quarta-feira, fevereiro 29, 2012

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 29 de Fevereiro de 2012 - A pandilha alemã, e também os seus acólitos, não desiste de humilhar e castigar a Grécia até onde lhe for possível. A pandilha alemã não esquece as palavras do presidente grego dirigidas a essa esquálida figura que dá pelo nome de Wolfgang Schauble, ou seja, o todo poderoso ministro das finanças da senhora olhos-de-goraz. Agora é o primeiro-ministro desse imenso país que é o Luxemburgo, presidente do eurogrupo, que quer que seja criado um novo comissariado europeu para, digamos assim, governar a Grécia.


Outro figurão, de seu nome Olli Renh, exorta Portugal a caminhar para o abismo e recomenda mesmo o redobro dos sacrifícios. Eu sei o que esta canalha está a pedir, mas não é com gente subserviente que terão a merecida resposta. A gente viu as célebres imagens de Gaspar com esse tal Schauble e sabemos do alinhamento do seu chefe com a caisarina olhos- de-goraz. Sendo estes os factos, por enquanto estamos conversados.


Mas nada me impede, no entanto, de mandar Olli Renh e Jean-Claude Juncker àquela banda. Que vão, pois, àquela banda. E só não escreve no nosso melhor vernáculo, porque quero esta prosa com bom odor.

sábado, fevereiro 25, 2012

DO MEU DIÁRIO

Toda a coragem é necessária(Joaquim Pessoa, creio)

Santa Iria de Azóia, 24 de Fevereiro de 2012 – Eu não sei bem caracterizar este prodigioso tempo que estamos a viver. Sei que vivemos sob a pata dos mercados e de muitos economistas seus serventuários, que, sendo-o, também se servem a si mesmos, rapando sem descanso o pátrio pote.


Como diria Garrett, este é o tempo de Sancho Pança. Só que os nossos sanchos seguem os senhores com a certeza de que mais tarde ou mais cedo serão chamados à manjedoura do OE ou de EP ou de PPP ou de coisas afins. Não andam nesta roda-viva por uma vaga promessa de virem a ser reis de uma ilha minúscula.


Portugal, que foi nos anos que se seguiram ao 25 de Abril um país interessante, volta a ser aquela apagada e vil tristeza de que Camões já falava n’ Os Lusíadas. Aqui reina de novo a ganância e a cobiça. E os pretensos almirantes sabem apenas infligir castigos ao povo, desprovidos que são de ideias de modernidade. Governam-nos a partir de vagos apontamentos de velhas sebentas que já provaram a sua inutilidade no passado.


A seca que assola o país está em consonância com a seca que é este governozinho de capatazes, às ordens de uns fulanos que aparecem por aí de quando em vez, para vomitarem, sobre Portugal e os portugueses, dispensáveis conselhos e opiniões e duvidosas mezinhas.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

DO MEU DIÁRIO



Santa Iria de Azóia, 21 de Fevereiro de 2012 – Os dias têm corrido muito pressurosos, ainda que nem sempre – ou quase nunca – deixando boas recordações. Para dizer a verdade, não há mês do ano que não esteja associado a coisas ruins, que as boas, à semelhança dos milagres, são cada vez mais raras. Adiante.


No sábado passado visitei a exposição dedicada a Alves Redol, e por extensão ao neo-realismo, no museu vila-franquense com o nome daquele movimento literário dos anos 40-50 do séc. XX. Trata-se de uma exposição imperdível, não só pela abundância de documentos referentes ao autor de Barranco de Cegos; mas, também, pelo enquadramento sociopolítico, que permite uma visão alargada da vida portuguesa da época.


O visitante toma contacto com livros, velhas e novas edições, requerimentos, certidões, manuscritos, jornais, revistas, muitas fotografias, etc. E ainda materiais referentes a outras artes como o teatro e o cinema. Quem se deslocar a Vila Franca para ver esta exposição-homenagem, sem quaisquer preconceitos, há-de dar o tempo por bem empregue.


Adquiri um livro com depoimentos sobre Mário Sacramento, que devorei durante o serão e a noite de sábado. Eu conheço Máris Sacramento há muitos anos. Li amiúde páginas do seu diário, textos de crítica literária e a sua peça Teatro Anatómico. Não foi novidade para mim que todos aqueles depoimentos, dezenas e dezenas, fossem tão consensuais. Eu sabia que Mário Sacramento, o médico, o escritor, o crítico e o combatente pela liberdade, era um ser humano excepcional. Fiquei com a minha convicção reforçada.


Fiquei também a pensar que não tendo os portugueses feito o que Mário Sacramento lhes pediu - um país livre e fraterno -, o excepcional homem de acção terá de cá voltar.


sábado, fevereiro 18, 2012



AS CEGONHAS

Partem antes do equinócio
E antes do equinócio chegam.

Nos cocurutos das árvores
E nos velhos campanários,
Constroem as suas habitações;
Donde, com indiferença,
Gloterando, placidamente,
Espreitam as nossas vidas.

Falo das cegonhas
E da sua mania das alturas.


segunda-feira, fevereiro 13, 2012



ANTÓNIO SALVADO



Quando se fala de poetas e de poesia albicastrenses, há um nome que ganha espessura e sobressai: António Salvado. Natural da cidade de Castelo Branco, onde nasceu a 20 de Fevereiro de 1936, em Castelo Branco tem vivido quase ininterruptamente.


Licenciado em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa, o autor de Narciso (1955) deixou o seu nome ligado à revista Folhas de Poesia, tendo dirigido o nº 4 e último (1959), dedicado integralmente à obra de Ângelo de Lima.


Exerceu a docência em Lisboa, Luanda e na sua cidade natal. Em Castelo Branco dirigiu também, durante vários anos, o Museu Francisco Tavares Proença Júnior. É, indiscutivelmente, uma figura incontornável da vida cultural da cidade de Afonso de Paiva e Amato Lusitano.


Iniciou a sua carreira literária com Narciso (1955) e o seu último trabalho, AURAS DO EGEU – e de todos os mares, com a chancela da FOLIOEXEMPLAR, surgiu em Outubro do ano transacto. Importante poeta da segunda metade do séc. XX, entrou no séc. XXI com grande determinação e criatividade, estando para breve a publicação de um novo trabalho.


Apesar de ter vivido quase sempre em Castelo Branco, o trabalho poético de António Salvado tem merecido justo reconhecimento nacional e internacional. Está traduzido em castelhano, francês, italiano e inglês. O mundo ibérico já o distinguiu com vários prémios.


E como não podia deixar de ser, aqui vos deixo este belo poema de António Salvado:




COLHEI AS ROSAS




Colhei as rosas, sim, colhei as rosas

tão vivas de vermelho

e as brancas violetas

colhei também -



Eis a festa das flores

no vosso coração

estremecido quente

e mergulhai os lábios no prazer-



O amor vos aguarda,

ó frescas raparigas,

enfeitai-vos de rosas violetas

plantadas nos canteiros dos desejos.




AURAS DO EGEU - e de todos os mares, FOLIOEXEMPLAR, Lx., Out/2011

quarta-feira, fevereiro 08, 2012


AS PALAVRAS


Calhou-me em sorte ter de folhear dicionários. De palavras tem sido feita a minha vida. Com elas tenho feito o que a imaginação me permite, pouco, certamente, mas tento dar-lhes, sempre, a leveza das frescas brisas estivais e permitir-lhes os mais ousados voos.
Um dia disse, com papal solenidade, urbi et orbi, que com as palavras tudo faço: pinto o céu, pinto árvores, pinto frutos, pinto ruas e pinto casas. Às vezes, muitas, até pinto a manta. As palavras são o barro, a tinta, o mármore, a madeira - não deixarei aqui um preguiçoso etc. – com que vou recriando o mundo.
Com elas digo, todos os dias, a alegria, a esperança e o afecto; sem elas, não sei o que de mim seria. Outro seria, certamente.

segunda-feira, fevereiro 06, 2012


O DILÚVIO
Bem vistas as coisas, tudo filtrado pelo inexorável tempo – ah, essa misteriosa entidade, que protege todos os déspotas! -, a vida decorria sem inquietações, até ao dia do dilúvio que devastou a nossa frágil casa e nos trouxe horas e mais horas de infindável sofrimento e desespero.
Eu quis ser firme e decidido como os antigos generais e aguentar-me à tona das águas e ser paciente e acreditar que tudo teria uma solução. Destruída a casa, perdida a caixa onde guardara todos os sonhos, senti-me triste e fraco e deixei que as lágrimas aumentassem o caudal das águas.
De certa maneira - prefiro a expressão francesa “dans un certain sens” -, senti o desespero dos bíblicos judeus na antiquíssima Babilónia; porém, nunca fiz promessas nem implorei a Deus.
As águas baixaram e a casa há-de reconstruir-se. Tento, denodadamente, encontrar a caixa onde guardara todos os sonhos.

sábado, fevereiro 04, 2012

Passaram já três anos, mas a mágoa permanece intacta

CONVERSA INACABADA

Nunca diremos tudo o que havia para dizer, porque é da natureza das coisas as conversas ficarem inacabadas. É certo que por pudor – ou outra razão qualquer –, passamos ao lado de coisas importantes, decisivas, fundamentais. Foi sempre assim e assim continuará a ser.

Quando eu era menino e me perguntavas de quem eu gostava mais, se de ti ou de minha mãe, respondia-te da forma mais convencional, ortodoxa, previsível: gosto dos dois. E hoje sei, de ciência segura, quão verdadeira era a minha pueril resposta.

Nunca te terei dito “gosto muito de ti”, ou “és o meu ídolo” ou ainda “amo-te muito”. Estas coisas comezinhas estavam para além da nossa gramática quotidiana e excediam a nossa intimidade comedida. E no entanto, ambos sabemos quanto nos amámos sempre.

Estas palavras, que neste momento escrevo, entre um café e dois goles de água, não as ouvirás jamais da minha boca. Ainda por pudor, não era hoje que te iria dizer estas coisas, que apenas aumentariam a tua comoção. O que te juro – é palavra de homem –, é que tens um lugar único, no meu coração.

in FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, 2009


OS COMPUTADORES
I
Um dia
- Não muito distante –,
Tenho a certeza,
Vou atirar-me,
Sem piedade,
Ao computador.

A nossa relação
Tem sido
Muito pacífica,
Embora
eu não ache
Muita piada
Às partidas
Que esta máquina
Tão estúpida
E sedutora
Me vai pregando.

Eu vou travar
Esta relação
Que vicia
Como o absinto
E atirar-me,
Sem piedade,
Ao computador.

É inevitável!
É inevitável!


II
Começo a estar
Viciado,
Amor,
Com a treta
Do computador.

Doem-me
As mãos
Os braços
E as lombares
De tanto teclar

Há quanto tempo,
Amor,
deixei de te olhar
com olhos
de ver?

Qualquer dia,
Quando isto
Piorar,
Vou dormir
Com o endireita,
Amor!

inéditos

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

ÀS VEZES


Às vezes, quando alguma resistência sinto em entrar dentro de mim, mormente nos momentos de grande inquietação, procuro a quietude e a paz das igrejas. É então que este minúsculo território de orografia complicada, onde inúmeras guerras civis têm sido travadas, permite a celebração de todos os armistícios e festeja a doçura da reconciliação.
As catedrais góticas prefiro aos templos de outras épocas. Nelas, tudo é fruto de subida meditação e de um superior exercício da ordem. Dez minutos, meia, uma hora, às vezes, é o tempo necessário para, pegando numa ponta, enrolar o precioso fio de Ariadne e reencontrar-me com a luz.
Creio firmemente que as igrejas – e mormente as catedrais –, foram sempre pensadas para propiciar reencontros com a luz.


in FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005

terça-feira, janeiro 31, 2012

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 31 de Janeiro de 2012 - O leitor de poesia moderno há muito que se habituou a conviver com textos, que, tendo a organização visual da prosa, são verdadeiros textos poéticos. É o que sucede com os textos do livro As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar, de Isabel Mendes Ferreira, que, curiosamente, começa com a palavra elegia.


Eu gosto desta escrita assindética, em que as palavras caem no poema como notas de um piano só aparentemente “desafinado”. De resto, esta poeta organiza meticulosamente o material linguístico, eliminando a ganga, e dando a quem lê excelentes textos que mais parecem trabalho de ourives.


A solidão - e a procura de fugir a essa mesma solidão – é um temas recorrente nesta poeta, que convoca, abundantemente, as metalinguagens de outras artes para construir os seus poemas, a saber: a música e a pintura ou a pintura e a música, porque, na verdade, a ordem não se constitui como uma regra rígida.


Acabei de ler o poema “ não demoro vou só beber o vento.” (frase inicial), que daria para escrever um longo texto. Fica para outras núpcias, se outras núpcias houver, que o trabalho desta poeta exige e merece um grande esforço de concentração.


Ferreira, Isabel Mendes, As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar, Arcádia, edição Babel, Lx., 2010.

domingo, janeiro 29, 2012

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 29 de Janeiro de 2012 – Ainda que queira ser muito firme, o nervoso miudinho, sem que o demonstre muito, começa a tomar conta de mim. Não, não tem a ver com o facto de hoje comemorar um aniversário, ou seja, trigésimo segundo aniversário de uma vida partilhada, que, nos tempos que correm, merecia música e foguetório; mas, no momento presente, o que me cria o tal nervoso miudinho é a ida do João, dentro de três dias, para terras de Vera Cruz. Vai fazer um semestre de intercâmbio escolar e espero que traga muitas ideias novas, que de ideias velhas andamos todos fartos.


O almoço de família foi hoje, e não ontem, porque os avós dos meus filhos ontem decidiram ir ao lançamento de uma livro de Jaime Serra, evento que teve lugar no detestável forte de Peniche. Foi hoje, portanto, o almoço de família, que ajudei a confeccionar, o que sempre faço com agrado, quando tenho tempo. Tempo e vagar, como se diz na minha Mata natal.


Ao contrário do que possa parecer, estes almoços têm a sua importância. Até linguística, porque hoje falou-se de alguém que era modista e o vocábulo modista há muito que o não ouvia. É sinónimo de costureira, pois claro. Mas os mais jovens poderiam intuir que se tratava de alguém que gostasse de andar na moda.


Ocorreu-me então a ideia de que esta palavra se está a transformar num verdadeiro arcaísmo, porque a generalidade dos falantes deixou de a utilizar. Os substantivos ou nomes servem para designar os seres, as coisas, as ideias e outras realidades, existentes no mundo. Quando deixam de existir, dizem as gramáticas, é porque a realidade nomeada deixou de existir; porque uma palavra melhor surgiu no sistema da língua para designar a mesma realidade, ou, simplesmente, porque os falantes se esqueceram dela. É o caso de modista, obviamente.


Há outras palavras que começam a entrar em desuso, nomeadamente, honradez, probidade e pundonor, todas sinónimas!, e é destas que estamos muito precisados, nos conturbados tempos que correm.

sábado, janeiro 28, 2012

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 28 de Janeiro de 2012 – Ontem, teve início mais um congresso da CGTP-IN, que foi fundada no já distante ano de 1972, quando ainda havia partido único legalizado, a Acção Nacional Popular, e Marcelo Caetano tinha, na RTP, as célebres conversas em família com os portugueses. Vivia-se ainda sob a pata de chumbo da censura, da PIDE da Legião Portuguesa e da bufaria, muita, que ia ajudando o regime a sobreviver.


Ontem, comentadores e comentadeiras, tiveram a preocupação de louvar a acção de Manuel Carvalho da Silva, auguraram-lhe, e bem, um futuro promissor e até, por atacado louvaram o regime que permitiu a Carvalho da Silva ser sindicalista e chegar a catedrático. Muitos esqueceram-se dos ataques soezes ao próprio Manuel Carvalho da Silva, mas sobretudo à grande central sindical da qual foi dirigente esclarecido durante vinte e cinco anos.


Ontem, comentadores e comentadeiras, muito ladinos, tiveram sobretudo a preocupação de tentar colar Arménio Carlos ao PCP, a cujo comité central julgo que pertence e saber se tal facto é bom ou não para o futuro do sindicalismo, etc. e tal. A preocupação dessa gente, que pulula por aí não se sabe bem como, radicava, grosso modo, no seguinte (a interpretação é livre): PCP vai ter maior influência ainda na CGTP-IN?


Ontem, os comentadores e comentadeiras, ontem tal como no passado, tentaram colar a CGTP ao PCP, temendo que Arménio Carlos, perigoso dirigente comunista, radicalize a luta e não saiba ser dialogante como Carvalho da Silva. Hão-de ter a resposta adequada e não adianta muito debitarem as atoardas do costume.


Ontem, comentadores e comentadeiras, falajaram o que quiseram, mas nunca lhes ocorreu que a UGT é uma construção socialista e social-democrata e que no seu congresso fundador estiveram a abençoá-la Mário Soares, Sá Carneiro e Diogo Freitas do Amaral. Esqueceram-se de referir que Proença, - sim, esse que no dia da assinatura do chamado acordo de concertação social exibia um sorriso tão impudico como o de Gaspar há tempos atrás, na Assembleia da República -, pertence aos órgãos dirigentes do PS. Esquecimentos.

terça-feira, janeiro 24, 2012

TEORIA DA QUADRA

Uma quadra bem urdida,
Em dia de inspiração,
Pode, se for atrevida,
Causar dano até mais não.

Eu quero estar sempre a salvo
Dos efeitos de uma quadra.
Tiro certeiro no alvo,
Faz pior que o cão que ladra.

Quatro versos podem ter
Um final devastador.
É por isso, ‘stá-se a ver,
Que a quadra exige rigor.

Em tempos de roubalheira,
Uma quadra pode ser
A espingarda mais certeira
Para os pilantras vencer.

O governo da nação
Governa contra o país.
Nega a constituição
Ignorando o que ela diz.

Este governo trinta e três
Tem almas do outro mundo
Pelo que faz, bem se vê,
Que mer’cia ir ao fundo.

inéditas

domingo, janeiro 22, 2012

QUADRAS DE BE(M)DIZER

Catroga, que é tão prendado,
Só ganha cinquenta mil.
E o pobre é enxovalhado
Pelo povo invejoso e vil.

Cartas à troika ‘screvia
-Tudo p’ra bem da Nação!-
Eu vi que o senhor só qu’ria
Ajudar. Outra coisa não…

De Catroga a nomeada
Até já chega a Pequim.
Só eu, esta alma danada,
Não tenho uma sorte assim.

Ando farto do Catroga
E da sua competência.
O meu país é uma droga
Sem um pingo de decência.

inéditas

segunda-feira, janeiro 16, 2012

DO MEU DIÁRIO



Santa Iria de Azóia, 16 de Janeiro de 2012 – Não sei bem porquê, mas continuo a pensar na poesia desse poeta maior que é António Salvado, e, sobretudo, no último livro que li do autor, AURAS DO EGEU - e de todos os mares, onde, digo eu, se reencontra o melhor lirismo do poeta albicastrense.
São quarenta e sete pequenos poemas – a qualidade da poesia não se mede pelo tamanho dos poemas – pelos quais perpassam suaves brisas mediterrâneas, que trazem até nós o amor e a inexorável passagem do tempo.
Do amor guarda Salvado grata memória, como se pode concluir do poema “AINDA QUE FOGO”, que aqui vos deixo.

AINDA QUE FOGO

Ainda que fogo sejas,
Ainda que sejas águas,
Para sempre te hei-de amar:

Jamais poderei esquecer
Tantos frutos de prazeres
Que sorvi contigo ao lado.

In AURAS DO EGEU – e de todos os mares, FOLIOEXEMPLAR, Lx., OUT/2011.

domingo, janeiro 15, 2012

DO MEU DIÁRIO



Santa Iria de Azóia, 15 de Janeiro de 2012 – António Salvado, natural de Castelo Branco, é autor de uma interessante obra poética, que já conta com dezenas de títulos. De um modo geral tem publicado pequenos livros, isto é, livros pouco volumosos, que, no entanto, não têm menos valor por isso. Salvado, que admiro há mais de quarenta anos, é, apesar de viver longe dos grandes meios, um poeta conhecido e respeitado.


Publicou recentemente dois livros, AURAS DO EGEU – e de todos os mares e REPOR A LUZ, ambos com a chancela da FOLIOEXEMPLAR. Com capa muito austera, como que em consonância com os tempos que correm, estes dois livros trazem dentro poemas de grande qualidade.
Sem licença da editora e do autor, mas com a devida vénia, aqui vos deixo um belo texto de AURAS DO EGEU.

CIGARRA


Ama a cigarra a cigarra,
ama a formiga a formiga,
ama o falcão o falcão:

e em todo o tempo ou o espaço
por mim eu amo a poesia
a ser-me no coração:

nada mais doce do que ele
nem o sonho a primavera
nem as flores e as abelhas –

e canta sem pedir nada,
humilde na sua azáfama
mas de voo audaz perfeito.

In AURAS DO EGEU, FOLIOEXEMPLAR, Lx., Out./2011.

quinta-feira, janeiro 12, 2012

DO MEU DIÁRIO



Santa Iria de Azóia, 12 de Janeiro de 2012 -A moderníssima poesia portuguesa passou-me ao lado, até muito tarde, por três razões principais: o exercício de uma profissão principal, a acumulação de horários lectivos pós-laborais e o desinteresse pelo que se ia publicando de novos autores. Dir-se-ia que vivia alheio ao que publicavam os autores que surgiram a partir dos anos oitenta. E pelas razões antes expostas, Isabel Mendes Ferreira só muito tarde entrou no rol dos poetas meus conhecidos. Foi no “blogue” de Lídia Martínez, artista plástica, bailarina, actriz, poeta, etc., que vi os nomes de Isabel Mendes Ferreira, Víctor Oliveira Mateus e Graça Pires, entre outros. José Antunes Ribeiro, poeta e editor, era meu amigo já há décadas.
Eu, como é sabido, também vou juntando algumas palavras, fazendo da quadra de matriz mais ou menos popular o terreno da minha lavoura. Sem desdém, no entanto, por textos de outra natureza, aos quais, por pudor, apelido de fragmentos com poesia, que têm sido publicados, mas não convenientemente distribuídos. Tem sido o “blogue” pessoal, MUSICA MAESTRO, o meu veículo de eleição para dar a conhecer o que vou fazendo no campo desta quotidiana luta com as palavras.
Isabel Mendes Ferreira apareceu uma vez como comentadora; e, generosamente, deixou naquele seu jeito muito peculiar, o seguinte comentário: “passei por aqui e gostei do que vi”. Se as palavras não foram exactamente estas, creio que não estou a trair o sentido do que então foi escrito. E elas marcam, indiscutivelmente, o meu interesse por esta notável voz da poesia portuguesa, cujo último trabalho, As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar, estou a ler com calma e atenção. Deste conjunto enorme de textos, que traz lágrimas no título e começa com uma elegia, hei-de, mais tarde, escrever detalhadamente.

terça-feira, janeiro 10, 2012

SONETOS PORTUGUESES



Pátria é para o bondoso e sábio relvas
-grafo a minúsculas, porque sim –
Um momento, uma circunstância,
Um meio para atingir um fim.
Portugal, onde tudo está por um triz,
É um corpo faminto e exangue.
Ai, dói tanto este tempo infeliz
De mandar para fora o nosso sangue!
Há-de sair quem quiser sair
E não quem os relvas, contumazes,
Insistam em aconselhar.
Portugal não é e nunca será
Um momento, uma circunstância,
Apesar deste desatino, desta errância…




inédito

quarta-feira, janeiro 04, 2012

Paisagem beirã

A Pátria... De novo e sempre a pátria!
Outrora, a palavra era grave e fagueira e provocava em mim, quando a ouvia ou pronunciava, um mar de emoções. Associava-a a sítios formosos e a bravos cavaleiros medievos e a subidos valores, que, pensava, constituíam a minha identidade. Era a terra de meus avós - nenhum deles egrégio -, mas que a trabalhavam e amavam e nada lhe pediam em troca.
Longe vão esses tempos de sonhos pueris!... A criança cresceu e já não cede às emoções. Doce e suave é agora falar da Pátria com indiferença, com a soberana indiferença de não lhe dever nada nem dela nada querer. E bom será que ela nunca de mim se lembre nem nada queira, para que eu possa ser sempre ignoto e feliz.
Nesta hora – oh, que sublime fim de tarde! -, a Pátria é apenas a terna memória que guardo de meus avós – nenhum deles egrégio -, mas que a amavam e nada lhe pediam em troca.

in FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005