
quinta-feira, janeiro 06, 2011
segunda-feira, janeiro 03, 2011
DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 3 de Janeiro de 2011 – De Vila Nova de Milfontes até Monforte, o Alentejo oferece ao viajante uma multiplicidade de rostos. Enganam-se, portanto, todos os que dizem que o Alentejo é monótono.Ainda ontem, quando fui de Évora para Viana, a fim de visitar o meu amigo João Teixeira, pude apreciar a variedade da paisagem: mansas ovelhas aqui, vacas e mais vacas além, agora porcos pretos, e, a seguir, mais vacas, toiros e porcos. E muitas cegonhas, vaidosas, que tanto apreciam as alturas e têm o privilégio de lhes construírem as casas. Disse-me o João Teixeira que os pardais, finos como a pólvora, se aproveitam, à grande, das mordomias concedidas às cegonhas.
Logo à saída de Évora, o viajante é surpreendido pela presença de eucaliptos, ainda rasteirinhos, junto às bermas da estrada; porém, a seguir surgem os pinheiros mansos, que mais à frente dão o lugar aos sobreiros e às azinheiras. E também às inevitáveis e quiçá multi-centenárias oliveiras.
Finalmente Viana - onde o poeta João Teixeira vive há vários anos - e a alegria de um reencontro. E pela primeira vez, nos últimos anos, nem uma única palavra acerca de livros. Pois as conversas, como já atrás ficou dito, também se fazem de seres como cegonhas e pardais.
DO MEU DIÁRIO

Évora, 1 de Janeiro de 2011 – Acordei tal como entregara o corpo a Morfeu: cansado e apreensivo.
À partida, a chegada de um Ano Novo costuma ser celebrada com alegria; no entanto, ainda que o Ano Velho não me tenha deixado saudades, e desejasse vê-lo pelas costas, este que agora se inicia não augura grandes coisas.
Haja saúde e aguardemos todos, eu disse todos!, o 2012 com mais optimismo.
Évora, 2 de Janeiro de 2011 – Manhã cinzenta, em Évora, a condizer com o nevoeiro que envolve a minha alma – essa que vou construindo paulatinamente (olá Isabel Mendes Ferreira!, um bom ano para si) -, neste começo de Janeiro.
Do local onde escrevo, vêem-se os cocurutos de igrejas de Évora. E também da catedral, que ontem se encontrava de portas fechadas, o que já se tornou uma rotina e uma fatalidade.
Pela primeira vez, estive, ontem, no Redondo, que os irmãos Salomé celebrizaram. Uma terrinha simpática com muitas casas listadas de azul (barrões azuis), onde ainda ardia o madeiro natalício. E muitas laranjeiras bravas que, para além de serem um elemento decorativo interessante, me trazem à memória moiras encantadas.
Moiras encantadas! Vá-se lá saber porquê…
terça-feira, dezembro 28, 2010
DO MEU DIÁRIO
Santa Iria de Azóia, 27 de Dezembro de 2010 - No próximo ano, se nada de extraordinário acontecer, deixarei de ser funcionário público. Deixarei de ser funcionário, sem qualquer mágoa, de uma empresa falida. Tropa incluída, sairei com mais de trinta e oito anos de serviço e cerca de três de penalização, ou seja, com a chamada pensão de aposentação reduzida em cerca de 18%. Para gáudio da dr.ª Ferreira Leite, que, vaticino eu, um dia ainda terá de se haver com algum funcionário público mais ousado ou tresloucado.
No próximo ano vou deixar de ser um activo a comer do OE para passar a ser um aposentado a comer do OE, com todos os descontos legais efectuados, e a caminhar inexoravelmente para os sessenta anos. Bem sei que não sou velho no sentido actual da palavra. Velhos, para além dos trapos, são aqueles que conseguem entregar a alma ao criador já depois dos noventa. Vistas bem as coisas, eu ainda podia fazer umas peladinhas com as velhas glórias. No entanto, estou farto. Farto!
No próximo ano vou deixar de ser um activo a comer do OE para passar a ser um aposentado a comer do OE, com todos os descontos legais efectuados, e a caminhar inexoravelmente para os sessenta anos. Bem sei que não sou velho no sentido actual da palavra. Velhos, para além dos trapos, são aqueles que conseguem entregar a alma ao criador já depois dos noventa. Vistas bem as coisas, eu ainda podia fazer umas peladinhas com as velhas glórias. No entanto, estou farto. Farto!
É certo que nunca gostei de ser funcionário público. Gostaria de ter sido professor a tempo inteiro e de ter estudado e produzido trabalho intelectual com interesse. Nunca tratados de economia ou artiguinhos sobre economia ou ciência económica. Mas podia ter estudado poetas e romancistas e, devagarinho e de forma mais atenta, ter tratado da minha própria produção. No fundo, e tendo em conta o pensamento dominante, podia ter feito umas tretas.
A vida é o que é - o senhor De La Palisse não diria melhor - e não vou ficar para aqui a lamentar-me. Vou deixar a função pública e com a convicção de que não fico a dever nada à dr.ª Ferreira Leite. E isto é para mim um consolo muito grande.
segunda-feira, dezembro 27, 2010
DO MEU DIÁRIO
Santa Iria de Azóia, 27 de Dezembro de 2010 - No próximo ano, se nada de extraordinário acontecer, deixarei de ser funcionário público. Deixarei de ser funcionário, sem qualquer mágoa, de uma empresa falida. Tropa incluída, sairei com mais de trinta e oito anos de serviço e cerca de três de penalização, ou seja, com a chamada pensão de aposentação reduzida em cerca de 18%. Para gáudio da dr.ª Ferreira Leite, que, vaticino eu, um dia ainda terá de se haver com algum funcionário público mais ousado ou tresloucado.
No próximo ano vou deixar de ser um activo a comer do OE para passar a ser um aposentado a comer do OE, com todos os descontos legais efectuados, a caminhar inexoravelmente para os sessenta anos. Bem sei que não sou velho no sentido actual da palavra. Velhos, para além dos trapos, são aqueles que conseguem entregar a alma ao criador já depois dos noventa. Vistas bem as coisas, eu ainda podia fazer umas peladinhas com as velhas glórias. No entanto, estou farto. Farto!
É certo que nunca gostei de ser funcionário público. Gostaria de ter sido professor a tempo inteiro e de ter estudado e produzido trabalho intelectual com interesse. Nunca tratados de economia ou artiguinhos sobre economia ou ciência económica. Mas podia ter estudado poetas e romancistas e, devagarinho e de forma mais atenta, construído a minha própria obra.
A vida é o que é - o senhor De La Palisse não diria melhor - e não vou ficar para aqui a lamentar-me. Vou deixar a função pública e com a convicção de que não fico a dever nada à dr.ª Ferreira Leite. E isto é para mim um consolo muito grande.
domingo, dezembro 26, 2010
DO MEU DIÁRIO
Santa Iria de Azóia, 26 de Dezembro de 2010 – Sócrates falou ao país; porém, confesso que não o ouvi. De resto, já oiço pouco Sócrates que, passe o truísmo, já não é solução para Portugal. Se calhar nunca foi.

Confesso também que não vejo Passos como solução para Portugal. É igualmente um político sem densidade e com receitas que já deram o que tinham a dar, ou seja, o pior para Portugal e o mundo.
Chegados aqui, é-me indiferente que Sócrates caia ou se levante, porque, com ou sem Sócrates, teremos mais do mesmo, numa versão mais rasteirinha e radical. Isto só lá vai, meus amigos, isto só lá vai com uma nova política. Uma política que mande às urtigas o “mercado” e as agências de “rating” e recoloque os cidadãos no centro das atenções da governação.
E por hoje, “ missa dicta est”.
sábado, dezembro 25, 2010
19
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de dizer as coisas, da sua retórica única, do modo natural como metia mulheres nuas nos poemas.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de ser solidário, dos seus protestos viris, do modo simples como transformava o real em poesia.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de andar na lua, mas sempre a olhar a Terra, que enchia de árvores e folhas e flores e frutos.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava, sobretudo, dos violinos que tão habilmente escondia em cada verso.
Manuel Barata, FRAGMEMTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de dizer as coisas, da sua retórica única, do modo natural como metia mulheres nuas nos poemas.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de ser solidário, dos seus protestos viris, do modo simples como transformava o real em poesia.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de andar na lua, mas sempre a olhar a Terra, que enchia de árvores e folhas e flores e frutos.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava, sobretudo, dos violinos que tão habilmente escondia em cada verso.
Manuel Barata, FRAGMEMTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005
Santa Iria de Azóia, 25 de Dezembro de 2010 – Mais pormenor, menos pormenor, dir-se-ia que este foi mais um Natal da convenção, como diria o grande Fernando Pessoa. Polvo ao almoço e bacalhau à noite, regados com um tinto alentejano bastante honesto. A costumada doçaria, talvez menos este ano, mas que como com parcimónia, que a diabetes espreita e há que ter juizinho.
E depois a cerimónia das prendas, que os mais novos esperam com ansiedade. O senhor meu sogro ofereceu-me uma tese de doutoramento, que já comecei a ler com alguma gula, porque trata de um poeta muito importante, mas que os rótulos conduziram ao esquecimento, como muito bem nota a autora Carina Infante do Carmo. O poeta é José Gomes Ferreira, escritor de diários e memórias e que foi o primeiro poeta por quem tive verdadeira admiração. E a obra tem um nome muito comprido como é habitual nestas matérias: A MILITÂNCIA MELANCÓLICA OU A FIGURA DE AUTOR EM JOSÉ GOMES FERREIRA.
O dia está muito frio e chuvoso aqui na região de Lisboa. É consabido que amo os dias de sol e muita luz; porém, terei de esperar até ao próximo solstício para ter o tempo de que tanto gosto.
No ínterim, continuação de Boas Festas!
quinta-feira, dezembro 23, 2010
MEMÓRIA
CASTELO BRANCONA RUA DE SANTO ANTÓNIO
Era nas águas-furtadas a nossa casa. Era velha e com poucas condições, mas tinha uma clarabóia, por onde, quando havia, entrava a luz do sol. Era no número vinte e um da rua de Santo António, quase no coração da cidade. No rés-do-chão, era a mercearia do senhor António Canaveira.
Em frente, havia uma agência de viagens, onde trabalhava uma rapariga vistosa, com quem, na solidão dos meus pensamentos, fiz as primeiras grandes viagens. Era uma rapariga alegre, que vestia roupas alegres e tinha um sorriso alegre e branco e amplo e um corpo ágil de gazela.
Um dia a agência fechou as portas e a rapariga mudou de ares, qual ave de arribação. Se me tivesse pedido, apesar da idade, creio bem que tinha partido com ela. Ah, como batia forte e apressado, naqueles dias, o meu pobre coração!
E o tempo, esse inigualável fazedor, fluía placidamente. Placidamente, que é assim que deverá fluir o tempo. E tudo era normal e rotineiro, até a passagem diário do batalhão, o seis de caçadores, que passava na rua de Santo António ao som do tã-tã…ta-ra-ra-tã-tã dos tambores e do op, dois, erdo, direito dos cabos milicianos.
A nossa casa era nas águas-furtadas do número vinte e um da rua de Santo António e era a foz de um rio de gente que ali vinha pedir um pequeno favor, como visitar, no hospital, um doente, ou comer um simples prato de sopa.
Aquelas águas-furtadas eram a casa da gente.
QUINTA DA FEITEIRA (CASTELO BRANCO)
E antes do equinócio chegam.
Nos cocurutos das árvores
E nos velhos campanários,
Constroem as suas habitações;
Donde, com indiferença,
Gloterando, placidamente,
Espreitam as nossas vidas.
Falo das cegonhas
E da sua mania das alturas.
Nos cocurutos das árvores
E nos velhos campanários,
Constroem as suas habitações;
Donde, com indiferença,
Gloterando, placidamente,
Espreitam as nossas vidas.
Falo das cegonhas
E da sua mania das alturas.
quarta-feira, dezembro 22, 2010
DO MEU DIÁRIO
DAS SUAS MÃOS BROTAVAM OS FRUTOSSanta Iria de Azóia, 22 de Dezembro de 2010 – Meu pai, se não tivesse ido com as aves à descoberta do vasto céu, poderia estar ainda entre nós. Completaria hoje oitenta anos e estaríamos todos juntos, no próximo fim-de-semana, para os festejar. Fora assim anos a fio e a tradição havia de se manter.
Por incúria alheia, e também por desistência pessoal, deixou-nos com tristeza, certamente, mas sem lamúrias. Conhecera o sofrimento desde criança, pois o reumatismo e a ciática e outras dores dos ossos sempre o apoquentaram muito. A tudo foi resistindo com coragem, até ao aparecimento de uma doença da moda, como se diz eufemísticamente, que o havia de esbarrondar para sempre.
Embora temperamental, tinha um coração largo. E é esse coração largo e generoso que hoje recordo aqui comovidamente.
domingo, dezembro 19, 2010
sábado, dezembro 18, 2010
quinta-feira, dezembro 16, 2010
EUROPA
Europa!... Não há direito.
Claudica amolecida,
Já ninguém lhe tem respeito,
É vexada e ofendida.
É uma velhinha tonta,
Ninguém lhe passa cartão;
Mas anda a fazer de conta
Que inda tem opinião.
Esta Europa bizantina,
De muitas leis e decretos,
Procura mas não atina
Com os melhores projectos.
Europa!... Não há direito.
Claudica amolecida,
Já ninguém lhe tem respeito,
É vexada e ofendida.
É uma velhinha tonta,
Ninguém lhe passa cartão;
Mas anda a fazer de conta
Que inda tem opinião.
Esta Europa bizantina,
De muitas leis e decretos,
Procura mas não atina
Com os melhores projectos.
Manuel Barata, QUADRAS QUASE POPULARES, Ulmeiro, Lx. 2003
quarta-feira, dezembro 15, 2010
7
Dom Sebastião permanece vivo
E inda mexe no luso imaginário.
Um povo vive, nesta orla, cativo,
À ´spera do rei louco e temerário.
Os outros fazem e nós esperamos,
Que ele nos traga a boa solução.
Para o cerrado nevoeiro olhamos,
Como se fora a nossa salvação.
Ai, esta longa e dolorosa espera!...
Agir, agir, agir sempre e sem medo,
Foi a regra mágica da nossa Era,
O nosso mágico e fértil segredo.
Quem viu o largo mundo desespera,
Com este povinho tristonho e quedo.
Dom Sebastião permanece vivo
E inda mexe no luso imaginário.
Um povo vive, nesta orla, cativo,
À ´spera do rei louco e temerário.
Os outros fazem e nós esperamos,
Que ele nos traga a boa solução.
Para o cerrado nevoeiro olhamos,
Como se fora a nossa salvação.
Ai, esta longa e dolorosa espera!...
Agir, agir, agir sempre e sem medo,
Foi a regra mágica da nossa Era,
O nosso mágico e fértil segredo.
Quem viu o largo mundo desespera,
Com este povinho tristonho e quedo.
Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005
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