sexta-feira, maio 21, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 21 de Maio de 2010 – Sempre proclamei urbi et orbi, apesar de saber da inutilidade das minhas proclamações, o apoio ao comboio de alta velocidade, vulgo TGV. E continuo convencido de que o país precisa do TGV e que só fará sentido adiar as obras, se a Espanha suspender as que têm que ser feitas do outro lado da fronteira.

Eu bem sei que esta minha posição é pouco patriótica, porque o patriotismo é monopólio da direita. No entanto, assumo, por minha conta e risco, a defesa do TGV, no qual ainda nunca viajei, mas que já vi passar em várias paragens do pouco mundo que conheço. Olha, e aqui está um verdadeiro achado: tenho visto passar o TGV, como Portugal tem visto passar muitos comboios. Gente com muito mundo quer o TGV fora das prioridades deste pobre país de pequenos e grandes crápulas.

Eu sou pelo TGV, incondicionalmente, mas reconheço que era necessário que se dissesse tudo com muita transparência ao povo. Ainda há dias, um português insuspeito, de nome Luís Delgado, defendeu a construção do TGV na televisão do senhor de Balsemão, porque é necessário aproveitar os fundos da EU. Como vou desconfiando da própria sombra, gostava que no mesmo dia e à mesma hora, o senhor Coelho e o senhor Sócrates, dissessem qual é a percentagem da comparticipação por parte da EU. E, ou ambos diziam o mesmo número, ou ficar-se-ia a saber que um deles estaria a mentir aos portugueses.

Eu quero o TGV, porque não quero que o meu país fique permanentemente a ver passar os comboios.

terça-feira, maio 18, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 18 de Maio de 2010 – Ouvi com atenção a entrevista de José Sócrates à RTP-1 e fiquei surpreendido com a ideia de que o mundo mudou imenso nas últimas três semanas. Eu já sabia que em 1917, o mundo mudara imenso em dez dias.

Pertenço aquele grupo de portugueses que lerem Jonh Reed e que ainda acham que a Revolução de Outubro foi o momento em que os russos e depois o mundo acreditaram que era possível fazer grandes transformações à escala planetária. A realidade, no entanto, foi bem diferente, porque os homens são naturalmente egoístas e não têm disponibilidade para abdicarem de privilégios. Estas, no entanto, são contas do meu diário.

Sócrates acha que os portugueses entendem as medidas tomadas pelo governo. Os portugueses não percebem o que está a acontecer, porque já lhes foram pedidos sacrifícios durante vários anos, pelos vistos inutilmente, e agora ainda lhe exigem mais, não se sabendo muito bem onde se quer levar o barco, se é que se quer levar o barco a sítio algum.

Sócrates esteve igual a si próprio, tal como Judite de Sousa, ainda que o facto da senhora estar igual a si própria não nos faça grande mossa. Já o facto de Sócrates estar igual a si próprio é grave, porque terá repercussões nas nossas vidas. Não pede desculpas, porque o mundo mudou, ou seja, a realidade foi tão dinâmica, que não foi possível fazer previsões e evitar a grande crise.
Aquela cara muito cerrada cheira-me a pose estudada. Sócrates, goste-se ou não dele, é um político a sério. Tem estofo, tem fibra, tem garra. Dizer que os portugueses são todos convocados para fazer sacrifícios, de forma equitativa, foi, em minha opinião, a coisa menos verosímil, das muitas coisas inverosímeis que debitou.

segunda-feira, maio 17, 2010

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 17 de Maio de 2010 – Este mês de Maio, que normalmente decorre morno e sem histórias, será recordado durante muitos anos como o mais terrível da nossa História recente. Tantas e tão gravosas são as medidas anunciadas, que as almas mais crentes poderão ser levadas a crer que estamos no fim do Tempo.

Parece nada escapar à fúria da governação e da oposição que se prepara para governar. Aumentam-se os impostos, cortam-se as despesas e anunciam-se outras malfeitorias para os do costume poderem continuar a dançar o tango. O tango da tanga para os dos costume, mas não para quem conduziu o país ao descalabro presente.

Pouco me interessam as opiniões dos ex-ministros das finanças e de outros actores da cena política actual. Pouco me interessam as opiniões de economistas, que sabem fazer contas, mas que parece desconhecerem que em matéria de economia não basta saber que três vezes nove são vinte sete, como dizia o meu amigo António Raimundo. Pouco me interessa o destino de Sócrates e de todos os Sócrates, que, decerto, sempre há-de ser melhor do que o da generalidade dos portugueses.

Interessa-me muito, no entanto, que as leis não tenham carácter retroactivo e que muitos dos beneficiários de reformas principescas, que agora debitam receitas para os outros, não sejam também atingidos como aqueles que no presente, trabalhando, garantem essas mesmas reformas. Interessa-me muito, no entanto, saber onde os políticos no activo e ex-ministros e outros políticos e também administradores de empresas públicas, têm o seu dinheiro depositado. Interessa-me muito saber, porque têm sido silenciados os escândalos do BPN e do BPP.

Interessa-me, por exemplo, que Portugal não seja um país transparente e solidário. Interessa-me que Portugal não seja o lodaçal onde os pescadores de águas turvas vão pescando a seu favor e a seu bel-prazer.

É que a crise não é para todos e os bois têm de ser chamados pelos nomes.

sábado, maio 15, 2010

Santa Iria de Azóia, 15 de Maio de 2010 - Baltasar Garzón, o célebre juiz espanhol que quis julgar Pinochet e quis, digamos assim, julgar crimes cometidos pelo franquismo, foi suspenso por um tribunal superior espanhol.

Eu nunca foi amigo de juízes, ou melhor dizendo, nunca tive juízes entre os meus amigos e não lhes credito qualquer simpatia. No entanto, o juiz Garzón goza da minha simpatia, porque tem mostrado uma coragem muito grande, quando enfrentou ou pretendeu enfrentar poderes com poderes excepcionais.

Para dizer o que me vai na alma, aqui fica escrito que a suspensão do juiz Garzón é mais um episódio da Guerra Civil de Espanha, que, como é bom de ver, é prolongada com mais este episódio. Em bom rigor, a Espanha nunca chegou a chamar os bois pelos nomes e aceitou a transição pacífica para a democracia sob inúmeras condições, nomeadamente, a de não tocar nos crimes hediondos perpetrados pelo regime de Franco.

O juiz Garzón calculou mal a correlação de forças. Meia Espanha, digo eu, ainda terceria armas por Franco. É assim a Espanha, a nossa vizinha e irmã Espanha, que assassinou Lorca e condenou ao exílio milhões de espanhóis.

quarta-feira, maio 12, 2010

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 12 de Maio de 2010 – Há vários dias que não dou continuidade a este Diário. E não é por falta de assuntos. Acontecimentos extraordinários da minha vida pessoal, muito mais importantes que a crise e a visita do Papa a Portugal, têm-me impedido de lhe dedicar o tempo habitual.

A visita do Papa tem sido indiscutivelmente um acontecimento; porém, nada que não fosse esperado neste território republicano, de regime político teoricamente laico e de pretensa matriz socialista. Portugal é isto mesmo: um país de brandos costumes, cujos governantes não têm, nem nunca terão, a ousadia de Zapatero. E ali os vemos, nos seus postozinhos protocolares, a assistirem à missa, inabaláveis na sua fé católica, apostólica e romana.

Mas o meu ponto hoje não era este. Fui surpreendido, logo pela manhã, com a notícia de que Sarkozy se atrasou para conversar com outro e/ou outros estadistas, porque ele a sua esposa tiveram vontade de fazer sexo. Pobre Mundo, pobre Europa, pobre França!

É bom que os políticos tenham sexo, para não serem confundidos com os anjos, mas não políticos destes, que têm a lata de fazer e publicitar actos desta natureza. Este Sarkozy será uma excepção, mas é a prova provada de que a França é agora uma coisa sem grandeza, onde pululam sarkozys.

Estamos entregues a boa gente.

sábado, maio 08, 2010

" No me digan a mí
que el canto de la cigueña
nos es bueno para dormir"
Rafael Albertí
6


Continua o mundo desconcertado,
Um mar de mentira e hipocrisia.
Desde Camões, pouco terá mudado,
Continua a mandar a vilania.


Os ricos, ousados e poderosos,
Ditam suas injustas leis ao mundo.
Incapazes de gestos generosos,
Tudo submetem ao dinheiro imundo.


Vivemos um tempo de submissão,
Que ignora princípios e valores.
O estudo, a probidade e a razão,


Deram lugar às cunhas e aos favores.
E assim corre a vida desta nação,
De engenheiros, bacharéis e doutores.

Manuel Barata, FRAGMENTOS COM POESIA,Ulmeiro, Lx., 2005.





sexta-feira, maio 07, 2010

3



Ó lendária serra lusitana,
Alvíssima princesa celebrada!
Tua beleza eterna não engana
E renova-se em cada madrugada.


Por ti tenho um amor puro e constante
Que desde a minha infância perdura,
Quando te via altiva, lá distante,
Ó serra rigorosa, enorme e dura!


Eram outros os tempos... Os pastores
Desertaram, cansados, prá cidade.
Deram descanso às flautas. Permanece


A noite povoada de pavores
Muita melancolia, a saudade
E este amor que a beleza rara tece.

terça-feira, maio 04, 2010

10


Passou pelo mundo, excêntrico e atrevido, um argentino a quem os deuses, um dia, negaram a luz. Onde quer que ia, diz-se, inundava os sítios com preciosas pedras, que irradiavam mais luz do que muitos sóis.

Modestamente, dessas pedras disse que uma só, se boa fosse, lhe daria todo o contentamento que os humanos podem experimentar. Enganou-se! Feitos os necessários testes, os sábios confirmaram que todas aquelas preciosas pedras eram veras fontes de luz.

Hoje, há uma legião de fiéis que se esforça para ordenar e descrever para todas as línguas do mundo as tais preciosas pedras, que são também sábias e raras.

Normal não é; porém, às vezes, os humanos vingam-se dos deuses.
Barata, Manuel, FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005.

domingo, maio 02, 2010

DO MEU DIÁRIO

MATA -CENTRO CULTURAL JOAQUIM MOURÃO
Santa Iria de Azóia, 2 de Maio de 2010 - A Mata, diga-se em abono da verdade, tinha uma toponímia, no mínimo, curiosa. Eu creio que o inventor da toponímia matense foi um senhor de nome Manuel Luís - a tuberculose levou-o tão cedo! – que era acordeonista e que com a chegada da electricidade à Mata, também se tornou electricista.

Que foi Manuel Luís o contratado para pintar os rectângulos e desenhar as letras, não tenho quaisquer dúvidas. Já no que à autoria dos topónimos concerne, tenho as minhas dúvidas, que não são muitas, porque a Mata não teve nenhuma rua Professor António de Oliveira Salazar, nem Almirante Américo Tomás, nem com qualquer outro nome sonante do regime deposto, em 25 de Abril. E este facto não deixa de ser extraordinário, se se atender à circunstância de os regedores e os membros da junta de freguesia serem pessoas alinhadas com o regime. Não escreverei aqui, até porque já dormem o sono eterno, o nome de nenhum dos servidores do salazarento regime.

A única rua que tinha um nome histórico era a 1º de Dezembro, porque as restantes tinham o nome dos santinhos da devoção do povo e outra do Espírito Santo. S. Pedro e S. Sebastião tiveram direito a rua e travessa e Santa Margarida, na sua qualidade de padroeira, teve direito à rua maior e mais larga, ainda que só o 25 de Abril a viesse a calcetar, bem como as restantes do Entrego, ou seja, todas as ruas da Mata situadas para além da Igreja Matriz.

Nos últimos anos a coisa mudou: já havia a rua Melo Sanches e também a Professor Lucas Falcão. Não vou discutir a justeza da atribuição daqueles nomes a ruas da Mata, porque ambos foram pessoas muito importantes e à Mata ligados. O segundo até era o meu padrinho do crisma e a boca de um afilhado deve manter-se calada, mesmo quando possa discordar de tal atribuição. A Torre do Tombo, se alguém lhe tivesse perguntado, provavelmente, daria uma excelente resposta. Mas como agora se diz, está feito, está feito e prontos.

Os últimos baptizados, o Centro Cultural e uma nova rua ou avenida, receberam o nome do senhor Presidente da Cãmara Municipal e de um senhor Botelho, de não sei donde; um, decerto, por ser Presidente e amigo da Mata; o outro, porque terá facilitado a construção da semicircular, que também dará continuidade à via que há-de ligar a Mata a Idanha-a-Nova, quando a ponte vier a ser feita. Boas razões, portanto.

O bom povo da Mata, que sempre foi muito ordeiro e obediente, premeia sempre, com imensa justeza, aqueles que lhe fazem bem. E desta vez… Desta vez, como habitualmente, tudo voltou a acontecer sem surpresas.

sexta-feira, abril 30, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 30 de Abril de 2010 – Confesso que já começo a ficar farto de certos basbaques que não se cansam de repetir que é preciso dizer a verdade ao povo. Ora se estes detentores de verdades, mais ou menos teológicas, só agora ou recentemente se tornaram adeptos de falar a verdade ao povo, algo fede neste nosso reino da Dinamarca.

Portugal é hoje um lugar perigoso, porque há gente muito influente na política sem cultura democrática. É evidente que um aldrabão é um aldrabão, mas ninguém se pode arrogar a posse de verdades únicas para dizer ao povo. O PPD-PSD tem sido o campeão nesta matéria, mas pela razão comezinha de que quer voltar a sentar-se à mesa do orçamento quanto mais depressa melhor. Porém, era bom que não comesse tanto queijo e que nos dissesse que verdades nos disseram no passado, nomeadamente quando houve dinheiro a rodos para modernizar o aparelho produtivo nacional e deixaram tudo piorar.

Era bom que o PPD-PSD dissesse verdades simples como estas: connosco, as contas das obras públicas também derraparam e as construtoras encheram-se à tripa forra; companheiros nossos, que foram ministros e secretários de Estado, cometeram crimes económicos que o povo vai ter que pagar com língua de palmo e meio; companheiros nossos, com a ajuda do partido, foram nomeados para administradores de empresas públicas e ou pelo Estado participadas, auferindo, num país onde grassa a mais abjecta pobreza, ordenados e prémios obscenos; etc.

Dizer que se vai dizer a verdade ao povo é apenas um cliché, que, no momento actual, serve para mentir ao povo. Falar verdade ao povo seria, por exemplo, dizer coisas simples como estas: todos os carros ao serviço da governação, nos seus diversos escalões, têm de durar, no mínimo, quatro anos, mesmo que entretanto se mude de governo; nenhum ministro poderá, seja a que pretexto for, comprar mobiliário novo e remodelar aposentos; nenhum ministro ou outro mandante qualquer, poderá ter mais de três (este número poderá ser revisto) secretárias; nenhum ministro ou outro mandante qualquer, poderá encomendar estudos fora do seu ministério, desde que no mesmo haja pessoal qualificado para o efeito; nenhum governante poderá nomear filhos, enteados, sobrinhos e outros parentes seus, ou que tenham um vínculo idêntico com outro membro do governo.

Falar a verdade ao povo, antes de mais, passa por dar o exemplo. O exemplo valeria por milhares de palavras e o nosso amado P. António Vieira poderia descansar eternamente em paz.


QUADRAS DE ESCÁRNIO

Abril vai passando, lento,
E com poucas emoções.
O país vive o momento
Dos pulhas e dos ladrões.

Meu Portugal videirinho,
Onde tanto se labuta,
Tudo metes no cuzinho
De certos filhos de puta.

Ergue a cabeça e explode,
Como naquele outro Abril
E verás que quem te fode
Vai de novo pró Brasil

Ou outro sítio qualquer,
Com a fortuna aumentada.
Até te leva a mulher,
Deixando-te cá sem nada.

II

Eu amo este belo país,
Que espera quem não vem.
Terra de gente infeliz
De olhar vago e sempre aquém.

Obediente aos tiranos,
Pouco preza a liberdade.
Passa séculos e anos
Muito atido à caridade.

Um povo quer-se viril
E capaz de fazer frente
Aos que por maroscas mil
O querem triste e indigente.

Eu sei que não fico bem
Em tão severo retrato.
Azar. Português também,
Não mereço melhor trato.

quarta-feira, abril 28, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 27 de Abril de 2010 – Uma sigla e uma notação puseram um país habitualmente tranquilo em polvorosa. S&P e “A-“, são as causadoras das nossas apreensões, que já eram muitas e agora passam a ser muito mais.

Sócrates e Passos vão encontrar-se hoje para concertarem não sei quê, porque se soubessem concertar fosse o que fosse, já tinham dado um conserto nesta coisa toda.
Não há, pois, nada de bom a esperar deste encontro, porque vão servir-se de um receituário velho e que deu os bonitos resultados que estão à vista.

Na minha humílima opinião, garanto que o mundo está perigoso, porque os tratantes de anteontem são os mesmos que agora aparecem virtuosos a dar notas e a recomendar o que se deve fazer, que, inevitavelmente, nos há-de conduzir, debelada a crise actual, a crises futuras. Dir-se-ia que o capital especulador tomou conta do mundo, relegando a economia para um secundaríssimo plano.

Nós estamos agora a pagar as favas pelo desmoronamento do nosso aparelho produtivo, que, de cedência em cedência, se resume agora a meia dúzia de coisas sem grande importância. Valham-nos as temperaturas altas de ontem e de hoje, que até parecem estar em consonância com o terramoto que nos está a atingir.

Valha-nos Santa Quitéria!

segunda-feira, abril 26, 2010

Malveira, 26 de Abril de 2010 – Ontem, 25 de Abril, meti-me no comboio em Santa Iria de Azóia – coisa que já não ousava fazer há vários anos -, e fui com o senhor meu sogro desfilar na Avenida da Liberdade, que é a única artéria da cidade que merece receber aqueles milhares de celebradores contumazes. E a viagem até foi rápida e nada maçadora.

Antes de falar das pessoas que vi e das palavras de ordem que ouvi, quero aqui dizer que os comboios foram extremamente pontuais e já possuem asseio e conforto que não destoam dos seus congéneres franceses, que são os que conheço melhor.

A Avenida encheu-se de gente – não à pinha, obviamente -, e por ali se viam as “vacas sagradas” destas coisas e aquele genuíno povo de Lisboa e arredores, sempre generoso e combativo. Sim, aquele povo que só sonhou com um Portugal mais solidário e nunca com este território de desigualdades mais ou menos obscenas. Era esse povo que gritava a urgência de mudar de rumo às políticas do governo. Francisco de Assis ( eu não sei se é com “de”, como o outro que era filho e de um negociante de tecidos e veio a ser santo) não pôde deixar, ainda que em ambiente festivo, as profundas preocupações dos que ainda festejam Abril.

Tempo para ver Miguel Urbano Rodrigues, à distância, que chegou a dormir com a cabeça encostada no meu ombro direito, entre a Venda Nova e Santa Iria de Azóia, nos tempos dos comícios, colóquios e outras actividades lúdicas e culturais. Miguel Urbano, que é autor de um romance muito ousado e bem escrito, ALVA, lá ia com a família, ainda em muito bom estado, apesar da sua vida cheia de aventuras.

Quem não vi, e que também andou na minha Dyane azul-celeste, foi a D. Zita Seabra. Desencontrámo-nos, provavelmente.

sexta-feira, abril 23, 2010

Jardim Ary dos Santos

SANTA IRIA DE AZÓIA





Ó vila de Santa Iria,

Minha terra de adopção,

Ao 25 de Abril

Deste o braço e o pulmão!




Deste o braço e o pulmão,

Numa louca correria.

Foram tempos de paixão

E de fraterna utopia.



Manuel Barata, QUADRAS QUASE POPULARES, ULMEIRO, 2003.

quinta-feira, abril 22, 2010

QUADRA DESTE TEMPO

Nevoeiro de manhã
Não casa nada comigo.
Prefiro o sol de Junho
Pra ir à praia contigo.

quarta-feira, abril 21, 2010

CONFISSÃO

Há dias,
Despudoradamente,
Roubei um verso
Ao poeta Albertí.

Coisa sem importância
Dirão os (des)entendidos
Que pululam
Por aí.

Roubar, meu amor,
Só na loja das flores,

uma rosa
para ti.

sexta-feira, abril 16, 2010

ACERCA DOS LIVROS
1


De e com livros tem sido feita a minha vida:
Bons, maus, e assim-assim.
Neles, aprendi metade do pouco que sei;
Sem eles, não sei dizer o que de mim seria!

Outro homem, decerto, seria…

2



Com Fonseca, Manuel como eu,
No culto das musas me iniciei:
Ainda hoje vejo passar a tuna do Zé Jacinto
E me delicio com as alvas rolas,
Que Maria Campaniça escondia sob a blusa.

Por mil anos que um homem viva
Há metáforas que nunca morrem nem esquecem.

3


A prosa chegou com a colecção seis balas.
Só depois chegou Ferreira de Castro
E o seu casto português.
Fiz-me amigo de Manuel da Bouça e de Ricardo;
E, sobretudo, de Marreta e Horácio.

(E é chegado o momento de dizer,
Que se dane o espanhol que não quer
Referências culturais na poesia.
Que se dane pois o espanhol,
Cujo nome já esqueci).

4


Santareno
Veio ainda antes de Vicente!
Primeiro, o Édipo de Alfama;
Só depois, chegou o autor das barcas
e o pai de Antígona.

Franzino, António Martinho do Rosáro
Teve artes para ganhar a dianteira.

Em boa hora.

5


De e com livros tem sido feita a minha vida.

Manuel Barata, FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, Santa Iria, 2009