sábado, agosto 11, 2012

DO MEU DIÁRIO

Este aparelho é da PANASONIC,
e é surdo-mudo e funciona bem

Santa Iria de Azóia, 10 de Agosto de 2012 – D. Zita Seabra, que foi destacada militante e dirigente do PCP, veio, com décadas de atraso, denunciar uma putativa espionagem do PCP a organismos governamentais, através da instalação de “escutadores” em aparelhos de ar- condicionado. Fazia esse trabalho uma empresa (cooperativa?), na qual pontificava o senhor Alexandre Alves, militante do PCP e benfiquista, segundo a imprensa.

A pertinente denúncia surgiu, exactamente, quando este governo troca-tintas decidiu rescindir um contrato entre o estado português e uma empresa de Alexandre Alves que se propunha, e propõe ainda, ao fabrico de painéis solares, um investimento muito avultado e que prometia a criação de largas centenas de postos de trabalho. Não sei se tudo seria exequível; porém, não deixa de ser espantoso que apareça a senhora Seabra a fazer aquela denúncia, que deveria ter feito quando soube dos factos.

É certo que Sócrates não é, nem nunca terá sido um poço de virtudes, mas cheira-me que este governo, sem sentido de Estado, rasga os compromissos anteriormente assumidos pela comezinha razão de que os papéis trazem a assinatura de membros do anterior governo. Há aqui um desfazer provavelmente ruinoso para o país, que, sem perda de tempo, a PGR deveria começar a averiguar, penso eu.

Quanto a Zita Seabra está tudo dito. Se o ridículo matasse…

sexta-feira, agosto 10, 2012

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 10 de Agosto de 2012 – Li um texto no feicebuque, há cerca de uma hora, que me deixou a pensar. Esqueci o autor mas não quem me permitiu a sua leitura, uma pessoa que prezo e admiro, que lhe juntou ainda algumas linhas da sua lavra. Desde a conclusão da leitura desse texto, onde são ditas com muita crueza puras verdades, fiquei a pensar na minha permanência e uso da dita rede social, que é, indiscutivelmente, o “grande irmão” dos tempos que correm. A partir de hoje irei menos ao feicebuque e quem me quiser ler que me procure noutras paragens. No MUSICA MAESTRO (www.musicamestro.blogspot.pt), por exemplo, que sempre será um espaço mais recatado. E onde não se vai de uma forma tão mecânica.

Os blogues, vistas bem as coisas, são igualmente propícios ao “voyeurisme” ou às “espreitadelas”, mais ou menos furtivas, se preferirem. Basta passar pelos blogues mais famosos para se perceber que há uma quantidade de gente que passa os dias de caixa de comentários em caixa de comentários, usando os mais variados pseudónimos – alguns deles bem abjectos -, para se confirmar o que acabo de escrever. Passarei pelos blogues dos meus amigos com a assiduidade habitual e dedicarei mais tempo a coisas indubitavelmente mais importantes. Vou recomeçar a ler, como outrora o fiz, narrativas nacionais e estrangeiras, que tenho às dezenas à espera de tempo(!). E dessas leituras darei conta neste meu espaço, que há anos e durante vários meses desaparecia e reaparecia, como se alguém quisesse divertir-se à minha conta. Quando topei o estratagema, deixei de fazer alarido e as coisas acabaram por reentrar na normalidade. Espero que tudo decorra, doravante, sem quaisquer sobressaltos.

Haja saúde!

quinta-feira, agosto 09, 2012

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 9 de Agosto de 2012 – Acabei de ler o romance A Cidade de Ulisses de Teolinda Gersão, escrito num tom coloquial, que agarra o leitor do primeiro ao último momento. Sob uma aparente simplicidade de processos, Teolinda dá-nos nesta obra algumas histórias de amor, sendo certo que duas sobressaem: a vivida pelo narrador, Paulo Vaz, e por Cecília branco; e, a história em que Lisboa se constitui como amada das personagens antes referidas.

Através do protagonista desta narrativa, Teolinda dá-nos um retrato do Portugal das últimas décadas, não lhe escapando sequer a crise actual e o seu rol de misérias. Artistas de eleição, Paulo Vaz e Cecília são no seu modo de viver duas pessoas absolutamente normais, facto que confere uma inexcedível verosimilhança à narrativa

Através de Paulo Vaz, que parece – parece, porque, na verdade estamos em presença de um longo monólogo -, dialogar amiúde com as restantes personagens, a autora faz a apologia de valores incontestáveis, tais como a liberdade individual e a democracia. É de ler.

Gersão, Teolinda, A Cidade de Ulisses, Sextante Editora, 2ª ed., Porto, 2011.



quarta-feira, agosto 08, 2012

4 QUADRAS

Que porra vem a ser esta
Que nos estão a arranjar?
Esta vida já não presta
E ainda vai piorar?!

Mentirosos, mentirosos!
Estes donos da cidade
Sobem o pão e o leite,
O gás e a electricidade.

Sobe o pão e sobe o leite,
O gás e a eletricidade.
Tudo sobe pra deleite
Da velhinha caridade.

Noutra quadra escrevi porra,
Mas é porra interjeição.
Uns mamam à tripa forra;
Eu registo a indignação.

domingo, agosto 05, 2012


AO CONTRÁRIO DE REIS

De mãos entrelaçadas, vamos, Marta, até à beira rio. E aproveitemos, quais hedonistas inveterados, a mansidão da tarde para nos amarmos, sôfregos, como velhos faunos, que as nossas vidas são breves e o tempo muito veloz.

De mãos dadas, vamos, Marta, até à beira rio. E saibamos desfrutar todos os instantes, e, juntos, ouvir apenas o apressado bater dos nossos corações, indiferentes ao rio e a quem por nós passa.

Amemo-nos, pois, uma e outra vez e outra ainda, para, quando o tal barqueiro vier separar-nos, de nada possamos lamentar-nos, nem de Amor sermos devedores.

De mãos dadas, vamos, Marta, até à beira rio.





sábado, agosto 04, 2012


MOMENTOS

Do cimo desta torre, que ajudei a construir, vejo, para além do casario, uma magnífica ponte sobre um majestoso rio.

Subitamente, ocorrem-me Cesário Verde e as velhas crónicas navais. Gama, nas horas de borrasca, à divina providência implorando; Albuquerque, pequeno, mas firme no seu posto, praças e mais praças conquistando.

Do cimo desta torre, que ajudei a construir, observo agora o risco de fumo do último avião e esqueço-me das velhas crónicas e dos heróis das batalhas navais.

Para além do casario, vejo apenas uma magnífica ponte sobre um rio. Uma ponte magnífica e um rio.

quinta-feira, agosto 02, 2012



NÃO TENHO PALAVRAS SÁBIAS

Não tenho palavras sábias nem virtuosas para vos dizer. Se procurais essas palavras, esta não é a melhor porta para bater; porém, a cidade está repleta de homens sábios e virtuosos, que, certamente, vos dirão as palavras que os vossos corações, generosos, tanto procuram.

Eu só sei falar de cigarras, de potros fogosos e bravios e dos dias calmosos do Verão. E se um conselho meu quereis ouvir, pois bem, aqui o tendes: sede ledos como as cigarras, fogosos e bravios como os potros e desfrutai estes calmosos dias de Verão.

Simplesmente, que o tempo – o inexorável tempo –, se há-de encarregar de fazer o resto.



domingo, julho 29, 2012


INDIFERENTES AO MEU CANSAÇO

Agora, indiferentes ao meu cansaço, vêm filhos de mães de moral imaculada, cujos avós e quiçá os pais abancaram à manjedoura do orçamento, donde provavelmente roubaram para dar às filhas e a esses netos, dizer-me que estou a mais; que sou um inqualificável parasita; que não mereço o pão que como.

A esses bondosos cidadãos, que vão enriquecendo sabe-se lá como e encaixam as crias nos melhores empregos, usando os apelidos dos seus compridos nomes; a esses bondosos cidadãos, que vão fintando as leis para que haja pão e leite e carne e peixe, com abundância, nas suas avantajadas mesas; a esses bondosos cidadãos, que tudo esmifram para aconchegarem mais ainda as suas já farfalhudas contas bancárias; respondo com a veemência do costume: a puta que os pariu!





quinta-feira, julho 26, 2012

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 26 de Julho de 2012 – A vida, canta Sérgio Godinho, é feita de pequenos nadas. Falo das vidas comuns como a minha e a da esmagadora maioria dos portugueses. E quem diz de pequenos nadas, também poderia dizer de pequenos gestos. Eu creio que é nos pequenos gestos que os homens se vão distinguindo uns dos outros.

Há dias, na FNAC do Vasco da Gama, uma funcionária atendeu o meu filho, sem um sorriso, ainda que com eficácia e correcção. Paga a conta, o João sorriu-lhe, deu-lhe de novo os bons dias e desejou-lhe a continuação de um bom dia de trabalho. Comentou uns metros mais à frente, que, talvez assim, ela pudesse sorrir a outras pessoas e não ser apenas uma vendedora eficaz e correcta.

Há dias, um amigo meu agradeceu-me um gesto banal, um gesto que pratico desde sempre e com muito prazer. E em bom rigor, o gesto nem lhe era directamente dirigido. Disse ao meu amigo que a generosidade, por enquanto, ainda é gratuita. No fundo, ser capaz de dar espaço e visibilidade aos outros, nomeadamente àqueles de quem gostamos, não custa dinheiro e pode emprestar aos dias e às vidas cores mais sadias.

Não sei se consegui o objectivo a que propus quando comecei a teclar este texto. Se consegui falar claro de pequenos nadas, nomeadamente, de generosidade, falei do maior défice da sociedade portuguesa. Algo que, infelizmente, não se compra ou vende no supermercado.

terça-feira, julho 24, 2012

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 23 de Julho de 2012 – Há um sentimento que me é muito caro: a gratidão. Por isso mesmo, não poderia deixar de escrever meia dúzia de linhas, relativamente à sessão de lançamento de QUADRAS POPULARES – UMAS SIM, OUTRAS QUASE, no Cine –Teatro Avenida, na cidade de Castelo Branco, que ocorreu no passado dia 21 do corrente mês de Julho, pelas 18H00.

E essas linhas, que quero de agradecimento, vão para o Prof. Carlos Semedo, que dá alma ao espaço de CULTURA-VIBRA, no Cine-Teatro Avenida, com empenho, saber e simpatia; e vão, também, para a Dr.ª Cristina Granada, que, na sua qualidade de Vereadora da Cultura, me dirigiu palavras de muita simpatia e manifestou interesse pelo “modus faciendi” da quadra popular.

E por fim, agradeço à Patrícia a amizade, a simpatia e a ajuda que nos deu no decurso deste evento simples, que também foi realizado com o seu empenho, que já durava há meses.

Fica a promessa de que havemos de voltar com outro trabalho, mas com uma escolha mais criteriosa do dia da semana, da hora e da época do ano, para que possamos ter uma sessão mais participada. Com Castelo Branco no coração, até sempre!



sexta-feira, julho 20, 2012

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria - Foi outrora uma vila industrial
Santa Iria de Azóia, 20 de Julho de 2012 – Arménio Carlos diz que o verão vai ser quente e eu acredito que sim, porque acredito em Arménio Carlos. E mais ainda na necessidade urgente de dar um combate eficaz a esta gente que nos desgoverna.

O desemprego é, indiscutivelmente, a maior praga que atingiu a sociedade portuguesa. É assim como uma espécie de pandemia e sem remédio à vista. Fazer crescer a economia e criar empregos é o grande desígnio nacional para os próximos anos, mas não é com esta gente que o barco encontrará um porto seguro.

Esta gente que nos desgoverna em nome do capital financeiro e dos grandes empresários - e também dos inabilitados pequenos e médios empresários -, tem todo o interesse em ter legiões de desempregados, a fim de poder ter trabalhadores sem direitos e com salários de miséria. É dos livros. Karl Marx (ou teremos que voltar a escrever Carlos Marques?) continua actual.

Temos que honrar a memória de Ary
O verão vai ser quente. Este verão tem que ser quente. Para defender o que resta depois do “tsunami” que arrasou Portugal nos últimos anos. Para defender um Portugal de e para os portugueses e não um Portugal de banqueiros, comerciantes e industriais “beduínos” que tudo nos querem tirar. E para correr com os mandantes, que apontam aos nossos filhos, despudoradamente, a porta de saída.



terça-feira, julho 17, 2012

DO MEU DIÁRIO

Portugal, um país crepuscular

Santa Iria de Azóia, 17 de Julho de 2012 – Segundo o que ouvi na Antena 1 da RDP, apenas 29% das empresas pagaram impostos sobre lucros (IRC), relativamente ao exercício de 2011. Que terá sido o pior ano, disse o comentador para assuntos económicos, para quem a crise não explica tudo.

Na verdade, o referido comentador disse que a relação nunca foi muito diferente, ou seja, só uma em cada três empresas é que paga imposto sobre lucros, ou seja, o chamado IRC. È assim, efectivamente, há muitos muitos anos e nem o celebérrimo gestor Paulo de Macedo pôs cobro a tal situação.

Dizia o comentador que algo não está bem, porque não sabe como poderiam os sócios e os administradores das empresas suportar prejuízos permanentes. Eu também não. Sei e não é preciso ir a Delfos perguntar as razões pelas quais há tantas empresas em Portugal a dar prejuízo. Dão prejuízos porque a fraude e a evasão fiscais são muito grandes. Sabe-se que a economia informal vale hoje mais de 25% do PIB.

E a tendência é para a fraude e a evasão serem ainda maiores, tendo em conta as altas taxas do IVA. Se se pensar que uma conta de 500 euros de uma prestação de serviços será acrescida de 115 euros de imposto, perceber-se-á de imediato que quem desembolsa prefere pagar 500 e não 615 euros.

O fenómeno é transversal a toda a sociedade. E venha de lá o mais pintado dizer que nunca deixou de pagar tudo o que deveria. Houvesse vontade política de combater a fraude e através da carga fiscal proceder a uma redistribuição equitativa da riqueza nacional e outro galo cantaria.

terça-feira, julho 10, 2012

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 10 de Julho de 2012 – Não sei até onde recua a minha memória, mas creio recordar-me de factos de quando tinha três ou quatro anos de idade. Lembro-me, por exemplo, de estar todo o dia sentado junto de uma fogueira, enrolado num xaile de minha mãe, nos campos da Mata, enquanto os meus pais colhiam azeitona por conta de outrem.

Recordo-me de um certo dia, quando a minha mãe e outras mulheres “enfatulhavam” estacas – enfatulhar estacas consistia em enrolar palha molhada à volta de uma estaca que, se um dia viesse a singrar, seria uma estacazinha e posteriormente uma oliveira -, a tia Antónia Pereira me ter pedido um bocadinho de palha. Fui buscar palha à poça onde estava mergulhada em água, caí dentro da poça e só não morri afogado, porque a minha mãe estava sempre atenta. Passei essa manhã de primavera enrolado num avental de minha mãe à espera que a minha roupa enxugasse.

Durante o período da apanha da azeitona, acompanhava o meu pai e a minha mãe, a pé ou às cavalitas de meu pai, à chuva e ao vento, comendo pão com um bocadinho de conduto, que podia ser toucinho ou morcela, ovos fritos ou farinheira, uma talhada de queijo ou outra coisa qualquer, tudo com parcimónia, ainda que o pão, amassado e tendido por minha mãe, fosse sempre abundante. Lembro-me de uma vez, no couto do Firmino, mais concretamente na chamada Volta, ter caído a cesta de vime da nossa merenda e de eu ter gritado: “ai o nosso vinho!”. Durante muitos anos, os homens e as mulheres que assistiram à queda da cesta, lembraram-se com saudável gozo do grito “ai o nosso vinho!”.

Eu nem sei ao certo porque estou a escrever tudo isto, ainda que a vontade primeira fosse a de perguntar numa universidade qualquer, a quantas cadeiras teria direito, bolonhesas ou não bolonhesas, num curso de silvicultura ou de coisa parecida, se quisesse obter o referido grau académico. Mas há uma pergunta óbvia: “ para quê toda esta conversa da treta?”.

E por que carga de água se “enfatulhavam” as estacas? E concretamente o que eram as tais estacas?

sábado, julho 07, 2012

DO MEU DIÁRIO

Paços do Concelho
Santa Iria de Azóia, 7 de Julho de 2012 – As aulas do ciclo e do secundário começavam sempre no primeiro dia do mês de Outubro. E foi precisamente no dia um de Outubro de mil novecentos e sessenta e quatro que fui viver em Castelo Branco. Na acanhada Rua de Santa Maria, a pouco mais de cinquenta metros do antigo Albergue Municipal, onde era popular um homem com problemas mentais, de nome Raul, que cravava cigarros a toda a gente.

Eu não tenho a certeza se nesse ano desfilei no 1º de Dezembro, com a farda da Mocidade Portuguesa, da Praça Rainha D. Leonor até à Sé, onde era celebrada missa e abençoada esta criação do fascismo português. Eu gostava de ir e de assistir à missa, onde a páginas tantas, se ouviam poderosos clarins, que emprestavam um tom guerreiro à festa da Restauração. Ou pelo menos era assim que eu sentia as coisas.

Eu vinha da aldeia, a Mata, onde fui aluno de um professor que obrigava diariamente a pequenada a formar e a marchar e a cantar o “somos pequenos lusíadas”. Dizia-se que era informador da ex-PIDE, facto que nunca tive curiosidade em confirmar, apesar de com ele me ter incompatibilizado naquele ano decisivo de mil novecentos e sessenta e nove. Encontrou-me no armazém do Carlos Vale, na J. A. Morão, onde eu executava uma tarefa eleitoral, ajudando a CDE. O dito professor ia à procura do Cartório Notarial e depara-se com um ex-aluno a ajudar nas actividades da oposição democrática. Por puro voluntarismo, que as convicções mais profundas só vieram a seguir.

Não estranhei muito, portanto, aquele ambiente de 1º de Dezembro, agora com camisa verde, cinto com S, calções e bivaque castanhos. Não me recordo se os sapatos também faziam parte do fardamento. Eu respirava patriotismo e catolicismo por todos os poros. E admirava sinceramente aqueles comandantes de castelo e de bandeira, que, no meu entendimento de doze anos, eram verdadeiros generais. O Rosado e o Mário eram na EICCB, actual escola Amato Lusitano, dois grandes chefes.

sexta-feira, julho 06, 2012

DO MEU DIÁRIO

Praça Camões- Praça Velha 

Santa Iria de Azóia, 4 de Julho de 2012 – Castelo Branco, nos meus tempos de menino e moço (deixem lá passar o cliché), tinha quatro feiras anuais. Em Agosto (30), a chamada Feira Franca, que era, de longe, a mais importante de todas, trazia à cidade muitas centenas de pessoas, vindas de todo o concelho e até do distrito, incluindo muitos carteiristas. Em Outubro (4), Dezembro (18) e Janeiro (6), realizavam-se as restantes, que estavam longe de ter a participação popular e a importância da feira de Verão.

A parte mais visível das feiras era a das tendas na Devesa, onde se vendia de tudo um pouco, desde os trapinhos ao ouro, que as feiras de Castelo Branco tinham sempre muitos ourives a vender relógios e artefactos em ouro e prata. E como era feira franca, havia também a franqueza de regatear o preço de todos os produtos. Creio que este velho hábito de regatear ainda não desapareceu completamente, apesar das transformações que Portugal e a região de Castelo Branco sofreram nos últimos cinquenta anos.

Castelo Branco teve e continua a ter um mercado semanal – uma verdadeira feira -, onde as populações compram uma infinidade de utilidades. Na minha infância e adolescência, era no Largo da Devesa, depois passou para o Cansado e na actualidade é no Ribeiro de Perdizes. O terrado foi preparado para o efeito; tendo, por conseguinte, melhores condições. É sobretudo o espaço comercial dos populares e das gentes das aldeias, que encontram ali os produtos de que mais necessitam e aos melhores preços. Ou talvez não.

Eu teria quatro ou cinco anos, quando desapareceu a antiga Praça, que era no local onde na década de sessenta foi construído o Palácio de Justiça. Era uma construção em ferro, onde a minha mãe comprava bananas pequeninas e muito maduras mas doces como mel. Depois foi o tornado de cinquenta e quatro, ou coisa parecida, que levou a cobertura para as bandas do Monte de S. Luís, nos Escalos de Baixo (vox populi dixit), facto que terá apressado a construção da Praça da 28 de Maio, actual 1º de Maio, que foi durante muito tempo um ex-libris da cidade.

Como facilmente se depreende deste texto, Castelo Branco deu sempre muita importância às feiras e ao mercado. E a sua Praça, que sofreu obras há poucos anos, merece uma visita.



sexta-feira, junho 29, 2012


o antigo edifício dos correios
Santa Iria de Azóia, 29 de Junho de 2012 – Vistas bem as coisas, a democratização do ensino começa ainda nos anos sessenta. Por imposição do crescimento industrial e também graças à forte emigração verificada nas zonas do interior. Castelo Branco não fugiu à regra, tendo assistido à partida de muitos milhares de camponeses e trabalhadores da construção civil. Primeiro os homens e depois as mulheres. E os filhos, que ficavam entregues aos avós, podiam agora transpor o limiar da escola técnica. O liceu de Nun’ Alvares continuava destinado aos do costume e assim continuou até ao 25 de Abril.

Não era de ensino e de democratização de ensino que eu queria falar hoje, que não é tema que domine bem. Eu falo de coisas mais triviais, que os sociólogos e outros cientistas sociais ignoram. Hoje quero falar de matraquilhos, que eram muito populares na cidade, nos anos sessenta, com largas dezenas de mesas espalhadas por todo o perímetro urbano: na Rua dos Prazeres, a dois passos da Sé, era o “Tonho dos Bonecos”; numa quelha daquela mesma rua, por detrás do restaurante Lua e Sol - uma viela por onde passavam as meretrizes a caminho do Café Lusitânia - também se jogava este jogo barulhento; na Rua João de Deus, tinha porta aberta o Sr. Aníbal Barata, num espaço que antes tinha sido de comes e bebes; ao cimo da Rua de Santiago, com tasca contígua, existia outra casa de matrecos, a primeira onde exercitei a minha perícia de atacante; e, por último, refiro também o Maresia, na correnteza do Café Beirão, defronte do maior “prêt-à-porter”, o António dos Capotes.
antiga biblioteca municipal e também da Gulbenkian
Por toda a cidade havia inúmeras tascas que tinham a sua mesa de matraquilhos; porém, creio que as casas referidas no parágrafo anterior eram, indiscutivelmente, as mais populares. Os clientes eram os estudantes e os militares, ou seja, a população mais jovem da cidade. Castelo Branco possuía vários estabelecimentos de ensino e dois regimentos militares, um de cavalaria e outro de caçadores, que forneciam os clientes para estas saudáveis casas de diversão. A população da cidade renovava-se permanentemente com a chegada e partida de militares e estudantes.

Conheci grandes jogadores de matraquilhos. Destaco o malogrado Luís “Canetas”, com quem jogava na quelha de acesso ao Café Lusitânia, por onde passavam, dolentes e pesadonas, as meretrizes, que teimavam em andar sempre muito pintadas e de sapatos de salto alto. Outros tempos!

quinta-feira, junho 28, 2012

DO MEU DIÁRIO

Amato Lusitano
Santa Iria de Azóia, 28 de Junho de 2012 – Os jornais chegavam a Castelo Branco de comboio: os matutinos por volta do meio-dia e os vespertinos por volta das vinte horas, quando os comboios circulavam com pouco atraso, porque também acontecia os matutinos chegarem à tardinha e os vespertinos só serem lidos na manhã seguinte.

Se a memória não me atraiçoa, o quiosque Vidal detinha o monopólio dos pouco madrugadores DN e Mundo Desportivo e dos vespertinos Diário Popular e República; ti Albino – que espectáculo de ardina! – comercializava O Século, A Bola e o Record, matutinos, e o Diário de Lisboa e A Capital, vespertinos. E a famosa revista de actualidade: Vida Mundial, hebdomadária, com saída ao sábado.

Ti Albino - era assim tratado o mais desembaraçado dos ardinas albicastrenses -, vinha a correr da estação da CP com um molho de jornais debaixo do braço, até ao centro da cidade, gritando a plenos pulmões “é o Séeeeeeculo”, “é A Booooola”, “é o desastre”, “é o séeeeeeeeeculo”, “é o Record”, etc. Sempre em movimento e a apregoar, só parando para entregar o jornal ao cliente, receber e fazer trocos. Tinha na sua mulher, cujo nome já esqueci, uma colaboradora assídua e esforçada, que passava os dias a complementar a actividade do marido, ao frio e ao calor, naquele vão de escadas que dava acesso à parte de consultórios do edifício em cujo rés-do-chão funcionava o café Arcádia, que tinha a sala de bilhares ao lado.

Os outros ardinas eram Zé Gavetas e Zé Noco. O primeiro, era um homem muito querido na cidade, porque era simpático e, por vezes, até muito reverente; Zé Noco - irmão de ti Albino - que nunca tirava o cigarro dos beiços, era uma figura esquálida e nada sociável. A rapaziada metia-se com ele, porque sabia que havia de ouvir um chorrilho de asneiras ou ver algum daqueles gestos menos recomendáveis.

E aqui deixo um retrato dos ardinas da cidade, seguramente incompleto e impressivo; no entanto, creio que não terei cometido imprecisões de monta. É que o tempo passa e a minha memória já não é o que era.

quarta-feira, junho 27, 2012

DO MEU DIÁRIO

entrada norte de Castelo Branco

Santa Iria de Azóia, 27 de Junho de 2012 - O quiosque Vidal, era, nos anos sessenta e setenta do século passado – até ao 25 de Abril -, o “sítio” onde se podiam adquirir as principais revistas do país e também alguma da melhor literatura que se ia fazendo em Portugal.

Não admira, assim, que o quiosque Vidal fosse o local de encontro de quem lia e de quem procurava aquela documentação oposicionista que a bondade do regime do guarda-livros do Vimieiro, e depois do “conversas em família”, ia deixando circular. O senhor Vidal era um homem bastante alto e muito teatral, que, creio, também tinha um negócio de padarias. E o seu empregado, o Zé Fernandes, era não só um grande leitor de lombadas; mas, também, um leitor atento de alguns dos melhores autores romanescos, portugueses e estrangeiros.

Eu soube há dias que o Zé Fernandes, que morava, quando o conheci, numa daquelas casinhas pequeninas do bairro da Horta de Alva, já fez a última viagem. Fomos amigos muitos anos, e apesar das diferentes opiniões que tínhamos acerca da vida e do mundo, nunca deixámos de nos tratar com estima e cordialidade. Partilhámos o vinho e o pão vezes sem conta. E ainda me lembro de ter comido rabanadas na casa dos pais do Zé Fernandes, gente do Porto, numa noite em que cantávamos as Janeiras nas ruas de Castelo Branco.

Eu tinha decidido falar de jornais e ardinas e acabei a falar do quiosque Vidal e do Zé Fernandes. Fica provado que, na verdade, as conversas são como as cerejas. É que nem de propósito: estamos no tempo delas.

segunda-feira, junho 25, 2012

DO MEU DIÁRIO


Fotografia retirada do "sítio" da CMCB

Santa Iria de Azoia, 25 de Junho de 2012 - Em 21 de Julho, far-se-á a apresentação de QUADRAS POPULARES – UMAS SIM, OUTRAS QUASE, no Cine-Teatro Avenida, na cidade de Castelo Branco.

Vou regressar ao velho edifício do cinema após uma ausência de décadas. Vou regressar ao velho edifício do cinema, porque não dizê-lo, com alguma comoção e expectativa. Vou regressar ao velho edifício do cinema do qual guardo memória de inúmeros filmes, de outros espectáculos inesquecíveis, de bailes, etc. Vou ao encontro dos meus conterrâneos com um livro de quadras, que é o que tenho, de momento, para lhes oferecer.

Na década de sessenta do século passado, o Cine-Teatro Avenida era um edifício polivalente, embora o cinema fosse a sua principal actividade. Comparável ao Monumental e ao Império, que eram duas grandes e excelentes salas de espectáculos da capital. Tinha duas plateias, um primeiro balcão enorme e, ao cimo deste, um espaço de camarotes. Tinha ainda um segundo balcão com entrada própria, que era conhecido pelo piolho. O senhor Fernando controlava a entrada principal e tratava da sala; o Guilhermino, uma figura castiça da cidade, colocava os cartazes nos sítios do costume e distribuía a restante publicidade.

Sei que o Cine-Teatro Avenida esteve vários anos fechado. Sofreu obras de remodelação e tem agora uma vida diferente. As notícias vão-me chegando, amiúde, através de Cultura Vibra. Ainda que a traça inicial se tenha mantido quase intocável, exteriormente, sei que foram feitas importantes obras no interior. Não sei o que restará da velha sala polivalente, mas mais ao cinema dada, e por isso vou com muita curiosidade.

Vou com um livro de quadras na mão.

sábado, junho 23, 2012

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 23 de Junho de 2012 – António Salvado – poeta, ensaísta, antologiador e museólogo -, é um nome incontornável da vida cultural de Castelo Branco, a sua terra natal, e de toda a Beira Baixa.

Ontem, um amigo comum, o poeta José Antunes Ribeiro, brindou-me com dois Salvado (deixem lá a metonímia) de peso, a antologia de AUTORES NASCIDOS NO DISTRITO DE CASTELO BRANCO (Século XV a 1908) e Na eira da Beira (edição comemorativa do cinquentenário da vida literária de António Salvado), que já folheei e que hei-de ler, proximamente, com a devida atenção.

A generosidade do José Antunes Ribeiro é, portanto, a responsável por estas linhas e pelo belíssimo poema que aqui transcrevo de NA eira da Beira:

Albicast(r)o




Onde as pedras desenham a encosta


e as oliveiras testemunham a paz.



Uma linha de luz que freme e rola


na solidão do longe ao lado larga.






As fréseas da infância no sol-posto


como poema anterior à escrita,






e entre graranito o amanhecer: o sopro


calmo das velhas ruas          velhos sítios.






Amuralhada no seu estar dormida


de branco lenço ao peito a castelar -


uns olhos ficam tristes por partir,


uns olhos partem tristes por ficar.




Nota: ambas as obras têm a chancela de Arion Publicações, Lda.