quarta-feira, maio 07, 2008


Lisboa, 7 de Maio de 2008No Maio de 68, estava à espera de fazer dezasseis anos e vivia, feliz e sem grandes sobressaltos, no nº 21 da Rua de Santo António, na pacata cidade de Castelo Branco. Frequentava o curso Geral do Comércio, jogava à bola em vários sítios com a maralha da escola e matraquilhos, na quelha das traseiras do café Lusitânia, que naquela época era frequentado pelas putas da cidade. E bilhar também, nessa grande escola que era o salão de jogos do Arcádia.

Meu pai, que já fizera a sua estreia como emigrante, em França, regressara a Portugal; porém, no princípio do ano seguinte havia de voltar de novo àquele país, onde permaneceu até ao Verão de 73. Minha mãe, que nunca temeu o trabalho, tinha vários hóspedes ao seu cuidado e ainda fazia umas horitas, aqui e ali, para aconchegar o orçamento familiar. Eu já frequentava a JOC, onde conheci excelentes padres e aprendi a jogar ténis de mesa.

Os relatos do Maio de 68, que ouvia na rádio, enchiam-me de alegria. Mas esta alegria radicava mais numa genuína vontade de ver o mundo de pantanas do que numa consciência política, que, efectivamente, não tinha. Ouvia as notícias com o mesmo entusiasmo com que lia os libérrimos livros do Vilhena, que a brigada “Patilhas-Ventoínhas” apreendia no Vidal, onde trabalhava o meu amigo Zé Fernandes.

O ano seguinte, esse sim, havia de ser determinante na minha vida, como determinante foi para milhares e milhares de portugueses. As eleições de 69 para a Assembleia Nacional, e a consequente mobilização levada a cabo pela CDE, deram um novo e decisivo rumo à minha vida.

Porém, como cantou a Piaff, “Je ne regrette rien!”.

terça-feira, maio 06, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 5 de Maio de 2008 – Ainda ontem escrevi que não me importava nada que o barco PP-PSD naufragasse, mas já sem tripulantes a bordo, obviamente. Como sei que se vai aguentar à tona de água, por enquanto, tenho para comigo que o melhor candidato é o jovem Passos Coelho.

Passos Coelho tem aparecido na SIC-Notícias, num programa informativo chamado “Frente-a-Frente”, e tem-se saído bem. Não exibe arrogâncias tolas e parece conviver bem com os adversários. Não possui a verve de Miguel Relvas, nem a pose pseudo aristocrática de Ângelo Correia, nem o calculismo do insular Guilherme Silva. Parece-me, assim, uma pessoa perfeitamente normal e capaz de levar a água ao seu moinho. O único senão é ser afilhado de Ângelo Correia, um pseudo bizantino da política e grande especialista de tudo e de coisa nenhuma.

De Santana Lopes está tudo dito. Apesar de alguns pressurosos fazedores de opinião e jornaleiros dos jornais lhe augurarem ainda um bom futuro, eu que fui a Delfos, vim de lá com a certeza de que o PPD-PSD o vai colocar onde ele merece estar, ou seja, no antepenúltimo lugar, porque a pessoa em questão, se não fosse tão esdrúxula, já teria deixado de andar por aí, para se refugiar na Figueira da Foz, onde terá feito uma obra excelentíssima.

Queria finalizar com uma espécie de máxima: todos aqueles que por atitudes narcisistas prejudiquem a república, deverão ressarci-la dos prejuízos que lhe causarem. Tenho dito!

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 5 de Maio de 2008 – Ainda ontem escrevi que não me importava nada que o barco PP-PSD naufragasse, mas já sem tripulantes a bordo, obviamente. Como sei que se vai aguentar à tona de água, por enquanto, tenho para comigo que o melhor candidato é o jovem Passos Coelho.

Passos Coelho tem aparecido na SIC-Notícias, num programa informativo chamado “Frente-a-Frente”, e tem-se saído bem. Não exibe arrogâncias tolas e parece conviver bem com os adversários. Não possui a verve de Miguel Relvas, nem a pose pseudo aristocrática de Ângelo Correia, nem o calculismo do insular Guilherme Silva. Parece-me, assim, uma pessoa perfeitamente normal e capaz de levar a água ao seu moinho. O único senão é ser afilhado de Ângelo Correia, um pseudo bizantino da política e grande especialista de tudo e de coisa nenhuma.

De Santana Lopes está tudo dito. Apesar de alguns pressurosos fazedores de opinião e jornaleiros dos jornais lhe augurarem ainda um bom futuro, eu que fui a Delfos, vim de lá com a certeza de que o PPD-PSD o vai colocar onde ele merece estar, ou seja, no antepenúltimo lugar, porque a pessoa em questão, se não fosse tão esdrúxula, já teria deixado de andar por aí, para se refugiar na Figueira da Foz, onde terá feito uma obra excelentíssima.

Queria finalizar com uma espécie de máxima: todos aqueles que por atitudes narcisistas prejudiquem a república, deverão ressarci-la dos prejuízos que lhe causarem. Tenho dito!

domingo, maio 04, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 4 de Maio de 2008 – Costuma dizer o povo que a idade tudo traz. Por isso mesmo, espero que a Dr.ª Manuela Ferreira Leite ressurja com novas e melhores qualidades, para comandar o navio PPD/PSD que tem andado por aí à beira de um naufrágio.

Eu não ficava nada triste se o dito barco naufragasse ou que viesse a naufragar, porque é um barco demasiado caro e é um peso enorme nas contas da marinha. Ficava era com pena daqueles rapazes que teriam de correr a fundar outra coisa ou a inscrever-se noutra coisa mais à direita ou mais à esquerda, o que até não seria mau de todo, porque ajudava a clarear as coisas.

Lembro-me da Dr.ª Ferreira Leite ministra da Educação e também das Finanças, mas não retive nenhuma medida positiva que tenha a marca da sua lavoura. O que sei de fonte segura é que a senhora, que serviu como adjuvante do Dr. Cavaco e também do dr. Barroso (?), ajudou a denegrir de tal forma o funcionalismo público, que nunca mais houve normalidade na Administração. O tal “monstro”, no douto entendimento do Dr. Cavaco, mas que ele fez crescer e engordar durante dez anos, quando a Dr.ª Leite também teve responsabilidades enquanto adjuvante do agora chefe de Estado.

Neste caso concreto sei que o tempo não vai trazer nada de novo. Não espero, portanto, que a Dr.ª Ferreira Leite regresse à política para remediar as malfeitorias que já fez a muitos portugueses. Vai permanecer igual a si mesma, ou seja, dura e inflexível, para que seja tida na conta das pessoas sábias e competentes.

Cá por mim, condenava-a a recitar eternamente o acto de contrição e dispensava-a deste enorme sacrifício.

sexta-feira, maio 02, 2008

DO MEU DIÁRIO

Charneca da Cotovia, 1 de Maio de 2008 – Há, no actual governo da Lusitânia, um senhor de apelido Figueiredo, que é suposto tratar dos chamados funcionários públicos. Tratando-se de alguém que dirige e trata dos funcionários públicos, era natural que tivesse alguma simpatia por esse senhor, porque sou um desses funcionários de quem o senhor anda a tratar.

Acontece, todavia, que não tenho qualquer simpatia por esse senhor de apelido Figueiredo, o que não deixa de ser bizarro, porque, habitualmente, até gosto de alguns patuscos que nos governam. Gosto de um senhor de apelido Pinho e de outro de apelido Lino, que até não são patuscos, um que nos trata da economia e o outro das pontes, dos aeroportos e estradas maiores, que dos chamados caminhos vicinais tratam os presidentes de junta de freguesia. E deste senhor Lino confesso que até gosto muito e talvez o meu gostar radique naquela sua pronúncia da palavra francesa”jamais”, que significa jamais em português.

Eu sei porque não gosto do senhor de apelido Figueiredo e vou dizer porquê. É que o senhor esboça sempre um sorriso, mesmo quando anuncia coisas ruins. Eu até ponho de lado as percentagens que o senhor apresenta nos dias de greve; porém, dizer que é bom aquilo que todos dizem que é mau, é como se eu fosse a Fátima dizer, num dia treze de Maio, à hora das grandes celebrações, que a Nossa Senhora nunca andou por ali e que os santos pastorinhos eram uns putos com mentais perturbações; ou então, entrar num velório a arreganhar a sanfanfarrizófia, que eu não sei bem o que é arreganhar a sanfanfarrizófia, mas ainda hei-de saber, quando me lembrar de perguntar ao meu querido pai, que destas coisas sabe tanto ou mais que o nosso conhecido Francisco Torrinha.

Mas se calhar estou enganado, porque continuo arreigado a velhos princípios, quando tudo recomenda a adesão a princípios novos, ou melhor dizendo, renovados e em sintonia com a marcha inexorável dos tempos, como por exemplo o lambe-botismo, que eu não sei bem o que seja, porque nunca fui praticante, mas que vai grassando na área tutelada por este senhor de apelido Figueiredo. E quedo-me por aqui, com a seguinte pergunta:

QUE TERÁ TUDO ISTO A VER COM O 1º DE MAIO?

segunda-feira, abril 28, 2008

DO MEU DIÁRIO

Charneca da Cotovia, 27 de Abril de 2008 – Os timbres das vozes de Ana Gomes e de Paulo Portas irritam-me; assim como me irritam os estilos Bulhão e/ou Ribeira, quando os utilizadores não possuem a vera genuinidade (passe a redundância).

Era bom que se fizessem todas as discussões; porém, com serenidade e seriedade e com o devido acompanhamento pelo Ministério Público, porque, das duas uma: ou Ana Gomes mente e deve ser responsabilizada ou fala a verdade, e, neste último caso, Paulo Portas não pode andar por aí a pregar aos gentios como o mais impoluto dos cristãos.

O mais natural é que tudo se vá diluindo e se espere que o tempo faça o seu trabalho, ou seja, que cubra os factos passados com um manto de silêncio e tudo se reduza, mais tarde ainda, aos magníficos tratados que os historiadores hão-de escrever, após anos e mais anos de investigação.

Eu não gosto do estilo Ana Gomes, mas era um acto de pura higiene democrática que os órgãos judiciais ajudassem a esclarecer tudo o que a parlamentar europeia vem escrevendo acerca de Portas. Até para que o regime democrático se credibilize e não perpasse pela sociedade a ideia de que os políticos façam o que fizerem, beneficiam de um vasto regime de impunidades.

Eu creio firmemente que Paulo Portas é o principal interessado no esclarecimento de toda a verdade. E vai pedir, obviamente, o levantamento da imunidade parlamentar para que os tribunais possam fazer o seu trabalho.

sábado, abril 26, 2008

25 DE ABRIL SEMPRE

Santa Iria de Azóia, 26 de Abril de 2008 – Há vários anos que não vou às manifestações comemorativas do 25 de Abril. Não é que me tenha desiludido como aconteceu com muita gente, mas penso que há outras formas de comemorar esta data. Tornou-se tudo demasiado repetitivo e previsível.

E depois, também não vou com aquelas figuras mais ou menos emblemáticas que detiveram o poder e o entregaram aos progenitores políticos dos rapazes que agora nos governam.

Bem sei que o regime que hoje nos governa é incomensuravelmente melhor do que o anterior. De resto, o advérbio incomensuravelmente será sempre curto, porque não há comparação possível entre o regime onde desembocou o 25 de Abril e o do antes do 25 de Abril. Só quem tem a memória curta não saberá indicar meia dúzia de razões de tomo para dizer que, apesar de tudo, Abril valeu a pena.

De qualquer modo, aqui deixo as minhas seis razões para dizer “25 de Abril sempre!”: (1) o fim da guerra colonial, (2) o desmantelamento do regime fascista (e das suas estruturas repressivas), (3) a democracia (ainda que excessivamente formal), (4) o poder local democrático, (5) a integração na EU, (6) o progresso material (apesar da acentuação das desigualdades sociais).
25 DE ABRIL SEMPRE!

sexta-feira, abril 25, 2008

25 DE ABRIL

SONETO ESCRITO NA MORTE
DE TODOS OS ANTIFASCISTAS
ASSASSINADOS PELA PIDE

Vararam-te no corpo e não na força
e não importa o nome de quem eras
naquela tarde foste apenas corça
indefesa morrendo às mãos das feras.

Mas feras é de mais. Apenas hienas
tão pútridas tão fétidas tão cães
que na sombra farejam as algemas
do nome agora morto que tu tens.

Morreste às mãos da tarde mas foi cedo.
Morreste porque não às mãos do medo
que a todos pôs calados e cativos.

Por essa tarde havemos de vingar-te
por essa morte havemos de cantar-te:
Para nós não há mortos. Só há vivos.


Ary dos Santos, Obra Completa, Edições Avante.

quinta-feira, abril 24, 2008

DOS LIVROS

1

De e com livros tem sido feita a minha vida:
Bons, maus, e assim-assim.
Neles, aprendi metade do pouco que sei;
Sem eles, não sei dizer o que de mim seria!

Outro homem, decerto, seria…

2

Com Fonseca, Manuel como eu,
No culto das musas me iniciei:
Ainda hoje vejo passar a tuna do Zé Jacinto
E me delicio com as alvas rolas,
Que Maria Campaniça escondia sob a blusa.

Por mil anos que um homem viva
Há metáforas que nunca morrem nem esquecem.

3

A prosa chegou com a colecção seis balas.
Só depois chegou Ferreira de Castro
E o seu casto português.
Fiz-me amigo de Manuel da Bouça e de Ricardo;
E, sobretudo, de Marreta e Horácio.

(E é chegado o momento de dizer,
Que se dane o espanhol que não quer
Referências culturais na poesia.
Que se dane pois o espanhol,
Cujo nome já esqueci).



4

Santareno,
Veio ainda antes de Vicente!
Primeiro, o Édipo de Alfama;
Só depois, chegou o pai de Antígona.

Que milagre terá acontecido?

5

De e com livros tem sido feita a minha vida.

terça-feira, abril 22, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 20 de Abril de 2008 – Cheguei a casa às 6H20, com a chuva a borrifar-me o pára-brisas, permanentemente. Mais do que nunca, o verso de Machado tem plena oportunidade. Um mês de Abril à antiga, fazendo-me recuar aos anos da infância, que foi feliz, apesar das ausências de meu pai, que perseverava em trabalhar longe, para ganhar mais cinco ou dez escudos, quotidianamente.

Torres Vedras é uma cidade dada às diversões. E aqui radicará, certamente, o facto de realizar o Carnaval mais divertido do país, apesar das contaminações brasileiras. Vou bastantes vezes a Torres Vedras; porém, só uma decidi presenciar a passagem do chamado corso, que já é o estar ali para ver e não para participar nos próprios festejos. E Carnaval é festa de “praça pública”, no dizer sábio de Backtine.

A região de Torres Vedras, onde outrora houve muitas cerâmicas, está a transformá-las em “danceterias” e discotecas, ou seja, espaços de lazer. O que até está bem, porque onde uns deram o canastro para ganharem a vida; outros abanam, agora, o capacete. E neste país Belmiro, que já não produz um alqueire de trigo, é bom haver sítios para abanar o capacete.

Eu sou um rapaz algo melancólico, mas aprecio imenso as pessoas alegres e sempre prontas para a folia e a reinação. E a minha última noite, em Torres Vedras, teve a ver com discotecas e “danceterias”, ou melhor dizendo, espaços para abanar o capacete.

O irrazoável, no meio disto tudo, é que eu fui ver a reinação dos outros e não tive tempo sequer para uma cervejola.



domingo, abril 20, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria, 19 (madrugada) de Abril de 2008 – Jantei em Cascais, num restaurantezinho da rua Afonso Sanches, ali a pouco mais de cinquenta metros da PSP. Casa modesta, sem dúvida, mas com ar limpíssimo. “A Tasca” é o nome da casa, onde tive o privilégio de jantar sozinho. Às vezes, gosto de estar sozinho para falar com os meus botões. E escrevinhar nas toalhas uma coisa ou outra.

Às 20H30 já estava no local do encontro. Gosto de chegar com tempo por duas razões: nunca gostei de fazer esperar e não aprecio correrias. E com tempo há sempre a possibilidade de espreitar a bela baía e o reflexo das luzes na água. Hoje, como o tempo estava careta, nem sequer me deu para dar um salto à praça Camões(?), onde costumo tomar café, no “poeta”. É um largo giro, onde os estrangeiros que vêm visitar os patuscos lusos costumam estar em maioria.

Capucho, por quem Meneses não tem grandes simpatias, tem sabido tratar da cidade. Seria fastidioso enumerar aqui as obras realizadas. Trabalho idêntico tem sido realizado em Sesimbra, mas a esta falta a planura e a limpeza de Cascais. Porque o elemento decorativo por excelência têm-no ambas: o mar!

E depois… e depois foi o trabalhinho, meus amigos.

sábado, abril 19, 2008

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 18 de Abril de 2008 – Na Mata, a minha terra natal, a Páscoa verdadeira era na segunda-feira de pascoela, que era o dia em que o pároco dava o Senhor a beijar. Lembro-me muito bem dessa cerimónia, que, apesar da rapidez com que o padre entrava e saía da casa dos pobres, durava algumas horas.
Organizava-se a comitiva, que era composta necessariamente pelos rapazes e/ou homens da campainha, o encarregado de guardar as ofertas pecuniárias ao pároco, o transportador da caldeirinha da água-benta e do hissope e ainda o portador da cruz com o Senhor crucificado. Mais o padre e o senhor professor Falcão, com a sua imponente barriga, que tinha a relação de quem pagava a côngrua. Eu próprio também ajudei nalgumas das tarefas que requeriam menos esforço e davam mais prazer, como era tocar a campainha para anunciar a chegada do padre.
Conta-se que um ano, já quase a terminar as boas-festas, em frente da casa que foi do ti Zé Júlio, se passou a cena, que passo a descrever:
Professor (em voz alta, dirigindo-se ao padre e acompanhantes):
- José Júlio. Aqui, o senhor padre não entra. Deve a côngrua.
Ti Zé Júlio (que já estava à espera do padre, ouvindo a conversa, vem à rua e pergunta igualmente, com voz determinada):
- Quanto é que eu devo, senhor professor?
E o professor lá lhe disse o montante da dívida.
José Júlio (célere, entra em casa e traz a quantia para pagar o calote):
- Aqui tem, senhor professor.
Professor (agora, em tom cordato):
- O Nosso Senhor já pode entrar.
José Júlio (que era uma caixinha de surpresas, diz-lhe frontalmente):
- Nesta casa o Nosso Senhor não entra, senhor professor, porque o Nosso Senhor não é de vinganças.
E não entrou.E a comitiva seguiu caminho, sem mais truz nem bus.

sexta-feira, abril 18, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria, 12 de Abril de 2008- Oiço falar há muito tempo de Fernanda Câncio, porém, só nos últimos tempos tenho lido algumas das suas crónicas. E confesso que a leio com agrado, porque trata de assuntos mais ou menos candentes e com muita independência de espírito. Condeno, por isso, os comentários alarves dos PSD(s), que vêem argueiros nos olhos alheios, mas não vêem traves nos seus.

Pouco me interessa a relação da senhora com o execrável Sócrates. Ela vale bem mais do que ele e não pode ser diminuída profissionalmente por causa de uma relação amorosa. Todos temos direito ao amor e este todos inclui também o governante Sócrates, apesar do desamor com que trata uma maioria significativa dos portugueses. Mas esta é outra questão.

quarta-feira, abril 16, 2008

ESTA EQUIPA DO BENFICA

Esta equipa do Benfica
Faz-me mal ao coração.
Quando o conjunto claudica
Aumenta-me a pulsação.

É tão triste e doloroso
Ver esta equipa perder.
Ó meu Benfica famoso
Que te deram a beber?

Eu já não suporto mais
Estes rapazes manhosos.
São maus profissionais,
Inábeis e preguiçosos.

O grão Maestro, Rui Costa,
Era digno de melhor.
Não merecia esta bosta,
Um Benfica perdedor.

Vieira que vá à vida
Que não tem classe nem jeito.
A nação anda perdida,
Vai ter angina de peito.

segunda-feira, abril 14, 2008

A LUSITANA MANIA

A lusitana mania
De esperar por quem não vem
Provoca melancolia,
Muito mal e nenhum bem.

Sempre de calças na mão
Ou esta à esmola estendida.
Tão estranha condição,
Tornou-se um modo de vida.


Era preciso matar
Esse rei Sebastião,
Que não pára de enganar
a nossa triste nação!


Ao mito do desejado
Dê-se um combate eficaz.
Traz este país castrado
Ou capado, tanto faz.

sábado, abril 12, 2008

AINDA A POESIA

Às vezes,
a poesia
parece
dádiva
dos deuses,

porque acontece
passar dias
e mais dias
-até meses!... –
sem escrever
um verso.

quarta-feira, abril 09, 2008

JOÃO DE SOUSA TEIXEIRA

DAS OLIMPÍADAS

Às vezes é preciso tomar balanço
apanhar o verso em contrapé
formar o salto e cair inteiro
do outro lado do poema

DO AMOR

Deslizo
enquanto duro
água êmbolo por instantes
hoje estive um pouco mais dentro de ti

doceamargo fruto (e tão fundo cala)
que já não sei se subo à árvore
ou se é a árvore que me escala


in Alegria Imcompleta, Vega, Lisboa, s/d.

segunda-feira, abril 07, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 7 de Abril de 2008 – Sei quanto o poeta Daniel Abrunheiro aprecia a grande poesia de Ruy Belo. O meu saber radica na leitura de alguns comentários e ainda de muitos textos outros do poeta do Caramulo, Coimbra e Viseu, que permitem a minha afirmação inicial.

Não há grande poeta que não estabeleça a sua árvore genealógica. E Daniel fá-lo de uma forma explícita no texto “Um Março não este Abril ainda não”, de 31 de Março último, publicado no “Canil do Daniel”, no qual o autor escreve: “Tenho Camões em casa… (v.31) e “Tenho Cesário tenho Osório tenho Belo “(v.33).

Penso que o Daniel quotidiano se encontra muito próximo de Ruy Belo de “um homem de palavra(s)”, mesmo sabendo nós que este livro é o último publicado em vida do autor de “aquele grande rio Eufrates”, sobretudo pelo recurso à ironia. Tal como Belo – não ruy Belo e a mesma subtileza para Camões, Cesário e Osório - , também Daniel podia escrever: “Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu – eu e os meus irmãos – sei em que medida sou eu que sou domado por elas” ( início do poema “Não sei nada”, in homem de palavra(s)).

Não sendo Daniel um desiludido do catolicismo como Belo, Deus não aparece como tema da sua poesia. O mesmo não se poderá dizer da morte, que surge com alguma recorrência, nos textos propriamente ditos e até em epígrafes(?): a morte de entes queridos e de alguns amigos, como já escrevi num texto anterior.

Mas o ponto de contacto mais interessante, em meu entender, encontra-se na construção dos longos poemas, em que “o metro” de Daniel também “tem a voz de um cordeiro triste” (poema “A Fonte da Arte”, in despeço-me da terra da alegria). Também são válidas para Daniel, algumas das palavras que João Miguel Fernandes Jorge escreveu para Belo, em “À maneira de prefácio” para a última obra citada: “/…/ a sua obra é como a festa antiga/…/”. “Quase se pode dizer ter sido necessário acumular durante anos os víveres e as riquezas que iriam ser consumidos com ostentação, ou melhor, destruídos pelo excesso de palavra(s), pelo fôlego, pela duração dos seus poemas - aqui, creio que está a essência da sua festa, a orgia, o frenético ritmo de tantos dos seus longos poemas”.


sexta-feira, abril 04, 2008

INTIMIDADES







DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 3 de Abril de 2008 – Por razões de natureza profissional não posso fazer o que me dá na real gana. E porque preciso de massa para comprar os melões, tenho de me ir acocorando. Eu explico clarinho: dia 9 de Junho completarei 56 anos de idade, já cumpri 35 anos de trabalho, na Função Pública, e estou abrangido por um regime de incompatibilidades, que me cerceia algumas liberdades. Nomeadamente, a de poder exercer uma actividade por conta própria, nos meus tempos livres, sem a devida autorização Superior.

Eu não queria fazer nada do outro mundo. Queria apenas editar alguns poetas e outros artistas das palavras, coisa de pouco peso em termos económicos, porque editar poetas e poetas em início de carreira ou em quem os editores já abancados não apostaram, não é actividade lucrativa. Luiz Pacheco, que andou uma vida às voltas com editoras e livros, passou os últimos anos num lar e viu-se à brocha para ir pagando os miseráveis mil euros mensais. Pronto, tá bem, eu sei que Luiz Pacheco não serve de paradigma.

Eu não queria enriquecer, porque com esta idade, só se tivesse o talento do consagrado José de Sousa ou do Dr. Lobo Antunes ou me saísse o euro milhões. Aqui entre nós, que ninguém nos ouve, eu só queria – e era para já – editar os últimos cinquenta textos do poeta Daniel Abrunheiro. Ou os cinquenta anteriores aos últimos cinquenta. 500 exemplares para vender numa espécie de porta-a-porta. Se ele autorizasse e chegássemos a um acordo, claro!




quinta-feira, abril 03, 2008

DO MEU DIÁRIO

Oeiras (área de serviço, na A5), 2 de Abril de 2008 – Levantei-me cedo para fugir à confusão do trânsito. Por isso mesmo, ainda tenho tempo para rabiscar meia dúzia de frases, nesta prosa aos solavancos com que vou construindo os meus diários.

Na verdade, concordo em absoluto com quem atribui um valor estilístico à pontuação. A abundância de vírgulas, exclamações, reticências, pontos e interrogações, é eloquente quanto à emotividade que ressalta da minha desbotada prosa. Dir-se-ia que escrevo atento aos batimentos do coração. E ainda bem que falamos de prosa, que assim não cabe no índex de Miguel Ruibal, que o Daniel cita no Canil.

Manhã clara e calma e com muito sol anunciado. Preparo-me para viver, jubilosamente, este primeiro grande dia de Primavera.

terça-feira, abril 01, 2008

DO MEU DIÁRIO (CASTELO BRANCO)


Castelo Branco, 6 de Setembro de 2002 - Castelo Branco é um vício. Um saboroso vício, diga-se em abono da verdade. Mesmo sem aqui ter casa, sinto-me, em cada rua, num espaço amigo e familiar.
Conheço-lhe quase todos os cantos. E às vezes embala-me a ilusão de que as mudanças não têm sido muitas; porém, quem se der ao trabalho de subir ao velho Castelo, perceberá quanto a cidade cresceu nos últimos quarenta anos.
Surgiram naturalmente novas centralidades. Seria difícil convergir para o seu belo centro histórico a partir do Ribeiro das Perdizes ou dos Bons Ares, da Líria ou do Montalvão. Sente-se, todavia, que o feitiço que nos prende à cidade anda por ali entre os Paços do Concelho e a Sé Catedral, a Rua Mártir S, Sebastião e a Rua D. Dinis. Quiçá, na sempre bonita Avenida Nuno Álvares Pereira.
Definitivamente, creio que Castelo Branco é um vício.


quinta-feira, março 27, 2008

DO MEU DIÁRIO

Rua Nova da Escola (MATA)


Santa Iria de Azóia, 27 de Março de 2008 – Tenho ido à Mata com muita regularidade; porém, nos últimos dois anos, a frequência das idas aumentou bastante. Por razões que não trarei à colação.

Desde 1969 que não tenho tido uma relação fácil com a minha gente. Não falo da família, obviamente. Falo dos meus conterrâneos, que se habituaram a ver em mim um homem do contra. E se calhar com muita sabedoria, porque se fui do contra, nos tempos de Marcelo Caetano; hoje, continuo a ser do contra, nestes tempos de democracia vigiada de augustos santos silvas. Sou, pois, um homem do contra e com muito gosto, como dizia o anúncio de uma marca de pão levezinho de tostas mistas.

Há qualquer coisa, no entanto, que mudou na relação dos matenses com a minha pessoa. Intimamente, as pessoas sabem que continuo a ser do contra; contudo, sabem que sou capaz de gastar o meu tempo para falar delas, dos seus antepassados e do seu modo de viver. Na medida do possível, agora que a simpatia está em maré-alta, tudo farei para não lhes gorar as expectativas.

Se tiver pachorra e algumas ajudas, hei-de fazer a transcrição fonética do “falar peculiar” dos meus conterrâneos. Para que tudo fique registadinho para a posteridade.

terça-feira, março 25, 2008

PALAVRAS PERDIDAS

Há quanto tempo, mãe, não te falo de amor
Com aquelas palavras de encantar
Com que as crianças falam do amor?!

Há dias corei de vergonha,
Corei de vergonha quando li,
Num livro de Saint-Exupéry,
As palavras que ele escreveu a sua mãe
E que eu nunca te disse a ti.

Deixei que entre nós se interpusesse
Um pudico silêncio ancestral
E disse-te apenas coisas imediatas e triviais.

Eu esqueci, mãe, aquelas palavras claras e pueris
Que tanto alegravam o teu coração.

Eu coro de vergonha, mãe!

In Fragmentos com poesia de Manuel Barata,
Ulmeiro, Lisboa, 2005

sexta-feira, março 21, 2008

NESTE DIA

Concede-me, ó divina Euterpe, um jeito humilde, para com simplicidade cantar a urgência da paz e do amor. Ao contrário de Luiz Vaz, do qual me declaro humilde e eterno aprendiz, eu não quero tuba canora e belicosa, que outros são os tempos e o pensar das gentes.
Concede-me, ó divina musa, um jeito humilde, para que possa, com as palavras e o som da rude flauta, tocar o coração dos homens e dos deuses.
Eu quero lembrar-lhes mil vezes, ó musa, a premência da paz e do amor!

quinta-feira, março 20, 2008

SEMPRE A POESIA

(Recordando José Gomes Ferreira)



Prostituta fecunda
Que penetras na vida
De forma profunda.


Alento nas horas más,
Dita ou cantada
E instrumento de paz,

Em cada madrugada.


Do nosso amor,
Cheio de magia,
Há sempre parto,
Há sempre dor
E alegria.


terça-feira, março 18, 2008

ANTECIPANDO O DIA DO PAI

João Maria Barata, meu pai.

Conheço um homem, a quem nunca tive a amabilidade de dedicar uma linha de humilde prosa, e que merece todo o respeito do mundo. Com sete anos, quando deveria aprender as primeiras letras e a tabuada, já calcorreava, descalço, caminhos e veredas, fragas inóspitas, atrás de um rebanho.
Sempre o ouvi dizer - e a minha avó confirmava -, que fora o primeiro patrão que lhe fizera as primeiras botas.
Porém, não estva talhado para a bucólica profissão de guardador de rebanhos, para tanta solidão. Analfabeto, já com dezoito anos, comprou uma pasteleira e fez-se aprendiz de construtor de casas. Pedra a pedra, tijolo a tijolo, ajudou a construir centenas de lares, ganhando a vida e espalhando conforto.
Nunca deixou, apesar das inúmeras voltas que a sua vida deu, que em sua alma morresse o amor pela Natureza. Teimoso, continua a trabalhar a terra, que já fora de seus avós, arrancando-lhe saborosos frutos.
Penso que não deve nada à Pátria e que a Pátria nada lhe deve. Pertence a um género de portugueses que ama e sempre amou Portugal sem condições.
In FRAGMENTOS COM POESIA de Manuel Barata, Ulmeiro, Lisboa, 2005.

sexta-feira, março 14, 2008

TRÍPTICO


AS PALAVRAS

Para Eugénio de Andrade

I

Ah, as palavras...
- Essas frágeis rosas,
que sustentam
O meu mágico poder!

Com elas amo
E digo a indizível
beleza do teu corpo.

Com elas reinvento,
hora a hora,
A vida e o mundo.

II

Sem as palavras,
Não poderia cantar
A casta flor da laranjeira
Nem as manhãs de Verão.

E como poderia cantar
Este país sempre embriagado de sol?

III

Com as palavras tudo faço.
Ás vezes,
Até pinto o céu
Melhor do que os pincéis
De Picass0.

In FRAGMENTOS COM POESIA
de Manuel Barata, Ulmeiro,Lisboa, 2005

terça-feira, março 11, 2008

CONTIGO (versão)

Contigo tenho escalado as altas montanhas
E atravessado os infindáveis desertos.

Em ti, tenho encontrado o repouso e o conforto
Quando regresso de todas as viagens.

Contigo, e de ti,
Fiz brotar a vida do porvir.

Porém, contigo tenho travado absurdas batalhas
e discussões pouco edificantes.

Por isso, com veemêmcia me pergunto:
Será que tudo teria de ser assim?!

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 11 de Março de 2008 – Há quatro anos, faz hoje precisamente quatro anos, quarta-feira, estava em Mestre, nos arredores de Veneza, a participar num seminário de âmbito profissional. À minha mesa sentavam-se, à hora das refeições, os dois representantes de Espanha, um de Madrid e outro de Valência, aos quais expressei o meu pesar e a minha solidariedade.

Nunca me senti tão ibérico como naqueles dias. É certo que sempre tive uma grande atracção por Espanha, onde vou com regularidade desde os treze anos de idade. Comecei por ir a pé, descendo a serra, por estreitos carreiros de contrabandistas, dos Fóios para Valverde; ou indo por caminhos mais ou menos planos até Navas Frias. Por Navas Frias havia de passar alguns anos mais tarde, quando, clandestinamente, deixei Portugal e fui residir nos arredores de Paris. Não direi que conheço a Espanha como os dedos das minhas mãos, mas é indiscutivelmente, o país que melhor conheço e mais estimo a seguir a Portugal.

Por isso mesmo, quatro anos volvidos sobre os atentados de Madrid (Atocha), quero, aqui e agora, condenar veementemente o terrorismo, todos os terrorismos, incluindo os terrorismos de Estado que, por serem de estado não deixam de ser terrorismos. E prestar a mais viva homenagem às vítimas da barbárie, ou seja, aquela gente inocente que, àquela hora matutina, se dirigia para os seus postos de trabalho.

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 9 de Março de Março de 2008 – A manifestação dos professores, realizada ontem na capital, foi a maior de sempre levada a cabo por uma classe profissional.

Dois terços dos profissionais que estão a ensinar os futuros dirigentes políticos portugueses vieram à capital para exprimir o seu descontentamento em relação aos senhores do mando. Fizeram-no com veemência, mas também com muita irreverência e em clima de festa.

Apesar da participação massiva, provavelmente irrepetível, a soturna e monocórdica ministra da educação asseverava, à noite na televisão, que tudo iria prosseguir como se nada se tivesse passado, naquela tarde. A senhora provou à saciedade que é dotada de uma superior inteligência e que merece continuar no cargo. Esta gente obstinada e prenhe de razão é a garantia da perenidade da pátria e de um futuro risonho para todos nós.

Os cem mil manifestantes eram meros títeres manipulados pelo PCP.

domingo, março 09, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 8 de Março de 2008 – Foi ontem a enterrar o grande historiador Joel Serrão, a quem fico a dever inúmeros ensinamentos acerca do séc. XIX. Temas Oitocentistas, volumes I e II, são para mim a sua obra de referência. Com Joel Serrão aprendi quão importante foi e é a electricidade, no processo civilizacional. E muitas outras coisas.

Com Joel Serrão aprendi a gostar mais de Cesário Verde.

Num tempo de Augustos Santos Silvas, a morte de Joel Serrão torna-se ainda mais insuportável e dolorosa.

sábado, março 08, 2008

8 DE MARÇO

Contigo tenho escalado as altas montanhas
E atravessado os infindáveis desertos.

Em ti, tenho encontrado o repouso e o conforto
Quando regresso de todas as viagens.

Contigo, e de ti,
Fiz brotar a vida do porvir.

Porém,
Contigo tenho travado as mais absurdas guerras.

Será que tudo teria de ser assim?!
Será que tudo terá de ser assim?!

8 DE MARÇO

UM LUGAR NA MINHA ALMA

Agora que não nos vemos
e as nossas vidas correm pelos dias
cada vez mais longínquas,
sinto, às vezes, uma vontade enorme
de te ver uma tarde, tomar café
contigo, saber como vais...

Agora que não nos vemos
e nos perdemos aos dois,
não penses que esqueci as tuas coisas.
Guardo boas lembranças, e poemas
que te escrevi (lembras-te?); guardo
cartas e fotografias...
E um lugar
na minha alma, onde, se quiseres,
sempre, sempre podes estar.

Abel Feu (n. 1965, em Ayamonte, Huelva)
in POESIA ESPANHOLA, ANOS 90, Antologia
de e com traduções de Joaquim Manuel Magalhães,
Ed. Relógio d'Água

terça-feira, março 04, 2008

DO MEU DIÁRIO

Nesta república do faz-de-conta, está na moda dizer mal do Estado e dos denominados trabalhadores da Função Pública. O desvario começou com a entrada em funções do (des) Governo de Durão Barroso que, servindo-se do Estado, é hoje Presidente da Comissão Europeia, e nunca mais parou.
O rol dos dislates é incomensurável. Brancos pretos e amarelos, com ou sem formação, mas normalmente bem instalados, vociferam contra os privilégios dos funcionários do Estado, esquecendo-se, muitas vezes, de olharem à sua volta. Conferem privilégios aos outros que, ainda que o não sejam, são bem inferiores aos desses acérrimos defensores de menos Estado e melhor Estado, mas que nunca reclamaram menos privado e melhor privado.
Nos meios de comunicação social, os empregados dos grupos empresariais do sector, defendem caninamente o tacho. Destilam mentiras e mais mentiras acerca de pessoas e instituições que muitas vezes desconhecem. Cegos, vêm privilégios onde os não há. Com a cegueira da redução do défice, pouco se preocupam com os problemas das pessoas e das famílias. De resto, numa atitude muito pouco cristã.
Economistas de meia tigela, gente que nunca produziu pensamento nem arriscou um pataco, com a crueza dos magarefes, propõem despedimentos, cortes nos salários e nas prestações sociais percebidas pelos trabalhadores do Estado. Nunca pediram nem pedirão a redução dos seus salários, porque se têm todos em muito boa conta. Ai, se nós soubéssemos os negócios ruinosos que essas almas pouco piedosas por vezes conduzem ou apadrinham!
Muitos deles são filhos de antigos funcionários, muitas vezes corruptos, que fizeram carreira atropelando trabalhadores honestos e se reformaram aos cinquenta anos com chorudas reformas.À pátria - esses patifes sem vergonha, que tanto trabalham aqui como noutro sítio qualquer, nunca deram nada. Aproveitaram todos os benefícios - até os da educação à borla - e uma vez empoleirados, acham sempre muito aquilo que o Estado lhes exige. São os primeiros a reclamar segurança para as suas pessoas e bens. Se lhes fosse permitido, de bom grado, pagariam apenas às polícias e pouco mais. São os defensores do princípio do utilizador pagador.
Como bons totalitários que são, acreditam que esta é a única e mais capaz forma de governar o mundo. Mas isto um dia vai mudar e há por aí rapazes que vão levar umas bengaladas. Que Deus me preserve a vida para assistir a esse, decerto, majestoso espectáculo!
Publicado em 30 de Agosto de 2005, no "Blog" Catilinárias

domingo, março 02, 2008

SALOMÉ

Salomé
Só queria
Dançar
E encantar.

E mostrar
Os brincos
Que usava
No umbigo.

Oh,
Quisesse
Salomé
Dançar
Pra mim
………….
Ou comigo!

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

IDENTIDADE NACIONAL

Ontem estive em Mourão,
na Adega Velha manjar.
Comi sopa de cação,
bebi vinho de encantar.

Saboroso estava o rancho,
com ervas condimentado.
Pudesse a pança do Sancho
tê-lo por perto guardado

Ai, falar da doçaria
e da famosa encharcada...
Ó preciosa iguaria
de Adega tão recatada!

Hei-de voltar a Mourão
para me deliciar.
Comerei rancho de grão
e encharcada até fartar.

In QUADRAS QUASE POPULARES de Manuel Barata,
Ed. Ulmeiro, Lisboa, 2003.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

DAR

Para a Mª José

Dar...
Eis um verbo
dificílimo
de conjugar.

Mas ainda há
quem o saiba dizer
do princípio
ao fim
sem hesitação.

E subitamente,
um dia de Inverno
parece Verão!

domingo, fevereiro 24, 2008

DO MEU DiÁRIO

Santa Iria de Azóia, 24 de Fevereiro de 2008 – Realizou-se ontem, na Escola Primária da Mata, o lançamento do meu livro MATA –UM FALAR PECULIAR E OUTRAS CURIOSIDADES. Casa cheia para a apresentação de uma monografia sobre a aldeia, o que contraria um pouco a ideia de que os filhos da terra não fazem milagres.

O milagre fez-se, e nomeadamente, por força do trabalho da Associação Belgais, cujo Projecto Educativo é desenvolvido na escola da Mata, onde este vosso amigo aprendeu também a ler e a escrever. Por isso mesmo, o meu reconhecimento e gratidão à Directora Carma e ao Professor Luís Silveira, que envidaram todos os esforços para que a apresentação da minha humílima monografia tenha sido um sucesso. Agradeço também ao João Teixeira, meu amigo – e com cuja camaradagem conto há quase quarenta anos – as palavras que me dirigiu. E ainda à Maria José, que fez a ponte, e à Jesus, que teve o trabalho de adoçar a cerimónia.

Agradeço ainda à senhora vereadora da cultura, Dr.ª Cristina Granada, que representou o senhor Presidente da Câmara, e ao Dr. Joaquim Faustino, Presidente da Junta de Freguesia, que me colocaram algumas questões interessantes, permitindo um diálogo vivo e produtivo.

Agradeço povo da Mata, que soube honrar-me com a sua presença. Na verdade, é com provas destas que se estimula o trabalho e a criação.


sexta-feira, fevereiro 22, 2008

DO MEU DiÁRIO

Republicação
Santa Iria de Azóia, 16 de Outubro de 2005 - O senhor Presidente da República tomou posição, recentemente, sobre a problemática da corrupção, que é, a fazer fé no que se diz, uma praga nacional. É estranho, todavia, que o tenha feito apenas na recta final do seu segundo mandato, ou seja, quando a Constituição o impede de se recandidatar. Receio que daqui a dez anos, outro Presidente esteja a fazer o mesmíssimo discurso em relação ao tema.

É sabido que o Presidente é um homem seriíssimo. Sabemos até que se indigna muito quando alguém faz insinuações a seu respeito. Mas sabemos igualmente que o Presidente não governa o país, quer a nível central, quer a nível municipal. Quando muito, poderá exercer a já conhecidíssima magistratura de influência.

Desconheço a totalidade da comunicação presidencial sobre o tema da corrupção. Para além dos corruptos e corruptores e da trapalhada da corrupção activa e passiva, há todo um mundo de perguntas e respostas, a que não se pode fugir. Aqui deixo algumas. Por que razão a corrupção passiva é mais penalizada que a corrupção activa? Na relação custo/proveito, quem mais beneficia com a corrupção? Que estranhas razões conduzem os corruptores ao silêncio? Sabendo-se o que se sabe do problema, que estranhas razões impedem um combate continuado e sem quartel ao flagelo?

Seria importante saber, igualmente, se só é corrupção o recebimento de vantagens pecuniarias ou outras de natureza patrimonial. Quer-me parecer que há corrupção e da grossa, ora no preenchimento de lugares no aparelho e Estado e nas EP, ora nos lugares de topo das empresas de maior nomeada. Quem estiver atento, basta ler os apelidos nos jornais e nas televisões, para topar que há muitas mãozinhas a influenciar as escolhas. Ás vezes até parece que os filhos de certas famílias são sempre mais dotados que os de outras famílias portuguesas. Ás vezes até parece que a República virou Monarquia.

Era bom que o senhor Presidente, ainda antes de ir repousar, pudesse falar deste tormentoso problema nacional. Aqui fica um tema: " Empregos e Corrupção".

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

DO MEU DiÁRIO

Santa Iria de Azóia, 21 de Fevereiro de 2008 – O livrito MATA – UM FALAR PECULIAR E OUTRAS CURIOSIDADES será apresentado, urbi et orbi, no próximo sábado, na Escola Primária da localidade implicada no título. Para que a apresentação seja um êxito – e sê-lo-á seguramente -, muito têm contribuído o poeta João Teixeira e os seus amigos, que, por extensão e seguindo o ditado popular, meus amigos são também. Lembrá-los-ei, oportunamente, neste Diário, que, a seu tempo, terá o seu próprio lançamento.

O livro antes referido, salvo melhor opinião, é composto por duas partes fundamentais: o falar, que poderá ter interesse no domínio da linguística; e, as curiosidades, que poderão interessar os estudiosos da etnografia. Seja como for, o livro está nos escaparates e agora as minhas explicações já pouco interessam. O juízo final pertence àqueles que o lerem e o avaliarem.

De qualquer modo, reclamo para este meu trabalho, para além da autenticidade, que poderá, eventualmente, aqui ou além, estar salpicada de alguma subjectividade, um carácter pioneiro. Poderia ter saído mais perfeitinho e sem gralhas, mas eu tinha urgência. Eu senti a necessidade de escrever este livro. Havia um património em risco, que guardei nas páginas desde livro, que ofereço, com muita alegria, ao povo da Mata.

CASTELO BRANCO







Castelo Branco é cidade

de muito frio e calor.

Rica terra, na verdade,

p'ra viver c'o meu amor.



Nesta cidade vivi

minha casta adolescência;

tão casta que até perdi

os restos da inocência.



Tinha duas fabriquetas,

onde a matar se aprendia,

dois jornais, alguns poetas,

cheirinho a democracia.



Tinha dois chuis à civil,

que acorriam ao Vidal,

à cata de prosa vil..

Era assim, era normal...



E tinha o padre Anacleto,

que conferia à cidade,

com o seu estilo recto,

um tom de fraternidade.





In QUADRAS QUASE POPULARES de Manuel Barata




segunda-feira, fevereiro 18, 2008

domingo, fevereiro 17, 2008

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

MATA (vista parcial da escola primária)


DO MEU DiÁRIO

Santa Iria de Azóia, 15 de Fevereiro de 2008 – Portugal não é a choldra de Eça. É pior. É uma verdadeira súcia. Nomeadamente, as suas elites. A começar pelas que nos governam, pois claro!

Às vezes dói, dói tanto, ler e ouvir certas pessoas, de barriga cheia, a opinar em defesa dos interesses dos poderosos e atacando sempre os mais desprotegidos. É o caso dos ditos liberais que pululam por aí nos jornais e nas televisões, nos “blogues” e nas universidades. Detentores do saber e de cargos – e por vezes também do poder económico -, têm sempre receitas para resolver os problemas do país; mas, as suas soluções passam sempre pelo ataque aos mais fracos e deixam incólumes os do costume.

É desejável que o congresso da CGTP, cujos trabalhos se iniciam hoje, se abra mais às novas realidades. E que, à volta de Manuel Carvalho da Silva, se inicie uma verdadeira renovação da central, sem abdicar, todavia, da defesa contumaz dos direitos dos trabalhadores. Que se inove, se necessário for, no plano estritamente formal, já que no plano do conteúdo, desgraçadamente, não podemos inovar.

Na verdade, as propostas concretas terão de versar os velhos temas: a precarização, os baixos salários, a discriminação do trabalho das mulheres e exploração do trabalho infantil; a defesa da formação profissional, dos direitos dos imigrantes e dos deficientes; a denúncia da desregulamentação do mundo do trabalho, da cada vez mais desigual distribuição da riqueza, etc.

Portanto, lutar, lutar sempre, contra as súcias, para que Portugal deixe de ser uma grande súcia e se torne num país decente, é o caminho!

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

A OBRA DE DEUS

O Criador,
Ao sexto dia,
Deu a obra
Por concluída
E adormeceu.

Obra de arquitecto
Que os praticantes
De todas as profissões
Hão-de,
Pelo tempo fora,
Eternamente,
Executar.

E ainda há quem ache
Que fez obra
Completa
E perfeita

domingo, fevereiro 10, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 10 de Fevereiro de 2008 – E o general aqui está, no seu labirinto, pronto para o que der e vier. Há dias assim: no comentário que deixei no “blog” de Lídia Martinez, escrevi que ninguém escreve ao coronel e agora iniciei este texto rememorando outro título do autor colombiano. E tudo isto, enquanto espero por um questionário do jornal Reconquista, que considero como se se tratasse do Le Monde ou do El País.

Atribuo a maior importância ao jornal Reconquista, porque foi nas suas páginas que publiquei os primeiros textos, nos primeiros anos da década de setenta do século passado, na cidade de Castelo Branco. Na verdade, colaborei num suplemento cultural que era coordenado por António Apolinário Lourenço e cujo nome esqueci. Tal como Albano Matos, que é actualmente editor de política internacional, no Diário de Notícias. E do Reconquista havia de ser correspondente, na Mata, a minha aldeia natal.

Actualmente, não leio o Reconquista com regularidade; porém, quase todas as quintas-feiras, vejo as gordas na “net”. Uma questão de afecto, creio, como a que tenho em relação à obra de Garcia Marquez, esse inigualável e fantástico contador de histórias.

UM DIA NUMA VIDA - II

Foi em 27 de Julho. Era de 1970. Paris.
Na pacatez da rua Fleurus, Vitória,
Exuberante, exibia o Le Monde e gritava:
“O Salazar morreu! O Salazar morreu!”

Ah, como eu me lembro ainda do teu sotaque inglês
E dos teus longos cabelos pretos, Vitória!

Eu nunca te poderia olvidar, Vitória,
Ainda que não tenhamos bebido o comemorativo champanhe!

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

DO MEU DIÁRIO (ANTÓNIO OSÓRIO)

Santa Iria de Azóia, 8 de Fevereiro de 2008 – Para desgraça minha, descobri tardiamente o poeta António Osório. Dele sabia meia dúzia de coisas, mais ou menos biográficas, mas vivia na ignorância absoluta dos seus textos. E muito mais importante do que o homem empírico - advogado, pai, marido, filho, cidadão, etc. -, é o sujeito lírico que o leitor ouve, quando lê atentamente os seus versos.

Devo este poeta, que, se o talento me tivesse bafejado, incluiria na minha árvore genealógica, ao Daniel Abrunheiro. António Osório é um poeta de grande equilíbrio, que trata de forma muito peculiar os grandes temas da poesia. Talvez não haja poeta mais sereno e amável na moderna poesia portuguesa. E estas qualidades conferem-lhe, seguramente, um lugar cimeiro, entre os seus pares.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

UM DIA NUMA VIDA

Foi em 4 de Fevereiro. Era de 1975. Luanda.
À hora em que o sol se cola à pele
E os corpos pedem a clemência da sombra,
As ruas transbordaram de cor, cânticos e danças.

Neto, o da Sagrada Esperança, regressara
E, na escassa bagagem, só trazia sonhos.

Sonhos!, esse incrível alimento de que vivem as nações!

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

ANTÓNIO VIEIRA (DO MEU DIÁRIO)

Santa Iria de Azóia, 6 de Fevereiro de 2008 - Comemora-se hoje o quarto centenário do nascimento de António Vieira, que foi homem de múltiplas aptidões e de saberes diversificados. Merece referência especial a sua obra literária, e em especial os seus sermões, que o tornaram um paradigma da literatura portuguesa e um mestre ímpar na arte de bem escrever.

O meu primeiro contacto com Vieira foi através do livro da 4ª classe e de um texto chamado “Estatuária”. Com onze anos, descobria no “livro único”, um naco de prosa de extraordinária beleza, que decorei sem qualquer enfado e que me acompanhou pela vida fora. Perdi o livro, mas preservei a figura do escultor, na sua relação com a pedra informe, que também podia ser a do homem da escrita, na sua quotidiana luta com as palavras.

Mais tarde havia de estudar Vieira a fundo. E posteriormente, ensinei alguns dos seus sermões. Era-me particularmente grato ler e explicar o “Sermão de Santo António”, que me permitia uma leitura mais actualizante. Pressenti, muitas vezes, os alunos incomodados, porque, afinal de contas, o manancial de exemplos de Vieira, tinha plena actualidade. E sentia-me feliz, porque o sermão deve incomodar, como ensina Vieira no “Sermão da Sexagésima”.

Quero invocar, aqui, em tempo de homenagens e celebrações, o nome de Margarida Vieira Mendes, que dedicou uma parte significativa da sua curta vida ao estudo da obra de António Vieira. Por irónico que pareça, Margarida partiu num fim-de-semana de Carnaval. Está a fazer anos.

domingo, fevereiro 03, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 3 de Fevereiro de 2008 - Os graduados, que eram razoavelmente renumerados, tinham lavadeira. Um familiar do sexo masculino levava e trazia a roupa. E contava-se até, com alguma graça, que os nativos ainda vestiam a roupa suja do tropa, durante alguns dias. Verdade? Mentira? Fica a nota como mera curiosidade.

Os oficiais e os sargentos tinham ainda outros privilégios em relação aos cabos e aos soldados: uma dotação de bebidas estrangeiras, ou seja, duas ou três garrafas de uísque e duas de licores ou outra murraça qualquer. E podiam ir caçar, durante a noite, de Unimog, e ao musseque para tratar de outras humanas necessidades. Ia-se em grupo para cumprir as regras de segurança: cinco ou seis a montar guarda, enquanto um dos do grupo permanecia dentro da cubata. Tudo muito rápido, porque havia de facto alguns perigos, neste fim de permanência portuguesa em terras de Nambuangongo.

Debaixo de uma estrutura em madeira e com cobertura de capim, junto à messe de sargentos, havia uma mesa de pingue-pongue, onde se faziam verdadeiros campeonatos. Recordo aqui um excelente jogador, José Carlos Camarada Videira, já falecido. Era o melhor jogador, apesar de ser um homem com excesso de peso. De resto, o Camarada Videira era um homem de muitos excessos. E por isso mesmo, cedo entregou a alma ao Criador.

Ponho aqui um termo às minhas memórias de Nambuangongo, onde vi passar, felizes, a caminho de Luanda, os últimos homens que serviram em Zala e Madureira. Vi-os passar, felizes, porque eram sítios mais fustigados pela guerra do que Nambo, ainda que nunca tenham tido qualquer valor simbólico. Eram verdadeiros buracos, onde homens de vinte e poucos anos, permaneciam largos meses longe das suas terras e dos seus entes queridos.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 1 de Fevereiro de 2008 – Hoje, seria de bom-tom escrever sobre o regicídio que contribuiu decisivamente para o fim da Monarquia e para o consequente advento da República. Enquanto republicano, este não é nem nunca foi um dos meus dias. Assim, esperarei pacientemente pelo 5 de Outubro de 2010.

Vou retomar, pois, a narrativa sobre Nambuangongo, que tinha uma pista onde podiam aterrar pequenas aeronaves. Não me recordo dos dias em que havia DO, que se pronunciava dê –ó e que era das poucas coisas boas que aconteciam na mítica aldeia, onde o igualmente mítico Spínola tinha chegado após vasta devastação, com recurso ao Napalm. A DO trazia víveres e sobretudo o correio. O correio, leitores!

Felizes ficavam os que recebiam verdadeiras molhadas de aerogramas, que era o meio de comunicação mais eficaz entre a colónia e Portugal. O Lopes, furriel amanuense da CCS, era a pessoa que mais correspondência recebia. E também recebia chocolates sem açúcar, porque o Belchior Lopes era diabético e a família, à distância, tinha a preocupação de cuidar pelo seu bem-estar.

Durante a guerra colonial, ou guerras coloniais, para ser mais preciso, ficaram famosas as chamadas madrinhas de guerra, que terão sido uma invenção do Movimento Nacional Feminino. Ajudavam a passar o tempo e alguns casos de correspondência acabaram em casório.

Havia cenas verdadeiramente hilariantes. Um soldado de nome Mário arranjou uma madrinha de guerra, que era assim como que uma namorada, e num dos famosos aerogramas pediu-lhe que lhe enviasse um pêlo do púbis, como prova dos sentimentos que tinha por ele. E o pêlo foi enviado e o Mário exibia-o como um verdadeiro troféu. Cenas da guerra. E da loucura dos vinte e poucos anos. “ Nous avions vingt ans”, poderia cantar Charles Aznavour

Graças ao Belchior Lopes pude ler Siddhartha de Herman Hess e ainda On the Road de Kerouac, que estavam ainda muito em voga. Em Nambuangongo havia de continuar a ler Jean-Paul Sartre, do qual conhecia já o teatro e muita da sua produção narrativa.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 31 de Janeiro de 2008 – Foi numa instalação militar que, pela primeira vez, me estreei como professor. De um só aluno: o jovem, que, após a saída das nossas tropas, teve a responsabilidade de tratar da instalação eléctrica de Nambuangongo. Esqueci o seu nome, como esqueci muitas outras coisas. Sei apenas que aquele rapaz, que tudo queria aprender, ficou com a incumbência de quebrar o breu daquela terra do fim do mundo.

Naquele Outono de 1974, já não se podia, com propriedade, falar de guerra. A disciplina afrouxara, até porque ninguém queria ser apodado de reaccionário. Depois das cinco da tarde, cumpridas as tarefas militares quotidianas, os sargentos e os oficiais vestiam roupa civil, para bebericarem cerveja e uísque e jogarem à batota ou ainda para se deslocarem ao musseque, onde bebiam marufo e assistiam aos espectáculos de batuque. O homem mais rico de Nambuangongo era um indivíduo chamado João Pedro, que já tinha a preocupação de mandar os filhos para Luanda, onde podiam estudar e aspirar a uma vida melhor.

Nas manhãs de domingo, aparecia um homem de cabelo branco e já muito velho, que era conhecido por Miarra. Vestia uma farda militar andrajosa e gritava Miárráááááá´!!!! E pronunciava nomes de terras angolanas como Ambriz e Ambrizete e Santo António do Zaire. Era o Miarra. Aparecia sempre entornado e dizia-se que com tudo o que ardesse na garganta, nomeadamente “after- Shave”. A tudo o que emborcava, o nosso Miarra chamava água do puto, ou seja, bebida proveniente de Portugal.

OS COMPUTADORES - II

Um dia
- Não muito distante –,
Tenho a certeza,
Vou atirar-me,
Sem piedade,
Ao computador.

A nossa relação
Tem sido
Muito pacífica,
Embora
eu não ache
Muita piada
Às partidas
Que esta máquina
Tão estúpida
E sedutora
Me vai pregando.

Eu vou travar
Esta relação
Que vicia
Como o absinto
E atirar-me,
Sem piedade,
Ao computador.

É inevitável!
É inevitável!

segunda-feira, janeiro 28, 2008

OS COMPUTADORES

Começo a estar
Viciado,
Amor,
Com a treta
Do computador.

Doem-me
As mãos
Os braços
E as lombares
De tanto teclar

Há quanto tempo,
Amor,
deixei de te olhar
com olhos
de ver?

Qualquer dia,
Quando isto
Piorar,
Vou dormir
Com o endireita,
Amor!

sexta-feira, janeiro 25, 2008

SEMPRE

Entre vós,
Amanheci,
Um dia
Em Junho.

Menino ainda
Num vaivém
Andei,
Entre a aldeia
E a cidade.
Mais tarde,
Muitas foram
As ausências.
Porém, nunca
Se desvaneceu,
Em mim,
O desejo
De voltar.

Verdadeiramente,
Estive sempre,
Entre vós,
Apesar de Penélope
Não estar aí,
Sozinha
E ameaçada.

terça-feira, janeiro 22, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 22 de Janeiro de 2008 – Nambuangongo é para muitos portugueses uma palavra mítica. Para mim também, que ainda lá gramei dois meses, ou seja, os meses de Outubro e Novembro de 1974.

A mítica Nambuangongo, por onde terão passado muitos milhares de portugueses ainda vivos, era um cemitério, uma igrejinha, um depósito de água e as instalações do chamado Pelotão de Apoio Directo (PAD), do lado esquerdo; e, as construções que acolhiam a 2ª companhia do batalhão ali sedeado, do lado direito. Depois havia a descida e o civil, com o seu comércio de víveres e outras utilidades para a tropa, também do lado esquerdo. A picada parecia terminar ali, onde o terreno se elevava de novo e se erguiam as precárias construções militares da Companhia de Comandos e Serviços (CCS) do batalhão, incluindo as messes de oficiais e sargentos.

Mas era ali junto ao muro, que a picada continuava à direita para o Quixico e à esquerda para Zala e Madureira. Do lado esquerdo havia as oficinas e outras instalações de apoio logístico e ainda o campo de futebol, que tinha a cor vermelha dos cafezais de que falava o presidente Agostinho Neto na Sagrada Esperança. À esquerda, a poucas centenas de metros do aquartelamento, estava situado o musseque, isto é, a aldeia dos nativos, onde íamos à noite para beber marufo, ouvir batuque e tratar de outras necessidades humanas essenciais.

Era isto, Nambuangongo, e uma pedra onde estavam inscritos uns quantos nomes famosos, nomeadamente o de Fernando Assis Pacheco, que já publicara alguma poesia, mas que ainda era desconhecido como ficcionista.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

PEQUENO BALANÇO

Nos regatos
E nas fontes
Água cristalina
Bebi.


Nos silvedos
Dos caminhos,
Amoras bravias
Colhi.


Nos cocurutos
Das figueiras,
Sadios figos
Comi.


À sombra
Dos choupos,
Lindas histórias
Ouvi.


Mas um dia,
Pelos sonhos
Embalado
Fui ver o mundo
E tudo
Perdi.

domingo, janeiro 20, 2008

DO MEU DIÁRIO

Charneca da Cotovia, 20 de Janeiro de 2008 – Acabei de ler, na última madrugada, o romance INÊS DE CASTRO - A ESTALAGEM DOS ASSOMBROS, escrito por Seomara da Veiga Ferreira e que a Editorial Presença editou, em Março de 2007.

É mais um romance que trata dos amores de Pedro e Inês; porém, desta feita, o ponto de vista è o de D. Afonso IV e segue de perto, em minha opinião, as teses historicistas. Eu explico melhor: a relação de Pedro e Inês era perigosa para a soberania portuguesa e podia pôr em causa os interesses de D. Fernando, filho de D. Pedro e de D. Constança Manuel, que era uma criança muito débil. Robustos, os filhos da “colo de garça”, eram uma séria ameaça, e, sobretudo, tendo em conta os apetites pressentidos dos tios Castro. Inês morre por razões de Estado.

A narradora é nem mais nem menos que a mãe de Pedro, a rainha D. Beatriz, que nos traça um retrato extraordinário de D. Afonso IV, que é sempre movido por um alto sentido do dever. D. Afonso, o grande herói da batalha do Salado, que mereceu episódio n’ Os Lusíadas, era um homem austero e severo e de grande integridade mental. Talvez devido aos excessos de seu pai, o grande rei Dinis, D. Afonso não conheceu outra mulher a não ser a rainha Beatriz e conviveu sempre mal com as “bastardias”.

Neste romance, que se lê com agrado, há ainda a realçar o retrato que a narradora traça da rainha D. Isabel, mais tarde Santa Isabel, a quem se refere sempre como uma grande mãe e uma figura de eleição, que desculpa o rei e ajuda a criar os bastardos.

A narrativa decorre praticamente sem recurso às habituais anacronias, ou seja, o tempo decorre de forma linear e em tom muito intimista, tendo como narratária D. Doce, uma anãzinha, que era a principal companhia da rainha. Esta D. Doce há-de assumir no final do romance e após a morte de D. Beatriz, o papel de narradora.
Neste romance, encontrei a mais completa descrição dos mausoléus de Pedro e Inês, trabalhados por “Pêro das Imagens” e por seu primo João Garcia, mas sempre sob a orientação do próprio rei D. Pedro.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

DO MEU DIÁRIO


Moscavide, 18 de Janeiro de 2008 – O cidadão pouco familiarizado com as questões administrativas e que não resida nas imediações de Moscavide, terá muitas dificuldades em enquadrar este freguesia no concelho de Loures. O clube de futebol da terra é o Olivais e Moscavide, o que significa que o partilha com a lisboeta freguesia de Santa Maria dos Olivais. Mas Moscavide é ainda o início e o fim de diversas carreiras da Carris. E isto para não falar da divisória, que o povo apelida de estrada de Moscavide.

Seja como for, Moscavide é uma freguesia recente, de traçado mais ou menos pombalino, no que às ruas diz respeito, se atendermos ao seu conjunto de paralelas e perpendiculares. E foi, até ao advento do Parque das Nações, uma localidade com um sector comercial bastante forte, porque era ponto de passagem para quem utilizava os transportes públicos, vindo das freguesias da zona oriental de Loures e do concelho de Vila Franca. A Gare do Oriente e a ampliação da rede de metropolitano, roubaram a Moscavide o seu cunho de ponto de encontro e de passagem.

O Parque das Nações fechou e abriu, simultaneamente, Moscavide. Ainda que tenha ganho uma faixa de terreno no Parque das Nações, ou seja, a área compreendida numa linha que une a Praça José Queirós à Torre Vasco da Gama e outra, a norte, que passa pela rotunda grande, que dá acesso à ao IC2, a Sacavém e à E.N.10, e passa nos limites da antiga Fábrica de Material de Guerra, Moscavide tornou-se uma espécie de condomínio fechado, onde é difícil de estacionar e onde cada vez se vai menos.

Trabalhei dez anos em Moscavide e ali conservo muitos amigos. O Célio que se debate com a doença, o Zé Caetano, a Custódia e a Lina, o Hélder, O Carlos Garcia, a Filomena Capelo, etc. Isto para falar de amigos, porque… porque conhecidos são às dezenas. E por isso vivo num vaivém permanente com esta terra, apesar de lhe apontar um urbanismo medíocre e uma crónica falta de higiene. Costumo dizer que é a única terra do mundo onde os peões andam nas ruas e os cães nos passeios.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

DO MEU DIÁRIO

Carnaxide, 17 de Janeiro de 2008 – Dia cinzento, a condizer com o país de cinzentões que somos. A chuva é uma ameaça iminente. Apesar de tudo, há muita gente nos passeios e o tráfego automóvel é considerável, nesta localidade do concelho de Oeiras.

Contudo, o tráfego automóvel diminuiu substancialmente, nos últimos meses. É que os portugueses têm sido massacrados com aumentos sucessivos dos combustíveis e os nossos carros, infelizmente, não são movidos a água, que sempre havia de ser mais amiga do ambiente.

E por falar de ambiente, disseram-me há dias que o buraco do ozono é provocado, essencialmente, pelo vapor de água e que o CO2 apenas contribui com 20%. Verdade ou mentira, não há dúvida de que as condições climáticas se vão alterando de ano para ano, tornando a mãe Natureza muito mais imprevisível.

Portanto, é urgente que todos façamos o que estiver ao nosso alcance para proteger o meio ambiente e por extensão o planeta. A defesa da Terra é, na hora que passa, um imperativo civilizacional.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 14 de Janeiro de 2008 – É raro mas acontece: almocei sozinho no “Tico-Tico”. E precisamente, porque, às treze e trinta, me apeteceu almoçar sozinho. Há dias em que não tenho nada para partilhar e uma refeição deverá ser sempre, no meu modesto entender, um momento de partilha.

O facto de ter almoçado sozinho não tem nada de dramático. Conheço os empregados, com quem troco amiúdo algumas palavras de circunstância, que me criam a ilusão de estar acompanhado. Eu gosto e procuro ter tempo para falar com os meus botões.

Entre o croquete com sabor a cominhos e um gole vinho e a chegada da vitela barrosã – será que a vitela é mesmo barrosã? - ainda oiço, sem querer, a conversa mais ou menos escatológica de dois octogenários, que pelos vistos gostam de comer bem e viajar. Devem ser ambos viúvos e sportinguistas.

Enquanto mastigava e deglutia a dita vitela barrosã, reparei nos filetes que um casal jovem comia na mesa do lado direito e lembrei-me do arroz de pimentos encarnados que a minha mãe fazia para acompanhar o chicharro frito às postas fininhas e que era uma coisa do outro mundo. Qual sável e qual açorda?! O arroz de pimentos encarnados, cozinhado a lenha, acompanhava na perfeição o prosaico chicharro, que era dos poucos peixes que chegavam à Mata nos anos cinquenta e sessenta do século passado.

Será que acompanhado teria rememorado o feliz arroz de pimentos encarnados que a minha mãe fazia para acompanhar o prosaico chicharro fritos às postas fininhas?

sexta-feira, janeiro 11, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 11 de Janeiro de 2008 – Ao contrário de muita gente, não andei a ler os livros mais badalados de Luiz Pacheco, para ter uma ideia na hora em que o coração lhe falhou definitivamente. E nem sequer li jornais nos últimos dias. Li um excelente texto do Daniel Abrunheiro, no “canildodaniel”, e o discurso de José Casanova, que Vítor Dias publicou em “o tempo das cerejas”.

Peguei nas Cartas na Mesa, da editora escritor, onde estão reunidas as cartas escritas por Pacheco a Serafim Ferreira. E também nestas cartas, ou sobretudo nestas cartas, o autor de Comunidade, dá-nos de si o melhor de todos os retratos, apesar da síntese do Daniel, que tomo a liberdade de aqui reproduzir: “ escritor, libertino, bissexual (ou era, que a idade tudo pendura…), má-língua-sem-papas-na-mesma, certeiro, danado, assertivo, cru, visceral, afiado, justo, injusto, amante, claro, obscuro.”

E já agora, para aguçar a curiosidade do Zé Ribeiro, deixo-lhe aqui este parágrafo da carta nº 16: “Você outro dia tinha razão: não devo receber mais conservas do Algarve Exportador. O Agostinho Fernandes não achou piada àquilo, tomou-o como acintoso. Neste País, debaixo-acima, é tudo acintoso quanto não seja elogioso – que se lixem!” E já agora, também para o Zé: numa das cartas há uma referência à Ulmeiro, a propósito de um livro do Raul de Carvalho.

Aos vivos citados neste Diário, e também à Lídia em, Paris, desejo um bom fim-de-semana. E boas leituras.

POEMAS VERTICAIS

Agora,
Os poemas,
Nascem
E crescem,
em mim,
Esguios
Como os choupos.

Até parece
Que querem ser
Só um risco
Na folha
alva
Do papel.

Provavelmente,
Chegou o dia
Dos poemas
Se tornarem
Magros
E verticais!

Se assim for,
Que assim seja!

quinta-feira, janeiro 10, 2008

NESTA LÍNGUA

É nesta língua antiga,
Que tudo digo
e sinto:
O rumorejar do mar,
Os teus olhos verdes,
A transparência da água.


É nesta língua
Que festejo,
Dia a dia,
A graça de estar vivo,
Os dias quentes do Verão,
As delícias do amor.

É nesta língua.

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 9 de Janeiro de 2008 – Almoço nos Rochas com o Zé Ribeiro, que era dia de cozido à portuguesa. O Zé gosta muito de ir a esta casa simpática da rua Reinaldo Ferreira, porque as doses são bem servidas e com grande cópia de couves.

Falámos de projectos, mas as nossas conversas vêm sempre desaguar em delta em editores, livros e escritores, que é provavelmente daquilo que sabemos falar melhor.

Hoje, era inevitável falar de Luiz Pacheco, que o Zé conheceu bem. Considera-o sobretudo um grande editor e um homem da liberdade. E, como não podia deixar de ser, reconhece-lhe a qualidade da escrita. Eu estou de acordo com tudo, mas não ia com o indivíduo. Nestas matérias, é raro haver unanimidade.

E deixámo-nos já por volta das três da tarde, com o propósito de irmos à noite à LER DEVAGAR, que funciona na antiga Fábrica de Material de Guerra de Braço de Prata e onde pontifica o Zé Pinho, que foi nosso colega na FL.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 30 de Dezembro de 2007 – Só hoje tive tempo e pachorra para pegar no “JL”, que continuo a comprar com regularidade, mas que leio agora apressadamente. Excepções: Eduardo Lourenço e Guilherme de Oliveira Martins.

Detive-me no tema desta quinzena, “Gastronomia e Literatura”, porque continuo muito sensível em relação às coisas do paladar. Durante a leitura veio-me à memória uma sopa de feijão encarnado, que comíamos na época da Páscoa. Para além do feijão encarnado, na confecção desta sopa entravam a couve criada no quintal, apanhada folha a folha, e que era esfarrapada para a panela de ferro, uma massinha de cotovelo e uma batatinha esmagada com um garfo na colher de pau. Como não havia passador nem trituradora, era possível saborear cada um dos ingredientes de per se. A cozedura processava-se lentamente, aproveitando o lume da lareira. Esta sopa era enriquecida, muitas vezes com enchidos, que depois comíamos, separadamente, com pão. Para mim, aquela sopa feita por minha mãe, era melhor que a canja de Tormes.

Retomando o fio à meada, acho graça à rubrica os livros da minha vida, onde aparecem sempre alguns nomes repetido, quer entre os nacionais, quer entre os estrangeiros: Sófocles, Cervantes, Shakespeare, Youcenar, Joyce, Camões, Bernardim, Eça, Saramago, Lobo Antunes, etc. Neste número não figurava Saramago, mas aparecia Camus. Tudo bem. Temo apenas que se leiam permanentemente os mesmos, em detrimento dos talentosos autores actuais. Se um dia me perguntarem, hei-de falar de António Vieira, Manuel Bernardes e Amador Arrais.

domingo, janeiro 06, 2008

BCP: UM BANCO MISÓGINO?

Santa Iria de Azóia, 5 de Janeiro de 2008 – Pessoas com quem me relaciono acusam o BCP de ter sido, nos anos que leva de vida, uma instituição nefasta para o país.

Dizem-me, por exemplo, que tem sido contra as mulheres. Para já, é verdade que nas imagens que vão sendo editadas as mulheres estão ausentes. E este facto é muito significativo, tendo em conta a importância que as mulheres ganharam na sociedade portuguesa. Elas são magistradas, professoras, gestoras, polícias, etc; porém, não servem para os conselhos de administração do BCP.

Dizem-me ainda, que eu não tenho grande memória, que nos seus primórdios, o BCP nem sequer admitia mulheres. O BCP fechava-lhes as portas, tal como a Igreja de Roma lhes fecha as portas do sacerdócio. Terá sido o BCP um banco com vida interna à margem da Constituição da República?

Se calhar foi.

sábado, janeiro 05, 2008

BCP - COMO RESSUSCITARÁ O BANCO DE DEUS?

Desconfio que tudo isto se vai saldar pelo desaparecimento do maior banco privado português e pelo advento de novas instituições bancárias como suas sucessoras.
Porém, advertiu-me um amigo, que teve a bondade de comigo conversar acerca do caso, que vai ser interessante saber como se processará a subscrição do capital das novas entidades.

Dizia-me esse amigo, economista de formação e profissão, que sempre há-de perceber mais disto do que eu, que os perdões e os empréstimos são apenas trocos, ou seja, a ponta de um grande iceberg. Se isso assim for, esta marca já deu o que tinha a dar.
Oxalá esse meu amigo não tenha razão, que eu sou um mísero cliente do BCP, por força do desaparecimento do BPA.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

LEMBRAM-SE DO BANCO AMBROSIANO?

Santa Iria de Azóia, 4 de Janeiro de 2007 – Eu, que costumo oferecer versos aos meus concidadãos e só por extensão ao meu país; eu, que aprendi retórica e li os clássicos; eu, que ensinei a ler poesia e prosa artística, tenho alguma dificuldade em compreender o que vai por aí na Banca. Nomeadamente, no BCP!

São tantos e tão esquemáticos os cambalachos e as atitudes, que creio tratar-se de um caso parecido com o do banco AMBrosiano. No silêncio do meu escritório e após múltiplas leituras, chego a pensar que estaremos em presença de um caso AMBrosiano II. É esperar para ver!

A DIVINA SHERAZADE

Deve a vasta humanidade
Aos cornos de Xariar
A divina Sherazade
E seus contos de encantar;


Deve-lhe a gentil irmã
- de seu nome Dinarzade -,
que, cedo, cada manhã,
acordava Sherazade.


“ Minha irmã, se não dormis…”
E começa a narração.
Sherazade tudo diz
Para encantar o Sultão.


Histórias mil desfia
(Oh, qual delas a melhor?)
E o tirano ludibria,
Calmamente, e sem temor.


Salvando assim a vida
Às donzelas de Bagdade,
Foi, claro, muito atrevida,
Mas ganhou a liberdade.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 2 de Janeiro de 2008 – Suspendi há vários anos a actividade de fumador; porém, ainda nunca me afirmei como um não fumador. Suspendi a actividade. Ponto.

No momento presente, o fumo dos cigarros, fumados à minha mesa ou nas imediações, incomoda-me. Concordo, por isso mesmo, com a existência de áreas para e não fumadores.

Penso, outrossim, que as coisas devem ser feitas sem extremismos, ou seja, “nem oito nem oitenta”. Temo, todavia, que esta seja a hora dos macários.