domingo, dezembro 12, 2010

A BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA

Às vezes, dou por mim a pensar nas cinzas da biblioteca de Alexandria. E pergunto-me o que num só fogo perdeu a humanidade.

Quantos séculos terá o mundo regredido por obra de um fogo? Esta é a pergunta clássica e inteligente, que todos os sábios fizeram.

Há outra pergunta, talvez impertinente e talvez cretina, que ninguém ousou fazer: onde estaríamos hoje, se hoje ainda houvesse, sem o fogo de Alexandria?
Manuel Barata, FRAGMENTÁRIA MENTE, ED. ALECRIM, 2009

sábado, dezembro 11, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 11 de Dezembro de 2010 – Dormi mal. Durmo sempre mal quando tenho algo de importante para fazer, nem que seja o compromisso mais simples com quem quer que seja. É-me já constitucional dormir mal e não vou pedir a revisão da Constituição para que possa despedir as insónias.
Uma amiga querida alertava-me ontem, afim da tarde para o desaparecimento deste blogue, que, creio firmemente, é importante para mim e para meia dúzia de boas almas que me vão acompanhando. Agradeço-lhes e louvo-lhes a paciência. Hão-de merecer o céu, mas até lá o céu que espere, que a vida, por vezes triste e difícil, cá no planeta dito azul, é o que mais de importante temos.
Se o blogue tivesse desaparecido, não viria de aí mal ao mundo. Criava-se outro, que. por enquanto ainda vão sendo de borla. O que seria dramático era a perda de alguns amigos virtuais, que, sei-o bem, passam por aqui amiúde para lerem as minhas larachas. Agora vou tomar o pequeno-almoço e vou ao trabalho, que a vida não se condói com calaceiros.
Bom dia, estimados leitores.
12

Para o Manuel Vaz


Com palavras constroem verdadeiros monumentos: precários, às vezes; às vezes, teimosamente resistentes. Alguns chegam até nós, vindos do fundo do tempo, frescos e incorruptíveis; outros, igualmente frescos, trazem a pequena mossa da corrupção em notas de rodapé.

Todos esses monumentos – de que os poetas são arquitectos e pedreiros, engenheiros, pintores, carpinteiros -, se falar pudessem, dariam conta de inumeráveis batalhas ganhas com galhardia e perseverança, desde o surgir da pura ideia até ao assentamento da última pedra.

Acreditai-me, ó gentes profanas!, que não é fácil recriar permanentemente o mundo com as humílimas palavras, para vo-lo servir pleno de harmonia em esplendorosas bandejas de oiro.
Manuel Barata, Fragmentos com poesia, Ulmeiro, 2005



segunda-feira, dezembro 06, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 6 de Dezembro de 2010 – Sá Carneiro – não o autor de Salomé – regressa todos os anos, nos primeiros dias de Dezembro. E assim vai ser, enquanto viverem os herdeiros “ideológicos” do malogrado congregador da direita portuguesa, no pós 25 de Abril.

Eu não sei que ideologia tinha Sá Carneiro, apesar de ter acompanhado o seu percurso desde os tempos da chamada Ala Liberal, na defunta Assembleia, onde pontificava um deputado muito patusco chamado Casal Ribeiro. E lembro-me de o ter ouvido, talvez em Julho de 1974, num comício com Mário Soares e Álvaro Cunhal, no estádio 1º de Maio em Lisboa. De perto vi-o apenas uma vez, no também defunto Lisboa Penta Hotel, onde foi recebido por Yasser Arafat. Decorriam os últimos dias do mês de Novembro do ano de 1979. Governava Portugal, nesse já distante Novembro, Maria de Lurdes Pintassilgo.

Era bom tribuno, e apesar de ter granjeado a fama de truculento, teve a paciência para andar cá e andar lá, esperando que o poder lhe viesse cair às mãos. O que de facto veio a acontecer, após as desastradas governanças do dr. Soares e do dr. Soares com o Dr. Freitas do Amaral. E depois teve aquele sonho de unir a direita, que não chegou a concretizar pelas razões conhecidas. E creio que o legado político de Sá Carneiro é sobretudo o sonho de uma maioria parlamentar, um governo e um presidente. No fundo, uma fórmula para o exercício do poder.

domingo, dezembro 05, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 5 de Dezembro de 2010 – Quando falo de Trás-os-Montes, há um nome que se apressa a ocupar-me a mente: Miguel Torga. E pelos vistos não sou caso único, porque, aqui e ali, ainda se vão ouvindo referências ao filho mais famoso de S. Martinho de Anta.

Eu estou convencido que Miguel Torga resiste, bravamente, pela estreita ligação que a sua obra tem com Portugal e os portugueses. Num certo sentido, creio que a obra de Torga se constitui como uma nova lusa epopeia. É certo que Torga não louva Portugal e os portugueses como Camões. Nem tão-pouco como Pessoa, na Mensagem; no entanto, Torga foi um homem particularmente atento ao rectângulo e a tudo o dentro dele se passava. É tocante, nomeadamente, o apreço pela obra realizada ao longo do curso do Douro.

Falta-lhe universalidade? É possível que sim; porém, esse já é outro problema e do qual Torga não será o único responsável.

sábado, dezembro 04, 2010

VOU A SILVES ESTE VERÃO

Vou a Silves este Verão
Pra subir o rio Arade.
Vai ser grande a emoção
Quando chegar à cidade,

Onde Al Mu’tamid, poeta,
Cantou as lindas gazelas
E com carinhosa seta
D’amor feriu muitas delas.

Quero andar pela cidade
E auscultar-lhe o coração.
Que esta moura ainda há-de
Dar-me, alegre, a sua mão.

Há-de ser neste Verão,
Que eu já morro de saudade.
Meu amor virou paixão,
Bela paixão, na verdade.


Manuel Barata, FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, 2009
PALAVRAS PERDIDAS


Há quanto tempo, mãe, não te falo de amor
Com aquelas palavras de encantar
Com que as crianças falam do amor?!


Há dias corei de vergonha,
Corei de vergonha quando li,
Num livro de cartas de Saint-Exupéry,
As palavras mágicas que ele escreveu a sua mãe
E que eu nunca te disse a ti.


Deixei que entre nós se interpusesse
Um pudico silêncio ancestral
E disse-te apenas coisas imediatas e triviais.


Eu esqueci, mãe, aquelas palavras claras e pueris
Que tanto alegravam o teu coração.


Eu coro de vergonha, mãe!



Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx. 2005)

QUADRAS

5
Já se nota bem o medo,
Entre o povinho rasteiro,
Que se mantém surdo e quedo
Sem trabalho e sem dinheiro.

6
Neste Outono quase Inverno,
Portugal está doente.
Isto vai ser um inferno,
Uf, um inferno inclemente!
7
Já dizem que falta o pão,
Em muitas das lusas casas.
O casqueiro, patrões, não!,
Que isto vai ficar em brasas.

8
Quando chegar a tal hora,
A hora de toda a verdade,
Os da massa vão-se embora
E o povinho berrar há-de.

(Manuel Barata, inéditas)

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 4 de Dezembro de 2010 – Sábado feio de quase fim de Outono. Chuva e frio com abundância, que me fizeram lembrar os Outonos e os Invernos da minha infância.

Felizmente, as nossas casas têm agora mais conforto. Mudaram os processos de construção e há agora múltiplas possibilidades de climatização, tornando estas os Outonos e os Invernos menos penosos. Não estaremos no melhor dos mundos como constataria, certamente, uma personagem célebre de um romance de Voltaire; porém, não há comparação possível com as condições de habitabilidade das nossas casas de há cinquenta anos.

Apesar das nossas lamúrias quotidianas, que são mais do que justas, o mundo pula e avança, como escreveu António Gedeão.
*
O Zé Vilela, que é meu amigo há décadas, celebrou hoje o seu aniversário. É um homem da minha geração, ligeiramente mais novo, que se tornou um profissional do foro competente e respeitado. Com muito trabalho e inteligência. Transmontano de nascimento, é rijo como o granito da sua província natal.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 2 de Dezembro de 2010 – Há muito tempo que ando fugido deste Diário, que venho escrevendo, com intermitências mais ou menos longas, desde 1994.

Escrever um diário não é tarefa fácil, apesar de a prosa diarística ser amiúde desconsiderada. É tarefa que exige trabalho, muito trabalho, e quem pensar que não, que inicie uma destas viagens. A minha já leva dezasseis anos, dezasseis!, e não pretendo chegar a nenhum porto. É um espaço para a minha reflexão pessoal, sem preciosismos e sem quaisquer compromissos.

O Manuel Ramos Ribeiro, que foi um dos últimos grandes latinistas portugueses, perguntou-me um dia: “Manuel, porque escreve você um diário, se não é um famoso?” A pergunta era pertinente e pertinente continua a ser, decorridos tantos anos e sem que tenha conseguido desalojar este vício. Grande toleima minha, certamente. Mas vou continuar, “malgré tout”.
Eu gostava de ter o talento de Marcello Duarte Mathias, ou de Torga, ou de Saramago ou de Vergílio Ferreira. Sim, que Conta Corrente também é um diário. Porém, apesar de não ter o talento daqueles egrégios escritores lusos, vou perseverar, do mesmo modo que continuarei a deliciar-me com diários alheios. O próximo vai ser o inédito de José Gomes Ferreira, que a Dom Quixote vai publicar.
E assim retomo a viagem, deixando uma nota sobre o fim do blogue o Jumento. Na verdade, tudo tem que ter um fim; porém, quero que a terra lhe seja leve, leve como pétalas, porque me proporcionou bons momentos de leitura e reflexão.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

QUATRO QUADRAS

1
Está de volta o Outono
- Muita chuva e ventania -,
Agora tenho mais sono
Preguiça e melancolia.

2
Detesto os dias cinzentos
Com o céu ameaçador
E as noites longas e os ventos,
Que são, ó deus, um pavor.

3
Este Outono é muito triste:
Falta o trabalho e o pão.
E o povinho a tudo assiste,
Incapaz de dizer não.

4
Somos animais de carga
Ou de canga, tanto faz.
Dão-nos esta vida amarga
E mantém-se tudo em paz.

domingo, novembro 28, 2010

REGRESSO, o novo livro de Víctor Oliveira Mateus
A mesa da sessão de lançamento com o autor ao centro
"Procuro o meu último pensamento. Um que deixei
algures sem saber como nem porquê. Um que trazia
a imperturbável quietude do rio, a rígida mobilidade
do vento. /.../"
Víctor Oliveira Mateus
TEXTO DE CIRCUNSTÂNCIA
Agora, indiferentes ao meu cansaço, vêm filhos de mães de moral imaculada, cujos avós e quiçá também os pais abancaram à manjedoura do orçamento, donde provavelmente roubaram para dar às filhas e a esses netos, dizer-me que estou a mais; que sou um inqualificável parasita; que não mereço o pão que como.

A esses bondosos cidadãos, que vão enriquecendo sabe-se lá como e encaixam as crias nos melhores empregos, usando os apelidos dos seus compridos nomes; a esses bondosos cidadãos, que vão fintando as leis para que haja pão e leite e carne e peixe, com abundância, nas suas avantajadas mesas; a esses bondosos cidadãos, que tudo esmifram para aconchegarem mais ainda as suas já farfalhudas contas bancárias; respondo com a veemência do costume: a puta que os pariu!

sexta-feira, novembro 26, 2010

DOS PRESSÁGIOS
(Para Carlos de Oliveira)


Galo vagabundo,
não cantes à noitinha,
que o teu canto pressagia
o fim do mundo.


Galo vagabundo,
de crista bem erguida
pela madrugada fora,
anuncia-nos com o teu canto
a fatalidade da vida
hora a hora.


Canta galo vagabundo!
Cantai galos de todo o mundo!






quarta-feira, novembro 24, 2010

TERRAS DO MUNDO

SESIMBRA

TERRAS DO MUNDO

OLIVEIRAS (JARDIM DE PIRESCOXE)

20

Para Eugénio de Andrade


José Fontinha foi o nome que não quis. Muito jovem ainda já era génio e fogo.

Paradoxalmente, as fontes, os rios, a água e o mar, estão desde sempre presentes na sua poesia, a par do deserto e da brancura da cal.

Monfortinho.

Oh, admirável luva para as metáforas do deserto e da brancura da cal!...

Ali aconteceu a revelação da luz, da crueza do sol, dos silêncios e da alegria do verão. Porventura, do zumbido dos moscardos.

Monfortinho.

Só em Monfortinho, na infância longínqua, podia ter aprendido a falar do deserto, da brancura da cal, da incontornável brancura da cal. Foi ali, naquela terra sáfara, que bebeu a música e o silêncio.

Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005



terça-feira, novembro 23, 2010

TRÍPTICO PARA VAN GOGH

I

Subitamente,
No auge da devoção,
Recebeu do céu
Divina inspiração.

Desenfreado,
De paleta na mão,
Desatou a pintar
Ao ritmo do coração:

Sóis,
Ciprestes,
Miosótis
E girassóis.

II

Do fundo da mina
- Qual vagabundo -,
Trouxe as cores
Com que iluminou o mundo.

E no entanto
- Moderno Prometeu -,
O pobre Vincent
Nem uma tela vendeu.

III

E um dia,
Quando o voo rasante dos corvos
Se tornou ameaçador,
Fitou o cocuruto dos ciprestes
E entregou a alma ao Criador.



Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA,
Ulmeiro, Lx., 2005

domingo, novembro 21, 2010

SETE POEMAS DE AMOR

I
Se tu soubesses, amada,
Quanto dói a solidão…,
E inda o peso destas mãos,
Que não sabem fazer nada!

Contigo ausente, esta casa
- Outrora mansão alegre -
É neste preciso momento
O reino da confusão.

Rolam rolos de cotão,
Em minha alma tresloucada.
E dói-me o peso das mãos,
Que não sabem fazer nada.

Ai, soubesses tu, amada,
Quanto dói a solidão!


II

A tua presença, amor,
Mesmo que silenciosa,
Dava-me tanto consolo.

A tua ausência fere-me.
As tardes passam tão lentas
E os dias são tão tristes.

Amor!, contigo presente,
O passarinho cantava
Num perfeito desatino.

Agora tudo é choroso.
Escrevo versos sem graça
e dou-me ao computador.

Bebo copos e mais copos
E o passarinho não canta.
Mas não te rales amor…



III


Pergunto por ti às ondas,
Mas as ondas que são ondas,
Não querem saber de ti,
Nem querem saber de mim.
Virás tarde, virás cedo,
Quem me poderá dizer?

pergunto por ti às ondas,
Aqui junto ao mar, amiga,
Mas as ondas que são ondas,
Não querem saber de ti,
Nem querem saber de mim.
Virás tarde, virás cedo,
Quem me poderá dizer?



IV

O teu sorriso era então
Tão limpo e tão terno, amor.
E nos teus olhos castanhos
Cabiam todos os sonhos.

Não tinhas cabelos ruivos
E usavas roupas garridas.
Tua voz tinha a doçura
das amoras e das tâmaras.

Mas o tempo inexorável
Tudo leva e tudo traz…
E cicatrizes nos deixa,
Tantas, no corpo e na alma!

Continuemos em frente,
Amor, como sempre fomos!
E amemo-nos com a fúria
Dos engenhosos amantes.



V


Tornou-se tão chata, amor,
A vida longe de ti.
A casa é agora um barco
quase, quase a naufragar.

Tenho camadas de pó
Como um bibelô vulgar.
E os copos da cristaleira
Já mudaram de lugar.

Sinto os sofás na cabeça
E toda a casa a abanar.
Mas não fiques em cuidado,
Que isto vai… há-de passar…



VI


Eu queria tanto, amor,
Ter a tua companhia,
O perfume do teu corpo,
A doçura dos teus olhos.

Eu queria tanto, amada,
Com teus abraços folgar
E em teu colo penetrar,
Como manda a natureza.

Eu queria tanto, amor.




VII


Se eu soubesse dedilhar
Como Paco de Lucía
Havia de te encantar
Com momentos de magia.


Dia e noite tocaria
E com imensa paixão.
Tivesse eu a fantasia
De uma noite de verão.


Pra ti havia de compor,
rica, terna melodia.
Somente por puro amor
Como Paco de Lucía.

E tu, decerto, virias



Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005