quarta-feira, setembro 15, 2010

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 29 de Agosto de 1994 - Rabiscar notas, mesmo sob a forma de diário, não é tarefa fácil. Ainda que a escrita me esteja na massa do sangue; alinhar notas que suscitem interesse, numa prosa minimamente escorreita e ágil, repito, não é tarefa fácil. E há dias em que o vazio é total e o branco assusta. E no entanto, escrevo pelo prazer que a escrita me proporciona e não com a intenção de ganhar a vidinha. De resto, apenas um escrito me rendeu meia dúzia de patacos.
Concordo que um diário seja um espelho - um espelho muito peculiar - que há-de reflectir do autor a imagem desejada. Torga faz passar meia dúzia de ideias fortes: um homem na cidade, desenraizado, que procura no espaço primordial de S. Martinho de Anta a força para perseverar nos muitos desafios da vida; um homem dotado de uma grande firmeza de ânimo, à boa maneira dos estóicos, visível já nos textos escritos na prisão do Aljube, nos anos trinta; um homem solidário com os seus semelhantes e preocupado com a condição humana; um homem ousado, quando critica o Quixote de Cervantes; etc. Mas há outro Torga que se vai insinuando e que nada tem a ver com o caçador de S. Martinho de Anta: o artista que viaja e lê os autores mais significativos da literatura europeia (Ibérico por convicção, a sua Europa estende-se até aos Urais); homem culto que é capaz de se pronunciar acerca de Rembrant e Beethoven. Ao fim e ao cabo, apesar de reivindicar persistentemente as suas raízes camponesas, lá bem no fundo, Torga não despreza um certo cosmopolitismo. E aqui encontramos, seguramente, uma das razões da sua candidatura ao Nobel.
Seja como for, não há que levar a mal que o autor de Os Bichos tenha as suas estratégias. É um direito que lhe assiste. Há que respeitá-lo enquanto homem e criador.
Retomando o fio à meada e para concluir, compartilho da ideia de que um diário, construído texto a texto, como quem constrói uma casa, é um acto criador como outro qualquer. Com a vantagem de o seu autor se despir perante os leitores, enquanto pessoa empírica, e não poder gozar de um estatuto idêntico ao do narrador que, no entender de Roland Barthes, “é um ser de papel”.

DO MEU DIÁRIO

Praça de Santiago

Guimarães, 12 de Setembro de 2010 – Há, na minha humílima opinião, um paradoxo insanável na bonita cidade de Guimarães. Tendo sido o berço de Portugal e reivindicando o facto desde sempre e de forma patriótica; curiosamente, pelo que conheço de Portugal e do Norte, a cidade de Guimarães é a mais espanhola das cidades portuguesas.

Eu explico depressa, antes que algum vimaranense mais exaltado me dê com a espada de Afonso Henriques, na ignorância das minhas rectas e nobres intenções. Guimarães é uma cidade muito bonita – passe a reiteração desnecessária – e com um centro histórico bem cuidado, onde há esplanadas e mais esplanadas e se cultiva uma cativante vida de relação.

Ontem à noite, por exemplo, a praça da Igreja da Senhora da Oliveira e a praça de Santiago tinham por ali umas centenas de pessoas, que davam vida a um espaço fabuloso, à semelhança do que acontece nas praças da nossa irmã Espanha. Come-se, bebe-se, vêem-se dois desafios de futebol simultaneamente, Real-Osasuna e Sporting-Olhanense, convive-se.

E quem achar que é coisa pouca, que me dê exemplos melhores. Como se faz no “facebook”, eu digo alto e bom som e para que conste: “gosto disto”!

TERRAS DE BOURO 2

RIO CALDO

quarta-feira, setembro 08, 2010

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 25 de Maio de l994 - Não tenho da amizade uma visão utilitária, nem espero dos meus amigos sins incondicionais. Aos amigos, a todos sem excepção, quero apenas lealdade e solidariedade nas horas difíceis.

Os amigos, os verdadeiros amigos, são aqueles que, nas curvas apertadas da vida, se recusam a integrar o pelotão de fuzilamento; são aqueles que, nas situações de doença, nos visitam na cama do hospital e nos trazem uma palavra de esperança; são aqueles que, sendo amigos do coração, nunca nos pedem o impossível; são aqueles, em suma, que participam das nossas alegrias e tristezas. Sendo este o meu conceito de amizade, resta-me a consolação de conhecer muita gente, que me cumprimenta e cumprimento cordialmente.

A família é um mundo à parte.

sexta-feira, setembro 03, 2010

DO MEU DIÁRIO

Sacavém, 30 de Abril de 1994 - Se perguntarem a um avarento, por que nutre tanta apetência pela posse de bens materiais, antes de mais, negará a sua qualidade de avarento. Dirá que, ao contrário do que os outros pensam, é apenas uma pessoa previdente e contará ao seu interlocutor a conhecida fábula da cigarra e da formiga. E dirá que se sente bem na pele desses minúsculos e negros bichinhos que, de uma forma autómata, executam metodicamente o vaivém entre o local onde se encontra a semente - ou seja lá o que for - e o buraco-armazém.
Como é bom de ver, o avarento não é um contemplativo. Será mesmo incapaz de retirar prazer, de ordem estética ou outra, dos seus bens materiais. Não viu, decerto, “Casimiro e Carolina” no teatro do Bairro Alto ou o “Círculo de Giz Caucasiano” no Teatro Aberto. Não frequenta salas de cinema, não aprecia pintura e escultura, não viaja. Em relação às coisas que enriquecem verdadeiramente um ser humano, o avarento é um homem não. E poderíamos ficar por aqui no que à avareza concerne, mas o retrato ficaria incompleto.
O avarento não cultiva a vida de relação. Vive ensimesmado. Prefere a conversa com os seus botões. Inventaria e actualiza permanentemente o valor dos seus bens. Tudo o que esteja para além do estritamente necessário é supérfluo. Quando compra botas novas aos filhos, recomenda-lhes que dêem passos largos. Gosta de ser convidado, mas quando toca a sua vez de pagar a conta, desafia os parceiros para jogar à moedinha. Vai aos arames quando lhe falam em férias. Cria galinhas na varanda de sua casa para poder vender ovos. É o único que não ri, quando lhe contam a nova versão da fábula da cigarra e da formiga, que aqui deixo reproduzida:
No pico do inverno, a cigarra bate à porta da formiga e esta pergunta:
- Quem é?
- Sou eu, a cigarra.
- Que queres?
Quero apenas falar contigo, formiga.
- Já conheço os teus truques desde que o mundo é mundo. Estou farta da tua música.
- Não sejas parva , formiga. Abre lá a porta!...
A formiga abriu o postigo e deparou com a cigarra toda anafada e de casaco de peles. È então que a cigarra diz:
- Vou para Paris. Vim despedir-me de ti.
- Estupefacta, a formiga replicou:
- Olha, cigarra, já que vais para Paris, se vires o La Fontaine, manda-o foder com a história da fábula.
Terão notado, com certeza, que me centrei apenas num tipo de avarento, ou seja, naquele que vive obcecado pelo dinheiro e pelos bens materiais. O discurso poderia, no entanto, ser dirigido noutras direcções. Poupemos, por hoje, os ambiciosos de todos os matizes e os mesquinhos.
A avareza, caríssimos alunos e colegas, é um pecado capital. Pratiquemos todos, todos sem excepção, a prodigalidade, tornando-nos dignos do senhor D. João V, o tal que, com o oiro do Brasil, mandou construir o convento de Mafra e passou à História com o cognome de “o Magnânimo”.

quarta-feira, setembro 01, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 01 de Setembro de 2010 – Sempre me doeu muito que houvesse modas e escritores na moda na literatura portuguesa e nas outras. E dói-me, fundamentalmente, porque alguns dos autores que amo verdadeiramente caem assim numa espécie de limbo, merecendo apenas a visita de alguns curiosos ou de estudiosos que lhes vão dar a mão e os recuperam para a actualidade.

Este apontamento começa de forma muito arredondada e não sei se conseguirei dizer ao que venho hoje. Sempre gostei muito de Miguel Torga e dos modos literários em que achou por bem exprimir-se. Nomeadamente o diário, que também cultivo de forma mais ou menos sistemática. E dói-me, de facto, que D. Miguel de S. Martinho de Anta, já não seja lido e devidamente apreciado como merece. Bem sei que é preciso dar o lugar aos mais novos e ao novo, mas tenho para comigo que há autores e obras que não envelhecem ou não deveriam envelhecer.

Num tempo em que certos valores como o trabalho, a coragem, a luta por um mundo melhor e a ética parecem ter caído em desuso, parece-me que Miguel Torga continua a ser um autor pertinente e que deveremos indicar aos nossos filhos e netos como um bom luso exemplo a seguir.

Escrevi luso exemplo. E exactamente em relação a um autor que afirmava que a sua pátria telúrica se estendia desta ponta ocidental do Atlântico até aos Pirinéus. Em Torga, e a escolha do pseudónimo não foi inocente, porque quis o poeta ficar conhecido pelo nome da raiz da urze, ou seja, aquela parte do arbusto que fica intimamente ligada à terra.

Este otorrinolaringologista que em criança trabalhou no Brasil e se fixou mais tarde na cidade onde o Mondego preguiçoso se espraia, verdadeiramente, saiu, e não saiu, de S. Martinho de Anta. É ali onde tem os seus penates que pega na enxada, calcorreia os campos e a raiz volta a ganhar força telúrica para trabalhar em Coimbra e percorrer Portugal e o mundo.

Neste autor, só nunca percebi, ou se calhar até percebi, a sua animosidade em relação a Cervantes e ao Quixote, mas estas já são contas de outro rosário.

domingo, agosto 29, 2010

Santa Iria de Azóia, 26 de Agosto de 2010 – Bem sei que Vila Franca de Xira, aquela que mudaria conforme os ventos no dizer sempre pitoresco de Almeida Garrett, foi durante muitos anos um município governado por eleitos CDU; no entanto, e atendendo apenas àquilo que é visível a olho nu, penso que se pode dizer que a actual gestão tem respeitado os valores locais, em particular, e os de Abril, em geral.

Quando se entra em Vila Franca, no sentido N-S, ali encontramos a Rua Alves Redol, que agora até tem estátua num espaço moderno e convive com os clientes da esplanada de um agradável café. Um pouco à semelhança do que se passa com Pessoa no Chiado. Penso que é uma homenagem ao autor de Gaibéus e de Barranco de Cegos, que são duas obras emblemáticas da produção de Redol.

Gaibéus é considerado o romance fundador do neo-realismo e Barranco de Cegos o que rompe, por parte de Redol, com aquele movimento estético-literário, que teve cultores como Soeiro Pereira Gomes, Mário Dionísio, Sidónio Muralha, Manuel da Fonseca e outros. E também Carlos de Oliveira.

Pois bem, apesar de Garrett achar que Vila Franca era terra dada a reviralhos, registe-se o facto desta simpática cidade ter um museu destinado a perpetuar o neo-realismo, cujos autores deram um contributo notável na luta contra o ideário do Estado Novo. O que se calhar explica, num tempo em que dia-sim-dia-não surge uma biografia do ditador de Santa Comba, o esquecimento a que são devotados os autores antes.

Ainda bem que há terras com Vila Franca de Xira.

quinta-feira, agosto 26, 2010

PALAVRAS PERDIDAS

Há quanto tempo, mãe,não te falo de amor
Com aquelas palavras de encantar
Com que as crianças falam do amor?

Há dias corei de vergonha,
Corei de vergonha quando li,
Num livro de cartas de Saint-Exupéry,
As palavras mágicas que ele escreveu a sua mãe
E que eu nunca te disse a ti.

Deixei que entre nós se interpusesse
Um pudico silêncio ancestral
E disse-te apenas coisas imediatas e triviais.

Eu esqueci, mãe, aquelas palavras claras e pueris
Que tanto alegravam o teu coração.

Eu coro de vergonha, mãe!

Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx. 2005
O TEMPO
O tempo – essa coisa misteriosa que se conta em milénios, séculos, anos, meses, dias, horas e segundos – alguém saberá ao certo o que é? E no entanto, nada escraviza mais o Homem do que o tempo, que as gramáticas organizam em passado, presente e futuro, mas que, no fundo, é apenas passado e futuro.
O tempo – essa coisa estranha que dá alento aos tiranos e torna precárias as acções dos heróis, que destrói as verdades eternas dos teólogos e os sistemas infalíveis dos filósofos, que tudo e todos condena ao esquecimento – alguém saberá ao certo o que é?
No seu perpétuo fluir, o tempo é o tempo, como diria o delicioso Caeiro.
Para mim, que não sou poeta nem literato, mas simplesmente um amigo de poetas e literatos, o tempo é o sol a levantar-se preguiçosamente do Tejo - é assim que eu o vejo das janelas da casa onde habito- que depois sobe e roda e desce, devagarinho, para desaparecer por detrás das casas, para de novo se levantar das mansas águas do Tejo e subir e rodar e descer e desaparecer e de novo se levantar das mansas águas do Tejo.
Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005

quarta-feira, agosto 25, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 25 de Agosto de 2010 – Nos últimos dias, António Lobo Antunes (ALA), escritor, tem sido notícia nos jornais e nas televisões por razões extra literárias. E o teor dos comentários na NET, indicia quão vivas ainda estão as questões relativas à guerra colonial.

ALA, do qual fui leitor atento durante mais de vinte anos, não precisa da minha defesa. De resto, ainda que tenha produzido alguns textos acerca da sua obra e/ou de alguns dos seus livros, nunca apertamos as mãos, nunca nos dirigimos uma palavra. No entanto, penso que os exaltados do costume têm ameaçado, soezmente, um dos grandes criadores actuais da língua portuguesa, um ex-combatente, um dos autores a quem devemos das melhores páginas sobre a Guerra Colonial.

Não direi que ALA não tenha, aqui ou ali, carregado nas tintas com que pintou o seu quadro. Creio, todavia, que durante os catorze anos de guerra em Angola, foram cometidos inenarráveis actos a que hoje poderíamos chamar crimes contra a humanidade. Cometidos pelas nossas tropas e pelos combatentes inimigos.

A guerra deixou traumas em milhares de portugueses, que, por incúria do regime anterior e do instituído em 25 de Abril, não tiveram o acompanhamento e o tratamento adequados. Por isso mesmo, ainda há por aí muitos tresloucados capazes de cometimentos idênticos aos de trinta e tal, quarenta, cinquenta anos.

O autor de Os Cus de Judas e de Cartas de Guerra não merece este ódio, que, bem vistas as coisas, já deveria estar enterrado; mas neste pobre país, que nunca foi capaz de cotejar Os Lusíadas e A Peregrinação, tudo é possível.

Os factos narrados pelos media são eloquentes.

segunda-feira, agosto 23, 2010

SONETO DO CANTO E DO AMOR



Cantar!...


A beleza dos nossos corpos
E este desejo nunca extinto
De animais insatisfeitos.


Cantar!...

O instinto bravio
O sentir dos dedos
E o coração dentro do peito.


Cantar!...



Com alegria,
na serena madrugada,
o teu corpo, amor,
que amar não cansa.

Cantar!...


Mata/79


domingo, agosto 22, 2010

EM TEMPO DE FÉRIAS

LOUSAL (GRÂNDOLA
LOUSAL (GRÂNDOLA)

LOUSAL (GRÂNDOLA)


SESIMBRA




JUNHO

Nas manhãs de Junho,
Quando o sol tudo doirava,
A nossa casa era também
A sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Guardo memória, mãe!,
Da nossa rua térrea
E vejo-te jovem
Algodão dobando
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Nas manhãs de Junho,
Quando o trigo amadurecia
E eu brincava, brincava
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Fazia-te mil perguntas
- Mil ou muitas mais – ,
E tu respondias sem enfado
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

E eu era feliz
E tu eras feliz, mãe!
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Do outro lado da rua
À sombra da oliveira.


Barata, Manuel, "FRAGMENTÁRIA MENTE", ed. Alecrim, 2009




sábado, agosto 21, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 21 de Agosto de 2010 – Num texto surgido no último “RECONQUISTA”, Elsa ligeiro, com quem falei apenas uma vez, em Castelo Branco, trata da problemática das amizades nas chamadas redes sociais.

Por sinal eu adicionei Elsa, que, para além de ligada ao mundo da edição e comercialização de livros, também é amiga de um dos meus melhores amigos, o poeta e editor José Antunes Ribeiro. É óbvio que as amizades por aqui são assim como que um faz de conta, ainda que entre as pessoas que adicionei e me adicionaram se encontrem familiares, amigos do coração, amigos de amigos do coração, muitas instituições e pessoas que, observando o movimento da “minha” rede, me merecem consideração.

É evidente que os meus amigos, amigos, são aqueles com quem me sento à mesa (frei Amador Arrais tinha razão), com quem discuto de viva voz, com quem vou ao futebol ou falo de livros, filmes, música, etc. Mas é justo dizer que tenho entre os meus amigos do “facebook” pessoas indiscutivelmente estimáveis e com um grande sentido de partilha. Sei mais sobre Portalegre, cidade tão próxima e tão distante de Castelo Branco, do que sabia antes de adicionar Manuela Mendes, O Clube Robinson, José Serrano e Hernâni Matos.
Começam a manifestar-se alguns receios em relação às redes sociais. Ainda há dias, um conhecido psicólogo falava da “magna questão” das pessoas escarrapacharem as suas vidas nas redes sociais. Eu não tenho dúvidas que há quem o faça; porém, na minha rede de amigos, a coisa não é alarmante e ninguém desvenda segredos. Se publicar uma quadra popular e disser que se trata de uma composicãozinha de um livro ainda inédito, que mal poderá vir daí ao mundo? E que gosto de Brel e Chico Buarque e Tordo e Amália e Shubert e Bach e Van Gogh e Picasso e …?

Republicano inveterado, adicionei ou fui adicionado por Duarte Pio de Bragança e não vejo onde esteja o mal. De resto, ainda não terei ultrapassado os cento e cinquenta amigos, entre os quais se encontram os meus filhos, primos, filhos de primos, amigos, filhos de amigos, pais de amigos, bibliotecas e instituições. Tenho sido selectivo? Tenho, indiscutivelmente, mas não por receios sem quaisquer fundamentos.

Há quem veja moinhos de vento em tudo quanto é sítio.

terça-feira, agosto 17, 2010

VIAGEM DE ESTUDO

Bom almoço no Lousal,
Perto da Vila Morena;
No velho armazém da mina,
Com temperatura amena.

Comi miolos fingidos
Com carne do alguidar.
Ó cozinha alentejana
Nunca te irei olvidar!

Estes miolos fingidos,
De carne frita e assada,
São apenas um pitéu
Duma ementa variada.

No Lousal, é tudo bom:
A linguiça, o queijo e o pão;
A excelente sericaia
E a sopinha de cação.

sexta-feira, agosto 13, 2010

MOMENTOS

Do cimo desta torre,
Que ajudei a construir,
Vejo, para além do casario,
Uma magnífica ponte
Sobre um majestoso rio.

Subitamente,
Ocorre-me Cesário Verde
E também velhas crónicas navais.
Gama,
Nas horas de borrasca,
À divina providência implorando
E Albuquerque,
Pequeno,
Mas firme no seu posto,
Praças e mais praças conquistando.


Do cimo desta torre,
Que ajudei a construir,
Observo agora o risco de fumo
Do último avião
E esqueço-me das velhas crónicas
E dos heróis das batalhas navais.


Para além do casario,
Vejo apenas
Uma magnífica ponte
Sobre um rio.

Uma ponte magnífica
E um rio...


DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 12 de Agosto de 2010 – Regressei esta tarde ao meu castelo, após uma curta ausência de dez dias. E dir-se-ia que dez dias é o tempo certo para me ausentar. Mais de dez dias, afastado do meu ambiente quotidiano, e começo a ficar ansioso.


Eu gosto de sair e de dar as minhas voltinhas e sei que para ir à Patagónia necessito de me ausentar por mais tempo. Se calhar é por isso que ainda não fui à Patagónia. Ir a Paris, a Bruxelas, Madrid, Roma, etc., vou sem quaisquer constrangimentos. Agora partir para estar um mês longe das minhas coisas, nem pensar.


Nos últimos anos tenho passado as férias quase sempre na minha “datcha” da Cotovia, a dois passos de Sesimbra e com a Arrábida à vista. Num sítio de noites fresquinhas, mas onde o calor também é inclemente durante o dia. Gosto daquele espaço verde, onde irrequietos rouxinóis e mansas rolas dão concertos nocturnos; onde, quotidianamente acendo o lume, grelho o peixe e a carne, bebo alguns tintos de eleição e desço à praia da Califórnia, na bela Sesimbra, para molhar os pés e acompanhar a(s) minha(s) mulher(es). E no entanto, nem aquele paraíso me segura lá mais tempo.


E cá estou para o que der e vier, que o futuro, dizem, só a Deus pertence.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Jardim do Paço
Charneca da Caparica, 10 de Agosto de 2010 – Agora me lembro que Castelo Branco tinha uma avenida Marechal Carmona e uma avenida 28 de Maio, ou seja, o nome de um presidente da república eleito por Oliveira Salazar e o nome do golpe que permitiu a ambos amordaçarem Portugal.


A seguir ao 25 de Abril, ambas mudaram de nome, porque não era mais possível, numa cidade capital de distrito, manter o nome do títere das bigodaças e daquela coisa que começada em Braga havia de ter as funestas consequências que todos sabemos. Andou bem, pois, o poder instituído logo a seguir ao 25 de Abril, nomeadamente ao nível autárquico.

Infelizmente, não aconteceu o mesmo em todas as localidades do país. Nos Escalos de Baixo (Castelo Branco) e também na Venda do Valador, na freguesia da Malveira (Mafra), continuam a existir, sem quaisquer interrupções, as Avenidas Professor Doutor António de Oliveira Salazar. E se calhar está certo, porque cada terra tem a toponímia que merece.


Na minha Mata natal, nunca houve ruas com nomes de tiranos ou de golpes de Estado. Só uma data, e patriótica, gozou do privilégio de dar o nome a uma rua: 1º de Dezembro. É certo que a toponímia matense não revelou grande criatividade, mas está à prova de todos os reviralhos.