quinta-feira, junho 16, 2011



HÁ CINQUENTA ANOS




Há cinquenta anos, quando nós ainda éramos todos, eu tinha seis anos e era feliz.

Nunca festejávamos os meus anos. E só sabia que fazia anos, porque a minha mãe me dizia: “hoje fazes anos, filho!” E eu, contente por fazer nos, corria pela rua e anunciava aos rapazes e às raparigas que era o dia dos meus anos.

Nós brincávamos sempre na rua, que era o prolongamento natural das nossas casas, que tinham quase sempre as portas semiabertas ou semicerradas que para o caso tanto faz. Era a rua Nova da Escola, que não tinha ainda estes paralelos ásperos, que continuam a causar-me irritação. A rua era térrea e quando chovia ficava lamacenta e nós brincávamos com a água das poças e por vezes chapinhávamos e sujávamos as saias das raparigas já casadoiras e fugíamos para nos rirmos delas.

E construíamos casinhas, imitando os nossos pais. E nelas mostrávamos o peixe às raparigas e elas nos mostravam o cochicho, sim, peixe e cochicho, que era assim que, puerilmente, chamávamos aos nossos sexos.

Hoje já não somos todos! E os que somos já não nos alegramos com a candura de outrora. Agora, às vezes, fazemos anos para nos dizermos que ainda somos; porém, arredios da simpleza e da alegria de, quando criança, minha mãe me dizia: “hoje fazes anos, filho!” E eu corria pelo interior do sol de Junho a dizer aos rapazes e às raparigas que fazia anos.

Vertiginosamente, a névoa vai tomando conta dos nossos olhos e os nossos corações deixaram, há muito tempo, de rejubilar com o alvorecer dos dias.


Nota– Sim, Pessoa está presente. Pessoa e Caeiro. Porém, foi assim mesmo a minha infância.

terça-feira, junho 14, 2011

AMEIXEIRA

Florida a vistes e agora aqui a tendes de frutos carregada


AINDA E SEMPRE O TEMPO

Na minha parcimoniosa produção escrita publicável, o tempo tem ocupado um lugar privilegiado. Se me perguntarem porquê, sou capaz de entaramelar uma resposta pouco lógica e plausível. Sobre o tempo escrevo, mesmo quando o tema é a brisa que passa, a frágil rosa, a doce ameixa, o riso divertido de meu pai.

Na verdade, amada, até quando do nosso amor falo, lá aparece o tempo a tudo balizar. Ora cronológico, ora meteorológico, ora psicológico! Ora…

O tempo agarra-se-nos à pele ainda antes do alvorecer e connosco continua para lá do definitivo anoitecer.

sábado, junho 11, 2011



NÃO ME VENHAM DIZER A MIM



Não me venham dizer a mim
Que já não há milagres!...




Inda ontem, sexta-feira,
o milagre aconteceu,
quando à infância regressei,
no sabor dum damasco.




Foi na Mata,
Onde os damascos
São suculentos e doces
Como as laranjas de Jafa.




Não me venham dizer a mim,
Que já não há milagres!...






(10.06.2011)

sexta-feira, junho 10, 2011

POEMA

companheiro!

chegou a hora de juntar
as pedras
e chama-las pelos nomes,
antes que os rios enlouqueçam
e a terra fique seca
como a pele dos sapos.

Um dia
Tiraremos vinho do cotovelo
-sobretudo tinto-
quando as torres das catedrais
forem pássaros de cristal
a cortar o silêncio
de uma gota de água
a cair na areia.

Como vagabundos
sem dinheiro
em cada madrugada
faremos a lenta travessia
entre o deserto
que estreita o futuro
e a arca de porcelana
onde guardamos
os sonhos.

-em nome da paciência
e pelas casas que o teu
construiu
no tempo em que as cerejas
não tinham vergonha
de amadurecer em Maio.

Com um grande abraço de PARABÉNS

Massamá, 09 de Junho de 2011

Manuel Ribeiro Vaz

quarta-feira, junho 08, 2011

DO MEU DIÁRIO





Fotografias da Rua dos Vencedores

Santa Iria de Azóia, 8 de Junho de 2011 – A cidadania também se exerce trazendo ao conhecimento público as mazelas que nos são vizinhas. E não há que levar a mal a denúncia de situações que carecem de soluções rápidas e eficazes.
Eu vivo no Bairro do Cativo, em Santa Iria de Azóia, donde se vê o Tejo e a linha do norte e a ponte Vasco da Gama. Vivo num bairro de vivendas, de génese ilegal quase todas, mas que já tem alvará de loteamento desde 2005. Para o bem e para o mal, tenho pertencido à direcção da AUGI e à Comissão de Melhoramentos. Bem sei que podia trabalhar mais e melhor, mas vou fazendo o que me é solicitado e que mais se coaduna com as minhas competências.


E hoje quero falar do meu Bairro, onde cultivo roseiras e contemplo as rosas e outras flores do meu pequeno jardim. Hoje quero falar da Rua dos Vencedores, a artéria mais movimentada do bairro e que se encontra esburacada, ou seja, capaz de danificar automóveis e até de provocar acidentes. É uma rua que carece de repavimentação urgente.


Bem sei que há logo quem venha dizer que a Junta assim, que a Junta também, que a Junta, etc. A Junta não tem meios para resolver este problema, que implica gastos mais ou menos avultados. É da competência da Câmara Municipal de Loures tratar deste assunto. E não vale vir com conversas da treta.


Nestas coisas, as cores partidárias ficam de fora dos textos.
A DEPRESSÃO

Anda o povo deprimido
Por causa da depressão.
Descobre no comprimido
Um meio de salvação.

Ou num copo de bom tinto
Abundante em Portugal.
Mesmo assim, inda pressinto,
Que não resolve este mal.

Isto, amigos, só lá vai
Combatendo a roubalheira.
E quem a pátria trai
De forma infame e rasteira.


(inéditas)

terça-feira, junho 07, 2011

QUADRAS EM LOUVOR DO SENHOR BELMIRO

As OPA (s) do ti Belmiro,
Não são opas de vestir.
Este homem, que tanto admiro,
Até faz as pedras florir.

Floresce o grupo Sonae
Tão vertiginosamente,
Que produz lucros num ai
Encantando toda gente.

Só Portugal permanece
Na cauda da velha Europa.
Será que quem enriquece,
Tem respeitinho p’la tropa?

Portugal merece mais
Respeito e dedicação.
Há por aí uns pardais
Que comem tudo grão a grão.

(inéditas)

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 7 de Junho de 2011 – Dois dias depois da estrondosa vitória da direita nas eleições legislativas, o tempo continua nublada. Dir-se-ia que ao contrário do que era esperado- um radioso sol de Junho – o país amanhece cinzento e cinzento continua, pelo menos aqui na capital do reino, como se fôssemos agora entrar no outono.


Pode ser que o bom tempo regresse e se instale de vez, porque Portugal precisa de sol e muita luz. É certo que temos tido muito sol e a luz de Lisboa tem sido celebrada por poetas e outros artistas. Até por cineastas famosos. Creio, todavia, que são só visões de artistas. Sobra-nos sol e falta-nos luz, porque só assim se explica esta nossa espécie de vocação pelos abismos.

Mas pode ser, pode ser que tudo, futuramente, seja diferente.

domingo, junho 05, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 5 de Junho de 2011 – Conheci o Luís Telhado em Julho de 1976, quando o PREC ainda escaldava. Tivemos pequenas escaramuças verbais; porém, soubemos sempre deixar as pontes de pé, que é assim que deverá ser. No dia do meu casamento – e porque não fizera convites – o Luís apareceu de surpresa para me dar um abraço. E cumprimentar a minha família. Por mais anos que eu viva, nunca esquecerei esse gesto. Como não esquecerei as roupas que ofereceu à Filipa, quando era bebé.


O Luís atravessava então um período muito complicado da sua vida particular. Hesitava entre o Bº Azul, onde residiam os pais, e a sua bem-amada Cascais. Decidiu-se por Cascais, de onde vinha, quotidianamente, trabalhar em Moscavide. Num minúsculo Fiat grená, que parecia estar equipado com um motor de rega. Chegava, poisava as chaves, os óculos escuros e o seu inseparável maço de Português Suave, cumprimentava os colegas e quase invariavelmente dizia: “Lúcia, vou tomar café.” Da Lúcia bem se pode dizer que era uma segunda mãe do Luís Telhado, porque era esta amiga que lhe aturava as madurezas e os atrasos. A vida dá as voltas que dá, mas sei que o Luís, nunca se esqueceu de nenhum de nós e nomeadamente da Lúcia.


O ano passado, encontrei-o em Vila Franca, nos primeiros dias de Maio. Um curto cumprimento de circunstância, porque ia em peregrinação a Fátima. A vida e a idade tornaram-no um homem de fé. Feliz ou infelizmente, não o posso acompanhar em matéria de fé. E este ano já nos vimos novamente e conversámos alguns minutos, no Parque das Nações, junto ao Vasco da Gama. Lá ia nas suas inseparáveis calças de ganga, magro como sempre, mas como sempre afável.


Quando deixar de ter obrigações profissionais, hei-de ir a Cascais almoçar com o Luís e rememorar histórias passadas. Muitas. E algumas rocambolescas. Até breve.

sexta-feira, junho 03, 2011

HÁ MUITAS VOZES NA MINHA VOZ

Para o Vítor Morais, meu amigo.

Há muitas vozes na minha voz
E de todas o timbre reconheço:
Alegres umas, outras tristes,
Todas límpidas e harmoniosas.

Há muitas vozes na minha voz:
A de meu pai sempre presente
- Não a de minha mãe, curiosamente –
E as dos poetas que mais amei.

Há muitas vozes na minha voz
E de todas elas gosto por igual.
No cerzir do verso tento ignorar a mescla;
E, humildemente, procuro ser original.

quinta-feira, junho 02, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 2 de Junho de 2011 – Passos Coelho, tudo o indica, chefiará o próximo (des)governo de Portugal. Foi levado ao colo por um exército de comentadores, politólogos e economistas, quase todos de direita, que acertaram o passo para derrubar o arrogante Sócrates.

Sendo tudo farinha do mesmo saco, vamos aguardar serenamente pela concretização dos acordos com a “troika” e esperar pela resposta do povo português ao desatino que se prevê e avizinha a passos largos.


No domingo, irei votar, ao fim da manhã. Farei a minha voltinha a pé e depois esperarei pela última e definitiva sondagem destas eleições. Espero que a CDU tenha uma boa votação. Uma boa votação na CDU é a garantia de que nem todas as medidas ruinosas serão implementadas.

A CDU é mais decisiva do que parece.

quarta-feira, junho 01, 2011

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 31 de Maio de 2011 – No próximo dia 5 de Junho, os portugueses vão votar para eleger um novo parlamento; e, por conseguinte, e/ou em consequência dos resultados, para a nomeação pelo presidente da república de um novo 1º ministro.


Estas eleições vão decorrer num tempo particularmente difícil para os portugueses e para Portugal. Nomeadamente, para os portugueses mais carenciados. Com a corda ao pescoço – a corda da bancarrota – a lusa gente vai pronunciar-se, pela primeira vez, em condições de pouca liberdade, porque os três maiores partidos, segundo as sondagens, têm um programa imposto pelo estrangeiro. Sim, que a Europa a que pertencemos, também é estrangeira e como tal se comporta em relação aos seus membros mais frágeis.


O que me surpreende no meio disto tudo é a capacidade do dr. Portas dos bonés e chapéus para aceitar ser um capataz ao serviço dos senhores que tutelam o protectorado. Era espectável que este varão de velha e rija têmpera ousasse pegar em armas contra o “dicktat” do triunvirato e lutasse bravamente pela lusa gente.

Contradições que o poder tece.

segunda-feira, maio 30, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 30 de Maio de 2011 – Estou farto de economistas, politólogos e comentadores de tudo e de coisa nenhuma, que assaltaram definitivamente os meios de comunicação social, nomeadamente as televisões, não para ajudarem a resolver o grande imbróglio que é Portugal, no momento presente; mas antes para nos acusarem de gastadores e outras coisas afins, tratando-nos como verdadeiros atrasados mentais.


Os charlatães que pululam por aí são os próceres do regime; são os arranjistas do regime; são os gastadores compulsivos do regime; são, ainda, os inefáveis conselheiros do regime. Foram, em suma, os criadores dessas novas divindades que dão pelo nome de lucro e mercado, que todos os dias atormentam as nossas pacatas existências, como, outrora, as vozes tonitruantes dos patriarcas do Antigo Testamento.


Cheguei há momentos de Alverca do Ribatejo, onde, numa só rua, deparei com três dessas casas de compra de ouro, de compra de ouro e prata, de compra de ouro prata e jóias, que um dia ainda hão-de comprar também os dedos dos portugueses, para que nunca mais tenham a ousadia de usar anéis. Já tinha notado a existência destas casas, que alguém, hoje, equiparou a agências funerárias. Abrem em todos os locais da cidade e brevemente chegarão às mais recônditas aldeias. Sabendo da dimensão da crise, os agiotas não perdem tempo.

Portugal fede.

domingo, maio 29, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 29 de Maio de 2011 – A campanha eleitoral vai decorrendo desinteressante, com os candidatos a correr os distritos respectivos e os presidentes e secretários-gerais a percorrer o país inteiro, numa azáfama tal que poderiam ir todos de férias depois da campanha.


Só neste rectângulo de ângulos obtusos é que os debates entre candidatos se efectuam antes da campanha. Acontecessem agora os debates e tudo seria mais útil e interessante. Sabe-se agora que não há só uma versão do documento assinado com a troika – o dr. Portas diz triunvirato, não se sabendo quem vai ser Crasso e sabendo-se que nenhum deles terá a grandeza de Júlio César -; sabe-se também que o dr. Coelho não é capaz de perceber à primeira e de responder de forma elegante a uma rapariga que lhe falou de novas oportunidades; sabe-se agora que Sócrates não tem uma só ideia para o futuro do país para além das dos triúnviros e que os restantes assinantes do famigerado documento também não. Têm pois os portugueses razões para não votar nesta gente, que, de uma forma ou outra, tem responsabilidades no estado lamentável a que chegámos.


Percebe-se também que há medos instalados e acordos ditos de cavalheiros, que bem podiam ter outro nome, porque há assuntos que ninguém discute e responsabilidades que ninguém ousa atribuir. Porquê? Há silêncios a mais na sociedade portuguesa e direitos mais ou menos obscenos, que em tudo se parecem com a celebérrima “omertà”. Não foram só os banqueiros que beneficiaram com a crise e que delapidaram as finanças públicas. Outros beneficiaram - o leque seria enorme -, nomeadamente, do “forró” do consumismo e vêm agora que nem virgens imaculadas falar de responsabilidades. Até parece que os únicos responsáveis são os paus-mandados dos políticos que propiciaram as coisas.


Em Portugal, dizia um amigo meu há muitos anos, não há adversários. Somos todos compadres. E, no momento que passa, começo a dar razão ao Eduardo Berjano.

sábado, maio 28, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 28 de Maio de 2011 - Eu acho que o dia 28 de Maio, de tão má memória para Portugal, não é dia para se nascer. Quis o acaso, que agora as coisas até podem ser programadas, que o meu amigo Carlos Godinho nascesse neste dia. Hei-de chateá-lo toda a vida com a data do seu nascimento, apesar de não ter sido chamado a pronunciar-se, como tão sabiamente escreveu António Gedeão.


Estou de partida para o Cartaxo, terra que conheço mal, a fim de almoçar com amigos do meu sogro, que, vistas bem as coisas, também são meus amigos. E se há valor que eu preze, sobre quase todos os outros, esse é indiscutivelmente a amizade. No Cartaxo, faremos honra ao vinho local com uma saúde para todos os presentes e ausentes, que nossos familiares ou amigos sejam. Até ao Cartaxo, pois, e de carro, que os tempos já não são os de Garrett, que me ensinou a fazer estes excursos nas suas célebres “Viagens”.


E para o Cartaxo, pois, longe deste quotidiano acinzentado, em que os auto-intitulados partidos do arco da governação nos omitem toda a extensão da desgraça que aí vem. Discutem todos as tricas deles, mais ou menos artificiais, ou seja, as “pentelhices, para usar a linguagem colorida do catedrático a tempo 0%. Que parte das responsabilidades são de Sócrates não tenho quaisquer dúvidas; porém, também são de quem lhe prolongou a governação e esta obstruiu, não aceitando a vontade do povo, expressa livremente em 2009.


Um bom dia, Carlos Godinho! Um bom dia Teresa Guerreiro!

sexta-feira, maio 27, 2011

QUADRAS

Tenho uma quadra singela
Pra te dizer ao ouvido.
Quando ta disser não digas
Que sou rapaz atrevido.

De hoje não pode passar,
Se não passa a validade.
Quero-te dizer, amor,
Que te amo de verdade!

Este amor é tão sincero,
Tão sincero e delicado,
Que já não posso, meu bem,
Tê-lo no peito guardado!

A noitinha à janela,
Vai ser grande a emoção,
Quando de forma singela,
Te falar ao coração.

(inéditas)
QUADRAS

Neste Portugal Belmiro,
Vive um povo acomodado,
Que acha bom e muito giro
Ter NET e supermercado.

Meu Portugal azevedo,
Hipócrita e arranjista,
Quando é que perdes o medo?
Reage! Levanta a crista!

Podes fingir alegria
Agarrado ao té-lé-lé.
Que grande hipocrisia!,
Confessa, é ou não é?
......................................
.....................................
in QUADRAS QUASE POPULARES, Ulmeiro, 2003.

quinta-feira, maio 26, 2011

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 26 de Maio de 2011 – Na sua imensa sabedoria, diz o povo, e a meu ver com razão, que o sabe tudo ainda não nasceu. É evidente que a sabedoria popular vale o que vale; mas, de qualquer modo, deve ser valorizada. Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje é um daqueles ditados que podemos e devemos levar a sério.


Eu que pensava que sabia tudo, ou quase tudo, em relação ao falar da Mata, de onde saí definitivamente há mais quatro décadas, aprendi no sábado passado, em amena cavaqueira com o Manuel de Sousa, que de um vinho se pode falar sem aqueles lugares comuns dos enólogos e de uma forma muito mais divertida.


Estávamos a beber um tinto e a ver a vinha onde as uvas crescem e amadurecem, quando o Manel qualificou o vinho de marrão. Percebe-se intuitivamente que se está a falar de um vinho muito graduado, que, bebendo-se sem precauções, se pode tornar implicativo. E continuando a dissertação sobre vinhos, ainda me falou dos vinhos cantantes e dançantes. É evidente que as últimas qualificações já têm a ver com o comportamento de cada qual relativamente à ingestão dos crudes.


De qualquer modo, talvez naquelas garrafas de vinho de 14º, ou mais, se pudesse escrever no rótulo: vinho marrão. Fica à consideração dos enólogos.

terça-feira, maio 24, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 24 de Maio de 2011 – Correia de Campos, o mais neo-liberal dos ex-(des)governantes do PS, tornou-se agora num pedinchão vulgar. Foi posto a andar por tratar mal da saúde dos portugueses e agora volta para pedir os votos de uma parte dos portugueses mais humildes. Bem merecia que lhe fizessem um “mega”, seja lá isto o que for, um toma ou mesmo um ostensivo Raphael Bordalo Pinheiro.


É evidente que nestas coisas – para mim é mesmo assim – não é a pessoa que está em questão, que, apesar da calvície, o senhor tem um aspecto limpo e parece muito compenetrado do seu papel. Ora o meu ponto é mesmo a política e a política de pôr portugueses a nascer em Badajoz, não cabe na cabeça de ninguém a não ser na de um neo-liberal, a quem pouco interessam os sentimentos. Eu dou um exemplo: a minha senhora nasceu em Lisboa, na Rua da Palma; porém, o senhor meu sogro resolveu registá-la em Alhandra, onde moravam, naquele ano de sessenta e dois.


Eu gosto de Alhandra e do Soeiro e do Batista Pereira e doutros alhandrenses ilustres. Até das figuras de ficção dos Esteiros, Gaitinhas e Gineto, mas ninguém há-de convencer a minha senhora de que é natural de Alhandra. Enquanto ela for viva, nunca! Ora Correia de Campos é o senhor que pôs portugueses a nascer propositadamente em Badajoz. E um homem que faz uma coisa destas, não pode apelar ao voto de portugueses humildes. Essa coisa de nascer fora tem a ver com reis e rainhas e nunca com o povo mais genuíno.


Correia de Campos, que tem um aspecto limpo e até fala sem pontapés na sintaxe do português, tratou mal da saúde dos portugueses, que é o bem mais precioso que os cidadãos têm. E estes, seguramente, far-lhe-ão orelhas moucas.

segunda-feira, maio 23, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia,23 de Maio de 2011 – Dentro de quinze dias, já saberemos quem nos vai (des)governar nos próximos tempos. Tendo em conta a natureza do actual PS, é-me indiferente que seja o Zé da Amélia ou o Toino da Joaquina. E no entanto, dia 5 lá irei votar, como sempre, desde 25 de Abril de 1975. E escolherei os do costume, ou seja, aqueles que não traem, aqueles que respeitam o meu voto.
Sinto-me desencantado com este regime, ou melhor dizendo, com os sucessivos governos constitucionais que tudo têm feito para fazer esquecer Abril e as suas conquistas. Em nome de economia, dos mercados e do deus-cifrão, têm sido muito esforçados, os nossos queridos governantes, numa luta sempre inacabada contra os direitos conquistados a seguir àquela redentora madrugada de Abril de 1974.
Há um grande paradoxo na sociedade portuguesa: aumenta o número dos pobres e os nossos ricos tornam-se ainda cada vez mais ricos, incólumes a todas as crises. A começar pelos merceeiros e a acabar nos donos dos combustíveis e das energias. Portugal, que eu sempre sonhei mais fraterno e solidário, precisa de um vendaval que o reponha nos caminhos de Abril.
Olá se precisa!...

domingo, maio 22, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 22 de Maio de 2011 – Pela segunda vez, participei no almoço dos antigos alunos da E.I.C. de Castelo Branco, lá, nos arredores da cidade. Saí de casa às 8H00 e cheguei à minha aldeia natal, pouco depois das dez. Com tempo suficiente para visitar minha mãe, que, com as maleitas próprias da idade, ainda vive, por vontade própria, na sua casa, na Mata.
Uma ida à Tapada, uma pequena propriedade que possuímos a quatro cinco minutos da localidade, que o carro não pode andar depressa nos caminhos rurais. Tudo cheio de ervas, que, apesar de querermos lavrar, não há quem queira fazer o trabalho em tempo útil. Ou porque os tractores não podem, ou porque avariam, ou, ainda, porque é preciso esperar que os terrenos permitam a lavoura.
Quando meu pai tratava das suas terras e das suas árvores, aquela fazenda era uma espécie de terra santa, no dizer de minha mãe. Tudo produzia para haver fartura de fruta, legumes e outros produtos da terra, em nossa casa. É certo que nada falta a minha mãe, mas tudo mudou radicalmente na sua vida com a ida de meu pai e as suas terríveis artroses.
O almoço foi na Quinta das Onelas, no Retaxo. Oportunidade para rever antigos condiscípulos, não tantos como seria espectável, mas mesmo assim em número suficiente para conversar abundantemente. Para além de pessoas da Mata, também reencontrei gente da cidade e das aldeias vizinhas, que forneciam os alunos que animavam, conjuntamente com os militares, a vida da cidade.
E lá estava o Carlos Barata, de máquina fotográfica pronta para registar o momento. Fomos colegas de turma e amigos. Lá estava o João Rolo e a Maria do Rosário de quem sou amigo; dele desde sempre e dela há várias décadas. Foi um dia bem passado com uma larga conversa com o Manuel de Sousa e com a Fátima. E tudo isto, porque o António Pereira se lembrou de mim. Para o ano, se tudo estiver bem, hei-de marcar presença. Porque, afinal de contas, só temos uma vida.

sábado, maio 21, 2011

MATA

Viram-te nascer e conhecem de cor os teus segredos. Foram a tua companhia, silenciosa e segura, durante centenas de anos.

Deram-te sombra, nem sempre boa, é certo, nos tórridos dias do verão; a luz possível, antes do advento da electricidade; o calor nos invernos, às vezes, tão longos e rigorosos; o tempero para a panela pobre, que tornava o feijão e a couve menos ásperos; o dinheiro para muitos dos restantes e indispensáveis bens.

E como a generosidade foi recíproca, também é justo que não olvidemos o muito e aturado trabalho e até servidão que foram exigindo a sucessivas gerações.

De qualquer modo, moldaram-te o carácter. Com elas aprendeste a mansidão e a austeridade. Por isso mesmo, nunca foste dada a sobressaltos e a paixões. Em toda a minha vida, apenas ouvi falar de um crime passional, perpetrado por um homem, a quem o amor de uma mulher não quis servir. Foi muito antes de eu ter nascido e já passei há muito pelos cinquenta.

Benditas sejam para sempre as nossas oliveiras!

quinta-feira, maio 19, 2011

INTIMIDADES



DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 19 de Maio de 2011 - Tenho grande estima pessoal por Jerónimo de Sousa, que conheço há trinta e tal anos e de quem sou quase vizinho. Jerónimo de Sousa, que encontro nos mais variados locais e com quem troco, quando calha, meia dúzia de palavras, é um genuíno filho do povo, cujo sentir mais profundo interpreta na perfeição. Muito jovens ainda pertencemos aos corpos sociais de uma colectividade de Santa Iria de Azóia – a 1º de Agosto Santiriense - apanhávamos o mesmo comboio, todas as manhãs, no apeadeiro de Santa Iria. Jerónimo já era então deputado. E era muito giro irmos de comboio, num compartimento sem bancos, que, creio, era destinado aos revisores.


Sigo a par e passo a actividade do secretário-geral do PCP; nomeadamente, aquilo que as televisões mostram e que eu consigo ver. É um homem sério, batalhador e generoso, que tem sabido granjear o respeito de muitos dos seus adversários políticos. De grande estatura moral e humana, Jerónimo desempenha o seu papel o melhor que sabe e pode, defendendo os interesses dos comunistas portugueses.


É certo que Jerónimo tem as suas limitações nomeadamente no plano discursivo, mas nem por isso deixa de se bater com galhardia com economistas, engenheiros e licenciados em direito para desespero de comentadores e profissionais da comunicação, que, amiúdo, lembram o chinquilho, os bailes populares, o carinho pelas colectividades de cultura e recreio, o prazer de um copo ou de uma boa comezaina. E agora há até quem lhe chame “habilidoso”, “ignorante”, “intuitivo” e outros mimos. Saídos das universidades, onde se formaram os sábios que conduziram o país à bancarrota, estes idiotas pretendem apenas achincalhar o homem, esquecendo-se que achincalham simultaneamente uma parte significativa do povo português. E não são só os votantes do PCP.


Pobres idiotas!

quarta-feira, maio 18, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 18 de Maio de 2011 – Desconheço qual seja a polémica do dia, neste tempo chamado pré-eleitoral. Ontem, falou-se copiosamente do programa “Novas Oportunidades” e o senhor Passos Coelho voltou a falar para que não digam que está calado. Novo tiro no pé.


Admito perfeitamente que haja algum facilitismo no programa “Novas Oportunidades”. Nenhum programa do género há-de atingir a perfeição absoluta; porém, desta vez até estou de acordo –oh, milagre dos milagres!- com o engenhoso Sócrates. De facto há que respeitar as pessoas que se esforçaram e obtiveram equivalência a um grau da escolaridade obrigatória. Só eu sei da indescritível alegria da minha vizinha Manuela, quando me disse, com um sorriso de enorme contentamento, que tinha obtido a equivalência ao 9º ano. De dia trabalhava no seu negócio e à noite ia estudar, quando teria sido muito mais fácil ter ficado no sofá a ver telenovelas.


Eu tenho um primo por afinidade, que foi meu condiscípulo de escola primária, que também obteve o 9º ano no âmbito deste socrático programa. E não tenho quaisquer dúvidas, que o meu primo, carpinteiro de profissão, tem conhecimentos mais do que suficientes para ter aquele grau de escolaridade. Ainda antes do cumprimento do Serviço Militar Obrigatório, emigrou para França onde começou a ganhar a vida aos dezasseis ou dezassete anos. Veio cumprir o SMO – esteve em Angola até princípios de 75 -, casou e voltou a emigrar para França e a partir deste país fez estágios na Argélia, no Egipto(!) e noutros sítios. Levou consigo uma cunhada com dois ou três anos, órfã, e em França lhe nasceram os dois filhos. Regressaram a Portugal e o meu primo por afinidade tornou-se empresário da construção civil, na área da carpintaria. A cunhada licenciou-se, a filha licenciou-se e o filho licenciou-se. E o Pedro trabalhou e educou da melhor forma aqueles que tinha ao seu cuidado. Vai fazer sessenta anos e decidiu dedicar-se apenas à sua quintinha e aos seus “hobbies”. Produz um vinho para consumo pessoal, que até rotula com esmero. Sempre foi um apaixonado pela fotografia.


Chegados aqui, há uma pergunta que não pode deixar de ser feita: poderá alguém, com um mínimo de bom senso, contestar a atribuição de uma habilitação equivalente ao 9º ano a um cavalheiro com um percurso de vida assim e com tantos saberes?

terça-feira, maio 17, 2011

SACAVÉM (parte baixa)




São estas casas, onde às vezes se vivem horas de grande aflição,

mormente quando o Trancão se liberta das apertadas

margens, que conferem o carácter à cidade.





sábado, maio 14, 2011

Comício da CDU em Santa Iria de Azóia





"Portugal não é um país pobre"

"O mar é uma riqueza imensa"

"O nosso subsolo é dos mais ricos da Europa"

Jerónimo de Sousa, em Santa Iria de Azóia.

domingo, maio 08, 2011

SENHORA DO ALMORTÃO





Senhora do Almortão,
Ó minha rosa encarnada,
Trata bem o São Romão,
Nunca lhe faltes com nada!


Vejo-te sempre solteira,
Tão bonita, tão vistosa.
Não há santinha na Beira,
Como tu tão virtuosa.

(inéditas)

terça-feira, maio 03, 2011

DUAS QUADRAS
Passei pelo blogue amigo
Do poeta João Teixeira;
Não vi lá campos de trigo,
Que ali é outra a sementeira.


Palavras bem arrumadas
E tão belas como as flores;
Estas ficam perfumadas,
Aquelas de muitas cores.

inéditas

sábado, abril 30, 2011


PALAVRAS PERDIDAS


Há quanto tempo, mãe, não te falo de amor
Com aquelas palavras de encantar
Com que as crianças falam do amor?!


Há dias corei de vergonha,
Corei de vergonha quando li,
Num livro de cartas de Saint-Exupéry,
As palavras mágicas que ele escreveu a sua mãe
E que eu nunca te disse a ti.


Deixei que entre nós se interpusesse
Um pudico silêncio ancestral
E disse-te apenas coisas imediatas e triviais.


Eu esqueci, mãe, aquelas palavras claras e pueris
Que tanto alegravam o teu coração.


Eu coro de vergonha, mãe!

in FRAGMENTOS COM POESIA, ULMEIRO, LX. 2005

VIVA O 1º DE MAIO


Foi lindo o Maio primeiro,
Onde esteve toda gente.
Lado a lado o engenheiro,
O marçano e o servente.

Todos de cravo ao peito
- que comunhão de ideais! –
Estava tudo perfeito,
Quem podia pedir mais?

Que grande mar de ilusões!
Portugal nunca podia,
Havendo tantos cabrões,
Mudar da noite prò dia.

segunda-feira, abril 25, 2011

25 DE ABRIL SEMPRE!

Santa Iria de Azóia, 24 de Abril de 2011 – O 24 de Abril, há trinta e sete anos, caiu numa quarta-feira. Cumpria serviço militar no RC-6, na minha cidade mais querida, Castelo Branco. Saí do quartel e fui com o João Rolo, como eu matense e funcionário das finanças, jantar à Mata, com os meus pais.
Regressámos a Castelo Branco por volta da meia-noite e nada vimos de estranho, durante a curta viagem. Na então casa dos cantoneiros decorria uma acção da GNR, absolutamente normal, que não prenunciava nada do que iria acontecer durante a noite nos centros nevrálgicos do país. Entrei no quartel por volta da meia-noite e meia, deitei-me e dormi tranquilamente até às quatro e meia da madrugada.


Foi àquela hora que fui abruptamente acordado pelo Luís Geraldes, do Ladoeiro, que nos anunciou o golpe de Estado que estava a decorrer e que durante o dia 25 se havia de tornar no começo de uma Revolução. Levantei-me, fui para a sala dos cabos milicianos e ali fiquei com outros camaradas, de ouvido atento às notícias e à música que iam sendo difundidas.


Não era ainda a hora para grandes manifestações de júbilo, ainda que o meu coração me dissesse que tinha chegado ao fim o regime que oprimira os portugueses e Portugal durante quase cinquenta anos. Depois foram horas e mais horas de incerteza, porque naquele quartel ninguém sabia o que se passava exactamente em Lisboa.


O fim da tarde e a noite trouxeram a certeza que, desde a madrugada, se instalara definitivamente no meu coração. O fascismo chegara ao fim. A liberdade triunfava, finalmente, em Portugal.

domingo, abril 24, 2011

DO MEU DIÁRIO



Santa Iria de Azóia, 23 de Abril de 2011 - Eu sabia lá que se comemorava hoje, sábado de Aleluia, o dia mundial do livro! A mim interessam-me os livros e não o dia que se convenciona como seu dia mundial. Porém, como a Filipa me falou do assunto, corri às estantes e peguei em livros meus e de amigos meus, coloquei-os no chão da minha biblioteca e tirei-lhes uma fotografia para publicar no Música Maestro, que é o sítio onde desabafo e deixo as minhas frágeis marcas sobre o tempo que passa.


Livros no chão, constatei então que tinha uns quantos de poesia e apenas dois de prosa: Mar de Pão de João Teixeira e Terminação do Anjo de Daniel Abrunheiro. Dois livros muito belos, em prosa de grande qualidade, da autoria de dois poetas de muito alto valor. Bem sei que os amigos tendem a exagerar, às vezes; porém, neste caso concreto, João Teixeira e Daniel Abrunheiro são, de facto, dois talentosos criadores.


De Daniel, que é um dos mais interessantes e promissores criadores da sua geração; porventura aquele que mais marcas há-de deixar na língua portuguesa, porque a sua imaginação, em bom rigor, não tem limites. Conheço-lhe a produção torrencial que publica no Canil, que é o blogue que lhe serve de veículo de divulgação. Não tenho de Daniel qualquer livro de poesia, em papel. E é um escândalo, um inenarrável escândalo, que a poesia de Daniel não encontre um editor interessado e competente, como já escrevi há tempos. Talvez por isso, a sua poesia seja perpassada por algum azedume e muitas mágoas.


João Teixeira publica desde os 19 anos. Publicou, em 1972, RO(S)TOS DO MEU PAÍS, título que sugere de imediato o tipo de autor que é o João. A sua evolução de 1972 até à actualidade foi muito grande. Não é impunemente que está prestes a comemorar quarenta anos de poesia. Disse poesia e não carreira literária, porque João Teixeira, produziu o que produziu, mas não tem – e nunca terá desejado ter -, uma carreira. É um poeta sério – e a sério-, que utiliza a ironia e o humor como forma de expressão artística. E o modo como pega em coisas concretas e sobre elas constrói admiráveis poemas, fazem dele um poeta cativante e não raramente tocante.


Este texto, sem quaisquer pretensões, é apenas, e só, o meu modo de dizer quanto estimo e admiro estes dois criadores. Estes dois homens que, embora separados pela idade e pela geografia, têm bastantes traços comuns. Entre os quais avulta o de serem meus amigos.

sábado, abril 23, 2011

NO DIA MUNDIAL DO LIVRO

Livros meus e de amigos meus

DO MEU DIÁRIO

MATA- BAIRRO DE CIMA, visto da variante

Santa Iria de Azóia, 23 de Abril de 2011 – Ontem, antes das dez, estava a chegar a Castelo Branco, que considero a minha cidade natal. Um café breve com o poeta João Teixeira, a quem tinham arrancado três dentes no dia anterior e que estava ainda muito queixoso. Mesmo assim, ainda nos divertimos com os incómodos da extracção de dentes e raízes ao João. Rumei até à Mata, onde fui buscar a senhora minha mãe para passar a Páscoa connosco, aqui, na simpática vila de Santa Iria de Azóia, “que ao 25 de Abril /deu o braço e o pulmão”.




Mas ainda tive tempo - apesar do mau tempo -, para tirar umas fotografias àquela esplendorosa paisagem beirã, que tão responsável é pelo nosso carácter. Carvalhos, sobreiros, rosmaninho, giestas, estevas, oliveiras e muitos arbustos e ervas, que, floridos nesta época do ano, conferem à paisagem um cromatismo deslumbrante.




Almoço em Castelo Branco, que conheço cada vez menos, gastronomicamente falando, claro. Um bacalhau-à-Brás, que na sexta-feira santa não se pode comer carne, foi o eleito. Ainda mais umas fotografias junto à Quinta das Pedras para registar fotograficamente o Largo da Estação, a antiga Metalúrgica e aquelas cegonhas cuscas que vivem ali como peixe na água.




E depois ala, que se faz tarde, até Santa Iria de Azóia.


DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 21 de Abril de 2011 – Agora deu-me para voltar a ler alguns volumes da Conta-Corrente de Vergílio Ferreira, onde o homem discorreu acerca de muitas coisas e nomeadamente da sua excelsa pessoa. Leio Ferreira, porque a sua escrita diarista me interessa. É alguém com quem se aprende. Até a dizer mal.

É consabido que Torga foi várias vezes candidato ao Nobel da Literatura. Ferreira regista o facto – é já a terceira vez – e remata desta forma lapidar: Torga é de novo candidato ao Nobel e era bom que ganhasse, porque o país está necessitado de divisas.


Bem sei que Torga não foi um grande, grande escritor; no entanto, outros foram contemplados e não escreveram nada comparável ao melhor Torga. Torga que também se fazia passar por um solitário, sem ligações e grandes amizades, mas que foi ganhando paulatinamente tudo o que cá havia para ganhar.

E Ferreira também. Sempre cheio de azia, sempre a mordiscar em certas figuras (Óscar Lopes, Óscar Monteiro Torres e até em E. de Andrade), também foi ganhando prémios e muitos admiradores. E os prémios até foram bem atribuídos, porque Ferreira romancista é de facto grande.

sábado, abril 16, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 16 de Abril de 2011 - Há pessoas que têm um medo enorme do “facebook” e das restantes cadeias sociais na web. Creio que todos os receios são mais ou menos infundados, se não viermos despir-nos em público. Eu sei bem que uma palavra escrita no “fecebook” vai ter vida mais ou menos eterna, porque este armazém é mais ou menos do tamanho do universo; porém, se na vida não aspiro a grandes coisas, por que razão hei-de ter receios?

Esta manhã, ouvi o programa “arestasdevento” na Rádio Azul de Setúbal (98.9). Um programa desempoeirado, levado a cabo por Ricardo Cardoso, Céu Campos e pelos seus convidados. Tudo muito espontâneo e informal. Falou-se de política, do 25 de Abril, de poesia e de poetas. E de música. E de Zeca Afonso. Fez-se jus ao mês que vai decorrendo com tantos e tão graves sobressaltos.

Ontem, ou anteontem, tanto faz, Ricardo Cardoso publicou um texto da Lusa no seu mural do “facebook”, através do qual ficamos a saber que o major Otelo, se soubesse no que isto havia de descambar, nunca teria feito o 25 de Abril. O nosso Otelo, eu prefiro o de Shakespeare, ainda vive convencido que sem ele não teria havido 25 de Abril. Pobre homem. Foi sempre um mar de egocentrismo e fantasias. Por isso lhe fizeram o ninho atrás da orelha (perdoem-me lá o cliché).

E por aqui me quedo.

quarta-feira, abril 13, 2011

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 12 de Abril de 2011 – Eu não conheço o meio literário português – e, provavelmente não teria que conhecer -, pois nunca senti grande curiosidade em relação à “coisa”. Até deixei há anos de adquirir e ler com regularidade o JL, que, não sendo nada do outro mundo, sempre é o melhor que temos do género. Portanto, não me sinto habilitado a dizer mal ou bem, apesar dos sinais que vou mentalmente compilando, colhidos aqui e ali.

Tenho algumas ideias acerca da denominada Teoria da Literatura, incluindo a célebre Teoria da Recepção, e também alguns saberes filológicos, mas nada que me habilite a dizer mais do que “gosto” ou “não gosto”. E pertenço àquele conjunto de indivíduos que sempre olhei para os estudos literários como uma coisa séria, naturalmente, mas sem qualquer carácter científico.

Eu não sei bem o porquê deste texto. Às vezes acontecem-nos coisas mais ou menos inesperadas e creio que este texto se inscreve no imenso rol das coisas inesperadas. Mas se calhar era só para dizer que, de António Lobo Antunes – ALA para fãs e amigos -, só fixei o nome de uma personagem, um tal Dr. Francisco; e, provavelmente, porque tinha a ver com a História do regime do contabilista do Vimieiro. É que eu seu um tipo fora de moda, que ainda gosta dos autores que nos deixam personagens. Pois, assim como Baltazar e Blimunda.

terça-feira, abril 12, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 12 de Abril de 2011 – Nunca fui um homem com grandes certezas, ainda que, desde a minha juventude, me tenha posicionado à esquerda e na esquerda continue. É que para mim é um imperativo moral ser de esquerda, porque só esta olha para os mais desprotegidos com olhos muito combativos e nada caridosos.

Tenho a certeza que pouca gente lê este meu Diário, porque quer no meu blogue, quer na ligação que estabeleço entre este e uma rede social, pouca gente se pronuncia. Às vezes é o total silêncio, apesar de ter consciência que me exprimo num português quase imaculado. No entanto, vou perseverando, porque a teimosia está inscrita no meu código genético. Passe o lugar- comum, quem sai aos seus não degenera.

Hoje é um dia muito especial. Temos de novo entre portas o bondoso FMI, que chegou para nos resgatar. É um pouco como as tropas francesas em África. De quando em vez, lá vão repor a democracia, trocando um ditador por outro. Aqui é uma organização agiota, que ajudámos a fundar, que vem substituir-se aos outros agiotas todos, porque a agiotagem já estava a passar das marcas e há que jogar o jogo com algumas regras. Portugal abre as portas. Faça favor de se sentir em casa.

Contumaz como sempre, eu acredito piamente que a coisa vai melhorar. Terá mesmo que melhorar. Para os do costume, obviamente.

quarta-feira, abril 06, 2011

TERRAS DO MUNDO

DEPÓSITO DA ÁGUA (Santa Iria de Azóia)

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 6 de Abril de 2011 – Fossem os portugueses tão irresponsáveis como alguns dos seus políticos e Portugal estaria já na bancar- rota. Perante o aumento quotidiano dos juros da venda de dívida pública, que chegam a atingir valores nunca vistos; as notícias em catadupa a anunciar a iminência do colapso das instituições financeiras da república; as notações das mui caridosas e rigorosas agências ditas de “rating”, que parecem mandar na economia, na finança e na política; os portugueses comportam-se com uma fleuma que até a velha Albion desconhece.

E o que seria espectável? Que cada português fosse ao(s) seu(s) bancos e tentasse levantar o seu dinheiro, a fim de o pôr a salvo, como, decerto, já o terão feito insignes figuras desta república. No entanto, os portugueses têm demonstrado uma maturidade saudável e patriótica, que contraste com a dos trastes que mais falam de Portugal e da sua salvação.

O povo, está mais do que provado, é o último reduto de uma pátria. É a trincheira que há-de resistir e vencer os agiotas e os seus serviçais.

terça-feira, abril 05, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 5 de Abril de 2011 – O Sr. Jorge Jesus, ficámo-lo a saber domingo, não é electricista. Também não é, e deveria sê-lo, um falante razoável da língua portuguesa. O Sr. Jorge Jesus, provavelmente, não é um bom treinador de futebol.

É certo que o ano passado conquistou para o Benfica o título de campeão nacional; no entanto, por soberba e incompetência, não foi capaz de lidar com a responsabilidade de ter sido campeão. Preparou mal a pré-época e sofreu inusitadas derrotas logo no início do campeonato. Objectivamente, o Sr. Jorge Jesus foi uma menos valia, numa equipa recheada de excelentes praticantes.

Em tempos, desculpou-se com a presença de jogadores do Benfica no campeonato do mundo, como se o rival do norte não tivesse também diversos internacionais. No domingo, pateta, até trouxe à colação, para justificar uma derrota humilhante, o facto de Nuno Gomes se ter lesionado. Nuno Gomes, a quem o Sr. Jorge Jesus foi negando, ao longo do campeonato, jogos e presenças entre os convocados.

Bem sei que o Benfica tem má imprensa e nomeadamente má televisão; bem sei que houve jogos em que o Benfica foi imensamente prejudicado; mas, com o plantel que tem e as aspirações que tinha, o Benfica jamais poderia estar a dezasseis pontos (16!) da concorrência. Alguma coisa não bate certo ali para as bandas da Luz.

segunda-feira, abril 04, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 4 de Abril de 2011 – A situação económico-financeira de Portugal é dramática. Talvez hoje muito mais do que ontem, mas que importa tudo isso aos rapazes que são governo e àqueles outros rapazes que se preparam para o ser, se as suas vidas estão orientadinhas e os seus patrimónios lhes garantem um futuro sem grandes preocupações?

Preocupações, e grandes tenho-as eu, que qualquer dia sou um sexagenário e ainda não tenho estatuto nem conta bancária farfalhuda, cá ou algures, que me permita encarar o futuro com risonho optimismo. Concedo que fui sempre um rapaz bisonho, ou seja, sem destreza e sem arte para grandes competições, apesar de ter entrada para a função pública mediante concurso público e ter sido o terceiro, com a mesma nota do segundo, com um pavilhão da antiga FIL cheia de candidatos. Ah, se tivesse sido nomeado, outro galo cantaria!...

As minhas doentias preocupações radicam neste mal-estar quotidiano que os agiotas produzem e as televisões multiplicam e ainda, e sobretudo, no facto de ninguém parecer disposto a dizer: chega! O José, que preside ao ministério e que porventura ainda acalenta esperanças de voltar a presidir, não está na disposição de querer entregar o ouro ao bandido; e o Pedro, digo o, porque me entra pela casa dentro várias vezes ao dia, mandou abaixo o governo do José e não tinha, e continua a não ter, nada para nos oferecer em troca, para além de promessas vagas de que quer fazer melhor.

É certo que eu já estou mais do que farto de José; porém, também já estou farto de Pedro, porque ambos contribuem para este clima deletério em que Portugal e os portugueses definham. O que é que será preciso fazer para correr com José e Pedro e ousar algo de novo para Portugal? E para que serve aquele senhor que diz que é mais correcto dizer éfffffffffffffffffff, éééééééééé´, éfffffffffffffff, éééééééééé´ e não FMI?

sábado, abril 02, 2011

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 29 de Março de 2011 – Este é o mês de Março de todas as incertezas. Virá o FMI, não virá o FMI?; pede-se ajuda ao BCE, não se pede ajuda ao BCE?; Portugal vai aguentar-se, Portugal vai claudicar?; etc. Já hoje ouvi dizer que os ricos perderão sempre mais do que aqueles que nada têm. É claro que aqueles que têm muito, ainda que muito possam perder, alguma coisa lhes há-de sobrar; porém, quem nada tem, nem lamentar se pode de ter perdido. Mas parece que o argumento para comer e calar é assaz falacioso, porque há sempre aqueles que vão pescando, e muito, mesmo quando as águas estão mais turvas. De resto, eu penso que eles são pescadores de águas turvas. Eu tenho para comigo, e parece que não estou sozinho, que o mal maior de Portugal é o das desigualdades. Não fosse Portugal um país tão desigual e talvez conseguíssemos, sem estranhos a meter o bedelho, resolver os nossos problemas. O mal de Portugal é ter excelentes pescadores, poucos, que, por sinal, contam com grandes ajudas entre aqueles que vão decidindo o nosso destino colectivo e se apropriam de todo o pescado. O mal de Portugal, aqui para nós, é a meia dúzia de vampiros que come tudo, como reza a canção, e não deixa nada.

quinta-feira, março 24, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 24 de Março de 2011 – Com toda a oposição - mesmo aquela que só o é, porque quer rapar no “pote”-, a votar contra o PEC4, Sócrates foi ontem, objectivamente despedido. No entanto, suponho que é assim que manda a CRP, ficará ao leme da (des)governação até à tomada de posse de um novo (des)governo.

Eu não gosto de Sócrates - nem deste PS -, que, em nome não sei bem de quê, sempre defendeu os poderosos e maltratou os humildes. Sócrates, tal como Fernão Lopes disse de João I, o Mestre de Avis, é um cordeiro perante os mais fortes e um leão perante os mais fracos. Sócrates não deixa saudades a ninguém, a não ser aos rapazes que promoveu e protegeu. A sua governação, jamais merecerá um “requiem”.

Desiludam-se, no entanto, os que esperam que tudo vai mudar para melhor. Silva Pereira avisou ontem no parlamento que quem pensa que já viu tudo há-de ter grandes surpresas futuras. Pedro Silva Pereira sabe certamente do que fala. E se disse o que disse, não é preciso ir a Delfos para ler o futuro próximo deste velho reino.

quarta-feira, março 16, 2011

DO MEU DIÁRIO

Forte da Casa, 16 de Março de 2011 – Faz hoje trinta e sete anos que uma coluna militar saiu das Caldas da Rainha, em direcção a Lisboa, para pôr fim ao regime instaurado com o golpe militar de 28 de Maio de 1926. Comandava a dita coluna militar um tal Vírgílio Canísio da Luz Varela, capitão, que conheci muito bem no Regimento de Infantaria 5.
O capitão Varela era um militar temível. Fui seu subordinado nos últimos meses de 1973 e jamais me passaria pela cabeça que esta militar da velha guarda pudesse comandar uma coluna para derrubar o regime instaurado pelos patuscos que vieram de Braga, montados em cavalos, e entregaram depois o poder a Carmona e a Oliveira Salazar. Foi com surpresa, portanto, que segui os acontecimentos a partir de Tavira.
Eu até achava piada ao tenente Varela, que era um militar da tradicional, seja qual for o significado que se queira atribuir a tradicional. Só eu sei, e também o Carlos Dantas, antigo jogador e treinador de hóquei em patins, Xana (Carlos Carvalho), talvez o melhor jogador de hóquei de todos os tempos e campeão do mundo da modalidade, nesse Verão de 1974, Pedro Cancela de Abreu, João Luís Souto Mayor, o radialista Viegas e o mestre pintor Luís Calheiros, nomeadamente, e outros, como tudo isto parecia surreal. Virgílio Varela a comandar uma coluna que queria derrubar o regime.
Na verdade, foi Virgílio Canísio da Luz Varela, e não outro oficial, que comandou a coluna militar que, saída das Caldas da Rainha, queria tomar o poder em Lisboa. Quem diria!

terça-feira, março 08, 2011

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 8 de Março de 2011 – Hoje é dia de Carnaval, mas já não tenho idade nem disposição para me dar ao divertimento carnavalesco. Assim sendo, sinto-me impelido a escrever sobre coisas sérias, se é que alguma coisa é séria neste nosso reino da Dinamarca.
Um texto do jornalista Ferreira Fernandes interpelou-me, há momentos, com alguma violência. Em Junho próximo terei cinquenta e nove anos, contada a tropa terei cerca de trinta e oito anos e meio de trabalho e descontos efectivos. Com penalização, decidi deixar a função pública.
Não atingi o topo da carreira, porque alteraram as regras recentemente, quando já não sinto grande disponibilidade mental para me atirar aos livros como um doido. Há três ou quatro anos atrás bastar-me-ia escolher um tema da vasta e complexa área do meu sector da Administração Pública e preparar uma dissertação, que, posteriormente, haveria de defender perante um júri pretensamente idóneo. Alteraram as regras e a crise mandou que os concursos sejam adiados. Adiados prefiro a suspensos. O léxico permite-me e eu escolho. Aprendi isto com Benveniste.
Durante os últimos trinta e oito anos e meio fui funcionário – nunca quis ser técnico superior -, fui estudante, fui professor (em horário pós-laboral e com autorização de Miguel Cadilhe), fui director de uma colectividade de cultura e recreio, fui membro do primeiro, e creio que último, conselho Municipal de Loures, fui escriba de textos e de livros (estes seguramente maus), etc. Pensava eu, do fundo da minha ingenuidade, que tinha chegado a hora de sair, penalizado, sem quaisquer remorsos, com mil e tal euros. Muito menos de dois mil, seguramente.
Ontem à noite, tirei-me das minhas tamanquinhas (ou tamanquinhos?) e consultei a lista dos aposentados de Fevereiro e lá vi as aposentações milionárias de militares, fartos de não guerrearem, felizmente, de juízes, notários e outros altos funcionários. Basta consultar o sítio da CGA e ver. Mas também aposentações miseráveis de outros portugueses que serviram o Estado e provavelmente do Estado nunca se serviram. Adiante que se faz tarde.
Ferreira Fernandes tem razão em tudo o que diz. É pena que só o diga agora desta forma tão veemente. E se tenha esquecido de ser mais incisivo em relação a colegas seus de profissão. Refiro-me aos grandes da comunicação social - o peixe graúdo das televisões -, que ganham somas verdadeiramente obscenas. E de, na sua catilinária, se ter esquecido dos Lopes, dos Campos, dos Cunha, dos Mira, dos Medina, dos Alberto, etc., que todos os dias prescrevem a ração dos outros, mas que se agasalham, escudados em leis iníquas, com muitos milhares de euros todos os meses.
É preciso ser mais contundente ainda e chamar aos bois pelos nomes. Era preciso também, que Ferreira Fernandes falasse da reestruturação das empresas, que o fizeram, muitas vezes, à custa da segurança social, contribuindo para este estado fétido a que chegámos. Era preciso, por exemplo, que o DN, todo, assumisse uma posição idêntica. Era, mas não é.
Ferreira Fernandes é um Baptista a clamar no deserto.

segunda-feira, março 07, 2011

FELIZ É O DIA
(Homenagem a Al-Mu´tamid)

Feliz é o dia, ó rosa,
Em que sinto o suave aroma
Das tuas pétalas brancas.

Feliz é o dia, ó rosa,
Em que os meus olhos descansam
Nas tuas pétalas brancas.

Feliz é o dia, ó rosa!,
Em que toco ternamente
As tuas pétalas brancas.

Feliz é o dia, ó rosa!

in FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx. 2005.

domingo, março 06, 2011

DO MEU DIÁRIO

A entrada da Mata (C. Branco)
Santa Iria de Azóia, 6 de Março de 2011 - Mikhail Bakhtin viria muito mais tarde, quando já deixara de brincar ao Carnaval. Com ele aprendi, no entanto, sob o ponto de vista teórico, o pouco que sei sobre esta festa anual.
Bakhtin ensina-nos que o Carnaval era, na idade média, o tempo em que a pirâmide social era invertida e os súbditos podiam criticar livremente o suserano e até o próprio rei. Portanto, antes de mais, o Carnaval foi, e ainda é, um tempo de grandes liberdades, de muita licenciosidade. É aqui que radica o ditado popular “é Carnaval, ninguém leva a mal”.
Na minha infância e adolescência – e ainda nos primeiros anos da juventude- adorava imenso o Carnaval e participava activamente na grande festa de Praça Pública. Com outros rapazes e raparigas, participei em representações, os entrudos, através dos quais se criticavam aspectos da vida da comunidade. Era o entrudo chocalheiro de que falam as canções.
Na Mata, o dia de Entrudo começava com os rapazes a “fuscar” as raparigas, invadindo-se casas e a privacidade doméstica. Os rapazes solteiros procuravam as raparigas solteiras e faziam-lhes uma cruz na testa com pomada dos sapatos ou massa de lubrificação dos eixos e das rodas das carroças e mãos-cheias de farinha na cara. Havia sempre as raparigas que tentavam escapar à “fuscadela”, mas por vezes a coisa fazia-se já mais tarde durante o bailarico. Era dia de grandes correrias e de grande alarido.
Houve um Carnaval que nunca mais esqueci. O Carnaval que se seguiu à perda da Índia. O Dr. Salazar, intérprete único do sentir da pátria, decretou Portugal de luto e impediu os festejos. Mais recentemente, recordo-me bem daquele Carnaval que o Dr. Cavaco também tentou retirar aos funcionários públicos, como se estes festejos se impedissem por despacho. Foi o fim do princípio do dito como 1º ministro e nunca se brincou tanto ao Carnaval.
E para terminar este assunto, espero que se divirtam.

sábado, março 05, 2011


SANTA IRIA
Em memória Silvestre Figueiredo, médico.

A vila de Santa Iria
Até parece um jardim.
Antes de Abril, quem diria
Que havia de ser assim?

No centro do casario
Há um jardim bem tratado,
Onde ao vento, à chuva e ao frio,
Resiste Ary inconformado.

É na Xico Xavier
E tem árvores frondosas.
Sempre pronto pr’ acolher
As pessoas mais idosas.

O parque de Via-Rara,
É bonito o ano inteiro.
Obra cara? Muito cara,
Mas vale todo o dinheiro.

O inda moço Parque Urbano,
Onde era a grande lixeira,
Se não sofrer nenhum dano
Vai ser ‘spaço de primeira.

As árvores já plantadas
Hão-de boa sombra dar,
Pra quem fizer caminhadas
E lá quiser descansar.

Pirescouxe é um lugar
Com um bonito castelo.
E eu com tão pouco vagar
Pra fruir o puro belo.

O verde de tantos tons
Torna o sítio amoroso.
E há os canoros sons
Que me dão sossego e gozo.

Terra de trabalho e paz
Santa Iria sabe dar
Ao idoso e ao rapaz
Espaços para repousar.

























sexta-feira, março 04, 2011

TENHO UMA QUADRA SINGELA

Tenho uma quadra singela
Pra te dizer ao ouvido.
Quando ta disser não digas
Que sou rapaz atrevido.

De hoje não pode passar,
Se não passa a validade.
Quero-te dizer, amor,
Que te amo de verdade!

Este amor é tão sincero,
Tão sincero e delicado,
Que já não posso, meu bem,
Tê-lo no peito guardado!

A noitinha à janela,
Vai ser grande a emoção,
Quando de forma singela,
te abrir o coração.

quinta-feira, março 03, 2011

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 3 de Março de 2011 – Dei-me conta, há muitos anos, que a infância se agarra a nós e não nos larga ao longo da vida. Há semanas atrás, poemas do João Teixeira fizeram-me reviver, também a mim, os odores da minha infância. Nomeadamente, o cheirinho das maçãs Bravo de Esmolfe, que a minha avó dependurava no forro de madeira da sua minúscula sala, onde as minhas tias namoravam e a restante família disputava um lugar junto à braseira, nas longas noites de Inverno.

Hoje, lembrei-me dos comediantes, que chegavam quando chegavam, várias vezes durante o ano, e partiam após a realização de dois ou três espectáculos.

A trupe mais conhecida era a do Luís Costa, grande trapezista, cujas actuações faziam bater mais e mais forte os corações. A sala de espectáculos era o largo do Rossio, onde ainda permanece o chafariz da aldeia. Ali eram montados o trapézio e a barraquinha das marionetas. O povo dispunha-se em círculo e os comediantes iam-se sucedendo, apresentando os respectivos números: ilusionismo, contorcionismo, trapezismo, cantigas em voga e o número das marionetas. Luís Costa, o trapezista, era também o homem das marionetas.

Eu gostava dos palhaços e das marionetas e também do arrojado Luís Costa, que era a primeira figura do importante cartaz, que vinha dos Toulões, no concelho de Idanha-a-Nova. E mentiria se não confessasse a minha admiração pelos jogos malabares.

Faziam-se três intervalos com a finalidade dos comediantes fazerem o peditório, com cujos tostões nunca haviam de fazer fortuna. Faziam um espectáculo medíocre; no entanto, animavam a vida da aldeia durante três dias. E é por isso, provavelmente, que ainda hoje recordo carinhosamente os comediantes. Eles foram os primeiros artistas que eu vi actuar!

quarta-feira, março 02, 2011

TERRAS DO MUNDO




SORTELHA



DESENCONTRO

Sempre desejei
Um coração
De camponesa
Para gémeo do meu.

Só assim,
Pensava eu,
Poderia sentir,
Plenamente,
O alor
E o respirar
Da terra.

Outra coisa;
Porém, ditou
O poderoso destino.
E por isso
Vivo
O desatino
Dos desencontros.

Até um dia…
Ou talvez
Para sempre!

terça-feira, março 01, 2011

DO MEU DIÁRIO

QUE COISA É ESTA?
Santa Iria de Azóia, 1 de Março de 2011 – Esta manhã, pela terceira vez, no espaço de três meses, ou talvez um pouco menos, vi-me privado do acesso ao meu “blogue”, o celebérrimo “MÚSICA MAESTRO”. Reapareceu mais tarde, com já vem sendo costume. De removido passa a reaparecido, ganhando duas qualidades distintas no mesmo dia, ainda que também estas comecem a ser recorrentes.

Eu não percebo nada destas coisas; no entanto, indivíduo de inteligência mediana, não deixo de ficar perplexo com estas mortes e ressurreições. Até aqui encarei o caso com a bonomia que David Mourão-Ferreira disse que eu tinha, num autógrafo muito bonito que escreveu no meu exemplar de Um Amor Feliz. Porém, já começo a ficar de pé atrás.

É evidente que o MUSICA MAESTRO é um espaçozinho sem interesse, que não molesta os meus vizinhos e muito menos os grandes do reino e do
planeta. Por isso acho muito estranho estas remoções, que me estão deixando à beira de um ataque de nervos e quase quase a acreditar em brux

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MANTEIGAS