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sexta-feira, setembro 26, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 26 de Setembro de 2008 – Falei há momentos com o poeta Daniel Abrunheiro – o que acontece agora com alguma regularidade –, a quem perguntei se conhecia o pintor viseense Luís Calheiros. Que sim, que conhecia e que até frequentam o mesmo café. Com um bocadinho de sorte, ainda vou retomar a conversa com o Calheiros, que interrompemos no final da nossa estada no SISMI, na bonita cidade de Tavira.

Conhecemo-nos nas Caldas da Rainha, no antigo Regimento de Infantaria -5, no Outono de 1973. Fomos da mesma companhia e, apesar de não sermos do mesmo pelotão, tínhamos uma relação de camaradagem muito estreita. O Luís dormia muito e por isso mesmo ficava sujeito a algumas patifarias de instruendos mais divertidos. Ali conhecemos e fomos amigos do pintor Aurélio Veloso, instruendo como nós, que havia de desertar das fileiras meses depois. Ainda me enviou de Braga, donde era natural, um trabalho seu, que guardo religiosamente. Nunca nos voltámos a reencontrar.

Em Tavira, o Luís Calheiros arrendou quarto junto ao Gilão, na margem esquerda. Ali nos encontrávamos para conversar e para as saídas de fim-de-semana. Foi naquele quarto que o Luís Calheiros fez uma caricatura da minha pessoa, que baptizou de “projecto para um pisa-papéis” e que eu guardo, numa moldura, com fé idêntica, à do trabalho do Aurélio Veloso.

Pela mão do Daniel, um dia destes, vou mostrar a caricatura ao Luís.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 14 de Janeiro de 2008 – É raro mas acontece: almocei sozinho no “Tico-Tico”. E precisamente, porque, às treze e trinta, me apeteceu almoçar sozinho. Há dias em que não tenho nada para partilhar e uma refeição deverá ser sempre, no meu modesto entender, um momento de partilha.

O facto de ter almoçado sozinho não tem nada de dramático. Conheço os empregados, com quem troco amiúdo algumas palavras de circunstância, que me criam a ilusão de estar acompanhado. Eu gosto e procuro ter tempo para falar com os meus botões.

Entre o croquete com sabor a cominhos e um gole vinho e a chegada da vitela barrosã – será que a vitela é mesmo barrosã? - ainda oiço, sem querer, a conversa mais ou menos escatológica de dois octogenários, que pelos vistos gostam de comer bem e viajar. Devem ser ambos viúvos e sportinguistas.

Enquanto mastigava e deglutia a dita vitela barrosã, reparei nos filetes que um casal jovem comia na mesa do lado direito e lembrei-me do arroz de pimentos encarnados que a minha mãe fazia para acompanhar o chicharro frito às postas fininhas e que era uma coisa do outro mundo. Qual sável e qual açorda?! O arroz de pimentos encarnados, cozinhado a lenha, acompanhava na perfeição o prosaico chicharro, que era dos poucos peixes que chegavam à Mata nos anos cinquenta e sessenta do século passado.

Será que acompanhado teria rememorado o feliz arroz de pimentos encarnados que a minha mãe fazia para acompanhar o prosaico chicharro fritos às postas fininhas?