cotovia (23H00), 9 de Agosto de 2010 – De vez em quando, surpreendo-me a ler um dos volumes do Diário de Miguel Torga. Hoje foi o volume II do dito, que começa com uma estada em Monfortinho e também Monsanto, que lhe permitem uma incursão pela Geografia europeia e pelas questões ibéricas. Monsanto – aquele excepcional afloramento de granito… -, é comparado a Trás-os-Montes. Provavelmente a Panoias, ali a dois passos de S. Martinho de Anta, no distrito de Vila real.

Eu estarei para Torga como o meu remoto amigo Tó Pina estava para o Goethe. Entrava no albicastrense Arcádia, café-restaurante com sala de bilhares contígua, com uma edição popular do Fausto, que estaria, permanentemente, a traduzir. Eu, de Torga, sou apenas um leitor assíduo, embora conheça alguém que o queira para tese de doutoramento. A ver vamos como diz o cego.

Do António Pina, que não sei sequer se ainda é vivo, tenho boas recordações. Numa manhã primaveril, há cerca de quarenta anos, encontrámo-nos em Penamacor e fez questão de me levar ao solar de família, onde me mandou preparar um inolvidável sumo de laranja. Mais tarde, na casa dos pais, na actual Avenida General Humberto Delgado, havia de pegar no violino e no arco para tocar para ambos. Ainda hoje lhe reconheceria a voz, se, porventura, me pedisse um cigarro naquele seu jeito muito peculiar.”Manuel, tem um cigarro que me dê?”

Charneca da Cotovia (23H25), 9 de Agosto de 2010 – Hoje parece aquele dia em que Alberto Caeiro ( olá Manuela Mendes!) escreveu aquela caterva de poemas. Apetece-me escrever e escrevo. E pronto, como se diz agora por aí acerca de tudo e de coisa nenhuma.

Em Sesimbra, a água tem estado excepcionalmente limpa, ou seja, a condizer com o esforço que a autarquia faz para manter o areal asseado. Na verdade, todas as noites o areal é limpo, desde o molhe ( a O) até à praia da Califórnia (a E). É claro que molhei os pés, mas só os pés, que a minha relação com a praia não é de amor. Gosto do mar, nomeadamente do mar de Sesimbra, que é como que a pedra do lar, como escreveu Miguel Torga.

Este Torga persegue-me. Estou cansado. Vou entregar o corpo a Morfeu.

DO MEU DIÁRIO

Charneca da Cotovia, 8 de Agosto de 2010 – Acordei com o ribombar de trovões. Há muito tempo que não me acontecia acordar com música assim e confesso que não é agradável.
Outrora estas situações eram-me mais ou menos familiares e até lhes descobria alguma graça. Agora, que Santa Bárbara me perdoe, confesso que prefiro acordar com outros sons. Depois foi a forte chuvada, que havia de deixar tudo da cor do barro.
Apesar deste agitado despertar, o meu Agosto decorre placidamente.
Charneca da Cotovia, 8 de Agosto de 2010 – Realizou-se hoje o funeral de António Dias Lourenço, antigo operário fabril, ex-director do jornal “Avante”, ex-dirigente do PCP. Morreu aos 95 anos de idade.

Da sua longa vida outros saberão falar melhor do que eu. No entanto, será bom lembrar que 17 foram vividos nas prisões de Oliveira Salazar. Nunca vacilou. Nunca traiu. Nunca voltou a cara à luta pela democracia.

Foi amigo de romancistas e poetas. Até por isso, Dias Lourenço terá sido lembrado por trabalhadores da palavra. Este homem merece um poema.

Charneca da Cotovia (9H00), 9 de Agosto de 2010 – Levantei-me cedo e não foi para ir a casa do meu médico "Hermogène", ainda que bem precisasse. Mas adiante que se faz tarde.

O dia está risonho e aproveitei para dar um passeio a pé, que as férias estão a ser muito sedentárias e com alguns abusos alimentares. Gosto de respirar no pinhal, dentro deste condomínio fechado que é o parque de campismo Valbom, onde posso ainda, com toda a tranquilidade, ver como os campistas são criativos.

Este campismo de casinha, com águas quentes e frias e cozinha, já pouco terá a ver com o campismo tradicional. É mesmo condomínio fechado de classe média, onde às vezes se intrometem alguns estranhos com hábitos menos ortodoxos. Barulhentos, às vezes. Dados a algazarras. Com língua muito livre.

O pior, no entanto, é mesmo o medo que sinto perante a queda iminente de uma pinha que me possa dar cabo da cabeça.

domingo, agosto 08, 2010

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 13 de Abril de 1994 - Lobo Antunes acaba de nos anunciar, em entrevista ao JL, que resolveu radicar-se definitivamente em Portugal. Assim sendo, viveremos todos com mais paz interior, ou seja, sem a ameaça do autor de Cus de Judas exilado em Berlim ou Nova York. Continuaremos a ser o país pequenino que sempre fomos, mas todos juntinhos nesta terra de clima doce, onde medram, espontaneamente, a urze, a esteva, o alecrim e o rosmaninho, como notou Garrett.

E (o) António é, indubitavelmente, um dos nossos.

sábado, agosto 07, 2010

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 20 de Abril de 1994 - Não sei onde pára a História da Cultura Clássica do Pe. Manuel Antunes. No entanto, chegou-me às mãos um livrinho de sua autoria, Repensar Portugal, que estou a ler com a lentidão devida aos grandes textos. Nunca me cruzei com o Prof. Manuel Antunes, nem tinha necessariamente que me cruzar, mas creio que era um homem excepcional, isto é, um daqueles seres raros que as sociedades só produzem de tempos a tempos. Datado de 1977, Repensar Portugal revela-nos um pensador atento à realidade circundante, que nos incita a tentar a mudança e a experimentar a utopia.

segunda-feira, agosto 02, 2010

DO MEU DIÁRIO

ANTÓNIO GEDEÃO
Torres Vedras, 19 de Fevereiro de 1997 - António Gedeão, poeta de mensagem facilmente apreensível, pereceu ontem no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
Nos próximos dias, os jornais, a rádio e a televisão, falarão com grande cópia do autor da “Pedra Filosofal”, que um “baladeiro” dos anos sessenta – e que ainda vai aaparecendo -, popularizou e trouxe ao convívio do grande público.

Passado o luto, abater-se-á sobre este autor de mensagem fácil, um silêncio de chumbo. É que poetas como Gedeão, que o povo ouve e estima, são muito perigosos. E depois, poesia que não for essencialmente forma não merece o interesse dos nossos iluminados críticos e dos nossos inefáveis professores universitários.

Que a ninguém pareça mal, mas não resisto a transcrever três versos de António Gedeão, que são a medida de uma incomensurável tolerância:

Ajuda-me a esquecer as tuas faltas
e a ignorar os teus crimes
para melhor te amar.
( do poema “espelho de duas faces”)

DO MEU DIÁRIO

ÓSCAR LOPES
Lisboa, 20 de Outubro de 1997 - Oscar Lopes, Homem de cerviz direita, que, por mais voltas que se dêem, terá de ser encontrado entre os portugueses mais generosos deste nosso tão peculiar séc. XX, não foi convidado para integrar a representação portuguesa à feira do livro de Frankfurt.

Se Portugal fosse um país decente - e tudo indica que o não é -, o co-autor da História da Literatura Portuguesa e um dos ensaístas mais fecundos de toda a nossa História Literária, não teria sido esquecido pelos senhores do mando. À generosidade de Òscar Lopes, que deu a ler aos portugueses dezenas e dezenas de autores, respondem as autoridades com o olvido.

Sei que Òscar Lopes paira mais alto. Sei que este é apenas mais um acidente com que a Pátria o quis brindar. Não porque a Pátria seja madrasta ou velhaca. A Pátria, entidade abstracta e mais ou menos mítica, nunca poderia ser apodada com tais epítetos. Estas coisas acontecem, porque aos destinos da Pátria presidem criaturas menores e intolerantes, capazes de glorificar todos os champalimauds e de crucificar todos os Camões.

DO MEU DIÁRIO

ERRATA

No texto anterior, com fotografia e tudo, na legenda há uma gralha grave: onde se lê Quinta da Bicuda, deve ler-se QUINTA DA BIGORNA. O erro foi notado, e muito justamente, por Cristina Carvalho

DO MEU DIÁRIO

ENTRADA DO RESTAURANTE
QUINTA DA BICUDA
Santa Iria de Azóia, 2 de Agosto de 2010 – Uma ida à Mata, que eu considero a minha São Martinho de Anta, é sempre um acontecimento íntimo. É a minha mãe, a minha modesta casinha, as laranjeiras do quintal, a tapada da Bemposta, as figueiras e restantes árvores plantadas pelo meu pai, a memória também de meus avós paternos e até do meu bisavô Francisco Lucas.



Ontem fui mostrar à minha companheira – vá-se lá saber porque não digo mulher -, a estrada que há-de ligar a Mata a Idanha-a-Nova dentro de pouco tempo. E revi uma paisagem já esquecida, de azinheiras, que me fora também familiar na infância, quando atravessava, com o meu pai, a ribeira de Alpreade. Esta ligação é um sonho antigo das gentes da Mata e está prestes a concretizar-se.



Na noite de sábado, no largo de S. Pedro, ao som de música pimba, ainda deu para rever antigos companheiros e também familiares, bebericar umas imperiais e visitar a Quinta da Bigorna, paredes meias com a Mata e os Escalos de Baixo. Um empreendimento turístico interessante, com várias valências e que também vai ter um hotel. Ali comi ontem, com familiares, um leitão divinal.



E depois…Depois, foi o regresso a casa, pela A-23, que ainda continua SCUT.

O TEMPO

I
É o tempo
- o inexorável tempo -,
Que atenua a mágoa
E mostra
Quão profundas
Eram as raízes.

II
Um Verão vai
E outro vem.
E neste vaivém,
Decorre
A minha vida.

Esta vida que vai,
Vai e não vem.

III
Lentas,
As nuvens vêm
E vão.

Umas deixam (m)água
E outras não.

Ah, só o Verão,
Esplendoroso,
Alegra
O meu coração.

IV
O Outono,
Decididamente,
Não!


sábado, julho 31, 2010

terça-feira, julho 27, 2010

AS PALAVRAS
Com palavras constroem verdadeiros monumentos: precários, às vezes; às vezes, teimosamente resistentes. Alguns chegam até nós, vindos do fundo do tempo, frescos e incorruptíveis; outros, igualmente frescos, trazem a pequena mossa da corrupção em notas de rodapé.

Todos esses monumentos – de que os poetas são arquitectos e pedreiros, engenheiros, pintores, carpinteiros -, se falar pudessem, dariam conta de inumeráveis batalhas ganhas com galhardia e perseverança, desde o surgir da pura ideia até ao assentamento da última pedra.

Acreditai-me, ó gentes profanas!, que não é fácil recriar permanentemente o mundo com as humílimas palavras, para vo-lo servir pleno de harmonia em esplendorosas bandejas de oiro.
in FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx, 2005

DO MEU DIÁRIO



Santa Iria de Azóia, 27 de Julho de 2010 – Às vezes, quando penso na minha condição de leitor de poetas, sinto que há na minha vida um paradoxo insanável. Citadino inveterado, quando chegam estes dias quentes de fim de Julho, dentro de mim fala mais alto o filho e neto de camponeses.


Vêm-me há memória as horas de calor passadas sob a figueira branca, o meu avô paterno sempre de chapéu na cabeça, as refeições frugais, a voz de minha avó, a figura franzina e jovem de minha mãe, o canto das cigarras e dos melros, o zumbir dos moscardos.


A água, fresquíssima, era tirada do poço novo com a picota e nela refrescávamos os pêssegos, os figos, as framboesas e as ameixas. E até os figos das piteiras, que o meu avô descascava para eu comer.


Daquela paisagem íntima só existe o poço, cuja água é imprópria para consumo. E até eu, um dos poucos sobreviventes, sou apenas a memória daquelas coisas elementares, que o tempo, inexorável, se encarregou de levar e transformar.
Mas como minha avó dizia: “Abençoado seja o Verão!”

segunda-feira, julho 26, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 26 de Julho de 2010 – Ontem encontrei JCdeS, que conheço há mais de três décadas. Estimamo-nos, mas não temos uma relação de amizade. Tratamo-nos com grande cordialidade, que se aviva cada vez que nos encontramos.

Ontem, perguntou-me pela saúde de um familiar muito querido e ouviu a minha narrativa com muito interesse e apreensão. E quando nos despedimos, disparou-me esta que aqui partilho, sim, que esta Diário já é um espaço público: “tens de fazer boa cara ao mau tempo”.

Genuinamente popular, mas sobretudo pela sua modéstia e vasta humanidade, JCdeS é credor de todo o meu respeito e admiração.

domingo, julho 25, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 11 de Julho de 2010 – As auto-estradas dão-nos tempo, mas roubam-nos o dinheiro e o país. Antes de haver A-23 – uma das SCUTS das pátrias desavenças -, chegava a demorar quatro horas para ir à Mata e demorava outras quatro no regresso. Agora vou e venho e nem chego a gastar as quatro horas.

Eu conhecia topónimos como Azervadinha, Rosmaninhal, Barreiras, Arez e tantos outros, que vou esquecendo, inevitavelmente. Para não falar do Afonso, em Mora, um restaurante simpático, onde “matei a malvada” vezes sem conta. Ou do Café Central, em Ponte de Sor, onde espantei o sono igualmente vezes sem conta.

Ainda me lembro de, num dia de Greve Geral, ter acabado a confraternizar com os trabalhadores do Couço, que, ao que julgo saber, é a terra natal de José Casanova. E de histórias de furos, avarias e até de um despiste sem consequências, na passagem de nível do Crato, em 1 de Janeiro de 1980.

E tudo isto para dizer que as auto-estradas nos dão tempo, mas nos roubam Portugal. Só por este crime, os utentes das auto-estradas deveriam ser indemnizados.

domingo, julho 18, 2010

AO CONTRÁRIO DE REIS


De mãos dadas, vamos, Marta, até à beira rio. E aproveitemos, quais hedonistas inveterados, a mansidão da tarde, para nos amarmos, sôfregos, como os velhos faunos, que as nossas vidas são breves e o tempo muito veloz.

De mãos dadas, vamos, Marta, até à beira rio. E saibamos desfrutar todos os instantes, e, juntos, ouvir apenas o apressado bater dos nossos corações, indiferentes ao rio e a quem por nós passa.

Amemo-nos, pois, uma e outra vez e outra ainda, para, quando o tal barqueiro vier separar-nos, de nada possamos lamentar-nos, nem do Amor sermos devedores.

De mãos dadas, vamos, Marta, até à beira rio.

quinta-feira, julho 15, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 23 de Setembro de 2005 – Quando eu for grande, quero viver num país decente e não nesta «choldra», como lhe chamava o Eça, nos finais do século XIX. Quando eu for grande, quero viver numa República de homens livres, livres no mais amplo sentido da palavra, e não de títeres representativos de interesses inconfessáveis. Quando eu for grande, quero que aos meus concidadãos sejam reconhecidos os méritos e que não possam singrar os medíocres e oportunistas. Quando eu for grande, farei esforços para acabar com as comendas oficiais, que são sempre dadas às mesmas famílias e não propriamente àqueles que à pátria tudo dão sem nada pedirem em troca. Quando eu for grande, quero viver numa República cujo Presidente não o seja com o pretexto de o já ter sido. Quando eu for grande, não quero a presidir aos destinos da Pátria um choraminga, que também seja um dos beneficiários dos favores da Pátria. Quando eu for grande, quero ter filhos que amem e honrem a Pátria, mas recusem prebendas, reformas antecipadas e outros benefícios. Quando eu for grande, quero ensinar aos meus filhos que a Pátria não é uma vaca à qual se sugam as tetas. Quando eu for grande...

domingo, julho 11, 2010


POEMA

Há dias,
Despudoradamente,
Roubei um verso
Ao poeta Albertí.

Coisa sem importância
Dirão os (des)entendidos
Que pululam
Por aí.

Roubar, meu amor,
Só na loja das flores,
Uma rosa
Para ti!

sexta-feira, julho 09, 2010

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 9 de Julho de 2010 – Acontece-me agora, um ano e meio depois, sonhar com e acordar a pensar em meu pai. Ao contrário do que outrora pensaria, agora acho tudo isto normal e não sinto qualquer receio ou angústia. Acordar a pensar em e a sonhar com meu pai é agora um momento de apaziguamento comigo mesmo. Diria até de reencontro. Vá-se lá saber, portanto, o que estas coisas significam, nomeadamente para mim, que não sou psicólogo e sempre desconfiei da interpretação dos sonhos de um tal Sigmund Freud.

Nem sempre tive uma boa relação com meu pai, que era um homem muito contraditório, sempre a oscilar entre as coisas divertidas da vida e um arreigado pessimismo quanto ao devir histórico. O fim do mundo estava sempre iminente para aquele homem de estrutura baixa e franzina. Sempre disposto a defender a ordem, a disciplina e os costumes tradicionais.

Hoje, em conversa com o Ruela, fiquei a saber que um “guru” de grande reputação terá dito que havemos de voltar ao cultivo da nossa batata, do nosso tomate, do nosso feijão-verde e de outros produtos da horta. Ora isto significaria o triunfo de uma das teses de meu pai, que sempre defendeu o cultivo da terra e das pequenas produções domésticas.

O sonhar com e o acordar a pensar em meu pai, se calhar, tem a ver com este período que estamos a viver. Com este período de grande pessimismo, em que o céu parece querer desabar sobre as nossas cabeças
.

terça-feira, julho 06, 2010

2 QUADRAS POPULARES

Dizes que não tens amores.
Luta pra que tudo mude.
Pede amor com devoção
À Senhora da saúde.



À Senhora da Saúde,
À Virgem da Piedade,
Roga Amor filha querida,
Que é chegada a bela idade.

quinta-feira, julho 01, 2010

PALAVRAS PERDIDAS

Há quanto tempo, mãe, não te falo de amor
Com aquelas palavras de encantar
Com que as crianças falam do amor?

Há dias corei de vergonha,
Corei de vergonha quando li,
Num livro de cartas de Saint-Exupéry,
As palavras mágicas que ele escreveu a sua mãe
E que eu nunca te disse a ti.

Deixei que entre nós se interpusesse
Um pudico silêncio ancestral
E disse-te apenas coisas imediatas e triviais.

Eu esqueci, mãe, aquelas palavras claras e pueris
Que tanto alegravam o teu coração.

Eu coro de vergonha, mãe!


Manuel Barata, FRAGMEMTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx. 2005