sexta-feira, outubro 17, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 16 de Outubro de 2008 – Confesso que o Orçamento de Estado, apesar de saber que vai mexer muito com a minha vida, me estimula pouco. As discussões são muito sisudas e os médiuns que tentam traduzir do clássico para o vulgar, normalmente falham os seus sãos propósitos. E eu, confesso sem constrangimentos, que não sei resistir à secura como as figueiras.

Agrada-me muito mais a leitura de Miguel Veiga, apesar de estar sempre a reiterar as suas raízes portuenses, porque escreve com bom gosto e em português de lei. Por português de lei, entenda-se aqui e agora, um português sem concessões ao analfabetismo reinante, ou seja, o português de Vieira, Garrett, Camilo e Eça. E também o de Mário Dionísio, Mário Castrim e Mário de Carvalho. No fundo, um português com História e Gramática.

Ao contrário de Miguel Veiga, não herdei bibliotecas. Na minha casa reinava o mais puro analfabetismo, porque os meus pais apenas tinham, ainda que não certificadas, as suas competências de pau-para-toda-a-obra. Eu explico melhor: meu pai ajudava a construir casas, pedra a pedra ou tijolo a tijolo; minha mãe trabalhava no campo e tratava da nossa casa, que, sendo pequena e o mobiliário escasso, não lhe dava muito trabalho. Por isso mesmo, ainda tinha tempo para fazer pares de meias, em algodão, para mim e para o meu pai, que era uma forma de poupar e de estar ocupada.

O gosto pelos livros aprendi-o na convivência com os meus amigos. Hoje, também me invadem o espaço, mas estou-me nas tintas para tal facto. De e com livros é feita a minha vida.

domingo, outubro 12, 2008

QUADRAS QUASE POPULARES

I

Ah, Américo Amorim
É um português genial!
Até com cortiça ruim
Enriquece Portugal.

Tem tanta, tanta energia
e é tão empreendedor…
Receio que qualquer dia
dê um ataque ao senhor.

Dizem que está a perder
muitos, muitos triliões.
Tal não pode acontecer,
porque não joga a feijões.

II

Que dizer do madeirense
- Joe Berardo, o poderoso –
na ilha, nem amanuense!,
E em Portugal tão famoso?

Que fabrica este senhor
pra tal riqueza ostentar?
Muito. È ‘speculador,
tem euros a trabalhar.

III

Oh, gosto deste heróis
de jornal e tel’visão!
São verdadeiros faróis
qu’ iluminam a nação.

sexta-feira, outubro 10, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 10 de Outubro de 2008 – Quem não se pode queixar do momento presente é Jean-Marie Le Clézio, a quem foi atribuído ontem o Prémio Nobel da Literatura. E com toda a justiça, para que não fique a pairar qualquer suspeição.

Este grande escritor francês, que publicou o seu primeiro romance LE Procès-Verbal, em 1963, é autor de cerca de cinquenta obras. É, portanto, para além de um grande escritor, um trabalhador original e metódico. Escreveu obras como Désert, Le Chercheur d’Or, Voyage à Rodrigues, etc., que fizeram dele um escritor amado e incontornável.

Nestes dias, a par da queda da bolsa de Paris, vai estar em alta a obra de Le Clézio e a auto-estima dos franceses. Para o autor de Printemps et autres saisons as coroas suecas, independentemente do jeito que sempre hão-de dar, acabam por ser uma ninharia perante a consagração universal.

Il y a des jours heureux. M. Le Clézio!


quinta-feira, outubro 09, 2008

PRÉMIO NOBEL 2008

LE CLÉZIO

Jean Marie Le CLézio, prémio Nobel da literatura 2008, declarou que vai continuar a ler romances e a questionar-se. Com esta atitude, o autor de Printemps et autres saisons, que é também um ensaísta de mérito, demonstra que o Nobel está em boas mãos.

quarta-feira, outubro 08, 2008

DO MEU DIÁRIO




Santa Iria de Azóia, 7 de Outubro de 2008 – Faz hoje quarenta e nove anos que transpus, pela primeira vez, o portão da Escola Primária da Mata. Era um edifício igual a muitos outros, porque o Estado Novo tinha um número muito limitado de plantas de edifícios escolares: uma sala para rapazes e outra para raparigas, ambas precedidas de um amplo vestiário. Um muro de altura variável dividia teoricamente, digamos assim, o mundo dos meninos do mundo das meninas.

Por conveniência do casal de docentes, que eram um casal no verdadeiro sentido da palavra, a primeira e a segunda classes estavam a cargo da Sr.ª D. Ester e a segunda e a quarta a cargo do Sr. Professor Falcão, numa mistura muito saudável de rapazes e raparigas. Só voltaria a ter uma turma mista, anos mais tarde, quando frequentei a Secção Preparatória para ingresso nos institutos comerciais.

As salas eram muito frias e escuras, no Outono e no Inverno, ainda que estivessem voltadas a Nascente. Não cheguei a conhecer naquela escolinha querida, onde agora é desenvolvido o projecto educativo “Belgais”, os benefícios da electricidade; porém, guardo gratas recordações dos anos que a frequentei, porque nunca mais o convívio seria idêntico, nas outras escolas que frequentei.

E é talvez aquele convívio pueril, que me faz recordar aquele tempo e aquele espaço com alguma saudade.

terça-feira, outubro 07, 2008

SONETO

NUNO ÁLVARES PEREIRA

Nuno foi o braço e a mente

Que Portugal defendeu
Da castelhana gente.
Títulos e riquezas recebeu
De seu amigo João de Avis,
Cujo arnês envergou
Quando Leonor, mãe de Beatriz,
Cavaleiro o armou.
Destemido herói medieval,
Escolheu o caminho certo
E terçou armas por Portugal.
Ilustre patrono da infantaria,
Nuno foi o grande arquitecto
Da lusitana soberania.

sexta-feira, outubro 03, 2008

MEMÓRIA

CASTELO BRANCO 2

E havia aqueles dois senhores,
que eram da PSP e trajavam à paisana:
um era o senhor Pudico e o outro era o outro.
Tinham por missão zelar pelos costumes
e impor o respeitinho.
Visitavam o subversivo Vidal,
que vendia muita prosa vil
e acolhia perigosos homens do contra:
o alfaiate Matos Pereira,
o industrial Armindo Ramos
e o advogado João Vieira.
E outros, que o quiosque estava licenciado
e a entrada era livre.

O senhor Pudico usava gabardina, no Inverno,
como o inspector Colombo de uma série televisiva,
e chapéu todo o ano, por respeito à convenção.
O outro, já não me recordo se tinha gabardina,
mas também usava chapéu. E óculos
para poder ver melhor os títulos subversivos,
que um tal Vilhena teimava em publicar:
O Filho da Mãe,
Marmelada,
A Vaca Borralheira,
As Canetas dos Amantes, etc.
E quedo-me por aqui para não alongar o rol.

O senhor Pudico e o senhor outro,
que levavam a sua nobre missão a sério,
eram pessoas muito sós,
porque, lá bem no fundo, só se tinham um ao outro.
A cidade olhava-os com desdém,
porque o senhor Pudico e o senhor outro
eram o retrato vivo da vigilância, num país vigiado
até nas coisas mais simples e íntimas.

O senhor Pudico e o senhor outro não liam livros.
apreendiam livros.
O senhor Pudico e o senhor outro não conversavam.
ouviam conversas
O senhor Pudico e o senhor outro não viviam,
andavam por ali,
enquanto a cidade vigiada
trabalhava, lia e conversava.

domingo, setembro 28, 2008

CASTELO BRANCO

NA RUA DE SANTO ANTÓNIO

Era nas águas-furtadas a nossa casa.
Era velha e com poucas condições,
mas tinha uma clarabóia,
por onde, quando havia, entrava a luz do sol.
Era no número vinte e um da rua de Santo António,
quase no coração da cidade.
No rés-do-chão,
era a mercearia do senhor António Canaveira.

Em frente,
havia uma agência de viagens,
onde trabalhava uma rapariga vistosa,
com quem, na solidão dos meus pensamentos,
fiz as primeiras grandes viagens.
Era uma rapariga alegre,
que vestia roupas alegres
e tinha um sorriso alegre e branco e amplo
e um corpo ágil de gazela.
Um dia a agência fechou as portas
e a rapariga mudou de ares,
qual ave de arribação.
Se me tivesse pedido,
apesar da idade,
creio bem que tinha partido com ela.
Ah, como batia forte e apressado,
naqueles dias,
o meu pobre coração!

E o tempo,
esse inigualável fazedor,
fluía placidamente.
Placidamente, que é assim que deverá fluir o tempo.
E tudo era normal e rotineiro,
até a passagem diário do batalhão,
o seis de caçadores,
que passava na rua de Santo António
ao som do tã…tão…tã-ta-ra-rã dos tambores
e do op, dois, erdo, direito dos cabos milicianos.

A nossa casa era nas águas-furtadas
do número vinte e um da rua de Santo António
e era a foz de um rio
de gente
que ali vinha pedir um pequeno favor,
como visitar, no hospital, um doente
ou comer um simples prato de sopa.

Aquelas águas-furtadas eram a casa da gente.

sexta-feira, setembro 26, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 26 de Setembro de 2008 – Falei há momentos com o poeta Daniel Abrunheiro – o que acontece agora com alguma regularidade –, a quem perguntei se conhecia o pintor viseense Luís Calheiros. Que sim, que conhecia e que até frequentam o mesmo café. Com um bocadinho de sorte, ainda vou retomar a conversa com o Calheiros, que interrompemos no final da nossa estada no SISMI, na bonita cidade de Tavira.

Conhecemo-nos nas Caldas da Rainha, no antigo Regimento de Infantaria -5, no Outono de 1973. Fomos da mesma companhia e, apesar de não sermos do mesmo pelotão, tínhamos uma relação de camaradagem muito estreita. O Luís dormia muito e por isso mesmo ficava sujeito a algumas patifarias de instruendos mais divertidos. Ali conhecemos e fomos amigos do pintor Aurélio Veloso, instruendo como nós, que havia de desertar das fileiras meses depois. Ainda me enviou de Braga, donde era natural, um trabalho seu, que guardo religiosamente. Nunca nos voltámos a reencontrar.

Em Tavira, o Luís Calheiros arrendou quarto junto ao Gilão, na margem esquerda. Ali nos encontrávamos para conversar e para as saídas de fim-de-semana. Foi naquele quarto que o Luís Calheiros fez uma caricatura da minha pessoa, que baptizou de “projecto para um pisa-papéis” e que eu guardo, numa moldura, com fé idêntica, à do trabalho do Aurélio Veloso.

Pela mão do Daniel, um dia destes, vou mostrar a caricatura ao Luís.

terça-feira, setembro 23, 2008

FRAGMENT(Á)RIAMEMTE

INTRÓITO
1

De e com livros tem sido feita a minha vida:
Bons, maus, e assim-assim.
Neles, aprendi metade do pouco que sei;
Sem eles, não sei dizer o que de mim seria!

Outro homem, decerto, seria…

2

Com Fonseca, Manuel como eu,
No culto das musas me iniciei:
Ainda hoje vejo passar a tuna do Zé Jacinto
E me delicio com as alvas rolas,
Que Maria Campaniça escondia sob a blusa.

Por mil anos que um homem viva
Há metáforas que nunca morrem nem esquecem.

3

A prosa chegou com a colecção seis balas.
Só depois chegou Ferreira de Castro
E o seu casto português.
Fiz-me amigo de Manuel da Bouça e de Ricardo;
E, sobretudo, de Marreta e Horácio.

(E é chegado o momento de dizer,
Que se dane o espanhol que não quer
Referências culturais na poesia.
Que se dane pois o espanhol,
Cujo nome já esqueci).



4

Santareno,
Veio ainda antes de Vicente!
Primeiro, o Édipo de Alfama;
Só depois, chegou o pai de Antígona.

Que milagre terá acontecido?

5

De e com livros tem sido feita a minha vida.
VÁRIA



AMAR

É estar sentado,
Contigo,
À porta da nossa casa
Numa noite de Verão.
E ao luar,
Absorto
No voo
Dos meus pensamentos,
Comer tâmaras,
Em paz.


E saber,
Amor,
Que esperas
Que a brisa passe
E eu procure,Ternamente,
A tua face.



DESENCONTRO


Sempre desejei
Um coração
De camponesa
Para gémeo do meu.

Só assim,
Pensava eu,
Poderia sentir,
Plenamente,
O alor
E o respirar
Da terra.

Outra coisa;
Porém, ditou
O poderoso destino.
E por isso
Vivo
O desatino
Dos desencontros.

Até um dia…
Ou talvez
Para sempre!





ROUXINOL


Eu tenho inveja de ti

– Ó sublime rouxinol! -,
Que voas
E cantas
E longe
E alto levas
O teu canto!

Enquanto eu
– Simples aspirante a cantor –,
Sou incapaz
De dar asas
E levar longe
E alto
O meu humilde canto.

Eu,
Humano
E sensível,
Tudo faço
Ao rés-da-terra.










INSTANTES


Quando o sol –
O grande colorista de Cesário –
Inunda o dia
E os passarinhos
Dão concerto de piano
Nas roseiras
E nos arbustos
Do meu jardim,
Saboreio
Por vezes
A alegria.

É então
-Gozando as delícias da preguiça -
Que mais concordo com Adília.

O resto,
Obviamente,
É conversa.




DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 21de Setembro de 2008 – Por muito esforço que se faça, o real quotidiano impõe-se-nos, muitas vezes, de forma tão contundente, que se torna difícil fintá-lo. Aqui ficam, para que conste, algumas notas sobre esse inevitável real:

A primeira concerne ao General António dos Santos Ramalho Eanes, meu compatriota, que nunca ajudei a eleger, mas cuja verticalidade sempre admirei. Passado o desvario dos últimos tempos do seu segundo mandato como Presidente da República, nomeadamente o episódio da fundação do PRD, soube afastar-se da ribalta e constituir-se como uma espécie de reserva moral desta velha Nação. A recusa de 1, 3 milhões de euros, que os tribunais lhe atribuíram por ter sido espoliado, demonstra a grandeza deste Homem. Outros, que o combateram e lhe negaram aquilo a que tinha direito, seriam incapazes de um gesto idêntico.

A segunda diz respeito a Maria Keil, que conheci nos idos de setenta do século passado, numa Repartição de Finanças, onde trabalhava então. A grande pintora e ceramista, viúva de Francisco Keil do Amaral, deslocara-se a Moscavide para tratar de um assunto do agora defunto Imposto Sucessório e foi atendida por este vosso amigo. Já teria setenta e tal anos, mas mantinha uma grande frescura, como se o tempo passasse e não deixasse mossas. Conversámos de várias coisas: Camarate, José Gomes Ferreira, Cochofel e Carlos de Oliveira. Em circunstâncias mais ou menos idênticas havia de conhecer Fernando Campos, alguns anos mais tarde.

Maria Keil, para quem não saiba, pintou os primeiros azulejos para o metropolitano de Lisboa e nunca recebeu um chavo. Parece que os engenheiros, economistas e gestores que mandam no Metro - e também no país -, se preparam para destruir aquilo que generosamente a pintora e ceramista doou à cidade. Isto não é comportamento de gente civilizada. Esta atitude é mesquinha e é uma afronta à obra de uma grande criadora. Indmissível!!!
E por fim, o novo Código do Trabalho, que há-de fazer alguns portugueses ainda mais desgraçados, deixando-os nas mãos dos nossos audaciosos e competentes patrões. Foi aprovado pelo PS e com a abstenção matreira e oportunista do PPD-PDS, ou seja, com o sim de um dos manos e o nim do outro. Em nome de quê, concretamente?

E por agora é tudo.

domingo, setembro 21, 2008

DOS PRESSÁGIOS

Santa Iria de Azóia, 4 de Setembro de 2008 – Num blogue famoso, Causa Nossa, um constitucionalista famoso, Vital Moreira, escreve que os sindicatos da função pública querem “nutridos aumentos” para o ano que vem, que é ano de eleições.

Este senhor Doutor Vital Moreira, que em tempos foi militante do PCP – um ilustre militante do PCP -, que ficou famoso pelos seus inflamados discursos, na Assembleia da República, tornou-se posteriormente um político próximo do PS, que é o mais anticomunista dos partidos portugueses. Não espanta, por isso mesmo, que tenha pelos trabalhadores da Administração Pública a alta estima e consideração que os seus novos amigos têm demonstrado no Governo.

Não sei como vive, nem isso tem qualquer interesse, o ex-camarada Vital Moreira. Provavelmente, vive bem e à custa de muito, generoso e douto trabalho. E provavelmente, coabita bem – ele que é um professor de direito - com as leis iníquas que vão sendo produzidas para fustigar o mundo do trabalho.

Por isso me parece pertinente a pergunta: o que é que os professores de direito têm a ver com a justiça?

quarta-feira, setembro 17, 2008

HÁ CINQUENTA ANOS

Há cinquenta anos,
quando nós ainda éramos todos,
eu tinha seis anos
e era feliz.

Nunca festejávamos os meus anos.
Eu só sabia que fazia anos,
porque a minha mãe me dizia:
“hoje fazes anos, filho!”
E eu, contente por fazer anos,
corria pela rua
e anunciava aos rapazes e às raparigas
que era o dia dos meus anos.

Nós brincávamos sempre na rua,
que era o prolongamento natural das nossas casas,
que tinham quase sempre a porta semiaberta ou semicerrada
que para o caso tanto faz.
Era a rua Nova da Escola,
que não tinha ainda estes paralelos ásperos,
que continuam a causar-me irritação.
A rua era térrea
e quando chovia ficava lamacenta
e nós brincávamos com a água das poças
e por vezes chapinhávamos
e sujávamos as saias alvas das raparigas já casadoiras
e fugíamos para nos rirmos delas.

E construímos casinhas,
imitando os nossos pais
(quase todos profissionais da alvenaria).
E nelas mostrávamos o peixe às raparigas
e elas nos mostravam o cochicho,
sim, peixe e cochicho,
que era assim que puerilmente denominávamos os nossos sexos

Hoje já não somos todos!
E os que somos
já não nos alegramos com a lhaneza de outrora.
Agora, às vezes, fazemos anos,
para nos dizermos que ainda somos;
porém, arredios da simpleza e da alegria
de, quando criança, minha mãe me dizia:
“hoje fazes anos, filho!”
E eu corria pelo interior do sol de Junho
a dizer aos rapazes e às raparigas
que fazia anos.

Vertiginosamente,
a névoa vai tomando conta dos nossos olhos
e os nossos corações deixaram,
há muito tempo,
de rejubilar com o alvorecer dos dias.






domingo, setembro 14, 2008

SESIMBRA



Quando irado o mar te zimbra
O povo e o casario,
Tu sabes bem, ó Sesimbra,

Lutar com bravura e brio!



Quantas vezes, ó beleza,
Punida pelos vendavais,
Te bateste com nobreza,
No meio de gritos e ais?!



Linda princesa do mar,
Ó sedutora Sesimbra,
Tua beleza sem par
Só com o meu canto timbra!

sábado, setembro 13, 2008

COM A NATUREZA

Nos regatos e nas fontes
Água cristalina bebi.


Nos silvedos dos caminhos,
Amoras bravias colhi.


Nos cocurutos das figueiras,
Sadios figos comi.


Nas sombras amigas dos choupos,
Lindas histórias ouvi.


Mas um dia,
Pelos sonhos embalado,
Fui ver o mundo
E tudo perdi.

quarta-feira, setembro 10, 2008

SE EU FOSSE COMO CAMÕES

Republicação


Se eu fosse como Camões,
Havia de te fazer,
Amor, versos geniais,
Muitas trovas de encantar!

Pintar-te-ia morena
E de outras cores sadias.
Blusa vermelha decerto
E calças de ganga azul.

Assim irias à fonte
- Discreta como se vê -,
Leda e bela ao meu encontro.

E haveria de deixar
Teu rosto ruborizado
Com mil beijos, mil ou mais.

quinta-feira, setembro 04, 2008

EPITÁFIO

Eu sempre quis
que a minha voz
fosse clara,
melodiosa,
única.

E que as palavras
ganhassem
com o meu timbre
a graça
e a leveza
dos pássaros.

E voassem
e se ouvissem
longe
e alto.

Eu sempre quis.

quarta-feira, setembro 03, 2008

RAFAEL ALBERTÍ

CANCIÓN 5

Versos largos, versos largos,
caminos interminabes
pies y pulmones cansados.

Me basta una sola línea
para la risa o el llanto.
Y hasta me sobra essa línea
para el llanto.

Cuando uma lágrima corre,
o dejo correr en blanco.

Rafael Albertí, Baladas y Canciones del Parana, Alianza Editorial, Madrid, 1989.

VIANA DO CASTELO

SANTA LUZIA

A CORUÑA

Torre de Hércules

quinta-feira, agosto 28, 2008

NAMBUANGONGO

Ansiosos,
como loucos,
esperávamos a DO.

E quem não recebia carta
ou aerograma
ficava mais triste
e só.

Era a puta da guerra
- já sem guerra -,
no degredo
de Nambuangongo.

Lá,
onde até o céu
parecia mais alto
e inclemente.

Lá,
onde o napalm
devastara a paisagem
e matara gente.

Lá.

segunda-feira, agosto 25, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 25 de Agosto de 2008 – Há muitos anos que conheço o nome de António Osório. Sabia-o poeta, com ligações a Setúbal e à Arrábida e também à advocacia. Lera meia dúzia de poemas seus em publicações periódicas, mas nunca ousara comprar uma obra sua.

Graças ao Daniel Abrunheiro, grande poeta e homem de generosidade muita, comecei a comprar as obras de Osório, um pouco ao acaso, e tenho-o lido com alguma avidez. Penso que já o cataloguei como poeta da amabilidade, num outro texto deste meu diário; porém, de Osório queria hoje dizer que é um poeta de recorte clássico, que nos presenteia com uma poesia de grande equilíbrio e serenidade.

De Osório estou a ler a obra VOZES ÍNTIMAS, que sendo um conjunto de textos acerca das pessoas com quem o poeta conviveu e dialogou, ajuda a escorar a opinião que expressei no parágrafo anterior. Neste livro poderá o leitor ler também quatro sonetos de Vivaldi, que correspondem às quatro estações, integrados num texto mais vasto sobre as vicissitudes que conheceu a obra do célebre compositor.

Osório é um daqueles poetas que não podemos ignorar, sob pena de ignorarmos alguma da grande poesia do século XX.


domingo, agosto 24, 2008

DO MEU DIÁRIO

Charneca da Cotovia, 24 de Agosto de 2008 – O país anda sobressaltado com a onda de assaltos, e, sobretudo, com o grau de sofisticação de alguns deles. Algo começa a fazer-se com requinte no reino de Portugal. Não há recurso às novas tecnologias propriamente ditas, mas as coisas fazem-se, nalguns casos, com o uso de muita massa encefálica.

Eu não sei se é impressão minha, mas a presente vaga parece ter-se intensificado com a divulgação da lista dos mais ricos de Portugal. Claro que não tem nada a ver, porque crime é crime, e as reivindicações fazem-se nos locais apropriados. Mas que esta vaga de assaltos é obra de bandidos que esta sociedade vai sornamente gerando, não tenho quaisquer dúvidas.

Os partidos de direita aproveitam esta magna ocasião para desancar no governo de esquerda dito, mas com alma e práticas de direita. Não há-de ser por acaso que o poder é sempre exercido pela trindade PS, PPD-PSD e CDS-PP, que vai (des)governando o reino desde os idos de 1976. E com soluções idênticas, mais coisa, menos coisa. No caso vertente, com mais dois mil polícias.

Eu não tenho o hábito de reflectir acerca destes fenómenos, mas alguma coisa deve estar mal, quando todo o mundo ocidental investe tanto em polícias, armamento e equipamentos de vídeo vigilância. E até em condomínios fechados, que são os castelinhos que, de certo modo, são réplicas modernas dos castelos medievais.

Por que razão ou razões andarão os títeres que nos governam com tantas preocupações de segurança? O que motiva esta onda de assaltos? Eu não sei o quê, mas algo fede por aqui. Eu vou-me embora para Elsinor. Lá, onde o príncipe também tem dúvidas!

quarta-feira, agosto 20, 2008

DO MEU DIÁRIO (NOTA AOS LEITORES)

Santa Iria de Azóia, 20 de Agosto de 2008 – Reitero a ideia – e pelos vistos partilhada -, de que a realidade actual do meu país me estimula pouco. E não é por estarmos em pleno período de férias.

Eu escrevi e quero dizer pe-rí-o-do e não "priudo", que é como diz a maioria dos nossos concidadãos, referindo-se àquela coisa mensal que as nossas concidadãs têm na idade fértil. Confesso que vou aos arames com o dito “priudo”, ou antes, ia, que agora já vou menos, tal como acontece com o tu “comestes”, bebestes”, “cantastes” e ainda com a sintaxe e a conjugação do verbo haver, do género “houveram” muitas trovoadas naquele mês de Agosto ou vocês “hádem” ver como elas mordem. Isto para não falar nos “aitems” três e quatro ou na Torre “Aifel”, no Sadam “Hussain”, etc.

É obvio que não sou um fundamentalista da gramática e tão-pouco dono da língua portuguesa. Quer-me parecer, no entanto, que sempre é preferível o rigor excessivo ao moderado laxismo. E falando de rigor, não sei se vou dizer alguma barbaridade, mas parece-me que os grandes problemas nacionais resultam do fraco conhecimento da língua portuguesa e do nosso consabido desprezo pela matemática. E até talvez do pouco interesse que dedicamos à filosofia.

Talvez.

domingo, agosto 17, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 17 de Agosto de 2008 – Há muitos anos que não me ausentava de Roma por um período de três semanas. Eu até pensava que a vida se tornaria mais monótona e sensaborona sem a minha presença. Verifico ao fim destas três semanas de lazer que se tratava da mais pura ilusão. Não houve golpes de Estado e tudo funcionou na perfeição. Estou a pensar que, mais dia, menos dia, vou mesmo morar o mais longe possível da Cidade.

A actualidade não me motiva. Portugal é um país excessivamente repetitivo. Repetitivo pela negativa, diga-se em abono da verdade. Por isso mesmo, sinto-me pouco inclinado a comentar a actualidade que, se o acordo ortográfico já estivesse em uso, se poderia escrever atualidade.

No último “Jornal de Letras”, um magnífico reitor de uma universidade qualquer publicou umas quantas teses que, na sua douta e magnífica opinião, deveriam ser acolhidas pelos “fabianos” que vão vociferando contra o dito acordo. Eu estou em crer que o senhor deverá ser “Professor Doutor Engenheiro”, de escola contrária à do eng.º Jorge de Sena (o que pensaria Sena acerca do Acordo Ortográfico?), ou então “Professor Doutor Economista”, porque de linguística não deve perceber muito.

No mesmo número do mesmo jornal, Eugénio Lisboa, de uma forma claríssima e brilhante, disse aquilo que tinha de ser dito e ponto final. Procurai o “JL” e lede, caros leitores, o magnífico artigo de Eugénio Lisboa! É uma ordem, ouvistes?

Deixo o registo que seria o de José Gomes Ferreira e vou aqui rememorar aquele episódio contado por Raul Brandão nas Memórias. Diz-se que quando a rainha velha, a sereníssima Maria Pia, saiu de Mafra para apanhar o iate real na Ericeira, foi vista com um casqueiro de Mafra debaixo do braço. Eu creio que Brandão leu bem o episódio, quando diz que Maria Pia, que fora toda a vida uma perdulária etc. e tal, e que finalmente percebera o valor de um simples pão. A minha filha, que estuda Brandão, acha o episódio muito ternurento e acha que Maria Pia queria levar consigo um pedaço do país. Um pedaço perecível do país, digo eu, que nestas coisas vou mais com Sancho Pança.

Reinstalado nos arredores de Roma, amanhã – segunda-feira –, cumprirei o ritual. Irei reencontrar os amigos. No forum, para dois dedos de conversa e alguma inofensiva maledicência.



MAHMOUD DARWICH

L' ENFANT RÉFUGIÉ



Algumas estrofes



Racontez! Peut-être me rappellerais-je

quelque image de mon pays,

quelque souvenir déposés

sur mes lèvres

et que ne puis pas exprimer.





Mais je ne me rappelle pas

«les jours de sérénité».

Évoquez-les encore,

et que leur échoà mes oreilles parvienne!





Parlez, et que vos paroles réveillent

sur mes lèvres, écho à leur appel strident,

un bruissement à l'unisson

de leur murmure.





Non, li m'est impossible

de faire revivre leur mémoire;

mais je sais qu'ils sont l'espérance

òu s'abreuve encore le monde

qui a nourri mon père.





........................................





Racontez-moi mon pays

ce pays qui semble un rêve

où se perd, où se noie

l'horizon de ma vie.





........................................





in La Poésie Arabe, Éditions Phébus, Paris, 1995

segunda-feira, agosto 11, 2008

DO MEU DIÁRIO

TERMINAÇÃO DO ANJO


Passada a surpresa do “estremeção” inicial, a leitura de TERMINAÇÃO DO ANJO de Daniel Abrunheiro decorreu-me sem sobressaltos, embora me tenha exigido uma grande concentração.

Apesar de já ter no activo muitas narrativas e algum cinema, nomeadamente de autores como Arthur Conan Doyle, Poe, Agatha Christy e Alfred Hitchcok, seria excessiva presunção da minha parte afirmar que nada me surpreendeu e não reconhecer a originalidade deste excelente autor de língua portuguesa. Se a leitura me decorreu sem sobressaltos, isso fica a dever-se à engenhosa forma de conduzir a narrativa, que tornou Camilo Ardenas e a sua actuação perfeitamente
verosímeis.

A surpresa maior há-de o leitor encontrá-la no diálogo entre Camilo Ardenas, o anjo terminador - de António Tomás Jesus Duque, Ismael Janeiro Lonas Arco e Orlando Gil Coura Serafim, ourives o primeiro, arquitecto o segundo e professor de latim o último – e Francisco Gabriel Andrade Corvo, o arcanjo, que trás colado ao nome outro Gabriel, bíblico e anunciador de vida.

O longo diálogo entre o anjo Camilo e o arcanjo Gabriel, que poderia ser apresentado sob outra forma, é em minha opinião uma intrusão curiosa do género dramático neste romance, como que a demonstrar que em literatura não há géneros puros.

O próprio título merece algumas palavras, porque permite que se instale desde o início alguma ambiguidade, que só vai desaparecer com a terminação do anjo terminador. Dir-se-ia que o investimento literário começa no próprio título.

Os futuros leitores de Daniel Abrunheiro, aqueles que desconhecem a sua produção lírica, hão-de, se de Eça tiverem sido leitores, notar o mesmo gozo na utilização inusitada das palavras, num romance onde não falta sequer uma ou mais referências à Senhora D. Patrocínia da RELÍQUIA.

Aqui ficam estas notas e uma pequena relação de verbos inventados por Daniel: “douraverdear”, “carneirar”, “mesmerizar”, “esponjar”, “nadegar”, “ginvermutar”, etc., para abrir o apetite a potenciais leitores.

Abrunheiro, Daniel, Terminação do Anjo, Portugália Editora, 1º Ed., Lx. 2008.


domingo, agosto 03, 2008

SESIMBRA




1
Quando o sol te morder a pele
E sentires o chamamento do mar,
Não hesites. Vai.

2

O meu reino daria
Por uma varanda sobre o mar.

Em Sesimbra,
Pois claro!

3

A proximidade do mar me basta.

Infelizmente,
Falta-me o pulmão
Para o desafiar
Em possantes braçadas.

4

Nunca aprendi a nadar.

Ah, os pequenos nadas
Da já longínqua infância!

5

Talvez um dia,
mãe,
Te traga comigo a ver o mar.

…Em Sesimbra.

Só então saberás
Quão bom seria
Saber nadar.

Sim, só então.



domingo, julho 27, 2008

VOU DE FÉRIAS

Caras Amigas
Caros Amigos
Caros Leitores

Durante 15 dias, estarei a banhos; porém, convosco no pensamento.

Um grande abraço para todos.

quinta-feira, julho 24, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 23 de Julho de 2008 – Vasco Graça Moura persevera – e bem -, na sua já longa luta contra o acordo ortográfico (AO), que umas quantas criaturas de Deus querem, à viva força, que entre depressa em vigor.

Eu raramente estou de acordo com o tradutor de Dante e Petrarca; sobretudo, em matéria de política partidária, porque o considero muito fiel ao PPD-PSD, seja qual for o cabo que estiver de serviço. Nas coisas da cultura, a música é outra, obviamente. VGM até pode ter inúmeros defeitos – e tem-nos com certeza -, mas, no domínio das letras, é um trabalhador incansável e de grande qualidade.

Subscrevi o documento contra o AO que está a circular na NET e voltaria a subscrevê-lo, porque as línguas não necessitam de despachos, decretos e leis para viver e morrer. As línguas todos os dias vão morrendo e renascendo, porque todos os dias caem em desuso determinadas palavras e todos os dias surgem palavras novas. Mas, no presente, não é este o ponto.

O AO que os governantes querem implementar a todo o vapor, como já foi amplamente explicado, é um mar de incoerências e só vai lançar a confusão entre os utentes do código escrito. Para nada, porque a descontinuidade geográfica já criou umas quantas variedades do português, que, a longo prazo, se constituirão como novas línguas. E este é que é o ponto.

quarta-feira, julho 23, 2008

SÓ UMA ROSA

Há dias,
Despudoradamente,
Roubei um verso
Ao poeta Albertí.

Coisa sem importância
Dirão os (des)entendidos
Que pululam
Por aí.

Roubar, meu amor,
Só na loja das flores,
Uma rosa
Para ti!




segunda-feira, julho 21, 2008

QUADRAS DE FIM DE ÉPOCA

ESTA EQUIPA DO BENFICA

Esta equipa do Benfica
Faz-me mal ao coração.
Quando o conjunto claudica
Aumenta-me a pulsação.

É tão triste e doloroso
Ver esta equipa perder.
Ó meu Benfica famoso
Que te deram a beber?

O grão Maestro, Rui Costa,
Era digno de melhor.
Não merecia esta bosta,
Um Benfica perdedor.

Vieira que vá à vida
Que não tem classe nem jeito.
A nação anda perdida,
Vai ter angina de peito.




CINCO GOLOS DE RAJADA

Cinco golos de rajada,
Em coisa de meia hora,
Deixa a malta envergonhada
E Portugal mais à nora.

Este Benfica sem alma
Até nos faz impressão.
Não nos venham pedir calma.
Por favor, mais calma não!


sábado, julho 19, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 19 de Julho de 2008 – Este ano tem-se mostrado muito produtivo, em termos literários, na minha roda de amigos. O João Teixeira, que publicou RO(S)TOS DO MEU PAÍS, no já longínquo ano de 1972, publicou o mês passado REBUÇADOS, CARAMELOS E SONETOS, dando continuidade à sua veia satírica e humorística, sempre muito atento ao mundo que o rodeia.

O Daniel Abrunheiro publicou a TERMINAÇÃO DO ANJO, na renascida Portugália, que teve apresentação pública, em 24 do mês transacto. Afazeres múltiplos têm-me impedido de fazer uma leitura atenta deste romance, escrito num português imaculado e onde o génio inventivo de Daniel está patente do princípio ao fim. TERMINAÇÃO DO ANJO é um romance inquietante cuja leitura exige tempo e reflexão.

Ontem, foi a vez do Vítor Morais, um jurista tributário, a anunciar-me o lançamento para breve do seu primeiro romance JAMES DEAN FAZ VIDA NO BOMBARRAL. Terei sido o primeiro leitor deste romance, ainda antes da versão final. Sempre achei que merecia publicação e o Zé Ribeiro considerou então o título um verdadeiro achado. A seu tempo se dará notícia aqui deste romance do Vítor Morais, que vale muito mais que o seu precioso título.

Lá para o fim do ano, moi-même, darei à estampa FRAGMENTOS COM POESIA – II.

quinta-feira, julho 17, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 17 de Julho de 2008Por obra e graça de declarações de Vítor Constâncio, constante governador do Banco de Portugal, foi abalada a proverbial acalmia lusitana. É certo que houve 1383-1385, o nosso século de oiro, 1640, 1820 e a Guerra Civil subsequente, que correu de feição aos liberais de então, 1910, e, finalmente, 1974; porém, passado o bruá que as revoluções por cá provocam, constata-se que o nosso povo é efectivamente de costumes brandos e pouco dado a rupturas violentas. E as chamadas elites, rapaces, acabam sempre por se apropriar do pouco que o país produz e tem.

Omito propositadamente 1926 e outras datas trágicas, como foi, sem quaisquer dúvidas, o dia 23 de Maio de 1536 – o dia da concessão da Bula que criou a Inquisição, em Portugal. Omito, portanto, alguns dos marcos mais ignominiosos da nossa História colectiva, que só serviriam para demonstrar como a nossa gente aceitou abjectas servidões.

É muito da mentalidade portuguesa os pais dizerem aos filhos:”tem juizinho, não te metas em avarias; vê lá, não dês cabo da tua vida”. Não conheço pais que tenham dito: “filho, nunca te submetas aos tiranos; não tenhas medo de enfrentar os poderosos e as injustiças; nunca aceites viver de cócoras”. É evidente que haverá excepções, mas encontrá-las-emos, seguramente, ao nível das elites. O povo, que os românticos e os partidos revolucionários do séc. XX mitificaram, evita, sempre que pode, a confusão.

Não quer isto dizer que, perante certas situações limite, o povo não adira a determinadas formas de luta, incluindo, naturalmente, as violentas. Eu venho dizendo, de há vários anos a esta parte, que tudo se vai decidir de novo na rua. E há-de ser a nível europeu, como notava, recentemente, Odete Santos, num programa de televisão. E bem podem ir construindo os seus castelinhos modernos – os chamados condomínios fechados –, com segurança privada e outras coisas de mentalidade medieval, que um dia as ruas voltarão encher-se e os audazes e valentões, que tudo controlam e dominam, perante as multidões ululantes, hão-de fazer de novo nas calças.

quarta-feira, julho 16, 2008

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 15 de Julho de 2008O caso Ingrid Betancourt interessa-me, mas apenas na mesma medida em que me interessam outros casos de sequestros. Por princípio, sou contra todo e qualquer tipo de sequestro, porque não concebo sequestros bons e sequestros maus, em função das colorações políticas dos sequestradores.

No caso da colombiano-franca, há qualquer coisa que não joga certo. Depois de ter sido dada a conhecer ao mundo, através de fotografias que asseguravam doenças terríveis e provavelmente mortais, eis que e senhora aparece de boa saúde e em grande forma. E elegantíssima, dentro de roupas de puro estilo parisiense, para receber a Legião de Honra das mãos de Sarkosy.


Clara Rojas, por exemplo, poderá ajudar a esclarecer muita coisa; temo, todavia, que não haja muitos interessados em conhecer a verdade em toda a sua extensão. Há por aí muitos espíritos arrebatados aos quais interessam apenas meias verdades e as verdades reveladas por determinadas personagens. “O que se passou na selva, deve ficar enterrado na selva”, terá dito Ingrid. Provavelmente, porque sim.

Verdade e mistério, cá para mim, nunca andaram de mãos dadas.

Certo, certo, é que acerca de Guillermo Rivera Fúlquene nem uma palavrinha, nos sítios do costume.

terça-feira, julho 15, 2008

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 23 de Maio de 1994 – Todos os anos, em Maio, me reencontro com Cesário Verde. Grato reencontro, diga-se, porque me permite falar do maior poeta português do séc. XIX, e, quiçá, um dos maiores da nossa História da Literatura.
Ouve-se dizer, com alguma frequência, que Portugal é um país de poetas. Não compartilho desta opinião, que rejeito totalmente, porque no século passado só temos quatro nomes para reter: Garrett, Antero, António Nobre e Cesário Verde. Então parece-me mais adequado falar-se de país de versejadores. Mas é de Cesário que quero falar.
Foi curta a vida de José Joaquim Cesário Verde. Decerto, porque Deus não podia dispensar, junto de si, a voz pouco hierática do autor d' O Sentimento dum Ocidental, para que tudo no céu continuasse eternamente equilibrado. Deixou, contudo, marcas indeléveis na sua passagem breve pela Terra. O Cesário se haveriam de referir dois dos heterónimos de Pessoa: Campos e Caeiro. Um para lhe chamar «Mestre»; o outro, para lhe lamentar a desgraça de ser um camponês preso na cidade, ainda que nela pudesse deambular em liberdade, mais palavra menos palavra.
Ambos tinham razão: sem Cesário não tinha existido Campos tal como o conhecemos; e na verdade, Cesário, o mais citadino dos nossos poetas oitocentistas, amava o campo e a vida em contacto com a Natureza. E á à luz da dicotomia campo/cidade, notada por David Mourão-Ferreira, que é verdadeiramente produtivo ler a poesia de Cesário.

sexta-feira, julho 11, 2008

A PÁTRIA (IN)GRATA

Republicação


Pertenço a uma geração

Que tudo deu à pátria
E da pátria só agravos recebeu.
Nasci sob a pata e a bota
Do déspota de Santa Comba;
A Angola fui parar,
Longe da pátria e dos meus;
E lutei pela democracia
E por uma pátria fraterna.
Rapazes de cueiros dizem agora
Que gozo de muitos privilégios.
E eu digo (lhes) livremente:
A puta que os pariu!
A puta que os pariu!

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 11 de Julho de 2008 – Grande e sonorosa foi a solidariedade manifestada a favor de Ingrid Betancourt. Dir-se-ia que o mundo inteiro de uniu (não para tramar como cantou Rui Veloso) para libertar a antiga senadora colombiana, que as FARC mantiveram cativa durante anos.

Soube, entretanto, que Guillermo Rivera Fúquene, comunista e dirigente sindical “dos funcionários da autarquia” de Bogotá, desapareceu em 22 de Abril último, dele se desconhecendo o paradeiro.

Se o mundo fosse um espaço limpo, todos aqueles que exigiram, justamente, a libertação de Ingrid Betancourt, deveriam agora exigir que sejam feitos todos os esforços para encontrar Guillermo Rivera Fúquene, questionando o poder instituído em Bogotá e o presidente Álvaro Uribe.

Vamos esperar para saber se a generosidade de muitos dos nossos escribas dos jornais e dos “blogues” esbarra no preconceito ideológico. Estou convencido que Guillermo Rivera Fúquene não vai contar com tantos empenhos. E no fundo, é tão-somente um colombiano, tal como Ingrid Betancourt, distinguindo-o apenas as particularidades de ser comunista e dirigente sindical.

Quem vai chorar o pai da pequena Chiara Rivera?

terça-feira, julho 08, 2008

NÃO ME VENHAM DIZER A MIM

Não me venham dizer a mim
Que já não há milagres!...


Inda no pretérito domingo,
O milagre aconteceu,
Quando à infância regressei,
No sabor dum damasco.


Foi na Mata,
Onde os damascos
São suculentos e doces
Como as laranjas de Jafa.


Não me venham dizer a mim,
Que já não há milagres!...

sábado, julho 05, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 5 de Julho de 2008 – O PCP tem sido desancado na blogosfera, pelos votos que não vota e pelas solidariedades que teima em manter, no plano internacional. Dir-se-ia que o PCP se põe a jeito, amiúde, para que a direita lhe caia em cima.

A longevidade e a força do PCP advêm-lhe do seu passado de coerência e da forma como sempre soube defender os interesses das camadas mais desfavorecidas da nossa população. Graças à acção do PCP, o tal partido que defende sempre o que está, no dizer da direita, é que os trabalhadores portugueses vão tendo alguns direitos. Tivesse o PCP capitulado como o espanhol, o francês e o italiano, nomeadamente, e tudo seria ainda mais negro neste canto à beira mar.

Eu sei quão difícil é a solidão das pessoas e das instituições; porém, mais vale estar sozinho do que mal acompanhado, como diz o ditado popular. Por isso mesmo, há que ter muito cuidado na escolha das companhias. A Coreia do Norte, a China, Angola e as colombianas FARC, não são propriamente amigos estimáveis. Como não o foram noutros tempos a URSS e os países que viviam sob a sua influência. O PCP pagou e continua a pagar um preço muito elevado pelas suas lealdades passadas e presentes.

No plano mundial, a esquerda atravessa uma crise grave e complexa. A direita, que hoje também engloba os partidos sociais-democratas, governa o mundo e fê-lo regredir, no campo social, dezenas e dezenas de anos. Dir-se-ia que as grandes conquistas civilizacionais do século XX, ruíram de um momento para o outro e sem que tenhamos consciência de tal facto; por conseguinte, há que pegar nas antigas bandeiras e em bandeiras novas e pugnar por um mundo mais favorável para quem trabalha. E é no plano estritamente nacional que devemos concentrar os nossos esforços.

No plano internacional, às vezes inventamos amigos que só servem para nos complicar a vida. Certas ligações perigosas, roubam-nos os argumentos contra os nossos adversários e inimigos.

sexta-feira, julho 04, 2008

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 13 de Maio de 1994 - Em 1972, quando vim frequentar o 1º ano do Instituto Comercial de Lisboa – e já depois de ter vivido vinte e um meses em Paris -, sentia um enorme prazer em caminhar a pé pelas ruas da cidade. Sentia, nesse tempo, uma vergonha muito grande por conhecer melhor Paris do que Lisboa. Estabeleci roteiros, que cumpria religiosamente, e mantive este interesse muito vivo durante meses.

Vi o Tejo do Alto de Santa Catarina, já sem os grandes paquetes de outrora, e reflecti muito acerca da guerra colonial. Porque nunca dissociei o Tejo, ao qual Garrett chamara o Nilo Português, das nossas venturas e desventuras colectivas. Calcorreei as ruas e ruelas dos bairros pobres, nomeadamente as do Bairro Alto, onde tomei contacto com uma humanidade outra, carregada de amarguras e sordidez. Frequentei cafés e outros lugares públicos, que era usual serem frequentados por figuras maiores da nossa literatura.

Recordo-me de, num sábado à tardinha, quase ao anoitecer, ter entrado com o Albano Melo Matos no Martinho da Arcada e de ter perguntado ao empregado pelo senhor Pessoa. Respondeu-me correctamente que ainda o não tinha visto naquele dia. Horas depois ainda nos ríamos a bandeiras despregadas, por entre copos de cerveja. Persegui José Gomes Ferreira, no Chiado, na mira de meia dúzia de palavrinhas. O Poeta Militante gozava, então, de uma popularidade imensa entre a juventude. Os seus poemas eram recitados à mesa do café e funcionavam como senha e santo para desancar no regime e nos esbirros que o serviam. Os poemas do “Diário dos Dias Cruéis” (Poesia II) exerceram sobre mim um enorme fascínio.

Relativamente a Gomes Ferreira, quero aqui lavrar o meu protesto pelo ostracismo a que as novas gerações o têm condenado. Nomeadamente, os doutos professores de literatura que fazem crítica e poemas e se elogiam mutuamente, num ritual indecoroso. Porque Gomes Ferreira, que atravessou o séc. XX, de pé e como homem livre, voz original e solidária da poesia portuguesa, não merecia uma tal injustiça. As suas metáforas e imagens, profundamente ligadas ao quotidiano do seu povo, são, porventura, das mais arrojadas do século.

Lisboa era ainda uma cidade convivente. Os amigos encontravam-se com frequência nos cafés, para dois dedos de conversa e uns copinhos de cerveja. É dessa cidade, ferida por uma guerra colonial imbecil e espiada nas suas esperanças mais legítimas, que guardo as melhores recordações. Embora seja impensável, mesmo em tese, voltar a viver esses dias de chumbo.

*

segunda-feira, junho 30, 2008

DO MEU DIÁRIO

Sacavém, 30 de Junho de 2008 – O rei de Espanha, ou das Espanhas, ontem, não tomou parte na peleja, em Viena. E nem sequer, através de um plebeu telemóvel, comandou as suas tropas. Delegou esta suprema competência no condestável Luís Aragonês, que dirigiu o minúsculo exército espanhol, que derrotou a poderosa Alemanha, mas que tinha igual número de guerreiros.

No final da batalha, que a Espanha ganhou com indiscutível galhardia, não havia baixas a lamentar e as bandeiras de Espanha foram saiotes e camisas que os moços vencedores ousaram usar com patriótica alegria.

O rei de Espanha, e de uma parte significativa dos espanhóis, porque há quem diga que os nossos “hermanos” são maioritariamente republicanos, ainda que “juancarlistas”, sem arnês, sem cavalo e sem lança ganhou a batalha; e, ao lado de Platini, cumprimentou, um a um, os vencidos e os vencedores, num gesto de grande magnanimidade.

Casilhas, o grande capitão, teve o privilégio de ser publicamente osculado pela rainha, grega como o Zorba, e que os espanhóis muito amam, num gesto provavelmente irrepetível. É que não é todos os dias que a grande poesia futebolística se exibe nos grandes palcos do mundo. Jorge Valdano deve ter vertido uma lágrima comovida.


sábado, junho 28, 2008

DO MEU DIÁRIO (NOTA AOS LEITORES)

Santa Iria de Azóia, 28 de Junho de 2008 - Provavelmente, o meu texto de anteontem, no qual dava conta do relançamento da PORTUGÁLIA, criou algum mal-estar entre os meus poucos leitores e amigos.
Retirei o texto, porque prezo a amizade acima de tudo; e, também, porque deixei claro, desde o início, que este "blogue" não seria o espaço da ofensa ou da pura maledicência. Creio que não disse nada de extraordinário acerca do poeta António Salvado, de quem não sou amigo, mas que conheço há décadas. Tenho por António Salvado, poeta, o maior respeito e admiração.
Quanto ao ter-se enterrado em Castelo Branco, acho que a metáfora, valendo o que vale, quer apenas significar o seguinte: se António Salvado não tivesse optado por viver em Castelo Branco, seria, seguramente, um poeta muito mais divulgado e conhecido a nível nacional. Os meios bem informados conhecem-no, mas não dão à sua obra o relevo merecido. António Salvado, na minha humilde opinião - e só enquanto poeta -, paga o preço da chamada interioridade.
Quanto ao resto, quis apenas dar importância ao facto de ter conhecido um homem jovem e dinâmico, em que, tal como em mim, o tempo decorrido, entretanto, deixou marcas profundas. Mas dizer isto, não será quase um lugar comum?
Agradeço os comentários do Anónimo, do Zé Ribeiro e da Maria José, que arquivei, no meu Diário.

sexta-feira, junho 27, 2008

SANTA IRIA DE AZÓIA

Vista do Castelo de Pirescoxe
Parque Urbano

Jardim de Via Rara


Jardim Ary dos Santos


A vila de Santa Iria
Até parece um jardim.
Antes de Abril, quem diria
Que havia de ser assim?

No centro do casario
Há um jardim bem tratado,
Onde ao vento, à chuva e ao frio,
Resiste Ary inconformado.

É na Xico Xavier
E tem árvores frondosas.
Sempre pronto pr’ acolher
As pessoas mais idosas.

O parque de Via-Rara,
É bonito o ano inteiro.
Obra cara? Muito cara,
Mas vale todo o dinheiro.

O inda moço Parque Urbano,
Onde era a grande lixeira,
Se não sofrer nenhum dano
Vai ser ‘spaço de primeira.

As árvores já plantadas
Hão-de boa sombra dar,
Pra quem fizer caminhadas
E lá quiser descansar.

Pirescouxe é um lugar
Com um bonito castelo.
E eu com tão pouco vagar
Pra fruir o puro belo.

O verde de tantos tons
Torna o sítio amoroso.
E há os canoros sons
Que me dão sossego e gozo.

Terra de trabalho e paz
Santa Iria sabe dar
Ao idoso e ao rapaz
Espaços para repousar.

quarta-feira, junho 25, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 24 de Junho de 2008 – Ainda que o “rendez-vous” estivesse marcado para o fim da manhã, levantei-me cedo. Levanto-me sempre cedo, quando os assuntos são inadiáveis e importantes. E de há algum tempo a esta parte, tudo me parece importante e inadiável.

Deixei a “Z”, em Sacavém, e rumei até ao Calvário, que, em princípio, seria o meu destino. Seria, mas não foi, porque decidi ir até ao Palácio Nacional da Ajuda, para visitar a exposição sobre a vida e a obra de Saramago, que tem por título “A CONSISTÊNCIA DOS SONHOS”.

Esta visita fazia parte dos meus planos e por várias razões, entre as quais destaco: gosto do autor, cuja obra conheço razoavelmente; gosto do autor, porque tem dado voz a grandes causas; gosto do autor por oposição a certa canalha que por aí pulula, em permanente guerra civil; gosto do autor que nunca renegou o seu passado e ainda sustenta que “ O pior do 25 de Abril foi o 25 de Novembro”; gosto do autor que foi o aluno n.º 599 da Escola Industrial Afonso Domingues, no ano lectivo de 1939-1940; gosto do criador de João Mau Tempo, Blimunda e Baltazar, Lídia e Marcenda, Marta Algor e muitos outros.

Como ainda não tenho a provecta idade de 65 anos, paguei, para ver, a módica quantia de três euros. A muitos outros dou pior aplicação.

segunda-feira, junho 23, 2008

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 23 de Junho de 2008 – Foi num dia 24, mais concretamente, no dia 24 de Julho de 1965, que um tal José de Sousa Saramago assinou um contrato com a Portugália Editora, tendo em vista a publicação da narrativa A Conta do Tempo.

Registe-se a coincidência do 24, que é dia de S. João, e façamos força para que amanhã seja um dia duplamente inaugural e venturoso, quer para a nova Portugália, quer para os seus autores. Nomeadamente, para o Daniel Abrunheiro, que neste recomeço vai publicar prosa.

FUTEBOL

Os moços do futebol
Amam muito Portugal
E adoram o carcanhol
Do Inter e do Real.

Eu não sou apaixonado
Pela lusa selecção,
Mas sofro sempre um bocado
Por cada eliminação.

Fazem dos putos heróis
Os jornais e a tel’visão.
Vão é pastar caracóis,
Que já nos sobra a ilusão!

Agora é que vai! É a hora
Por que Portugal anseia.
No final, tudo piora;
Lá se vai o pé-de-meia,

Que é esta capacidade
Pr’ acreditar e sofrer.
Meu Portugal, na verdade,
Não tem sina de vencer.

Vem um Scolari qualquer
E entrega-lha o coração.
A vontade de vencer
Vai-lhe turvando a razão.

sábado, junho 21, 2008

CANTIGA DE AMOR E SAUDADE

Por estes campos sem fim,
onde a vista assi se estende,
que verei, triste de mim,
pois ver-vos se me defende?


Todos estes campos cheos
são saudade e pesar,
que vem para me matar
debaixo de céus alheos.
Em terra estranha e em ar,
mal sem meo e mal sem fim,
dor que ninguém entende,
até quam longe se estende
o vosso poder em mim!


Sá de Miranda, POESIAS ESCOLHIDAS, Ed. Sá da Costa

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 21 de Junho de 2008 – Problemas vários do foro pessoal têm-me impedido de escrever, ou de tentar escrever, com a regularidade habitual. Tudo se há-de recompor e a normalidade há-de vir para ficar.

Terça-feira, o Daniel descerá à grande cidade para a apresentação urbi et orbi do seu romance Terminação do Anjo, que, espero, seja um ponto de partida para uma profícua carreira nas letras em língua portuguesa. Irei à Sá da Costa para testemunhar a minha camaradagem e o quanto acredito no Daniel.

Cultivo a amizade como quem pratica uma religião. Assim ao jeito de um certo Tahar Bem Jelloun.

terça-feira, junho 17, 2008

DO MEU DIÁRIO

Na sessão de lançamento, Bar Património, Castelo Branco
Rebuçados, Caramelos & Sonetos

Na sessão de Lançamento de Rebuçados, Caramelos & Sonetos¹, o seu autor, o poeta João de Sousa Teixeira, que já poderia ter comemorado trinta e cinco anos de vida literária, abordou a sempre interessante questão das catalogações, recusando a sua pertença a qualquer movimento ou corrente. E na verdade, penso que é difícil atribuir um “ismo” qualquer a este poeta, que iniciou a sua carreira, se é que assim nos podemos expressar, no longínquo ano de 1972, com RO(S)TOS DO MEU PAÍS. Porém, a epígrafe inicial do livro, colhida no alfobre de Nicolau Tolentino de Almeida e um soneto intitulado “Alexandre O’Neil”, parecem constituir uma pista para a feitura de uma árvore genealógica, que, creio, João de Sousa Teixeira não desdenharia.


Já alguém catalogou João de Sousa Teixeira como o poeta do “coisismo”, numa recensão a Alegria Incompleta², na revista “Colóquio Letras”. Confesso que não me agrada aquele vocábulo, ainda que compreenda as razões de Fernanda Botelho. Tal como Cesário Verde, que os seus contemporâneos não chegaram a conhecer, este poeta albicastrense encontra a sua matéria-prima no real, e, à semelhança do poeta oitocentista, confere dignidade poética a coisas e temas que, habitualmente, andam arredados da poesia. Um dos sonetos deste livro tem mesmo o título “Cesário Verde” e tal não terá acontecido por obra do acaso.


A ironia e o sarcasmo, abundantemente documentados em Rebuçados, Caramelos & Sonetos, constituem como que a matriz de toda a poesia de JST. Atente-se, a título de exemplo, no poema “ACTO(R) POLÍTICO, que aqui deixo reproduzido e veja-se como o anafórico “um” (pág.12), numa espécie de charada, corresponde a um longo e veemente torcer o nariz àqueles que se dedicam à política:


ACTO(R) POLÍTICO


Um mau actor não é um bom político.
Um mau político não é um bom autor
Um bom actor não é um mau político.
Um bom político não é um mau autor

Um bom político é um bom autor.


Notas (1) Edição de rvjeditores, Castelo Branco, Junho de 2008.
(2) Vega, Lisboa, 1988.


segunda-feira, junho 16, 2008

SILVES


Vou a Silves este Verão
Pra subir o rio Arade.
Vai ser grande a emoção
Quando chegar à cidade,

Onde Al Mu’tamid, poeta,
Cantou as lindas gazelas
E com carinhosa seta
D’amor feriu muitas delas.

Quero andar pela cidade
E auscultar-lhe o coração.
Que esta moura ainda há-de
Dar-me, alegre, a sua mão.

Há-de ser neste Verão,
Que eu já morro de saudade.
Meu amor virou paixão,
Bela paixão, na verdade.

domingo, junho 15, 2008

DO MEU DIÁRIO

Centro da cidade
Castelo Branco, 15 de Junho de 2008 – A Mata é cada vez mais uma obsessão. Não, não é só o facto dos meus pais ainda lá viverem. Pressinto assim como que um chamamento, uma vontade enorme de ir e permanecer, a necessidade daqueles sons e odores. No fundo, ir à Mata é o reencontro com a minha natureza mais profunda.

O lançamento do livro do João Teixeira, Rebuçados, Caramelos & Sonetos, decorreu dentro daquilo que era espectável: uma apresentação condigna a cargo da Professora Maria de Lurdes Barata e meia dúzia de palavras do autor, dentro daquele seu jeito já tão antigo e peculiar. Esperava ter encontrado por lá mais algumas caras conhecidas.

Quem não faltou foi o Carlos Vale e o Xico Zé, que, como é hábito, teimam em primar pela presença nestes eventos. Também são estes actos de camaradagem que conferem sentido e espessura humana às nossas vidas. Há, na verdade, mais vida para além da política, ainda que esta se insinue em todos os nossos actos.

O Bar Património, ali paredes-meias com a Praça Velha, é um espaço simpático e parece-me adequado para eventos desta natureza. Pele leitura atenta da bibliografia, verifiquei que o João não publicava versos, em livro, desde 1991, ainda que Mar de Pão, de 2003, seja uma belíssima narrativa, onde o lirismo e o épico andam de mãos dadas.

Constatação das constatações: o tempo voa, meus senhores!




sábado, junho 14, 2008

JOÃO DE SOUSA TEIXEIRA

Decorreu esta tarde, a apresentação do livro de poesia Rebuçados, Caramelos & Sonetos, da autoria de João de Sousa Teixeira, no Bar Património, em Castelo Branco. A apresentação esteve a cargo da Professora Doutora Maria de Lurdes Barata.
Aqui fica um poema, em três andamentos, ainda que não tenha pedido "com licença" ao autor e à RJVEditores:
TRÊS POR TRÊS
OITAVA MARAVILHA
Eis como a oitava maravilha se anuncia:
a quinta emenda, a sexta esquadre
e o heróico sétimo de cavalaria.
COMUNIDADE EUROPEIA
As voltas que nós demos por este passaporte.
Agora, é só seguir a boa estrela, que, se deus existe,
há também uma CEE para além da morte.
AS NÓDOAS
Umas são negras (como no dorso das andorinhas)
outras têm cores tão angelicais,
que sem óculos tridimensionais, não adivinhas.
Do livro falarei, quando o ler com a devida atenção.

sexta-feira, junho 13, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 13 de Junho de 2008 -Compartilho da opinião de que a oposição, na sua totalidade, deveria ser veemente na condenação dos camionistas, que, usando e abusando da sua força efectiva, puseram a nu a fraqueza do poder legítimo do país, quer gostemos dele, quer o detestemos. Muitas foram as vozes que se ergueram neste sentido.

Porém, seguindo a lógica da responsabilização da oposição, também os governos – nomeadamente quando detém maioria absoluta -, deveriam chamar mais vezes a oposição a dar o seu contributo para a feitura das leis e para a resolução dos problemas do país. Aquando das manifestações dos professores, os paladinos da responsabilização assobiaram para o lado. E para o lado assobiam, quando estão em causa direitos fundamentais dos trabalhadores.

Dir-se-ia que se usa de dois pesos e duas medidas, quando a questão é mais séria e o regime fica mais vulnerável. Descobre-se então, subitamente, que a oposição deve colaborar na busca de soluções, e, sobretudo, condenar as acções que possam pôr em causa o poder instituído. É uma visão totalitária do problema, porque não está provado, nem jamais será provado, que este modelo de regime nos há-de governar até ao fim do mundo. Mormente, quando alguns dos detentores do mando usam este a seu bel-prazer, espezinhando os mais fracos, subtraindo-lhes direitos arduamente conquistados. E tudo em nome de um deus sem princípios, mas efectivamente maior, que dá pelo nome de mercado.

Não me venham com a treta de que nada há a fazer no comércio dos combustíveis. Vontade houvesse para refrear os especuladores parasitas e outro galo cantaria. Mas esta é a lógica deste totalitarismo outro em que efectivamente vivemos, globalmente falando.

quinta-feira, junho 12, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria (vista do castelo de Pirescoxe)


Oeiras, 9 de Junho de 2008 – José Gomes Ferreira, Zé Gomes para os amigos, completaria hoje a bonita idade de cento e oito anos. Nasceu a 9 de Junho de 1900, na Rua das Musas – o que não deixa de ser premonitório –, na cidade do Porto. Mas cedo veio para Lisboa e foi na capital do reino – nesta cidade a quem o Tejo, lambe os pés, ternamente –, que se fez Homem e um dos poetas mais peculiares do seu tempo.

Eu revisito amiúde os poetas e os prosadores que mais amo ou amei. E José Gomes Ferreira, de quem tenho toda a poesia publicada, em mais do que uma edição, encontra-se no rol dos meus eleitos. Nunca chegámos à fala, apesar de o ter esperado durante horas, na Sociedade Recreativa e Musical 1º de Agosto Santa Iriense, no final dos anos setenta do século passado, para uma sessão cultural dedicada à literatura. Viria de Alhandra, a toureira, no dizer bem-humorado de Garrett, mas não veio. Do grupo só apareceu Arquimedes da Silva Santos, grande homem, médico e poeta, que pertenceu ao grupo do Novo Cancioneiro. E que tem vivido sempre na Póvoa de Santa Iria, no incontornável concelho de Vila Franca de Xira.

E tudo isto, para vos dizer que nasci 52 anos, exactamente cinquenta e dois anos, depois de José Gomes Ferreira. Numa segunda-feira, já o sol ia alto, no dizer de minha mãe.

Dia de chuva, curiosamente
!

segunda-feira, junho 09, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 9 de Junho de 2008 – Minha mãe, naquela sua voz doce, dizia-me:”Hoje fazes anos, filho”. E eu fazia anos. E a vida corria, com as brincadeiras quotidianas, quase sempre as mesmas, sem festas ou quaisquer outras manifestações familiares ou de amigos. No fundo todos fazíamos anos e ninguém fazia anos, no sentido em que hoje se faz anos.

E nem por isso a minha infância foi menos feliz. Ainda hoje oiço a vozearia dos rapazes e das raparigas da minha aldeia, onde nada acontecia, para além das nossas brincadeiras pueris, tais como o eixo-ribaldeixo, a raposinha e as corridas com arcos ou com as jantes velhas das velhas pasteleiras.

E o tempo fluía, sem festas nem abundâncias, mas plácido e feliz, no nosso mundo, que era pouco mais do que as duas ruas e as nove casas do poema do Manuel da Fonseca.




domingo, junho 08, 2008

DO MEU DIÁRIO

Charneca da Cotovia, 7 de Junho de 2008 – Gosto muito do desporto, em geral, e, do futebol, em particular. Porém, nunca o futebol se há-de sobrepor, na minha mente, aos grandes problemas com que a sociedade portuguesa se debate, no momento que passa. Nomeadamente, os decorrentes das chamadas grandes reformas deste (des) governo e que passam por um ataque em forma e em força aos direitos dos trabalhadores portugueses, que tanto custaram a conquistar, antes e depois de Abril de 1974.

No momento em que o (des) governo do senhor eng.º parece estar encurralado, após a manifestação de quinta-feira passada, em Lisboa, e a marcha dos camionistas, ontem, na cidade do Porto, o fenómeno desportivo vai jogar a favor do ministro dos pobrezinhos, do chefe do ministro dos pobrezinhos, do senhor Vitalino Canas e do senhor Lelo e também do senhor Alberto Martins, que serão todos pessoas muito estimáveis, uns mais do que outros, mas eu aqui não quero meter o bedelho, porque quem os conhece bem é o senhor Manuel Alegre.

Ora dizia eu que o fenómeno futebol vai jogar a favor do governo, porque as televisões, todas sem excepção, dão mais importância ao futebol e às manas do Cristiano Ronaldo e à dona Meira e à dona Sabrosa e às outras donas, que acabam por ter mais protagonismo que Maria Cavaco Silva, cujo marido teve a honra de receber os craques do chuto na bola, em cerimónia no Palácio de Belém, como se a ida à fase final do campeonato da Europa de futebol fosse o desígnio dos desígnios nacionais. Eu estou mesmo convencido de que Vasco da Gama não teria cobertura televisiva tão abundante, se televisão já houvesse, naquele ano de 1497, 7 Julho, quando partiu para a Índia.

A vitória desta noite sobre a Turquia vai fazer esquecer os verdadeiros problemas nacionais e o senhor eng.º vai pedir aos seus santinhos todos, transmontanos e beirões, para que ajudem Portugal a vencer a República Checa, na próxima quarta-feira, porque as televisões trar-nos-ão narrativas e mais narrativas de gosto duvidoso, contribuindo para a alienação da lusa gente. E assim, enquanto largos milhares de portugueses se vão manifestar contra as políticas ruinosas dos sucialistas; outros manifestar-se-ão para celebrar os feitos desportivos da selecção comandada pelo brasileiro Scolari.

Já é quase uma da manhã. Da televisão chega-me a notícia de que a selecção está a chegar a Neuchatel e que é esperada por cinco mil portugueses. Já que não podem atirar com boas marcas de relógios nacionais à cara dos suíços, há que chateá-los com barulho e com os festejos da vitória frente à Turquia. Cantem-lhes mil vezes a “Portuguesa”, assim como quem grita, aquela parte do “às armas!”, “às armas”, que até pode acontecer que se borrem todos e fujam para outro cantão qualquer e os portugueses possam conquistar e fazer portugueses o cantão e a cidade de Neuchatel.

O fenómeno não é exclusivo dos portugueses. É europeu. É um sinal dos tempos que correm. Infelizmente.



sexta-feira, junho 06, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 6 de Junho de 2008 – Afinal de contas, o senhor primeiro-ministro é uma pessoa sensível. Não o será a muitas coisas, mas é-o a algumas e isto basta para o excluirmos da categoria dos caras-de-pau.

Ontem, duzentos mil portugueses manifestaram-se, em Lisboa, contra a versão socialista do Código do Trabalho, contra o pacote anti-funcionários públicos, nomeadamente. E por acréscimo, contra esta política ruinosa para o mundo do trabalho. Que as políticas têm sempre beneficiários e vítimas.

Desde Novembro de 1975; portanto, há trinta e três anos, que os sucessivos governos, ora o do Sancho Pança, ora o do Sancho Pança, ou coisa que os valha, que governam sistematicamente contra os trabalhadores, num contínuo aterrador. A pedido dos patrões, os (des) governos da ditosa pátria elegeram sempre como vítimas os mais fracos.

Ficámos a saber, embora saibamos que é despudorada mentira, que ao ministro dos pobrezinhos tanto impressiona uma manifestação de mil como de um milhão de manifestantes. Nós sabemos que não é bem assim, mas uma vez feito o mal, este fica feito e as costas da responsabilidade política são muito largas.

E nós que queríamos crer que este senhor Vieira da Silva era melhor do que alguns dos outros!

Quanto ao chefe do ministro dos pobrezinhos, ficámos a saber que não é sensível a manifestações mas sim a argumentos. Balelas!!! Que mais argumentos quererá o senhor, para concluir que as suas políticas são ruinosas para o país?

Aos duzentos mil de ontem, em Lisboa, duzentos mil se seguirão, dia 28, por Portugal inteiro. Porque é de portugueses inteiros que se faz um Portugal inteiro. Este Governo, eleito por uma maioria, neste momento é um governo de facção. È o governo dos ricos e dos poderosos.

quinta-feira, junho 05, 2008

ANTONIO MACHADO

GALERÍAS
POEMA LXXIX

Desnuda está la sierra,
y el alma aúlla al horizonte pálido
como loba famélica. Qué buscas,
poeta, en el ocaso?
Amargo caminar, porque el camino
pesa en el corazón. ¡ El viento helado,
y la noche que llega, y la amargura
de la distancia !... En el camino blanco
algunos yertos árboles negrean ;
en los montes lejanos
hay oro y sangre… El sol murió… Qué buscas,
poeta, en el ocaso?

terça-feira, junho 03, 2008

NUM INVERNO FRIO, EM BRAGA

5 QUADRAS
A Frei Perdigão


Num Inverno frio, em Braga,
Causou-me admiração
Ver sem meias e em sandálias
O rijo frei Perdigão,

Que ouvia com atenção
Os relatos das doenças
E abria seu coração
Sem pensar em recompensas.

Preparava aloés vero
Com tal carinho e rigor
Que vi no bom frade austero
Um retrato do Amor.

Feita a singela mistura
Dava sábias receitas,
A quem procurava a cura
De pavorosas maleitas.

Um dia, a Braga irei
Visitar Frei Perdigão.
Quando? Ainda não sei.
Num dia de Inverno, não!


segunda-feira, junho 02, 2008

FEDERICO GARCIA LORCA

CANCIÓN DE JINETE

CÓRDOBA.
Lejana y sola.

Jaca negra, luna grande,
y aceitunas en mi alforja.
Aunque sepa los caminos
yo nunca llegaré a Córdoba.

Por el llano, por el viento,
jaca negra, luna roja.
La muerte me está mirando
desde las torres de Córdoba.

¡Ay qué camino tan largo!
¡Ay mi jaca valerosa!
¡que la muerte me espera
antes de llegar a Córdoba!

Córdoba.
Lejana y sola.