domingo, junho 25, 2006

AINDA OS PROFESSORES

Concordo inteiramente com o meu amigo José Ribeiro, quando afirma que as corporações defendem os seus e que há professores assim e assado. De resto, com a provecta idade que vamos tendo, ambos conhecemos ao longo da vida professores excepcionais, outros assim-assim e outros ainda que não mereceriam sequer a denominação.
O que me dói não é o facto da corporação poder funcionar bem. Dói-me, verdadeiramente, o facto da corporação não ter capacidade de auto-crítica e de não intervir para corrigir e melhorar o sistema. Eu gostava que a Escola Pública fosse capaz de dialogar construtivamente com a totalidade da comunidade escolar, porque há vivências, saberes e experiências, que poderiam contribuir para melhorar o nosso nível de ensino.
A minha amiga Lucília Mendes mandou-me por correio electrónico um documento espantoso, no qual se defendem - e muito bem-, os professores. Eu estou de acordo e até assino de cruz. Conheço a especificidade da matéria e revejo-me no documento. Porém, o meu problema é outro. Uma quantidade apreciável de professores não faz aquilo que o documento diz que os professores fazem. Se assim fosse, a nossa Escola Pública seria excelente e ambos sabemos que a realidade é bem diferente.
Verdadeiramente, eu apenas queria que a Escola Pública fosse um modelo de virtudes democráticas e de cidadania, o que está longe, muito longe de se verificar. O saber é muitas vezes arrogante e totalitário!

domingo, junho 18, 2006

AVALIAÇÃO DOS PROFESSOES II

Os professores são muito ciosos do seu trabalho e da sua competência. De um modo geral fazem de si próprios um juízo muito positivo e quando se fala de insucesso, a culpa é sempre de quem dirige, na 5 de Outubro. E também dos alunos e da restante comunidade escolar.
Se um pai ousar falar com o psicólogo e chamar a atenção para determinados comportamentos de docentes, o psicólogo dirá imediatamente que fulano e sicrano é bom professor e que desconhece o que se faz nas salas de aulas. Se o mesmo pai for falar com o director de turma e levar os mesmos problemas, aquele dir-lhe-á que vai falar com o colega, mas que tem notícia de que é uma pessoa irreprensível e tecnicamente competente. É a corporação a funcionar no seu melhor e isto não é caricatura.
Na escola pública, os professores tendem a privilegiar os alunos mais dotados. O professor de Matemática gosta dos melhores alunos, o professor de Português gosta dos melhores alunos e o Educação Visual gosta dos melhores alunos. Dir-se-á que tudo isto é normal. Porém, eu argumento com uma tirada do meu mestre Saint-Exupéry: o verdadeiro homem deve confrontar-se com as situações mais difíceis. Trabalhar com os melhores é uma concessão à facilidade.
A avaliação contínua é e foi sempre uma "treta". Aluno esforçado, mas com duas negativas nos testes, nunca tem nota positiva. Talvez a Educação Física e a Religião e Moral, onde os alunos de nota quatro e cinco a muitas disciplinas, para não destoarem, acabam também por terem nota quatro e cinco. É a unanimidade da corporação.
Os pais intervenientes são mal vistos e os seus educandos prejudicados. Mesmo que não vão à Escola para defenderem os filhos. Quem ousar pôr em causa a sapiência e os métodos de determinados professores, vai ter a corporação contra si. Sei do que falo, porque sou pai e conheço bem a corporação. Por isso mesmo, sei que é uma ousadia glosar este tema. Não uma epopeia, obviamente.
Quem pensar que os professores são todos pessoas moralmente irrepreensíveis, está enganado. Têm todos os defeitos e virtudes dos restantes cidadãos. Por isso mesmo, devem ser classificados e avaliados com base em critérios utilizados para outras categorias profissionais.
Inculindo a Professora Bonifácio e o sempre contundente e sabe-tudo Vasco Pulido Valente.

sexta-feira, junho 16, 2006

COM MÁGOA

Mário Ventura Henriques, jornalista e escritor talentoso, morreu hoje com setenta anos de idade. Homem das palavras, e também homem de palavra, fico com a ideia de que as usava com muita parcimónia. Diria até que passou pela vida de forma discreta, se se atender às múltiplas actividades e cargos que exerceu.
Lembro-me dos tempos que se seguiram ao 25 de Abril e de ver o Mário Ventura Henriques, sempre empenhado nas transformações revolucionárias, a participar em sessões de esclerecimento e em actividades da sua estrutura profissional. Suponho que era um homem respeitado pela inteireza de carácter e pela forma como se dava aos outros.
Li com muito interesse o seu romance A VIDA E MORTE DOS SANTIAGO, que fui recomendando aos meus amigos e conhecidos. Não me lembro de ter lido textos críticos sobre o livro. Advinho para amanhã, à boa maneira portuguesa, os choradinhos e os elogios do costume. Amanhã como sempre.
Mário Ventura Henriques, através dos livros que nos deixou e dos exemplos de cidadania que nos deu, vai continuar vivo na memória de muitos portugueses.

quarta-feira, junho 14, 2006

LEITURAS OBRIGATÓRIAS

Li há momentos o artigo de opinião de Vasco da Graça Moura, publicado na edição de hoje do "Diário de Notícias" e confesso, sem quaisquer constrangimentos, que gostei do texto. Não porque me esteja a tornar num cavaquista ou coisa parecida, mas porque as ideias são interessantes e merecem ser discutidas.
Concordo que haja livros de leitura obrigatória, a partir do quinto ano de escolaridade. Livros adequados à idade dos estudantes e que versem temáticas suficientemente modernas e apelativas. Necessariamente (eu sei que é óbvio) em português, ainda que se possa recorrer às traduções.
A quantidade não será o mais importante. Porém, dos mesmos seriam feitos testes de verificação de leitura que contariam para a classificação final da disciplina de Português, em cada ano.
Percebo que VGM fale da Odisseia e de Frederico Lourenço, d'Os Lusíadas e de Amélia Pinto Pais, num programa mais vasto e que implicasse a televisão. E porque não a Divina Comédia e Vasco da Graça Moura?
Trazer os clássicos à colação, nestes tempos que correm, dominados por outros chamamentos, poder-se-á revelar contraproducente. O Professor Saraiva, apesar dos seus dotes de comunicador, não conta entre os seus ouvintes os jovens de Portugal. Outros terão de ser os meios e os veículos de sedução. E é aqui que está o nó, no que à televisão diz respeito.
Como o óptimo é inimigo do bom, comece-se pela obriagatoriedade a partir do quinto ano de escolaridade. Três ou quatro livros por ano. A cruz é grande, mas o objectivo é nobre!

sábado, junho 10, 2006

DUAS NOTAS

O Presidente da República agraciou com a Ordem da Liberdade o cidadão Óscar Lopes, neste dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. É gesto largo que merece ser saudado. Poucos portugueses se poderão igualar a Óscar Lopes. É o ensaísta mais proficuo de toda a História da Literatura portuguesa; quiçá um dos homens mais sábios do seu tempo; o que ficou e lutou sempre, denodadamente, pela liberdade do seu povo.
Cavaco Silva, que há anos confessava que não sabia quantos cantos tinham Os Lusíadas, ontem, provavelmente aconselhado por sua mulher, lembrou que José Gomes Ferreira tinha nascido no Porto, na Rua das Musas, em 9 de Junho. Em 9 de Junho de 1900. Atravessou quase todo o séc. XX. Escreveu vários volumes de poesia, muita prosa narrativa e crónicas. Foi um dos poetas mais amados do seu tempo. Foi um poeta da liberdade.
Para quem teria um défice cultural, registe-se a atitude do Presidente.

quinta-feira, junho 01, 2006

AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES I

Na minha humilde opinião de ex-professor do ensino privado nocturno, a intervenção dos pais na avaliação dos professores faz todo o sentido. Oxalá a Ministra não vacile, que esta poderá ser uma medida capaz de mexer com o "deixa andar" das nossas escolas.
Esta minha posição poder-me-á custar caro, porque a sei ao arrepio do que pensa a poderosa corporação; porém, ficaria a mal com a minha consciência, se não exprimisse a minha opinião frontal e sincera. Felizmente não pertenço ao grupo - nem quero pertencer-, daqueles a quem uma arrogante professora Bonifácio apelidou de analfabetos ou coisa parecida, num recente debate televisivo.
Nas nossas escolas, os professores têm sempre razão. E o problema não é de hoje. Herdá-mo-lo do Estado Novo e parece que há forças poderosas dispostas a manter a situação. Têm sempre razão em matéria disciplinar, têm sempre razão em matéria científica, didáctica e pedagógica, têm sempre razão em matéria de avaliação de conhecimentos. Este ter sempre razão é simplesmente arrogância pura. Nas nossas escolas, na verdade, pontifica a arrogância e a prepotência. E daí a lindeza de resultados, nomeadamente na Escola Pública.
A defesa da Escola Pública, onde sempre estudei e estudam os meus filhos, passa por uma intervenção efectiva de todos os elementos que constituem a denominada comunidade escolar. E deve partir-se do princípio que o elemento principal e a razão de ser da própria escola é o aluno. Se entretanto se coloca o enfoque da problemática escolar no professor e as culpas são atribuídas aos pais e aos alunos, o que se pode dizer, no mínimo, é que há sempre uma desresponsabilização dos mesmos.

sexta-feira, maio 26, 2006

INCLUSÃO

No discurso proferido no dia 25 de Abril, na Assembleia da República, o Presidente Cavaco Silva elegeu a inclusão social como tema central dessa sua comunicação aos deputados e ao país.
Alguns dos papagaios do costume, habituados a olhar o Presidente apenas como economista, não valorizaram suficientemente o tema eleito. E muitos houve até que se preocuparam mais com a questão do cravo na lapela, que com a questão substantiva da dicotomia inclusão/exclusão.
Sabe-se hoje que o Presidente, que quer ser consequente com o seu discurso do 25 de Abril, vao visitar concelhos deprimidos do Algarve, Alentejo e Beira Baixa. Em Vila Velha de Ródão, reunirá com autarcas dos distritos de Castelo Branco e Portalegre.
Sabe-se que o Presidente não tem poder executivo. Porém, o facto de visitar concelhos como Castro Marim, Nisa e Vila Velha de Ródão, vai certamente obrigar os media a falarem sobre a desertificação paisagística e humana e os problemas das populações do interior mais interior.
Não votei em Cavaco Silva e não tenho por ele nenhuma simpatia especial. Parece-me, todavia, que é da mais elementar justiça saudar a iniciativa presidencial. Os nossos concidadãos do interior merecem o nosso olhar atento e a nossa solidariedade. É preciso que se passe das palavras aos actos. E a iniciativa presidencial poderá ser a grande pedrada no charco.
Os portugueses do interior não devem ser olhados como uma espécie em vias de extinção. E dever-se-á assumir que a excessiva litoralização de Portugal é hoje a sua doença mais grave.

sexta-feira, maio 19, 2006

AO CONTRÁRIO DE BORGES

Ao contrário de Borges, cedo dissipei as minhas dúvidas. Não haverá "ciclo segundo". E mesmo as cidades, quando as sabemos dos escombros erguidas, ainda que ocupem o mesmo espaço, nunca são as mesmas.
Um dia, não quando a luz deixar de ser visita dos meus olhos, mas sim quando a máquina que bate dentro do meu peito refractária se tornar ao seu incessante trabalho, ao crepúsculo terei chegado.
Não haverá "ciclo segundo".
O que já foi, nunca mais voltará a ser.

sábado, maio 13, 2006

PARIR EM CASA

Vistas as coisas com frieza, parir nas maternidades é um luxo perfeitamente dispensável. No meu caso pessoal, ainda que não me lembre, nasci em casa e a parteira foi a minha avó paterna. E cá estou, não rijo e forte como um pero, mas com vontade de inetrvir e, se possível, ajudar a formar opinião acerca deste e de outros assuntos. Sempre numa óptica progressista e humanista.
Os direitos sociais dos cidadãos - os ainda existentes-, estão ameaçados, porque o mundo mudou, dizem, e é preciso proceder às convenientes adaptações. A economia é global, lembram-nos quotidianamente, e é preciso competitividade. O que, trocado por miúdos quer dizer que é preciso trabalhar cada dia mais e de preferência com piores salários e menos direitos sociais. Perceberam?
O encerramento das maternidades é uma parcelinha do todo. Há que racionar -não, não é racionalizar-, os custos, à custa do bem-estar e da segurança das parturientes, porque os 6,83 de 2004 terão de ser menos de 3, em 2009. E depois, de um momento para o outro, os próceres do regime desataram a querer reduzir o peso do Estado e a despesa pública a todo o vapor, mesmo que a taxa do desemprego se escreva com dois dígitos.
Sabendo nós quão capaz é a sociedade civil portuguesa, que tem chupado a teta do Estado até onde pode e amealhado ou delapidado a mais valia da exploração, estamos conversados. Dentro de cinquenta anos continuaremos na cauda da Europa, já atrás da Roménia e daBulgária, ainda que o simples facto de o mundo ser mundo, permita alguns avanços no domínio do bem-estar humano.
Voltando ao princípio, porque os excursos são sempre perigosos, quero aqui lembrar que parir em casa é a melhor solução, porque filhos e mães podem ficar tranquilamente em casa, sem os incómodos de ambientes estranhos e de perigosas correntes de ar. E rodeados da simpatia e do carinho de toda a família.

sexta-feira, maio 12, 2006

A FEBRE

Dir-se-ia que as chamadas democracias caminham, dia após dia, no sentido do esmagamento das liberdades direitos e garantias dos cidadãos. A pretexto da segurança colectiva e para se precaverem de aventuras totalitárias. Dentro de poucos anos, não conseguiremos dar um passo sem a presença discreta de uma câmara, sem o olhar invisível e omnipresente de um satélite. É a febre securitária.
Pelo rumo que as coisas levam, começo a acreditar que caminhamos efectivamente para o fim da história. Doravante, tanta é a vigilância e a sua qualidade, que ninguèm poderá ter a veleidade de um "putch", mesmo quando os governantes se mostrem incompetentes e intoleráveis. O mundo dito democrático está a perder atractivos
Aos Gueterres sucedem os Barroso, aos Barroso sucedem os Santana e aos Santana sucedem os Sócrates, mesmo que as legislaturas não sejam acabadas. Sai-se e entra-se no pântano ou entra-se e sai-se do pântano, que o diabo venha e escolha, que a sorte do povoléu parece estar traçada desde o princípio do mundo: criar mais-valia para encher a pança de meia dúzia de comandantes da economia e da finança. Mais aos fazedores de leis de serviço, que nunca se cansam de meter o bedelho na vida dos cidadãos. Mais aos executantes das leis que os fazedores parece que fazem, mas não fazem, porque quem faz são os os pançudos que mandam na economia e na finança.
Aposto que um dia dá-lhes na gana e por decreto vão-nos proibir o direito ao suícídio!

segunda-feira, abril 24, 2006

MEMÓRIA

Há precisamente trinta e dois anos, quarta-feira, jantei na Mata e ao fim da noite regressei ao BC-6, em Castelo Branco, onde cumpria o chamado SMO. Deitei-me bem bebido, que os tempos não eram de securas, não suspeitando sequer o que estava para acontecer.
Por volta das quatro e meia, o Luís Geraldes, que estava de sargento-de-dia à unidade, desatou a acordar toda a gente, aos berros, porque estava a decorrer uma revolução.
Enfiado o uniforme, coloquei-me à volta da telefonia, onde fiquei horas sem fim, para saber notícias. Ao contrário de muita gente, que tem confessado não se ter apercebido imediatamente do que estava a acontecer, eu não tive quaisquer dúvidas. A música não iludia e um mês depois do 16 de Março do Vergílio da Luz Varela, a coisa só podia ser progressista.
Os primeiros comunicados só confirmaram o meu optimismo. Uma indizível e incomensurável alegria íntima começava então a deixar-se extravasar.
Para além do Luís Geraldes e do André, não me ocorrem quaisquer outros nomes de furriéis e cabos-milicianos. Sei, todavia, que era muita a alegria e a cerveja. Fazíamos pequenos discursos e dávamos vivas à revolução.
Dir-se-ia qe o 25 de Abril começava num ambiente de unanimidade. Sabemos hoje que era também o excesso de cerveja a fazer a festa.. De qualquer modo, dentro do quartel, pronto para o que desse e viesse, vivi um dos dias mais felizes da minha vida. Procurei prolongar a felicidade pelos dias e anos seguintes. Hoje recordo tudo com muita nostalgia. Sobretudo, o que nunca chegou fectivamente a acontecer.

MEMÓRIA

Há exactamente trinta e dois anos, quarta-feira, jantei na Mata e ao fim da noite regressei ao BC-6, em Castelo Branco. Cumpria o chamado SMO. Deitei-me provavelmente bem bebido, que os tempos não eram de securas, não suspeitando sequer o que estava para acontecer. Por volta das quatro e meia, o Luís Geraldas, que estava de sargento-de-dia à unidade, desatou a acordar-nos, aos berros, porque estava a decorrer uma revolução.
Enfiado o uniforme, coloquei-me à volta da telefonia para saber notícias. Ao contrário de muita gente, que confessa não ter percebido imediatamente o que se estva a passar, eu não tive quaisquer dúvidas. A música não iludia e um mês depois do 16 de Março do Vergílio Canízio da Luz Varela, a coisa só podia ser progressista. Os primeiros comunicados só confirmaram o meu optimismo. Uma indizível e inconsurável alegria íntima começava, então, a deixar-se extravasar.
Para além do Luís Geraldes e do André, não me ocorrem quaisquer outros nomes de cabos-milicianos. Sei, todavia, que era muita a alegria e a cerveja. Fazíamos pequenos discursos e dávamos vivas à revolução. Dir-se-ia que o 25 de Abril acontecia num ambiente de unanimidade. Sabemos hoje que era também o excesso de cerveja a fazer a festa.
De qualquer modo, dentro do quartel, vivi um dos dias mais felizes da minha vida. Que prolonguei pelos dias e anos seguintes. Talvez com alguma nostalgia pelo que nunca chegou efectivamente a acontecer.

domingo, abril 16, 2006

A PÁSCOA

De todas as festas do calendário religioso - e outras -, é da Páscoa que mais gosto. Guardo gratas recordações dos sábados santos, dos domingos de Páscoa e da segunda-feira a que também chamávamos de Páscoa, mas que é de pascoela, para ser mais preciso. Esta por estar intimamente ligada à festa de S. Pedro, que é o único santo que se pode gabar de ter morada própria lá na Mata.
Festa da ressurreição de Cristo para os cristãos, a felicidade de ocorrer sempre na Primavera, faz dela não só a festa da celebração da promessa de vida eterna, mas também a festa da renovação cíclica e permanente da própria Natureza. É, portanto, no mundo cristão, um tempo de celebração para crentes e não crentes.
Associo a Páscoa a procissões e romarias, a cânticos religiosos e a cantigas populares, a aromas e a paladares únicos. A Páscoa traz-me à memória os bolos de minha mãe, o guisado de borrego, os cheiros do alecrim e do rosmaninho. E ainda o dlim-dlim da campaínha que anunciava a chegada do pároco para dar o Senhor a beijar. Esta cerimónia ocorria na Mata na segunda-feira, porque o domingo era o dia dos Escalos de Baixo, onde os párocos tinham residência.
E termino com duas quadras do folclore da Mata:
-S. Pedro, Senhor S. Pedro,
Quem vos varreu a capela?
- Foram as moças da Mata,
com raminho de macela.
-S. Pedro, Senhor S. Pedro,
quem vos varreu o terreiro?
- Foram as moças da Mata,
c' um raminho de loureiro.

domingo, abril 09, 2006

SIGNIFICATIVO

O Presidente da República visitou hoje, naquela que é a sua primeira saída oficial do remanso de Belém, o Hospital D. Estefânia. Acompanhado pelo membro do Governo responsável pela saúde, que se tem distinguido por fazer afirmações polémicas e tomar medidas desastradas para a bolsa e a saúde dos portugueses.
Talvez ainda não seja o momento para dizer: diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és. Não deixa, contudo, de ser significativo que o senhor Presidente tenha escolhido a área da saúde e a companhia de tal ministro.
O senhor Professor Correia de Campos é, politicamente, um homem pouco generoso e adverso à solidariedade. É incapaz de pensar e de agir fora do âmbito dos modelos em voga, porque pensa pouco e está sempre ansioso por falar. É consabido, passe o cliché, que quem muito fala pouco acerta.
Seria bom que o senhor Presidente da República, actualmente Presidente de todos os portugueses, aconselhasse sabiamente o Dr. Correia de Campos, no sentido de aprender a gerir melhor os recursos, sem cortar nos direitos e sem aumentar a factura dos portugueses.
Acaso, o senhor Presidente da República tenha conselho sábio para dar ao Dr. Correia de Campos.

sábado, abril 08, 2006

HOJE É DIA DO LEÃO

No plano estritamente racional, desejava que ambos os contendores desta noite perdessem. Só assim, o meu Benfica, tão perdulário ao longo de toda a época, manteria algumas esperanças de revalidar o título. Como não acredito em bruxas - apesar de me repetirem que sim, qua as há-, hoje desejo que o SCP vença e convença, para que a equipa supostamente representante da segunda cidade do país não nos infernize a vida com um S. João em Abril.
Se o Sporting vencer - vai vencer com certeza!-, fica demonstrado que um treinador português, que em tempos alinhou de águia ao peito, consegue levar à melhor sobre dois treinadores estrangeiros da chamada escola holandesa. Paulo Bento, que às vezes tem cara de poucos amigos, mas que tem um discurso persuasivo e saber q.b., vai demonstrar que a escola portuguesa tem treinadores que podem ombrear com o que de melhor há no estrangeiro. E isto não é uma posição xenófoba. É apenas uma constatação, que os dirigentes devem levar em linha de conta, no futuro. Ou não é verdade que o Sporting quebrou o prolongado jejum da dúzia e meia com Augusto Inácio?
Este texto, escrito com o coração nas mãos, creio que reflecte o sentir profundo da maioria dos adeptos do lado esquerdo da 2ª Circular. E se não reflectir, paciência, que eu também não tenho procuração. Mas é um gesto de solidariedade para com o Hélder, o José Ribeiro e o José do Carmo Francisco. Esta noite, Lisboa merece uma festa. Que há-de ser grande, quando o campeonato acabar com o Sporting campeão.

sexta-feira, abril 07, 2006

BIZANTINICES

Sou fumador com a actividade suspensa há seis anos e fumei seguramente mais de vinte e cinco. Tenho a actividade suspensa por minha decisão livre e consciente e sei quanto custa trilhar este caminho. Não recebo lições de virgens e conselhos dou-os apenas os meus filhos.
A penúltima vez que suspendi a actividade de fumados, após um período de cinco anos sem praticar qualquer acto, fiquei fumando, sofregamente, mais dez. Não fui, todavia, nem mais feliz, nem mais infeliz. O que gozei ou sofri são experiências pessoais impossíveis de partilhar.
Nos últimos seis anos, tenho sofrido múltiplas tentações. Em sonhos, já fumei inúmeras vezes cigarros e charutos. Tenho resistido com quantas forças tenho, porque conheço as desvantagens de ser fumador. Tenho resistido, em suma, porque a minha decisão é livre e consciente. Se me quisessem impor, administrativamente, a abstinência, tudo faria para desrespeitar os fundamentalistas que tudo querem regulamentar.
Portugal é o país do oito e do oitenta. Ainda há poucos, havia tabernas em cujo chão se cuspia e lançavam pontas de cigarro; ainda há anos, se fumava em todas as carruagens dos comboios e era quase impossível utilizar as casas de banho, quer as viagens fossem curtas ou longas; ainda há pouco tempo, as repartições públicas não tinham WC(s) que pudessem ser utilizados pelos utentes. Há trinta anos, mais de setenta por cento do país não teria saneamento básico. Portugal, felizmente, percorreu um longo caminho, no domínio da higiene e da limpeza. Um caminho percorrido democrática e responsavelmente.
No entanto, esta fúria de tudo querer regulamentar está a tornar-se um caso de violação dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Em nome da defesa de interesses legítimos de alguns cidadãos, cerceiam-se as liberdades de outros. Esta fúria não é mais do que a pata de alguns a calcar o corpo de outros.
Esta fúria de tudo controlar através de normas rígidas já não pertence aos domínios da democracia. Esta fúria é a visão estreitinha dos que têm da democracia uma visão meramente instrumental. È uma visão totalitária!

quarta-feira, abril 05, 2006

SER DO BENFICA

É evidente que o futebol é hoje uma indústria muito poderosa e que movimenta recursos extraordinários. E o Benfica, à dimensão de Portugal, também é uma indústria poderosa e também movimenta recursos extraordinários.
O Benfica é, todavia, muito mais do que uma indústria poderosa e que movimenta recursos extraordinários. O Benfica é um espaço de afectos, tema para muitas conversas, um estado de espírito, quase uma religião, uma forma de ser português.
Não sei o que é ser do SCP, ainda que já tenha visto muitos sportinguistas chorar. Não sei tão-pouco o que é ser daquele clube cujo nome não se pode pronunciar (como no Harry Potter). O que sei de fonte segura, é que o meu coração trabalha desalmadamente quando o "glorioso" claudica. E também, é claro, quandos os êxitos acontecem.
Escrevo estas linhas antes do embate com o Barcelona. Tenho lugar reservado na bancada central - falo do sofá em frente da televisão-, onde irei torcer com os meus filhos pela vitória do Benfica na eliminatória. É um momento privilegiado de partilha de alegrias e tristezas.
Oxalá que as estrelas de brilho gama do Benfica possam obscurecer as estrelas de brilho alfa do Barcelona.
Oxalá que ao fim da noite possamos ainda, com alegria, discutir o jogo e a vitória do Benfica.

domingo, abril 02, 2006

O PODER E OS CARNEIROS

O exercício do poder, mesmo quando há votos de quatro em quatro anos, empresta aos que o detêm tiques de autoritarismo. Para não lhe chamar outra coisa, que é outra coisa os tiques de alguns dos políticos de turno.
Subitamente, gente perdulária, que nunca se eximiu a gastar do erário público, mais papista que o papa, fala do dinheiro do contribuinte com tal pudor, que todos sentimos vontade de gastar menos, com pena do tal contribuinte.
É evidente que este discurso é pura falácia. Se a vontade de poupar e gastar com parcimónia fosse genuína, não se nomeariam amigos e compadres para os lugares melhor renumerados. O dinheiro do contribuinte serve para o que serve e agora está na moda exigir que o Estado encolha e gaste menos. Fazedores de opinião de meia tijela lá vão envenenando a opinião público, muito certinhos e obedientes atrás do pastor Panurgo.
Só que isto, mais tarde ou mais cedo, há-de bater a outras portas e a outras e a outras ainda. E certamente à dos carneiros do pastor Panurgo, que, enlouquecidos, se hão-de suicidar atirando-se das ravinas.
O que eles não dizem, porque mentem sem pudor, é que há efectivamente outros caminhos. E se os não houvesse, era dever de todos procurá-los. O modelo social europeu, com defeitos e virtudes, foi e é um dos mais importantes contributos civilizacionais da Europa, nos últimos séculos. É esse traço distintivo da Europa que estãp impudicamente apagando!

HAJA SAÚDE

Parece que a Constituição da República, que os presidentes prometem todos cumprir e fazer cumprir, diz que os portuguese têm direito a cuidados de saúde tendencialmente gratuitos. Mas isso é o que diz a Constituição, que se tornou um livro e os livros, como bem o demonstram os sagrados do Islão, do Judaìsmo e do Cristianismo - é evidente que a ordem poderia ser outra-, estão excessivamente expostos à curiosidade de exegetas ardilosos.
Vem isto a propósito dos aumentos das chamadas taxas moderadoras, que não moderam coisa nenhuma, mas antes contribuem para o mal-estar dos portuguses. O nosso Serviço Nacional de Saúde, criado por um pedreiro-livre generoso, nunca funcionou com um mínimo de dignidade. As instalações que conheço são impróprias para um país da UE e os serviços prestados, poderiam ser incomensuravelmente melhores. Houve sempre uma grande má vontade rem relação ao SNS tendencialmente gratuito.
As políticas que estão a ser implementadas, seguindo o chamado princípio do utilizador pagador, demonstra apenas que a nossa sociedade é pouco generosa. Permitem-se enriquecimentos descomunais, mas regateia-se na solidariedade. A nossa sociedade está doente e estas medidas vão agravar a doença.
Os campos, as belezas, os arlindos e as roseiros, que nos têm tratado da saúde hão-de explicar-se um dia. Talvez mais cedo do que pensam. Esta forma de fazer política e de dirigir o país é completamente totalitária.
Dez mil pessoas nas ruas de Lisboa, segundo as insuspeitas televisões, poderão ser o prenúncio de que é na RUA que tudo se há-de voltar a decidir. E os patuscos terão de levar umas bengaladas nas nádegas, para depois voltarem a queixar-se da violência das massas.
Manuel da Mata

sábado, abril 01, 2006

OS BLOGUES

Provavelmente, a culpa é minha. Nasci no ano da graça de 1952 e nunca nutri qualquer entusiasmo pelos computadores e pela informática. A minha aprendizagem tem sido lenta e penosa, apesar das ajudas dos amigos. Questão geracional, provavelmente.
O meu primo João Manuel tem carradas de razão: os computadores são burros que nem uma porta. Porém, cada vez que me ponho a fazer coisas, tenho medo de mandar tudo para a sucata. Há anos, quando sabia menos do que hoje, de uma assentada, mandei à vida quarenta e tais páginas de texto. Andei meses para recuperar do trauma.
Com a criação de blogues, a coisa também não tem corrido bem. Às vezes até parece que faço os passinhos todos direitinhos, mas depois há sempre algo que falha. Neste caso concreto, só consigo entrar através de um blogue amigo, que visitei no dia que o criei. Parece uma coisa sobrenatural e sê-lo-á, provavelmente.

A minha falta de jeito para os computadores e para a informática, com o andar do tempo, ainda se vai tornar uma lenda.
Manuel da Mata