quinta-feira, setembro 13, 2007

O PECADO DA GULA

Republicação (Este texto tem 14 anos)
“O pecado da gula anda associado aos excessos de comida e de bebida. E é, indiscutivelmente, um dos pecados mais recorrentes nos países católicos, apostólicos e romanos e protestantes da Europa Ocidental. Poder-se-á dizer, para evitar discriminacões obvias, que é o pecado mais recorrente de toda a Civilização Ocidental.

Quando os portugueses reflectem acerca da vida e dos seus valores mais altos, dizem normalmente que não há nada melhor do que comer, beber e... passear. E se atentarmos na prática dos povos da União Europeia, verificamos, com muita facilidade, que todos incorrem no mesmo tipo de delito, à luz da doutrina da Igreja: os protestantes do Norte bebendo álcool em excesso, os católicos do Sul, comendo e bebendo excessivamente.

No caso concreto do português comum, ainda que não conheça casos como os descritos por Rabelais no Pantagruel ou por Garcia Marquez nos Cem Anos de Solidão, poder-se-á dizer que se trata de um bom garfo e de um bom copo e a sua imaginação não tem limites: come bifes de atum, de espadarte, de porco, de peru e até de frango. Mas o verdadeiro português - o mais arreigado às tradições nacionais - adora sopinha de feijão e juliana, favas cozinhadas de todas as formas e feitios, feijoada à transmontana, grão com bacalhau e bacalhau cozinhado de trezentas e sessenta e cinco formas diferentes, nos anos comuns, rancho à transmontana, grão à campaniço, carne de porco à alentejana e... até cabra de chanfana, etc., porque a lista, podia ser mais exaustiva.

No domínio das sobremesas refiro o vulgar arroz-doce, o pudim, a musse de chocolate, o leitinho-creme, o molotove, a tarte de maçã, a tarte de amêndoa, a torta de laranja, a torta de cenoura, as farófias, as tigeladas, a baba de camelo, as barrigas-de-freira e os suspiros.
Quanto às bebidas é como o Jacinto: ou branco ou tinto. De preferência muito e português. E para rematar um opíparo repasto - nada de uísques ou conhaques- uma bagaceira genuína, produzida por um parente, na província.

Lidos ou ouvidos os últimos parágrafos, qual de vós, caros leitores ou ouvintes, não cometeu já o pecado da gula, pelo menos em pensamento? Qual de vós terá esquecido o resto da sobremesa que o colesterol e a diabetes desaconselha, do bagacinho que o Código da Estrada pune, do pastelinho que a linha reprime?

Não falarei, por uma questão de decoro, das múltiplas acepções do verbo comer. Romanizados muito cedo, permanecemos irredutíveis seguidores desse grande povo que adorava o convívio e a mesa. Peço-vos encarecidamente que transmitais aos vossos filhos o gosto imoderado pela comida, para que jamais sejamos assimilados por hábitos alimentares estranhos à nossa tradição cultural. Confesso que sofreria imenso se visse os portugueses rendidos à cultura do hamburger e da Coca-Cola . O exemplo americano é paradigmático: grandes e desconformes físicos, passe a pequena redundância, mas um chocante desconhecimento no tocante ( conheço uma gaja dos impostos, que substitui tocante por tange, na prosa das circulares. Acode-lhe, Orfeu!) aos prazeres da mesa. Preservemos, pois, caríssimos concidadãos, o queijo da serra genuíno, as fêveras e a entremeada dos nossos porcos de montado; os rojões à moda do Minho e a carne de porco à alentejana; o vinho das nossas adegas particulares, porque esta é a forma mais autêntica de afirmarmos a nossa identidade nacional .

quarta-feira, setembro 12, 2007

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 23 de Setembro de 2000 - A ETA voltou a matar. Em Barcelona, a última vez. Por toda a Magna Espanha, os povos manifestam-se contra o terrorismo que, às cegas, vai fazendo vítimas e mais vítimas. Digo às cegas, porque as figuras do PP que têm sido abatidas são de secundaríssimo plano. Este terrorismo é igualmente de segundo plano e representa o estado de desespero a que chegou uma organização que, na década de setenta, merecia a simpatia das forças de esquerda. Franco era o homem do leme. O franquismo era um regime totalitário.

Vivia em Paris aquando do celebérrimo processo de Burgos. Lia todas as notícias concernentes à ETA e ao dito processo de Burgos, onde pontificava um valente de nome Mario Onaíndia(?). Trocava opiniões com amigos e conhecidos oriundos das províncias bascas. Participei em sessões de apoio ao povo basco. Lembro-me perfeitamente de, conjuntamente com o Manuel António Nunes, Gilberto Bandeira e outros companheiros, ter ido pedir à direcção da Alliance Française autorização para realizar um comício nas instalações da instituição. Essa lídima representante do colonialismo francês disse não, obviamente.

Muita água correu sob as pontes, entretanto. A Espanha democratizou-se e tornou-se um país desenvolvido e rico. Criaram-se as Juntas Autonómicas com governos eleitos por sufrágio universal, que pugnam pelos interesses das respectivas regiões: Fraga preside na Galiza, Pujol na Catalunha, etc. Os bascos têm tido idênticas oportunidades no seio deste grande país com muitas nações. E todavia... Todavia, continua esta espiral de violência reles e irracional, de contornos fascistas e mafiosos, que só pode levar à asfixia da própria autonomia basca.

Com este comportamento irracional, a ETA cava diariamente um fosso intransponível entre os seus apoiantes e os restantes povos de Espanha, de Málaga a Barcelona, de Madrid a Valência, de Vigo a Salamanca, o repúdio só pode aumentar Enquanto estrangeiro, comecei a evitar as belas cidades de Pamplona, Vitória, S. Sebastião e outras. Eu sei que a ETA mata em qualquer região de Espanha, mas sinto uma repulsa simultaneamente forte e subtil pela região berço desta violência inqualificável.

terça-feira, setembro 11, 2007

DO MEU DIÁRIO

Mata, 17 de Setembro de 2000 - Passei à porta da minha primeira escola, na Mata, onde levei muita pancada dos professores Ester e Falcão, esposa e marido, que durante muitos anos foram “donos” da escola e dispunham também para trabalhar da maioria dos alunos. Era um verdadeiro casal de falcões numa terra de gente humilde e espoliada.

Ensinaram várias gerações de matenses a ler, a escrever e a contar, que era aquilo que o Estado Novo queria que as populações rurais soubessem. Mais os rios e as serras e as linhas dos comboios. Da História de Portugal aprendia-se os nomes dos reis, das rainhas e os nomes das batalhas travadas contra os mouros e castelhanos. E mais umas quantas coisas que após os exames todos esquecíamos.

As salas e os recreios estavam separados por um muro, embora as turmas fossem mistas. Não porque isso correspondesse a uma posição progressista, mas apenas por uma questão de gestão. A senhora com a primeira e terceira e o senhor com a segunda e a quarta classes. O método era o da chapada e da reguada. Constituíam excepções a esta regra os filhos e netos dos “terra tenentes”. A Ana Vitória, filha do senhor Joaquim Capinha e neta do senhor António Tomé, suponho que nunca levou reguadas. E a Maria Hermínia Bernardo também não. Os outros levavam todos, ou porque era suposto serem mais rudes ou por não se saberem comportar.

Quando o professor se aproximava do pequeno portão os alunos formavam por alturas. Um aluno escolhido pelo mestre dava as ordens de “firme” e “sentido”. Com um gesto já conhecido do professor fazia-se “direita volver” e lá começava a marcha e um hino que começava assim :”Somos pequenos lusíadas”. Por vezes, era ao som do “um, dois, três, quatro”, que era a versão escolar da versão militar “ope, dois, erdo, direito “. E só depois deste desfile pseudo-cívico, pseudo-militar, pseudo-patriótico, pseudo..., que Deus lhe tenha a alma em sossego, se entrava na sala de aula.

Prometo que voltarei a este assunto. Não para ajustar contas, não para denegrir quem quer que seja, não para reabrir velhas feridas. Quero apenas fazer a minha catarse pessoal e deixar um testemunho de um salazarismo rasca, perpetrado por um servidor acérrimo de um regime sem alma nem coração.

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 29 de Março de 2005 – Almocei no Adelino com a Umbelina e a Filipa. A comida é sempre saborosa e abundante. Dir-se-ia que este simpático restaurante da Reinaldo Ferreira é destinado a bons garfos, que se estão nas tintas para o fino e a etiqueta. Por ali me tenho cruzado com gente muito diversa: cantores, políticos, sócios-gerentes, polícias, desportistas, funcionários e também muitos impostores.

Ainda hoje, quando cheguei, perguntei ao Adelino pelo Jerónimo. E para surpresa minha, alguns minutos depois, ali tinha o Jerónimo a cumprimentar-me, sob o olhar simpático do anfitrião. Não conto o Jerónimo no rol dos meus amigos. É antes de mais um santiriense, um vizinho, alguém com quem partilho – no plano ideológico –, muitos anseios e inquietações. E que, curiosamente, almoça, quando pode, no Adelino.

Conheçi o Jerónimo nos idos de setenta do século passado. Fizemos parte da Mesa da Assembleia Geral da 1º de Agosto de Santa Iria, que foi colectividade de cultura e recreio de grande prestígio. Cunhal gozava de muita saúde, o mundo ainda estava dividido em dois grandes blocos e ninguém ousaria sonhar com o Jerónimo no cargo de Secretário-Geral. Nem mesmo a velha Olímpia, tão carinhosa e expressiva como o filho.

A Umbelina, que hoje entrou neste Diário, foi minha aluna durante vários anos no Externato Ergon e diz a toda a gente que a chumbei três vezes. Parece confirmar o ditado “quanto mais me bates mais gosto de ti”. Ficámos amigos, e, de quando em vez, almoçamos. No Adelino, foi a primeira vez.

O Adelino – uma espécie de Lisboa do séc. XVI -, é o sítio onde, graças à bonomia dos irmãos, o Adelino e o Alberto, comem e confraternizam muitos credos e religiões. Que o Grande Arquitecto os proteja.

quinta-feira, setembro 06, 2007

ANTÓNIO PUERTA

veintidós años
y la fuerza de los potros bravíos.

Y un músculo encubierto
que batir no quería.

Se cayó y de pronto se erguió.

Antonio se quería morir en pie.


Tradução de Filipa Barata

MADRE TERESA DE CALCUTÁ

Santa Iria de Azóia, 6 de Setembro de 2007 – Madre Teresa de Calcutá é uma figura incontornável da segunda metade do séc. XX. Não só pelo seu trabalho em prol dos mais desfavorecidos; mas, também, pelas suas posições reaccionárias acerca de temas da maior relevância, entre os quais avulta a interrupção voluntária da gravidez, vulgo, aborto e a utilização de contraceptivos.

Pressuroso, o papa João Paulo II beatificou-a. Outro papa qualquer há-de fazê-la santa. E a freira de figura esquálida, que o anedotário do mundo inteiro também ajudou a celebrizar, merece a dignidade dos altares. Mulher de convicções muito profundas, fez da sua vida um exemplo de dádiva e abnegação.

Nos últimos dias, falou-se muito da correspondência da religiosa de origem albanesa. Dedicada aos mais miseráveis, questionou a existência de Deus e a sua fé. Madre Teresa nunca compreendeu o silêncio de Deus que, em alguns momentos, lhe terá parecido escandaloso. Porém, perseverou sempre na concretização dos seus ideais.

O dogma da fé assenta, justamente, na aceitação do princípio da ausência de dados sensoriais. Em Deus acredita-se. As visões dos místicos não têm qualquer sustentação no mundo dito sensível.

As dúvidas de Madre Teresa são legítimas e não podem prejudicar a sua canonização.

sexta-feira, agosto 31, 2007

LÍRICA ATREVIDA

Republicação
I

Se eu fosse como Camões,
Havia de te fazer,
Amor, versos geniais,
Muitas trovas de encantar!

Pintar-te-ia morena
E de outras cores sadias.
Blusa vermelha decerto
E calças de ganga azul.

Assim irias à fonte
- Discreta como se vê -,
Leda e bela ao meu encontro.

E haveria de deixar
Teu rosto ruborizado
Com mil beijos, mil ou mais.





II

Se eu fosse como Catulo,
Poeta de inspiração,
Em teu corpo, amor, havia
De gravar mil versos, mil!,
De grata recordação.

Com os dedos e os lábios,
lascivos e enlouquecidos,
havia de nele escrever
a verdadeira poesia.

quinta-feira, agosto 30, 2007

ANTÓNIO PUERTA

Vinte e dois anos
e a força dos potros bravios.

E um músculo escondido
que bater não queria.

Caiu e de novo se levantou.

António queria morrer de pé.

segunda-feira, agosto 27, 2007

AUTOBIOGRAFIA BREVE

Cheguei numa manhã de Junho, segunda-feira, e já o sol ia alto. Chovia. Esperavam-me, ansiosas, minha mãe e minha avó paterna.
Cheguei, pois, em dia de sapateiro, como se dizia na aldeia.
Cheguei gato-esfolado, contaram-me mais tarde; todavia, com muita vontade de me fazer à vida.

Ao contrário de Daniel Abrunheiro, que daqui quero saudar fraternalmente, eu não cheguei atrasado. Cheguei a tempo, muito a tempo, para da vida ir colhendo múltiplas alegrias e tristezas, que ela é temperada com umas e outras.

Cheguei a tempo de conhecer um país pequenino, que os próceres do regime, dirigido pelo beirão de Santa Comba, estendiam da parte mais ocidental da Europa até Timor. Era um Portugal miserável, triste e sem humor, do qual herdei esta perseverante e amarga ironia.

Cheguei a tempo de conhecer o exílio e de saber quão amargo é viver longe da pátria, mesmo quando o afastamento resulta de uma decisão livre ou ditado pelo amor à liberdade; ou ainda, quando pela pátria nos é imposto. Oh, como eu compreendo o imortal Ovídio!

Cheguei a tempo de ajudar à festa e da festa me embriagar e da ressaca, que ainda vai teimosamente perdurando, apesar do vinho bebido não ter sido muito e nem sempre ser da melhor qualidade. Se preciso fosse repetir tudo de novo, tudo de novo repetiria ( Por favor, não me macem com os pleonasmos)!

E por cá vou andando, com a pele às costas, nada reclamando do amor e dos amigos. Da pátria sim, reclamo, porque sempre a quis mais livre e mais fraterna!







sexta-feira, agosto 24, 2007

HOMENAGEM

( Para Carlos Paredes)

Tinha tanta fantasia
Sobre a guitarra curvado.
Às vezes até parecia
De seus dons maravilhado.


Tocava com energia
-oh, com tal talento e garra -,
que às vezes até parecia
fazer amor com a guitarra.


Em Sesimbra, junto ao mar,
Recordo com nostalgia
Aquele par de encantar,
Aqueles sons de magia.

quinta-feira, agosto 23, 2007

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 19 de Novembro de 2000 - Saramago foi, indiscutivelmente, o aniversariante da semana passada. Com a provecta idade de setenta e oito anos, o Nobel no papo, saúde e uma vasta audiência por esse país fora e também no estrangeiro, o autor de A Caverna dá-se ao luxo de ir dizendo aos seus contemporâneos o que pensa acerca das mais diversas matérias, nas rádios, nas televisões e nos jornais.

Li os primeiros capítulos de A Caverna , que comecei depois de não entres tão depressa nessa noite escura do seu arqui-rival Lobo Antunes e que já ganhou a primazia. Não apresenta quaisquer novidades formais. Dir-se-ia que todos os processos tecnico-narrativos são repetidos, nomeadamente aquele narrador intrometido, que o autor quer confundido consigo mesmo. As anacronias são mais do que muitas e constituem uma marca desse narrador omnisciente, que repete de quando em vez “como mais tarde se verá” e outras expressões equivalentes.

Não sei se Marta terá a força de Lídia e de outras personagens femininas saramaguianas. Estou na fase em que a jovem mulher aconselha o pai a reconverter a produção da olaria, problema de ontem, de hoje e de àmanhã, passando dos barros utilitários aos bonecos decorativos. Quanto ao cão Achado, bem achado acho o nome. Decidido que está na obra que um homem só se torna velho depois dos oitenta anos, direi para rematar que a prosa de José de Sousa, como gosta de lhe chamar o Fernando Grade, continua sã e escorreita.

POST SCRIPTUM I - Desde Outubro de 1998 que não escrevia uma linha sobre Saramago e a sua obra. E no entanto, qual guru, sempre acreditei e sustentei que o Nobel lhe seria atribuído.
Porém, não deixei de o ler e estudar com os meus alunos.

quarta-feira, agosto 22, 2007

POVO MÁRTIR

Na pátria de Juan Velasco Alvarado


Pobres peruanos!...
Bastante seria
a sua natural tristeza
para os fazer infelizes.
Porém, a mãe Natureza,
incerta e indomável,
só lhe inflige graves danos.

Pára mãe Natureza!,
com o teu treme-treme,
que este povo não merece
tanta devastação e morte!

segunda-feira, agosto 20, 2007

PERGUNTA

Como poderá a vida
correr-me de feição,
se cumpro,
rigorosamente,
o meu destino
de desafio
e transgressão?

sexta-feira, agosto 17, 2007

CONFISSÃO

Ensinei gramática
como manda a lei;
mas às vezes,
tinha vontade
de tudo subverter.

Era a força da criação,
irrefreável,
a tomar conta de mim.

E por vezes,
generosamente,
ensinei a transgredir.

quinta-feira, agosto 16, 2007

UM SÓ VERSO

Oh, gostaria tanto,
que um verso meu
gravado fosse
no bronze
ou no mármore
e perdurar
pudesse
pelos séculos fora,
às portas das cidades!

E o meu coração
conheceria
então
a vera alegria.

Um só verso
... me bastaria!

segunda-feira, agosto 13, 2007

GUALTER BASÍLIO

Gualter Basílio, que conheci nos idos de setenta do século passado, deixou-nos anteontem. Era membro do Partido Socialista, apesar de já pouco ter a ver, creio, com os actuais dirigentes. Pertencia a um escol de políticos e democratas que, pela sua coerência e coragem, vão rareando neste jardim à beira mar plantado.
Foi um grande democrata e um homem de grandes causas. O povo da Palestina acaba de perder um dos seus amigos incondicionais.
A sua memória vai perdurar no coração dos amantes da liberdade.

domingo, agosto 12, 2007

TORGA

COTOVIA, 12 de Agosto de 2007 - Comemora-se hoje o centenário do nascimento do escritor Miguel Torga, que foi três vezes candidato ao prémio Nobel da literatuta.
Há algum alarido à volta deste centenário, facto que contrasta com o carácter reservado do autor de Novos Contos da Montanha.De qualquer modo, e tendo em conta que se trata de um autor coetâneo da gente que tem ainda quase o monopólio da opinião em matéria literária, os eventos de hoje, os anteriores e os que se hão-de seguir este ano, situam-se dentro da mais estrita normalidade.
Devo confessar que continuo a ler Torga com muito interesse e proveito, nomeadamente o seu monumental Diário (16 volumes), onde o poeta de S. Martinho de Anta reflecte muito acerca de Portugal e dos portugueses.
Torga não é, seguramente, um excepcional artista da palavra. E desde já peço perdão pela heresia da afirmação. Porém, aquele seu jeito de ser portuguêse e a sua reflexão acerca do contributo luso para a civilização do vasto mundo, fazem dele um autor de leitura obrigatória, quando se quiser estudar com seriedade a História da Cultura Portuguesa.
A grande lição de Torga radica, fundamentalmente, na defesa intransigente de valores de perenidade assegurada, tais como os direitos humanos e a liberdade. E este não é, óbviamente, um legado menor.

quarta-feira, agosto 08, 2007

CASTELO BRANCO

Santa Iria de Azóia, 8 de Agossto de 2007 – Castelo Branco está uma cidade bonita. O programa “polis” deixou-a com o centro histórico rejuvenescido. Chamo centro histórico àquele enorme espaço que integra o antigo Regimento de Cavalaria 8, o pequeno mas bonito edifício da Caixa Geral de Depósitos, Paços do Concelho, Governo Civil, Palácio da Justiça, Casa Vilela e a correnteza de edifícios onde ainda funciona o Café Aviz e onde funcionou o aristocrático Arcádia.

É certo que nunca mais nos será restituído o quiosque do Vidal e a Alameda onde se passeava nas cálidas e plácidas noites de Verão; porém, há que reconhecer que a cidade ficou dotada de um espaço invejável para diversas modalidades de lazer e sem os constrangimentos do trânsito automóvel. E depois das obras, que duraram vários anos, os próprios hábitos mudaram e as transformações operadas criaram ou vão criar hábitos novos. É o mundo em permanente mudança.
Sempre estático, no seu posto, só mesmo o insigne "AMATO LUSITANO".

CASTELO BRANCO