quinta-feira, outubro 27, 2011

NAMBUANGONGO

Ansiosos,
como loucos,
esperávamos a DO.

E quem não recebia carta
ou aerograma
ficava mais triste
e só.


Era a puta da guerra
- já sem guerra -,
no degredo
de Nambuangongo.

Lá,
onde até o céu
parecia mais alto
e inclemente.

Lá,
onde o napalm
devastara a paisagem
e matara gente.


(inédito)

GOSTA O POVO DESTA MALTA

Gosta o povo desta malta
De falajar fluido e forte;
Faz vénias aos da alta,
Aos do Sul e aos do Norte.

Vive sempre acocorado
Face à gajada do mando.
Fica em casa acagaçado,
Só reage de vez em quando.

Aceita o roubo e a pobreza
Como coisa natural.
E consente que a esperteza
Vá mandando em Portugal.

Venera beatos e santos
Aos quais roga protecção.
Adora rezas e prantos
E andar de chapéu na mão.

Um dia há-de acordar.
Precisa de um abanão
E aposto que há-de lutar
E à canalha dizer não.

terça-feira, outubro 25, 2011


CONTINUA O MUNDO DESCONCERTADO

Continua o mundo desconcertado,
Um mar de mentira e hipocrisia.
Desde Camões, pouco terá mudado,
Continua a mandar a vilania.

Os ricos, ousados e poderosos,
Ditam suas injustas leis ao mundo.
Incapazes de gestos generosos,
Tudo submetem ao dinheiro imundo.

Vivemos um tempo de submissão,
Que ignora princípios e valores.
O estudo, a probidade e a razão,

Deram lugar às cunhas e aos favores.
E assim corre a vida desta nação,
De engenheiros, bacharéis e doutores.

in FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005

segunda-feira, outubro 24, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 24 de Outubro de 2011 – Afinal de contas, alguns dos trastes, que mais têm defendido a austeridade e o rigor nas contas do Estado, andam a mamar impudicamente nas tetas da pátria, sem dó nem piedade. Cambada!


Afinal de contas, alguns dos que mais têm vociferado contra os subsídios de reinserção recebem os seus próprios subsídios de “reinserção” e sentem-se confortadíssimos com a protecção de leis que terão ajudado a fazer ou que foram feitas pelos seus amigos e correligionários. Não querem ouvir falar da iniquidade das mesmas e da sua consequente imoralidade. Cambada!


E depois vêm com a treta de terem prejudicado as carreiras e as vidas familiares. Não sabiam ao que iam. Pobres anjinhos! E alguns foram tão prejudicados, tadinhos, que são presidentes-directores-gerais das maiores empresas do país. Cambada!

domingo, outubro 16, 2011

É o tempo

dióspiros
romãs



I
É o tempo
- O inexorável tempo -,
Que atenua a mágoa
E mostra
Quão profundas
Eram as raízes.

II
Um Verão vai
E outro vem.
E neste vaivém,
Decorre
A minha vida.

Esta vida que vai,
Vai e não vem.

III
Lentas,
As nuvens vêm
E vão.

Umas deixam (m)água
E outras não.

Ah, só o Verão,
Esplendoroso,
Alegra
O meu coração.

O Outono,
Decididamente,
Não!



quarta-feira, outubro 12, 2011

DISCURSO


DISCURSO

Muitos de nós que temos mãos e temos pés,
muitos de nós que fazemos adeus aos comboios nas estações,
muitos de nós que passeamos o conformismo pelas ruas da cidade,
muitos de nós,
um dia,
talvez um dia,
saibamos quão inúteis foram os nossos braços,
as nossas pernas,
as nossas bocas,
os nossos ouvidos
e os nossos cérebros.


Talvez um dia,
quando violarem o silêncio da nossa inutilidade
e já for demasiado tarde,
vejamos então como eram irreais
os nossos primorosos raciocínios.


Nesse dia,
não haverá lugar para lágrimas
e lamentações.
Nesse dia,
morreremos como cães:
sem palavras,
sem sonhos,
acéfalos,
loucos.






4 QUADRAS

Uma quadra bem urdida,
Em dia de inspiração,
Pode, se for atrevida,
Causar dano até mais não.

Eu quero estar sempre a salvo
Dos efeitos de uma quadra.
Tiro certeiro no alvo,
Faz pior que o cão que ladra

Quatro versos podem ter
Um final devastador.
É por isso, ‘stá-se a ver,
Que a quadra exige rigor.

Em tempos de roubalheira,
Uma quadra pode ser
A espingarda mais certeira
Para os pilantras vencer
.

sábado, outubro 08, 2011

DO MEU DIÁRIO



Santa Iria de Azóia, 8 de Outubro de 2011 – Europeu por convicção, vivo o momento que a Europa atravessa com grandes apreensões. E dói-me, dói-me muito, ver este grande paquete transnacional a afundar-se, perante a impotência vesga de quem se encontra ao leme.




A Europa da senhora Angela Merkel não é a dos fundadores, que, na década de cinquenta, assinaram o Tratado de Roma e puseram o barco a navegar. Os fundadores, que tinham assistido ao espectáculo fratricida da 2ª Guerra Mundial, queriam agora paz e cooperação, solidariedade e bem-estar.




Estes trastes, que estão ao leme do gigantesco paquete, não têm grandeza nem cultura europeia para dar continuidade ao projecto inicial. Esta Europa que amo e sou é um barco à deriva, que Veneza, sempre ameaçada pelo tempo, há-de ver afundar-se, inexoravelmente.

terça-feira, outubro 04, 2011

ENTRE SILVES E GRANADA



Vivo com esta mania
Das moirinhas encantadas.
São restos da fantasia
Dos velhos contos de fadas.

Entre Silves e Granada,
Procuro as lindas gazelas.
Ò moirinhas de Granada,
Doces, amáveis e belas!

Nas margens do rio Arade,
Dou largas ao desvario.
Ò divina Sherazade,
Salta das águas do rio!

Em Silves, com Ibn ‘ Ammâr,
Queria, se pudesse ser,
De moiras tagarelar
E um vinho doce beber.

Al Mu ‘Tamid saudar
Com respeitosa emoção.
Poeta, mais devagar…
Ai, tanta divagação!

Isto é apenas a parte
Do que em Silves penso e sinto.
Oh, cidade prenhe de arte!
Oh, meu cálice de absinto!


in FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, 2009

Foto de José Baeta de Oliveira (Silves)

quinta-feira, setembro 29, 2011

PARA ONDE CAMINHA A ESCOLA PÚBLICA

Escola da Mata, remodelada e mais acolhedora.

Santa Iria de Azóia, 29 de Setembro de 2011 – Eu frequentei a escola primária da Mata, no concelho de Castelo Branco, entre 1959 e 1964. Era uma escola com uma fachada típica do Estado Novo, com duas salas, uma destinada às meninas e outra aos meninos. Com muro ao centro, a dividir o espaço dos recreios.


No fundo, com aquela divisão por géneros, podia-se falar com propriedade de duas escolas, que só comunicavam através de um espaço com duas portas, onde os professores guardavam a lenha para consumir nas lareiras. No telheiro, onde nos abrigávamos do frio e do calor, porque nós íamos para a escola cedinho para acabar os trabalhos, os actuais TPC, e brincar, havia instalações sanitárias, que só eram utilizadas pelos professores e por alguma menina com estatuto. No entanto, éramos nós, os alunos, que bombeávamos a água da cisterna para um depósito, que depois havia de levar os excrementos para uma fossa.


No inverno, as lareiras funcionavam; porém, se algum calor produziam era apenas para os alunos mais próximos e para os professores, ela sempre de mantilha pelas costas e ele de sobrepeliz. E nós, mal enroupados, a bater o tarau, arreganhados, muitas vezes incapazes de escrever. E se calhar era por isso que cada professor tinha a sua régua de madeira para dar reguadas aos alunos, mormente aos que davam mais erros no ditado e erravam mais contas. Eu, uma vez, levei uma surra, que até andei de rastos dentro da escola, mas gritei, gritei, gritei, que a minha mãe até terá ouvido os gritos. Ficou-me desse tempo esta disposição para gritar e nomeadamente as injustiças.


As necessidades fisiológicas eram feitas numa tapada com alguns hectares, propriedade dos professores, que tinha algumas oliveiras ranhosas e era propícia, naquela época, ao cultivo do trigo. Pedia-se licença para ir fazer as necessidades e lá íamos nós, ora os rapazes, ora as raparigas, baixar as calças e levantar os vestidos. Um nojo, claro, vistas as coisas com os olhos de hoje, mas que naquele tempo era normal. Electricidade só depois do 25 de Abril, que também havia de trazer o saneamento básico à aldeia.


Esta manhã ouvi notícias sobre cortes na educação. E falava-se mesmo no corte de despesas de electricidade, aquecimento e outras. Fiquei aterrorizado. Lembrei-me da escola da Mata, não a do projecto Belgais de Maria João Pires, mas a minha, onde passei frio e tinha de ir fazer as necessidades na tapada dos professores. Cheira-me mal. Que país é este?

quarta-feira, setembro 28, 2011

OS CORNOS DE XARIAR


Deve a vasta humanidade
Aos cornos de Xariar
A divina Sherazade
E seus contos de encantar;

Deve-lhe a gentil irmã
- De seu nome Dinarzade -,
Que, cedo, cada manhã,
Acordava Sherazade.

“ Minha irmã, se não dormis…”
E começa a narração.
Sherazade tudo diz
Para encantar o Sultão.

Histórias mil desfia
(Oh, qual delas a melhor?)
E o tirano ludibria,
Calmamente, e sem temor.

Salvando assim a vida
Às donzelas de Bagdade,
Foi, claro, muito atrevida,
Mas ganhou a liberdade.



in FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, 2009

quarta-feira, setembro 21, 2011

DO MEU DIÁRIO


Lisboa, 26 de Abril de 1994 - Júlia Kristeva, romancista e ensaísta francesa de origem búlgara, afirmou há anos que todas as obras literárias são filhas da sua época. Quer a autora dizer que, de uma forma ou de outra, a literatura sofre inevitavelmente a influência do tempo histórico em que é produzida; “mutatis mutandis”, por mais asséptica que a literatura pretenda ser do ponto de vista ideológico, há-de reflectir sempre, sejam quais forem os processos retóricos ou os códigos simbólicos utilizados, as grandes linhas de força da sociedade.

Lisboa, 13 de Maio de 1994 - Apesar de pequenino, o nosso mundo literário é muito mesquinho e mexeriqueiro. Outra das vítimas da nossa pequenez mental, indiscutivelmente mais dramática do que a física, é José Carlos Ary dos Santos. E no entanto, poucos poetas terão tido um coração tão grande. A quase totalidade dos críticos e dos académicos ignoram-no ostensivamente; outros, decerto os mais cínicos, acusam-no de espontaneidade excessiva e de historicamente datado.
Trovador de rara inspiração, com uma veia satírica próxima da de Bocage, terá escrito, frequentemente, sob a pressão do momento; mas, sem perder o rigor formal e sem deixar de escolher a palavra mais adequada e expressiva. Os seus detractores sabem por que o ostracizam.

Santa Iria de Azóia, 21 de Setembro de 2011 – Numa recente entrevista concedida ao programa “Arestas de Vento” da Rádio Azul, pelo qual é responsável Ricardo Cardoso, um excelente profissional da rádio cultural, Fernando Tordo teceu uma série de considerações acerca da obra de José Carlos Ary dos Santos, lamentando Tordo, artista que oiço desde sempre com muito agrado, que a obra do autor da letra de “Tourada”, tem sido aproveitada politicamente.
Eu penso que Tordo terá querido dizer que a obra literária, e nomeadamente a de José Carlos Ary dos Santos, tem sido aproveitada pelo PCP, partido ao qual Ary dos Santos terá deixado, em testamento, os direitos de autor futuros, até a obra cair no domínio público. Penso que a obra está integralmente editada pelas Edições Avante e disponível no mercado. O PC, honra lhe seja feita, não tem deixado esquecer o poeta e autor de letras para canções, algumas das quais cantadas por Tordo e que ficaram no ouvido de milhões de portugueses.
Não sei que percurso político teria feito Ary se a velha senhora o não tivesse vindo buscar tão cedo. Não sei eu e Tordo também não. Nunca ninguém o poderá saber. O que sabemos é que Ary dos Santos foi um grande poeta, panfletário muitas vezes, antes e depois do 25 de Abril. Foi panfletário quando quis e assumiu uma natureza diferente também quando quis. E por isso e bem, há textos líricos de Ary de altíssima qualidade, como o próprio Tordo teve ocasião de sublinhar.
Tordo terá querido dizer, ou eu assim o entendi, que a arte se deve manter afastada da política e a política afastada da arte. Eu concordo, em traços gerais com este princípio, ainda que saiba que não há arte “purinha”, ou seja, expurgada de todas as contaminações ideológicas. E temos por aí os casos de García Marquez, Gunther Grass, Saramago, Cardoso Pires, Diniz Machado e tantos outros, cujas obras, de uma forma ou outra, transportam uma grande carga ideológica. E francamente, que mal vem daí ao mundo? Deixam de ser grandes artistas por isso? Fernando Tordo deveria lamentar que os académicos e outros estudiosos tenham colocado uma pedra em cima de Ary, reduzindo-o, infelizmente, às letras das canções.
Foi assim que entendi a parte da entrevista em que o cantor Fernando Tordo se referiu a Ary e ao aproveitamento político que é feito ou tem sido feito da sua obra. E como não concordo totalmente com o que foi dito, deixo aqui a minha opinião.

segunda-feira, setembro 19, 2011

DO MEU DÁRIO

Santa Iria de Azóia, 19 de Setembro de 2011 – Tem-me feito alguma confusão, mesmo sendo Portugal o país do faz-de-conta, que Alberto João Jardim tenha resistido ao longo de décadas, permitindo-se as graçolas mais despudoradas e tratando com manifesta grosseria todos os que dele discordam.


Num país a sério, num país de democracia bem arreigada, há muito que este Sancho Pança (desculpa-me Sancho Pança, que eu não quero ofender-te) da Madeira e Porto Santo tinha sido varrido da política nacional. Mas Portugal é um país de compadres e compadrios, onde tudo se mistura numa salgalhada indecorosa; onde tudo se conjuga para proteger os poderosos e castigar os mais humildes, para que se crie a ilusão de que vivemos num país autêntico.


Alberto João Jardim não é só mais um entre os muitos patuscos que andam na política. Alberto João Jardim é alguém que goza com a República, aproveitando-se da democracia sem qualquer ponta de vergonha, para gastar e se divertir a seu bel-prazer. É pena que a democracia tenha estas excrescências.


Assim como assim, antes D. Maria, a Louca.

domingo, setembro 11, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 11 de Setembro de 2011 – A humanidade comemora hoje o décimo aniversário do derrube das torres gémeas, em Nova Iorque, onde perderam a vida quase três mil pessoas. A humanidade, e bem, comemora hoje um selvático atentado, que demonstrou quão perigosa é a besta humana. Para as vítimas e para os seus entes queridos vai, misturada com lágrimas, a minha comoção mais profunda.
Mas queria, aqui e agora, recordar outro 11 de Setembro. O de 1972, ocorrido no Chile, que teve menos espectacularidade, mas que fez cerca de trinta mil mortos e outras incontáveis vítimas. Entre os mortos houve de tudo: artistas, operários, intelectuais. Gente que livremente elegeu um presidente, que os EUA sempre abominaram e cujo sangrento derrubo apoiaram material e diplomaticamente.
Espanta-me, pois, que a humanidade que hoje comemora, e bem, os actos terroristas de 2001, se esqueça daquele outro 11 de Setembro de 1972, que ceifou dezenas de milhar de mortos e outras incontáveis vítimas, como se o valor de uma vida humana possa valer mais aqui do que algures. Uma vida humana deve valer o mesmo nos EUA e na Cochinchina.
A democracia e a liberdade são duas senhoras de costas largas que têm permitido o tudo e o nada. E enquanto houver dois pesos e duas medidas, o mundo estará sempre mais à mercê do terrorismo. As lágrimas dos mártires chilenos eram tão salgadas como as dos mártires das torres gémeas.
Para todos os mártires dos 11 de Setembro, para todos sem excepção, vai o meu mais profundo respeito e a minha mais profunda comoção.

sexta-feira, setembro 09, 2011

DO MEU DIÁRIO

O velho portão da quinta

Santa Iria de Azóia, 9 de Junho de 2011 – Confesso que tenho andado com alguma preguiça mental. Mental e também da outra, que o calor resolveu vir em Setembro e todos nós sabemos como as temperaturas altas nos influenciam negativamente. Era por isso que Cesário Verde, que tão verde e maduro morreu, acreditava nas gentes industriosas do Norte frio.




Infelizmente, os dirigentes do norte, e também os do centro europeu, ditos mais trabalhadores, mas que connosco formam essa coisa informe que é a União Europeia, olham-nos de soslaio e mandam cá rapazes altos e muito direitinhos, daqueles que comem uma sande (digo sande, porque era assim que dizia Mário Dionísio, de quem Virgílio Ferreira muito gostava) ao almoço, dizer como querem que nós nos comportemos para, dizem, nos salvarem dos fundos marinhos.




Os nossos representantes da “troika”, e digo representantes da “troika”, porque estão sempre a invocá-la para justificar os castigos que nos infligem, quando, se calhar, contribuíram tanto ou mais do que nós para o actual estado das coisas, querem cortar em mil e uma coisas à saúde ligadas, nomeadamente, decidindo assim acerca da vida e da morte de muitos dos nossos concidadãos já nascidos e por nascer ( Pessoa falava das naus a “haver”), aterrorizam-me, porque sempre sonhei um Portugal mais solidário e fraterno.




Pouco importa a sintaxe do longo parágrafo anterior, ainda que a creia sem mácula. Oremos. E mesmo que crentes não sejamos, tenhamos esperança de que isto não vai durar muito. Oremos de novo.

DA AMIZADE E DOS AMIGOS



Até muito tarde, quando perdia um amigo, barricava-me no meu labirinto e vivia então momentos de verdadeira expiação e melancolia.




Aprendi mais tarde – e só eu sei quão dura e longa foi essa aprendizagem! –, que as amizades podem ser duradoiras ou efémeras como as restantes coisas e sentimentos.




Ao contrário de Narciso, só muito tarde aprendi a gostar de mim. Embriagado com os problemas dos homens e do mundo, sempre em movimento, fui também, até muito tarde, um território em permanente guerra civil, sem tempo e sem espaço para grandes congeminações.
E não há qualquer contradição entre os tempos de expiação e melancolia e os tempos de guerra civil.



Assinado o armistício, reconciliado comigo e com o mundo, encontrei tempo e espaço para pensar e amar (-me). Para descobrir, finalmente, que as amizades podem ser duradoiras ou efémeras como as restantes coisas e sentimentos.


In FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx. 2005

sexta-feira, setembro 02, 2011

A PÁTRIA... DE NOVO E SEMPRE A PÁTRIA!

A pátria... De novo e sempre a pátria!


Outrora, a palavra era grave e fagueira e provocava em mim, quando a ouvia ou pronunciava, um mar de emoções. Associava-a a sítios formosos e a bravos cavaleiros medievos e a subidos valores, que, pensava, constituíam a minha identidade. Era a terra de meus avós - nenhum deles egrégio -, mas que a trabalhavam e amavam e nada lhe pediam em troca.


Longe vão esses tempos de sonhos pueris!... A criança cresceu e já não cede às emoções. Doce e suave é agora falar da pátria com indiferença, com a soberana indiferença de não lhe dever nada nem dela nada querer. E bom será que ela nunca de mim se lembre nem nada queira, para que eu possa ser sempre ignoto e feliz.


Nesta hora – oh, que sublime fim de tarde! -, a pátria é apenas a terna memória que guardo de meus avós – nenhum deles egrégio -, mas que a amavam e nada lhe pediam em troca
.

in FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005

quinta-feira, setembro 01, 2011

Praça do Areeiro

GALHOFEIRAS, AS VARINAS

Há nas ruas de Lisboa
Uma graça, um encanto,
Que nelas inda ressoa
Um pregão em cada canto.

O cauteleiro teimoso
Inda persiste, coitado!
Deixou o grito ruidoso,
Vende o jogo sem enfado.

Galhofeiras, as varinas
Têm tanta, tanta graça!
Suas línguas viperinas
São a pimenta da praça.

Eu sinto tanta saudade
Dos ardinas barulhosos.
Coloriam a cidade
Com seus pregões saborosos!...

À tardinha, no Rossio,
- Oh, era bonito de ver!
Os ardinas, em desvario,
Apregoar e a correr.

Mudou tanto esta cidade!
Marcas do tempo imparável,
Causam-me tanta saudade...
Oh, mudança inexorável!

Do pitoresco a saudade,
Que do resto nem pensar!
Nada paga a liberdade
Que o povo pode gozar.

Mas tudo o que permanece,
Genuíno e popular,
Minha alma tanto enternece,
Meu coração faz pulsar.






in FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, 2009


quarta-feira, agosto 31, 2011

HÁ QUALQUER COISA NO AR

Há qualquer coisa no ar,
Que me provoca alergia.
Não consigo respirar
E só vejo porcaria.


Vejo gente interesseira
De altos valores falar.
Consegue, desta maneira,
O povo ignaro enganar.


Vejo lobos com vontade
De sugar as grandes tetas,
Míngua de qualidade,
Muitas mentiras e tretas.


Gostava que Portugal
Fosse limpo e respeitado.
E não este lodaçal
Corrompido e aviltado.


in FRAGMENTÁRIA MENTE, ed. Alecrim, 2009








terça-feira, agosto 30, 2011

O DILÚVIO

Bem vistas as coisas, tudo filtrado pelo inexorável tempo – ah, essa misteriosa entidade, que protege todos os déspotas! -, a vida decorria sem inquietações, até ao dia do dilúvio que devastou a nossa frágil casa e nos trouxe horas e mais horas de infindável sofrimento e desespero.

Eu quis ser firme e decidido como os antigos generais e aguentar-me à tona das águas e ser paciente e acreditar que tudo teria uma solução. Destruída a casa, perdida a caixa onde guardara todos os sonhos, senti-me triste e fraco e deixei que as lágrimas aumentassem o caudal das águas.

De certa maneira - prefiro a expressão francesa “dans un certain sens” -, senti o desespero dos bíblicos judeus na antiquíssima Babilónia; porém, nunca fiz promessas nem implorei a Deus.

As águas baixaram e a casa há-de reconstruir-se. Irrecuperável, só a caixa onde guardara todos os sonhos.


inédito



SÔBOLOS RIOS QUE VÃO



Estátua da Praça Camões- CASCAIS

Sôbolos rios que vão
por Babilónia, me achei,
Onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali, o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.


Ali, lembranças contentes
n'alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.


E vi que todos os danos
se causavam das mudanças
e as mudanças dos anos;
onde vi quantos enganos
faz o tempo às esperanças.
Ali vi o maior bem
quão pouco espaço que dura,
o mal quão depressa vem,
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura.


Vi aquilo que mais val,
que então se entende milhor
quanto mais perdido for;
vi o bem suceder o mal,
e o mal, muito pior,
E vi com muito trabalho
comprar arrependimento;
vi nenhum contentamento,
e vejo-me a mim, que espalho
tristes palavras ao vento.

.......................

Camões

domingo, agosto 28, 2011

GOSTA O POVO DESTA MALTA

Gosta o povo desta malta
De falajar fluido e forte;
Faz vénias aos da alta,
Aos do Sul e aos do Norte.

Vive sempre acocorado
Face à gajada do mando.
Fica em casa acagaçado,
Só reage de vez em quando.

Aceita o roubo e a pobreza
Como coisa natural.
E consente que a esperteza
Vá mandando em Portugal.

Venera beatos e santos
Aos quais roga protecção.
Adora rezas e prantos
E andar de chapéu na mão.

Um dia há-de acordar.
Precisa de um abanão
E aposto que há-de lutar
E à canalha dizer não.

............................................

in FRAGMENTÁRIA MENTE, 2009

OS LIVROS


Um dia,
Tropecei num livro
E fiquei agarrado.

Ao primeiro,
Outros livros
Se seguiram.

Sentei-me então
E um a um
Fui-os folheando.

Lendo sempre,
Com a avidez
Dos amantes.

Deixei correr
O tempo,
Inexoravelmente.

E agora,
Só quero ficar
Sentado.

Até quando?

Até quando
É a pertinente
Pergunta.


(inédito)






DO MEU DÁRIO

Santa Iria de Azóia, 26 de Agosto de 2011 – Alguns ricos, provavelmente os mais argutos, começam a disponibilizar-se para pagar mais impostos. A ideia surgiu nos EUA e está a fazer o seu percurso pela Europa. Até em Portugal, onde um tal Amorim tem a desfaçatez de se declarar um simples trabalhador, a ideia começa a ter seguidores.


Apesar de saber que não é taxando as grandes fortunas que se resolve o problema do défice, creio que seria mais do que justo que os arrotadores de milhões pagassem mais, pois têm sido apaparicados pelos governos com todas as benesses possíveis e imaginárias. A banca e as demais empresas têm tido os seus rendimentos sociais de reinserção e outros, ao longo de décadas.


Pôr os ricos a pagar mais é, portanto, uma questão da mais elementar justiça. Pô-los a pagar mais; mas, sobretudo, pela riqueza mobiliária já possuída e pela anualmente obtida através das operações bolsistas.

segunda-feira, agosto 22, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 22 de Agosto de 2011 – D. José Policarpo, cardeal patriarca de Lisboa, celebrou missa, ontem, em Alvorninha, a sua terra natal, onde terá desferido um ataque ou fortes críticas aos “grupos de classe”. O “CM” vê nas palavras do bispo de Lisboa uma crítica aos sindicatos, que, entende-se, defenderão interesses individuais.


Sendo verdade o que o “CM” noticia, as palavras de D. José Policarpo colocam a igreja católica ao lado deste governo e dos poderosos, traindo o princípio: “A Deus o que é de Deus; e a César o que é de César”. A igreja de D. José Policarpo não devia imiscuir-se nestes negócios de César, porque os interesses dos que ganham pensões mínimas não se podem confundir com os dos ganhadores de milhões. Esta igreja não é a Igreja de Cristo!


Uma Igreja fraterna e justa poderia apelar à mobilização de todos, mas deveria, primeiramente, condenar com veemência os agiotas e todos os outros ganhadores de milhões. Mas isto era pedir de mais a uma igreja que sempre defendeu os ricos e poderosos e prega a caridade.

sexta-feira, agosto 19, 2011

DO MEU DÁRIO

Santa Iria de Azóia, 19 de Agosto de 2011 – Jacques Delors, o último grande presidente da comissão europeia, terá dito ontem que a União Europeia e o euro estão à beira do precipício. Quando alguém com saber e experiência ímpares no domínio das questões europeias faz afirmações deste teor, dir-se-ia que a coisa está mesmo a dar para o torto.

Merkel e Sarkozy, dois patuscos que nunca deveriam ter ascendido ao poder nos respectivos países, se os países fossem sábios como às vezes se presume, parecem duas baratas tontas que pouco ou nada sabem ou querem saber para alterar o rumo dos acontecimentos. Não admira, assim, que as bolsas estejam a viver um novo “crash”.


Os agiotas – os tais poderosos e sensíveis mercados – manobram tudo a seu bel-prazer e surgem como aqueles deuses antigos sempre insaciáveis, reclamando mais e mais vítimas. E os povos, que produzem a riqueza e os triliões, vêem-se esbulhados dos seus rendimentos mais elementares e de direitos que, ainda há poucos anos, eram mostrados às populações europeias que viviam para lá do muro de Berlim como conquistas civilizacionais.


Eu não sei como tudo isto vai acabar; mas tenho quase como certo que há-de ser a rua a ditar a última palavra. Apesar dos indivíduas e das cidades serem, cada dia que passa, mais vigiados. A democracia, desde a América ao Japão, da Lapónia à Patagónia, merecia outros servidores.


A “escroquerie” tomou conta da Cidade. E esta fede como o velho reino da Dinamarca.

domingo, agosto 14, 2011

CASTELO BRANCO



CASTELO BRANCO

Naquele ano de 1972, em Castelo Branco havia aqueles dois senhores, que eram da PSP e trajavam à paisana: um era o senhor Pudico e o outro era o senhor Outro. Tinham por missão zelar pelos costumes e impor o respeitinho. Visitavam o subversivo Vidal, que vendia muita prosa vil e acolhia perigosos homens do contra: o alfaiate Matos Pereira, o industrial Armindo Ramos e o advogado João Vieira. E outros, que o quiosque estava licenciado e a entrada era livre (o computador topa os anacolutos).

O senhor Pudico usava gabardina, no Inverno, como o inspector Colombo (Peter Falk) de uma série televisiva, e chapéu todo o ano, por respeito à convenção. O senhor Outro, já não me recordo se tinha gabardina, mas também usava chapéu. E óculos para poder ver melhor os títulos subversivos, que um tal Vilhena teimava em publicar: O Filho da Mãe, Marmelada, A Vaca Borralheira, As Canetas dos Amantes, etc. E quedo-me por aqui para não alongar o rol.

O senhor Pudico e o senhor Outro, que levavam a sua nobre missão a sério,
eram pessoas muito sós, porque, lá bem no fundo, só se tinham um ao outro. A cidade olhava-os com desdém, porque o senhor Pudico e o senhor Outro eram o retrato vivo da vigilância, num país vigiado até nas coisas mais simples e íntimas.

O senhor Pudico e o senhor Outro não liam livros; apreendiam livros. O senhor Pudico e o senhor Outro não conversavam; ouviam conversas. O senhor Pudico e o senhor Outro não viviam; andavam por ali, enquanto a cidade vigiada trabalhava, lia e conversava.









sexta-feira, agosto 12, 2011

DO MEU DIÁRIO

A Assembleia era no 1º andar do edifício da fotografia

Santa Iria de Azóia, 12 de Agosto de 2011 – Há dias, de passagem por Castelo Branco, rememorei o ano de 1972, que, para mim, foi um ano marcante. Em bom rigor, só passei nove meses desse ano na sede do concelho da minha aldeia natal. Em Outubro, ou ainda em Setembro, vim para a região de Lisboa, onde fui ficando até ao presente.


Em 1972, Castelo Branco era uma pequena urbe com dois quartéis, um liceu, uma escola técnica, dois colégios particulares e uma escola de enfermagem. Tinha portanto, uma população muito flutuante. E tinha ainda dois jornais, o Reconquista e o Beira Baixa. E algumas colectividades, destacando-se o Benfica de Castelo Branco, o Desportivo, o Centro Artístico Albicastrense, o Clube, a Orquestra Típica e a Assembleia. A JEC e a JOC, não sei se as poderei considerar colectividades.Tão-pouco a Mocidade Portuguesa. Mas era da Assembleia, que se encontra no mais deplorável estado de degradação e abandono, que eu queria falar.


Nunca cheguei a perceber cabalmente o funcionamento da Assembleia. Sei que era frequentada por uma certa intelectualidade, nomeadamente professores, mais ou menos conotados com os movimentos da Oposição Democrática (mais CDE que CEUD). José Duarte trouxe jazz e diapositivos, o João Teixeira lançou o livro de poemas RO(S)TOS DO MEU PAÍS e havia também o grupo da música clássica, no qual pontificavam Carlos Ferreira, João Ruivo e também António Matos Pereira. Lembro-me de ali ter assistido à audição e discussão da Quadragésima Sinfonia de Mozart. Com um papel eminentemente cultural, a Assembleia era um espaço democrático e arejado.


A cidade cresceu e ganhou outra vida; mas, vá-se lá saber porquê, eu tenho saudades da cidade que deixei em 1972.

quarta-feira, agosto 10, 2011

SEM TÍTULO

"As catedrais góticas prefiro aos templos de outras épocas".


Às vezes, quando alguma resistência sinto em entrar dentro de mim, mormente nos momentos de grande inquietação, procuro a quietude e a paz das igrejas. É então que este minúsculo território de orografia complicada, onde inúmeras guerras civis têm sido travadas, permite a celebração de todos os armistícios e festeja a doçura da reconciliação.


As catedrais góticas prefiro aos templos de outras épocas. Nelas, tudo é fruto de subida meditação e de um superior exercício da ordem. Dez minutos, meia, uma hora, às vezes, é o tempo necessário para, pegando numa ponta, enrolar o precioso fio de Ariadne e reencontrar-me com a luz.


Creio firmemente que as igrejas – e mormente as catedrais –, foram sempre pensadas para propiciar reencontros com a luz.


in FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005

terça-feira, agosto 09, 2011

DO MEU DIÁRIO

No rés-do-chão do edifício pintado de branco era o ARCÁDIA

o café onde nos encontrávamos com regularidade


Santa Iria de Azóia, 4 de Agosto de 2011 – Confesso, muito sinceramente, que fui surpreendido com um longo comentário, no meu blogue, do António Apolinário Lourenço. Ainda acerca do aniversário do Albano Matos, que, por enquanto, ainda não deu à costa. E talvez só venha a dar, se der, corrida a Volta a Portugal em bicicleta.


António Apolinário (da Silva Lourenço), que para mim será sempre António Apolinário ou simplesmente Apolinário, lembrou-me o nome do nosso amigo Zé dos Bonecos, António Martins Fernandes, e a grafia do apelido Seborro, que eu queria, à viva força, que fosse Ciborro. No sábado passado, perguntei pelo Manuel Seborro a um vendedor de melancias, no Ladoeiro, que não conseguiu, apesar do esforço, dar-me qualquer informação precisa.


Eu já me tinha esquecido que o Luciano de Almeida tinha tido um suplemento ou coisa parecida no Beira Baixa, que, creio, era dirigido por Valentim Alferes e no qual colaborei com um pequeno poema que viria a perder. Efectivamente monárquico, o Beira Baixa desapareceu, porque não tinha a aceitação popular do Reconquista, desde sempre ligado à Igreja Católica. E que era, indubitavelmente, muito mais desempoeirado que o jornal da Rua de S. Sebastião, quase ao lado do edifício dos correios, que ainda lá está, mas onde já não há correios.


Castelo Branco ainda tinha, naquele ano de 1972, duas gráficas: a S. José e a Semedo, onde eram produzidos o Reconquista e o Beira Baixa, respectivamente. Foi na Ausência do António Apolinário que coordenei um número do suplemento juvenil do Reconquista, que implicava rever as provas na tipografia, ao fundo da J A Morão. Ainda que nunca tenha trabalhado em gráficas nem em jornais, havia de ficar para sempre com as imagens visuais da composição e com as olfactivas da tinta. Perto da minha casa há uma gráfica, cujo prioritário, o João Esteves (não é o da Tabacaria, ó Apolinário), é meu amigo. Por isso, de quando em vez, passo por lá para matar saudades.


O Reconquista é hoje um jornal diferente. Feito por jornalistas e outros profissionais, respeita minimamente a pluralidade de opinião e faz a cobertura noticiosa do distrito de Castelo Branco. E acompanha, sem constrangimentos, a evolução tecnológica. Por isso mesmo, sou seu assinante e assíduo leitor.

segunda-feira, agosto 08, 2011

Cá neste labirinto, onde a nobreza,
O Valor e o Saber pedindo vão
Às portas da Cobiça e da Vileza:

Camões

NAS FONTES

1

A vida é um momento tão fugaz,
Mesmo para os que vivem muitos anos.
Imparável a roda roda e traz
Alguns deleites, dores, desenganos.

Os que vivem, contentes e felizes,
Passando pela terra sorridentes,
indo no carril certo, sem deslizes,
Deste mundo estiveram sempre ausentes.

A vida é desafio permanente,
Mil batalhas travadas com ardor,
Com um só fim em mente, ó minha gente,

Tornar este planeta mais decente!
Árduas lutas travo por amor
E sei que tudo passa... fugazmente!


2
Quando, ó sol, te levantas lentamente
Das cristalinas águas do Tejo,
A cidade pressinto tão contente,
Recebendo teus raios como um beijo!

Sem o oiro dos teus raios a cidade
Fica mole, cinzenta, entristecida.
Com Londres parecida, já de idade,
Perde a graça de moça divertida.

Eu tenho preferência p’los dias
De sol doirado e quente. Com calor
A vida é bela e plena de alegrias.

E se perto de mim, ó meu amor,
Te tivesse, decerto, amar-me- ias!
Na cidade do sol, da luz, da cor...


3

Ó lendária serra lusitana,
Alvíssima princesa celebrada!
Tua beleza eterna não engana
E renova-se em cada madrugada.

Por ti tenho um amor puro e constante
Que desde a minha infância perdura,
Quando te via altiva, lá distante,
Ó serra rigorosa, enorme e dura!

Eram outros os tempos... Os pastores
desertaram, cansados, prá cidade.
Deram descanso às flautas. Permanece

A noite povoada de pavores
Muita melancolia, a saudade
E este amor que a beleza rara tece.

4

Estes versos desejo jubilosos,
Ó minha amada! Versos de louvor
à beleza divina; graciosos,
como convém ao nosso fino amor.

Quero versos de rimas aprazíveis,
Decassílabos suaves e correctos,
Para cantar teus dotes mais visíveis,
Sem esquecer a graça dos secretos.

Negros são os teus olhos e cabelos,
Os lábios têm a cor dos morangos.
Fico contente, quando posso vê-los...

Mas como esquecer os alegres tangos,
E o gozo de beijá-los e mordê-los?
Ó delicado aroma dos morangos!

5

Palavras, ide depressa e cumpri
Vossa valiosa e nobre missão!
Ide palavrinhas, que eu já pressenti
Que podeis ser ainda a salvação.

Palavras, correi, correi como o vento
Que o mundo precisa da vossa força!
Precisa de subido pensamento
E não da bruteza de quem o torça.

A História tem apenas guardadas
Narrativas de batalhas e guerras
E as grandes lutas p’la paz olvidadas.

Ó História, quantas fraudes encerras,
Em lindas palavrinhas embrulhadas?!
Desertai do poema e ide... mesmo perras!

6

Continua o mundo desconcertado,
Um mar de mentira e hipocrisia.
Desde Camões, pouco terá mudado,
Continua a mandar a vilania.

Os ricos, ousados e poderosos,
Ditam suas injustas leis ao mundo.
Incapazes de gestos generosos,
Tudo submetem ao dinheiro imundo.

Vivemos um tempo de submissão,
Que ignora princípios e valores.
O estudo, a probidade e a razão,

Deram lugar às cunhas e aos favores.
E assim corre a vida desta nação,
De engenheiros, bacharéis e doutores.

7
Dom Sebastião permanece vivo
E inda mexe no luso imaginário.
Um povo vive, nesta orla, cativo,
À ´spera do rei louco e temerário.

Os outros fazem e nós esperamos,
Que ele nos traga a boa solução.
Para o cerrado nevoeiro olhamos,
Como se fora a nossa salvação.

Ai, esta longa e dolorosa espera!...
Agir, agir, agir sempre e sem medo,
Foi a regra mágica da nossa Era,

O nosso mágico e fértil segredo.
Quem viu o largo mundo desespera,
Com este povinho tristonho e quedo.


in FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, 2005








quarta-feira, julho 27, 2011

DO MEU DIÁRIO

Castelo Branco - entrada norte

Santa Iria de Azóia, 27 de Julho de 2011 – Hoje, é o dia do aniversário do Albano Matos, que, de quando em vez, dá à costa neste blogue, onde deixa um comentário. Conheci-o no Outono de 1971. Éramos um grupo mais ou menos alargado, que se juntava no velho café Arcádia, e do qual faziam parte António Apolinário, Manuel Ciborro, Luciano de Almeida e o Zé dos Bonecos. Zé dos Bonecos, porque me esqueci do nome.


Eu e o Albano, viemos para Lisboa no Outono de 1972. E fomo-nos encontrando até 1976, com muita regularidade. Na Nova Iorque e na Grã-Fina e também numa cervejaria do Campo Pequeno. O Albano recitava bem poesia e a malta divertia-se. Depois deixámos de nos ver com aquela regularidade; porém, fui lendo a sua prosa nos jornais por onde passou até ao “DN”. Temo-nos prometido jantar, mas está quieto. As nossas importantes vidas e os nossos inadiáveis afazeres não nos deixam tempo. É a vida como diria o senhor engenheiro lisboeta do Fundão.


António Apolinário é Professor em Coimbra, na Faculdade de História, e é especialista em literatura espanhola. Sei dele pelos livros e pelos blogues. Veio aqui interpelar-me uma vez – e fez ele muito bem! -, portanto, sei que também passa por aqui. Com ele tive um projecto para traduzir e elaborar uma antologia de Jacques Prévert, mas ficou tudo muito “vert” e nunca fizemos nada em conjunto de muito importante.


Luciano de Almeida, que dirigiu o Politécnico de Leiria, encontrei-o há anos na Duque de Ávila, ainda eu leccionava no Externato Ergon. Bebemos um café e deu-me um cartão que arrumei, porque, afinal de contas, tantos anos depois, só mesmo Fermina Daza e Florrentino Arriza e estes porque viveram sempre na mesma cidade. Do Manuel Ciborro, que António Apolinário acusava, com graça, de só ler as capas dos livros, nunca mais tive notícias. E o mesmo aconteceu com o Zé dos Bonecos.


Eu não chego a sentir nostalgia, mas aqueles tempos foram importantes, e porque o foram, não caíram no olvido. E aqui os rememoro na vã esperança de que algum deles por aqui passe nos próximos dias.

DO MEU DIÁRIO

Mata - Rua do Arrabalde

Santa Iria de Azóia, 26 de Julho de 2011 – Hoje publiquei uma fotografia da minha terra natal no “facebook” e na troca de comentários com uma excelente poeta portuguesa, lembrei-me de que naquela rua, a rua da fotografia, tinham vivido muitos dos meus familiares já desaparecidos. Nomeadamente, o meu bisavô Francisco Lucas, pai de minha avó Maria, que também teve taberna na rua do Arrabalde, numa casa de altos e baixos.


Entre filhos e enteados, o meu bisavô terá criado e ajudado a criar catorze ou quinze pessoas, que, por sua vez também tiveram as suas proles, embora sem a abundância do progenitor. De qualquer modo, Francisco Lucas foi avô e bisavô de pessoas que se interessaram por quase todos os ramos do saber: advocacia, gestão, medicina, engenharia, música, pintura e outras artes do “trivium” e do “quadrivium” que agora não me ocorrem. António Vicente, que é conhecido pelo “Ptchirra” – na Mata ainda não foram completamente abolidas as africadas -, quando se entorna e me encontra, lá me vai dizendo que não há família na Mata como a do velho Canuna.


Recordo-me perfeitamente do meu bisavô falecer e também dos tempos em que apascentava as suas cabras, já depois dos oitenta, encostado ao cajado e à parede norte da tapada da Bemposta, onde passei muitos dias da minha infância. Era um homem alto e magro. Vestia sempre um fato castanho, de verão e de inverno. Diziam os antigos que o que tapava o frio também tapava o calor. E se calhar tapava.

Os anos correm, vertiginosamente, mas parece-me que ainda hoje reconheceria o timbre da voz do meu bisavô Francisco Lucas.

sábado, julho 23, 2011



INSTANTES


Quando o sol –
O grande colorista de Cesário –
Inunda o dia
E os passarinhos
Dão concerto de piano
Nas roseiras
E nos arbustos
Do meu jardim,
Saboreio
Por vezes
A alegria.

É então
-Gozando as delícias da preguiça -
Que mais concordo com Adília.

O resto,
Obviamente,
É conversa.

in FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, 2009

terça-feira, julho 19, 2011

DO MEU DIÁRIO



Santa Iria de Azóia, 19 de Julho de 2011 – Reencontro com Vergílio Ferreira através de conta-corrente. Eu não sei bem porquê, mas de quando em vez agarro-me a este autor que escreveu alguns romances notáveis tais com APARIÇÂO, PARA SEMPRE ATÉ AO FIM. Gosto tanto da escrita deste autor, como o detesto enquanto indivíduo.


Se Ferreira não tivesse escrito conta-corrente – cinco volumes- e se se tivesse quedado pela escrita ficcional, provavelmente este texto seria um simples exercício laudatório e estar-me-ia nas tintas para o indivíduo empírico que foi meu contemporâneo. Porém, Ferreira quis-nos deixar estes volumes de prosa intimista, onde se revela um ser humano desinteressante, sempre de mal com quase tudo e todos.


Óscar Lopes, provavelmente um dos mais prodigiosos trabalhadores das letras portuguesas é depreciado e a sua crítica denominada “oscarina”; Mário Dionísio, que também foi um excelente contista e também poeta e também crítico literário e também grande crítico de arte, nunca passou de um controleiro comunista, no liceu Camões; Torga poderia receber o Nobel, não que o merecesse, mas pela comezinha razão de constituir uma possibilidade de entrada de divisas em Portugal; Eugénio de Andrade é mal tratado, quando o acusa de ter introduzido o “falo” na poesia portuguesa ou coisa parecida. Naquela fúria de homem de maus fígados, salvam-se Eduardo Lourenço e Fernando Namora.


Encontrei uma vez Ferreira na livraria Barata, com aquele seu ar de fauno antigo, tristonho e só, folheando um livro, com cara de poucos amigos. E curiosamente é esse indivíduo que encontro nos volumes de conta-corrente, que, creio, Baptista-Bastos já considerou – e eu estou de acordo - um tratado do ódio.


A escrita intimista tem muitos inconvenientes.

domingo, julho 17, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 17 de Julho de 2011 – Ainda que todos os dias escreva, e escreva muito, desleixo-me com este Diário, que, qualquer dia, para manter o rigor da denominação, deverá chamar-se mensário. Não é que não haja coisas importantes no meu dia-a-dia que mereçam ser relatadas; não, acontece simplesmente que vou dando prioridade a outras coisas.


Na verdade, tenho andado entretido com a ultimação de um livrito de quadras, só de quadras, que terá o originalíssimo título de novas quadras quase populares. Ainda que não possa ser bom juiz em causa própria, creio que será muito mais interessante que o meu livro inaugural, onde me permiti uma série de concessões desnecessárias.


A quadra é um pouco como a fotografia. Capta o instante e/ou o quotidiano, numa estreita relação com a vida. E pelas minhas quadras, que não são populares “stricto sensu”, lá serão encontrados os grandes temas da poesia, tais como a vida e a morte, o amor, a tristeza, a alegria, a passagem do tempo, etc. E por vezes até aspectos burlescos e picarescos que vão colorindo e apimentando a própria vida.

sábado, julho 16, 2011

NOTRE DAME

Às vezes, quando alguma resistência sinto em entrar dentro de mim, mormente nos momentos de grande inquietação, procuro a quietude e a paz das igrejas. É então que este minúsculo território de orografia complicada, onde inúmeras guerras civis têm sido travadas, permite a celebração de todos os armistícios e festeja a doçura da reconciliação.


As catedrais góticas prefiro aos templos de outras épocas. Nelas, tudo é fruto de subida meditação e de um superior exercício da ordem. Dez minutos, meia, uma hora, às vezes, é o tempo necessário para, pegando numa ponta, enrolar o precioso fio de Ariadne e reencontrar-me com a luz.


Creio firmemente que as igrejas – e mormente as catedrais –, foram sempre pensadas para propiciar reencontros com a luz.


in FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005

quarta-feira, julho 13, 2011


um quadro de Ribeiro Farinha

PROMETEU

I

Onde estão os meus corcéis?
Tragam-me os meus corcéis,
Que quero rápido cruzar os céus
À procura de um novo sol.


II

Vinde cá,
Meus cavalinhos de oiro,
Vinde cá!
E levai-me a todas as galáxias,
Que quero encontrar
Uma nova luz.


III

Meus cavalinhos de oiro,
Meus fogosos corcéis!
Levai-me,
Levai-me a todos os pontos do universo,
Que quero encontrar
Uma nova fonte de fogo.

In FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lisboa, 2005

SANTA IRIA DE AZÓIA



QUADRAS PARA UMA OLIVEIRA



da vila de Santa Iria



A oliveira milenar,
Que vive em Santa Iria,
Se nos pudesse falar,
Que histórias contaria?

Esta robusta oliveira,
Plantada ou aqui nascida,
É testemunha primeira
De três mil anos de vida.

De Homero contemporânea
Merece ser bem tratada.
Que viva, pois, espontânea,
E não lhe façam mais nada.

Procedam só à limpeza
E não lhe provoquem danos.
É força da Natureza
P’ra resistir muitos (mais mil) anos.


(inéditas)

domingo, julho 10, 2011

ERICEIRA, A GRANDE SEDUTORA

Ericeira, um amor à primeira
A vila da Ericeira
É um festival de azul.
Linda terra marinheira,
Única de norte a sul.

Seja Inverno seja V’rão,
O que eu gosto da Ericeira!
Ali o mar tem o condão
De ser visto sem canseira.

E depois há os petiscos,
Uns copinhos de cerveja
E os saborosos mariscos.
Venha daí, prove e veja,

Das muitas ondas a alvura,
Dos petiscos o sabor.
Do mar vem música pura,
Que acompanha com primor.

Caldeirada é “Mar d’ Areia”
A Egídio encomendada.
Quem almoça já não ceia,
Que ali não se estraga nada.

Quem visita a Ericeira
Ali volta, de certeza;
É-se encantado à primeira
Com tanta, tanta beleza.

(inéditas)

domingo, julho 03, 2011

ESTADO DE ALMA

Esta tristeza é só minha,
Não a quero partilhar.
Do vinho da minha vinha
Bebamos até cantar.

Quero saber onde mora
Aquela doce alegria,
Tão garrida e tão sonora,
Tão tepleta de magia.

Às vezes, vejo no João
O rapazinho que eu era.
Ó calma de fim de V'rão,
Devolve-me a Primavera!

Deixa-me alegre brincar
À palmada e ao pião;
Ou só à bola jogar,
na rua, com o João.

in FRAGMENTOS COM POESIA, ULMEIRO, Lisboa, 2005.

sábado, julho 02, 2011

na coluna granítica esteve instalada a picota

AUTOBIOGRAFIA BREVE

Cheguei numa manhã de Junho, segunda-feira, e já o sol ia alto. Chovia. Esperavam-me, ansiosas, minha mãe e minha avó paterna.
Cheguei, pois, em dia de sapateiro, como se dizia na minha aldeia.
Cheguei gato-esfolado, contaram-me mais tarde; todavia, com muita vontade de me fazer à vida.

Ao contrário de Daniel Abrunheiro, que daqui quero saudar fraternalmente, eu não cheguei atrasado. Cheguei a tempo, muito a tempo, para da vida ir colhendo múltiplas alegrias e tristezas, que ela é temperada com umas e outras.

Cheguei a tempo de conhecer um país pequenino, que os próceres do regime, dirigido pelo beirão de Santa Comba, estendiam da parte mais ocidental da Europa até Timor. Era um Portugal miserável, triste e sem humor, do qual herdei esta perseverante e amarga ironia.

Cheguei a tempo de conhecer o exílio e de saber quão amargo é viver longe da pátria, mesmo quando o afastamento resulta de uma decisão livre ou ditado pelo amor à liberdade; ou ainda, quando pela pátria nos é imposto. Oh, como eu compreende o imortal Ovídio!

Cheguei a tempo de ajudar à festa e da festa me embriagar e da ressaca, que ainda vai teimosamente perdurando, apesar do vinho bebido não ter sido muito e nem sempre ser da melhor qualidade. Se preciso fosse repetir tudo de novo, tudo de novo repetiria (Por favor, não me macem com os pleonasmos)!

E por cá vou andando, com a pele às costas, nada reclamando do amor e dos amigos. Da pátria sim, reclamo, porque sempre a quis mais livre e mais fraterna!

sexta-feira, julho 01, 2011

O TEMPO

FIM DE TARDE

O tempo – essa coisa misteriosa que se conta em milénios, séculos, anos, meses, dias, horas e segundos – alguém saberá ao certo o que é? E no entanto, nada escraviza mais o Homem do que o tempo, que as gramáticas organizam em passado, presente e futuro, mas que, no fundo, é apenas passado e futuro.


O tempo – essa coisa estranha que dá alento aos tiranos e torna precárias as acções dos heróis, que destrói as verdades eternas dos teólogos e os sistemas infalíveis dos filósofos, que tudo e todos condena ao esquecimento – alguém saberá ao certo o que é?


No seu perpétuo fluir, o tempo é o tempo, como diria o delicioso Caeiro.


Para mim, que não sou poeta nem literato, mas simplesmente um amigo de poetas e literatos, o tempo é o sol a levantar-se preguiçosamente do Tejo - é assim que eu o vejo das janelas da casa onde habito- que depois sobe e roda e desce, devagarinho, para desaparecer por detrás das casas, para de novo se levantar das mansas águas do Tejo e subir e rodar e descer e desaparecer e de novo se levantar das mansas águas do Tejo.

quinta-feira, junho 30, 2011

DUAS QUADRAS
Para Quevedo
Na minha biblioteca
Há mais mortos do que vivos.
É fácil e nunca seca
Conviver com tantos divos!

Com estes defuntos queridos,
Aprendo no dia-a-dia.
Sisudos ou divertidos,
Todos me dão alegria.

(inéditas

segunda-feira, junho 27, 2011

DO MEU DIÁRIO

Praça do Burgo

Torre de Armas (beffroi)


Bruges, 20 de Junho de 2011 – É certo que ninguém poderá conhecer o mundo inteiro; porém, viajante que se preze, há-de, pelo menos uma vez na vida, passar por esta cidade belga.


Apanhei o comboio na estação de Lille-Flandres e lá fui até Bruges, cidade toda ela monumental, desde a casa de habitação mais humilde até aos grandes edifícios públicos ou às magníficas construções religiosas. Tem todas as marcas de um antigo e excepcional entreposto comercial, tal como o fora Veneza durante centenas de anos.


E as comparações com a pérola do Adriático vão até mais longe, porque Bruges também tem água e canais - sem a profusão de Veneza, claro -, onde o visitante também pode fazer a sua volta de barco. E até a confeitaria aproxima estas duas cidades, onde o chocolate é rei. Faltam-lhe o vidro de morano e as máscaras de carnaval.


Quem sai da estação dos caminhos-de-ferro depara-se de imediato com uma enorme mancha verde, que, de certo modo, esconde o que lá mais à frente, seja qual for o caminho que se siga, se verá. E depois cai-se numa espécie de museu a céu aberto, não sabendo o visitante impreparado por onde começar. No entanto, mesmo que não se faça um dos percursos indicados nas publicações turísticas, o visitante acabará sempre pior ter um dia cheio de beleza e agradáveis surpresas.


As praças do Mercado e do Burgo são, sem quaisquer dúvidas, as mais importantes desta cidade belga surgida já tardiamente, no século IX. Na praça do Mercado, encontra-se a famosa torre de armas, o befrroi, que é o verdadeiro ex-libris da cidade. É também nesta praça, um verdadeiro “fórum”, que se juntam os naturais de Bruges e os incontáveis turistas. Lá encontrará o visitante a incontornável – perdoe-me o leitor o abuso deste adjectivo – FNAC.


Enumerar aqui os museus e as igrejas, os canais e as pontes, seria fastidioso. Pegue o leitor nas suas pernas, e, se puder, ponha-se a caminho de Bruges, ou seja, de um vasto museu, onde vivem cerca de cento e quinze mil pessoas. N'oubliez pas votre parapluie!

domingo, junho 26, 2011

DO MEU DIÁRIO

La Grand'Place (Lille)

Lille, 19 de Junho de 2011 – Quem quiser conhecer uma cidade a sério, há-de calcorrear-lhe as ruas. Os autocarros para turistas são úteis, mas mostram de passagem e com conversa pré-gravada. Uma cidade como Lille merece sempre um olhar atento.

A rua Nationale é uma das ruas estruturantes da cidade nova. Subindo-a até ao seu termo, o visitante fica na Grande Praça, ou Grand’ Place ou Place Général Charles de Gaulle, o mais conhecido filho da terra. É uma praça de grandes dimensões, cuja harmonia arquitectónica resulta de uma mistura de estilos e de cores, que lhe conferem um carácter próprio. Por detrás encontra-se o antigo Palácio da Bolsa e numa relação de contiguidade a Ópera de Lille. São bem visível em todo aquele centro da cidade o denominado estilo flamengo “Flamboyant”.

A Place Charles de Gaulle tem sido ao longo dos séculos o coração de Lille, ainda que se encontre já fora do perímetro da cidade velha. Outrora, terá sido um espaço adequado à realização de feiras e mercados, paradas militares e outros acontecimentos de relevo. Na actualidade, dá guarida a cafés e esplanadas, restaurantes e até a uma incontornável FNAC. Dir-se-ia que a praça faz jus ao carácter mercantil que sempre caracterizou esta cidade do norte de França, vizinha dos grandes portos comerciais dos Países Baixos.

Não sei bem porquê, mas lembrei-me do romancista Fernando Campos e de uma das suas personagens de A SALA DAS PERGUNTAS, ou seja, do nosso grande Damião de Góis, que terá sido um amigo de Erasmus de Roterdão e que representou Portugal na antiga Flandres.

DO MEU DIÁRIO

Vitrais- Sacré Coeur - Lille

Lille, 18 de Junho de 2011 – Em Lille, a cidade natal de Charles de Gaulle, que é nome de muitas ruas, avenidas e praças e avenidas, em todo o hexágono – e até de um aeroporto, em Paris - sente-se bem a diferença de temperatura. Céu farrusco. Plúmbeo não que é erudito e eu não estou cá para eufemismos!
A capital da Flandres francesa é uma industriosa cidade – entenda-se industriosa no seu sentido mais lato –, habitada por cerca de duzentas e vinte mil almas, das quais cem mil estudam nos diversos graus de ensino das suas abundantes escolas, públicas e privadas. Daí que Lille seja uma cidade alegre e muito jovem.
A igreja do Sacré Coeur, quase paredes meias com o local onde me encontro alojado, é um monumento que merece visita. E foi o que eu fiz há cerca de uma hora. Tive direito a ouvir o coro e a um passa-bem do prior local.
Começa bem esta visita ao berço do General que simbolizou a resistência francesa no fim da guerra de 39-45 e que os franceses elegeram, na década de sessenta, como presidente da república. E que haveriam de apear do poder na sequência do Maio-68.



Lille (à noite, no hotel), 18 de Junho de 2011 – Vistas bem as coisas, teremos que concluir que a Europa é mais una do que se crê por aí. A Europa “kitch” dos mass media parece-me definitivamente instalada: os mesmos programas de televisão, os mesmos jornais, as mesmas revistas pink, etc. No mínimo o kitch e o pink unem uma certa Europa. E também os mendigos que surgem por todo o lado.
Em França já começou a pré-campanha para as presidenciais. Os candidatos vão surgindo e Sarkozi, o pequeno homem dos saltos altos, será reeleito. Porque os franceses, que todos supúnhamos mais esclarecidos, afinal de contas são como os restantes europeus.
De Gaulle, Pompidou, Giscard d’Estaing e Miterrand já são, até para mim que não sou dado a essas coisas, saudosos presidentes de França.

sexta-feira, junho 24, 2011

DO MEU DIÁRIO

Gare du Nord-TGV

Paris-Lille (TGV), 18 de Junho de 2011 – Apesar da crise portuguesa, eu estava a precisar de uns dias fora, longe dos Crato, dos Medina e dos Duque, que, independentemente de terem razão ou não, foram ao longo de muitos meses contribuindo para a nossa depressão colectiva.


Nada pior do que um país perder a sua saúde mental!


Eu estava a precisar destes dias longe da pátria, porque só eu sei ( e o Zé Ribeiro também), quão difíceis foram este ano e o transacto.E eu quero preservar a minha saúde mental.


Escrevo no TGV. É a primeira vez que utilizo o “Train Grand Vitesse”, que os Drs. Crato, Medina e Duque tanto abominam. Eu cá imagino-me em 1865 e do que seria de Portugal se, com dívidas e deficit, não tivesse ficado ligado à velha Europa. Não teriam chegado os livros e as experiências de que fruíram os homens da geração de 70.


A paisagem é engolida pela velocidade do comboio. Só posso ter desta rápida viagem uma opinião impressiva. Vou ficar por aqui até Lille.

quinta-feira, junho 23, 2011

La Géode

La Grande Halle


Paris, 18 de Junho de 2011 – Ontem, por achar que tinha sido demasiado “kitch”, omiti a voltinha no Sena, numa das “Védettes du Pont Neuf”. Mas juro aqui a pés juntos, que não voltarei a cometer omissões deste jaez. Pois foi, voltinha no Sena, que, ao contrário do ulissiponense Tejo, permite observar sempre as duas margens. Fiquei a saber que a ilha de S. Luís é o sítio mais caro da Cidade e que a ponte Alexandre III é a mais elegante de todas.


Pequeno almoço no hotel, copioso, que o almoço, se acontecer, será em Lille, lá para as quatro da tarde.


Hoje, o dia começou cedo, porque todo o tempo é pouco, quando se anda por estas paragens. Um namoro antigo, obviamente. Ida à cidade da ciência e da Indústria, em la Villette, que começa com esta pergunta a um carteiro:

- Por aqui também se vai para a Cidade da Ciência, senhor?


A resposta não se fez esperar, ainda que muito diferente da que era esperada:


- Como sabe, Senhor, a ciência não é o meu forte. Eu sou apenas um pobre carteiro.


Percebi imediatamente e continuei o meu caminho ao longo do belo canal de La Villette. Trezentos ou quatrocentos metros andados, descobri o “Grand Halle”, que, intuição minha, é parte da construção em ferro que existia no Marais (olá Lídia Martinez!), onde, em 1970, se comemoraram os noventa anos de Pablo Ruiz Picasso. O estilo é Baltard ou Napoleão III.


Entrei na livraria, onde adquiri uma antologia de poesia árabe e constatei a existência de dois poetas portugueses. Fernando António, sim o Nogueira Pessoa, e Herberto Hélder. Curiosa a fotografia do livro de Herberto Hélder; porém, não vos direi porquê. Ou talvez vos diga, lá para o fim destes escritos franceses.


Chuvinha com fartura. Apesar de tudo, ainda tive tempo para fotografar a “Géode”. Depois reapropriei-me das malas e pus-me a caminho da “Gare du Nort”, que o TGV não espera.

quarta-feira, junho 22, 2011

DO MEU DIÁRIO

Orly

Lisboa (aeroporto), 17 de Junho de 2011 – 9h45. O avião permanece em terra. No mínimo, partiremos com vinte minutos de atraso. Se cada minuto deste atraso correspondesse a um ano de nosso atraso em relação aos nossos parceiros mais avançados da Europa, poder-se-ia dizer que andamos vinte anos atrasados.


Paris (Orly), 17 de Junho de 2011 – Vinte minutos à espera por um espaço e por uma escada para sair do avião. O comandante (João Couceiro) vai, fazendo o seu trabalho, debitando estas preciosas informações. Tempo cinzento e ameaçador, nos arredores de Paris.


Finalmente, o espaço e a escada para a saída. Todos para o autocarro, que a Gália não é diferente da Lusitânia!


Odisseia nos transportes públicos até Porte de la Villette, que é nas portas da cidade que os viajantes mais pobres se podem albergar.


Jantarinho no coração da movida parisiense – a dois passos do Boulevard Saint Michel - , alinhando numa daquelas sugestões escritas a giz na ardósia: “petite salade, agneau et verre de vin”. O coração de Paris - S. Michel e Saint Germain – está repleto de restaurantes para turistas e estudantes, que, no caso vertente, é quase a mesma coisa.Restaurantes chineses, japoneses, turcos, espanhóis de tapas e também da boa e celebrada comida tradicional francesa. Um dia encontraremos por ali um Tico-Tico e /ou uma lusa churrasqueira, onde se hão-de celebrar os santos populares de Lisboa, no mês de Junho.


23h00. Nova pancada de água e regresso de metro ao hotel. Na rua de Rivoli há agora inúmeros semelhantes nossos que passam a noite a céu aberto, embrulhados em cobertores e sei lá eu que mais. É a França de Sarkozi e dos seus amigos de direita, que já não faz jus à tradicional tríade: liberdade, igualdade e fraternidade.