sexta-feira, abril 16, 2010

ACERCA DOS LIVROS
1


De e com livros tem sido feita a minha vida:
Bons, maus, e assim-assim.
Neles, aprendi metade do pouco que sei;
Sem eles, não sei dizer o que de mim seria!

Outro homem, decerto, seria…

2



Com Fonseca, Manuel como eu,
No culto das musas me iniciei:
Ainda hoje vejo passar a tuna do Zé Jacinto
E me delicio com as alvas rolas,
Que Maria Campaniça escondia sob a blusa.

Por mil anos que um homem viva
Há metáforas que nunca morrem nem esquecem.

3


A prosa chegou com a colecção seis balas.
Só depois chegou Ferreira de Castro
E o seu casto português.
Fiz-me amigo de Manuel da Bouça e de Ricardo;
E, sobretudo, de Marreta e Horácio.

(E é chegado o momento de dizer,
Que se dane o espanhol que não quer
Referências culturais na poesia.
Que se dane pois o espanhol,
Cujo nome já esqueci).

4


Santareno
Veio ainda antes de Vicente!
Primeiro, o Édipo de Alfama;
Só depois, chegou o autor das barcas
e o pai de Antígona.

Franzino, António Martinho do Rosáro
Teve artes para ganhar a dianteira.

Em boa hora.

5


De e com livros tem sido feita a minha vida.

Manuel Barata, FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, Santa Iria, 2009




sábado, abril 10, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 10 de Abril de 2010 – Escolhido o lidere, o PSD reúne-se em congresso para tentar arrumar a casa e transmitir ao país a ideia de que é a grande alternativa à actual governação do PS. O novo Messias aí está, rodeado de apóstolos, pronta para pregar um Portugal novo, enquanto a comunicação social o quiser e os seus não decidirem pela crucificação.

Passos, que dos paços pouca experiência tem, tem boa imagem e fala sem gaguejar. Reúne todas as condições para vir a substituir Sócrates, que, sendo engenheiro, também conhecia bem o poder da retórica. E a retórica, como escreveu Roland Barthes, é efectivamente um poder. Dir-se-ia que só Cavaco, que nem sequer sabia o número de cantos da epopeia nacional, constituiu uma excepção. Sabia de economia e tinha uma imagem de austeridade, que, na época, colheu junto dos portugueses.

O grande espectáculo está montado, nomeadamente na SIC-Notícias do tio Balsemão, por onde passam Passos e os seus ajudantes, futuros isto e aquilo, comentadores, analistas e muitos jornalistas. Em bom rigor, podemos dizer que estão a ser criadas as condições subjectivas para mudar de chefe e de governo.

Eu sei de ciência exacta que o que aí vem não é bom. Não digo isto pela pessoa de Passos. Não digo isto por nenhum dos outros Passos, incluindo os da minha cor política. O que conta são as políticas protagonizadas e que os actores querem levar à prática. Do simpósio conhecido do novo senhor PPD-PSD não consta nada de novo para receitar.

E este, como agora se diz por aí, é que é o ponto.

quarta-feira, abril 07, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 5 de Abril de 2010 – E agora que se andava a falar de submarinos e de alta corrupção, desenterra-se a actividade de Agente Técnico de Engenharia de Sócrates e deixam-se afundar os referidos submarinos. De um momento para o outro, numa espécie de truque de magia à Luís de Matos, recolocam-se no centro da discussão política os projectos de engenharia assinados pelo actual primeiro-ministro, quando era deputado a tempo inteiro, ou seja, em regime de exclusividade. Um caso com barbas de vinte anos ou quase.

Eu não gosto de Sócrates e já o escrevi inúmeras vezes; no entanto, parece-me haver um exagero na perseguição ao passado do homem. E quer-me parecer que com o intuito pouco claro de deixar morrer ou marinar sem consequências situações muito mais graves e lesivas do interesse nacional.

Não gosto de Sócrates, repito. Tem feito muito mal ao país e aos portugueses. No entanto, os seus inimigos não são, certamente, as vítimas maiores das suas políticas. Os seus inimigos são aqueles que gostariam de ver os da sua cor no poleiro. Os grandes inimigos de Sócrates são os que querem alternar no exercício do poder.
Portugal não precisa de alternância no poder. Portugal precisa de políticas alternativas. E essas não virão, com certez, das fileiras da direita.

Bem ou mal, os portugueses deram a vitória ao PS e a Sócrates, nas últimas eleições legislativas. Por isso mesmo, tem toda a legitimidade democrática para governar. E talvez seja este o momento de relembrar a parábola bíblica da adúltera.

sábado, abril 03, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 3 de Abril de 2010 – Acabei de ver o programa “Plano Inclinado”, na SIC-Notícias, onde pontificam Medina Carreira, Nuno Crato, Mário Crespo e João Duque. Nada menos que três distintos professores e um insigne jornalista, que têm entre si dois traços comuns notórios: um enorme pessimismo e uma grande animosidade em relação ao actual executivo.

Durante uma hora, os intervenientes falaram de coisas importantes, nomeadamente de algumas das chagas do sistema educativo. Medina, sempre mais acutilante e recorrendo as expressões patuscas, ditou para a acta que este país não tem nada bom.

Eu não tenho quaisquer dúvidas de que nem tudo vai bem neste nosso reino da Dinamarca. Penaliza-me ver a anciã Maria Barroso, por exemplo, ser madrinha de um dos submarinos do nosso escusado endividamento; penaliza-me saber que a justiça tem dois pesos e duas medidas; penaliza-me que os governantes não tenham rasgo e não resolvam os grandes problemas nacionais.

Penaliza-me saber Portugal prisioneiro destes críticos e destes governantes, porque não é com uns e outros que venceremos a crise e nos tornaremos numa pátria mais fraterna. Portugal precisa de querer e saber ousar novas soluções governativas. Portugal precisa de políticas que apostem no renascimento do nosso aparelho produtivo.

quarta-feira, março 31, 2010

DO MEU DIÁRIO

Igreja de S. Pedro (Choupal)
Torres Vedras, 31 de Março de 2010 - Eu costumo dizer, meio a sério meio a brincar, que em Torres Vedras nada presta, a começar nas condições de sintonia das estações de rádio. É claro que se trata de uma blague, porque em Torres Vedras há coisas boas e más como em todas as localidades de Portugal

Que é uma das terras portuguesas onde tenho rapado mais frio, não tenho quaisquer dúvidas; mas não é menos verdade que é no Paul, a dois quilómetros de Torres, que tenho comido o melhor polvo à lagareiro. No Barracão, que não é propriamente uma pechincha, mas onde o serviço é bom. E o espaço agradável.

Depois há a Várzea, um jardim lindíssimo, com estruturas múltiplas, onde as crianças e os adultos podem fruir de excelentes momentos de lazer. Ainda esta tarde, depois do almoço e antes do início do segundo período de trabalho, dei duas voltas ao jardim para cumprir a prescrição médica. Exactamente, porque o meu amigo Dr. Gustavo receita-me marcha para combater a obesidade e prevenir a diabetes. E repartir os comes e bebes por muitas vezes, durante uma rotação da Terra à volta do astro rei.

Às vezes tenho preguiça e fico a fazer bicicleta no sótão, dentro das quatro paredes, mas a meia hora de marcha contínua, em espaços direitos e em movimento calmo, é prescrição eficaz e ponderada. Hoje foi em Torres Vedras; ontem foi em Santa Iria de Azóia; “tresantontem” foi no Parque das Nações; e, amanhã, não sei ainda onde será. É que o futuro, diz-se, a Deus pertence. E amanhã, que sei eu do amanhã?

Em Torres não será, certamente. Torres Vedras, essa terra onde nem as telefonias apanham bem a Antena-1.



segunda-feira, março 29, 2010

DO MEU DIÁRIO



MATA


Santa Iria de Azóia, 29 de Março de 2010 – Soube, através do jornal “Reconquista”, que foram inaugurados ontem, na Mata, diversos melhoramentos, a saber: Centro Cultural, que adoptou o nome do actual presidente da câmara, uma variante à rua principal e a estrada que fica a ligar a Mata a Idanha-a-Nova.

É indiscutível que a ligação a Idanha-a-Nova e a variante às muitas ruas que é a rua principal da Mata são melhoramentos de indiscutível interesse. A estrada tem uma largura razoável e permite a deslocação mais fácil aos habitantes de várias localidades dos concelhos de Castelo Branco e de Idanha. O Centro Cultural é uma daquelas obras que, após a sua construção têm utilidade uma ou duas vezes por ano e que ficam o resto do tempo a envelhecer. Como a população da Mata, infelizmente.

Posto isto, vamos ao verdadeiro motivo que me leva a escrever este texto. Nasci na Mata e à Mata tenho estado ligado, desde sempre. Sobre a Mata escrevi na “Reconquista”; sobre a Mata escrevi um livro; sobre a Mata escrevo no blogue MUSICA MAESTRO; da Mata uso o pseudónimo, um pouco à maneira dos trovadores medievais. Pois bem, apesar deste amor de uma vida, o Joaquim Faustino, que é meu parente e presidente da junta de freguesia, cometeu a proeza de não me ter dito absolutamente nada. Grande presidente!

Dir-se-ia que quem dá horas e mais horas de trabalho em prol da sua terra natal, leva assim um murro no estômago. O que não deixa de ser uma forma peculiar de reconhecimento. Uma forma muito peculiar e generosa de agradecimento, como é timbre de certas pessoas.

domingo, março 28, 2010

DO MEU DIÁRIO

ALQUEVA
Santa Iria de Azóia, 28 de Março de 2010 – Na última quinta-feira, fiz uma breve viagem de carro ao Alentejo, quase sempre debaixo de chuva. Apesar da chuva, e porque não me calhou a mim conduzir, sempre foi possível olhar a paisagem, que não é tão monótona como é costume dizer-se.
De Santa Iria a Moura é possível ver campos de trigo, muita vinha, muito olival e ainda campos e campos de azinheiras e sobreiros. Aqui e além um rebanho ou uma manada. Colhi a impressão, nesta viagenzinha de algumas horas, que o Alentejo também se vai renovando e que a construção da Barragem do Alqueva pode contrariar a desertificação que se vinha anunciando.
O almoço foi num restaurante humilde de Moura. A ementa era pouco variada e nas diversas mesas de um restaurante repleto não se vislumbravam quaisquer vegetais. Nem pratos de peixe. Nem fruta. É possível que tenhamos escolhido mal, mas o dia estava chuvoso e a oferta também não é grande. Mas dá para perceber os hábitos de uma região.
Na grande Lisboa, felizmente, há de tudo, a alentejana sopa de cação, os rojões de Viseu, a lampreia à moda do Minho, a posta mirandesa, a chanfana à moda de Tomar, os maranhos da Sertã. Lisboa, e os seus arredores, é o coração deste pequeno país e o resto é conversa. Ainda que me seja sempre muito grato visitar terras de Portugal e saborear as especialidades gastronómicas, nas respectivas regiões.
Registe-se, no entanto, o vincado carácter alentejano, que fazem da região e dos seus habitantes um caso à parte no todo nacional. Nomeadamente, um grande amor à terra.

quinta-feira, março 25, 2010

2 QUADRAS

Deixai lá casar quem quer
(cada qual com o seu par).
Que ninguém tenha o poder
De nos corações mandar.

Cada qual deve escolher
O seu parceiro de cama.
Se for mulher com mulher;
Afinal, onde está o drama?

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 25 de Março de 2010 – O senhor Belmiro de Azevedo, engenheiro, um dos homens mais ricos de Portugal e do mundo e opinador inveterado em relação à governação do país, tornou-se uma figura detestável, porque cospe no prato de quem lhe deu a sopa.

Que o país esteja a ser mal governado ou a ficar ingovernável ou coisa parecida, o facto fica a dever-se também ao senhor Belmiro de Azevedo, que nunca se queixou daquilo que os portugueses gastam nas lojas e nas empresas do grupo SONAE. Belmiro de Azevedo fala de barriga cheia e a sua discursata é irrelevante. O que Belmiro de Azevedo quer é que o país seja cada vez mais Belmiro.

Que não se pode fazer a cama maior que o corpo, é um daqueles truísmos que qualquer rústico percebe. Os portugueses que gastam sem poder, não raramente, são aqueles que vão às lojas Continente e Modelo e compram uma série de porcarias que lhes propõem com preços competitivos e através das mais refinadas técnicas de Marketing.
Bem prega Frei Tomás

quarta-feira, março 24, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 24 de Março de 2010Que Portugal era o país com mais casos de tuberculose e de infectados anualmente pelo HIV, no âmbito da comunidade europeia, já todos sabíamos; mas que éramos também os europeus com menos saúde mental, admito que suspeitava por mera intuição. Hoje aí está, escarrapachado num quotidiano, a funesta notícia.

Por um lado, confesso que estou agora mais descansado, porque a benevolente Europa não deixará de olhar para nós como uma mãe olharia pelo seu filho tontinho. Neste momento, até me parece uma óptima notícia, porque nos permite não levar o défice a sério, assim como o até agora famigerado PEC, que são, tenho absoluta certeza, obra daqueles portugueses que nos governam e que farão igualmente parte das estatísticas.

Eu já tinha percebido que o PEC que quer controlar apenas as despesas do Estado, mas que não se preocupa com a criação de riqueza, só podia ser obra de gente poucochinha, por uma ou outra razão. É que em boa verdade, Portugal precisa é de uma economia saudável e nessa não pensaram os autores do PEC.

Tudo nos acontece. É de mais.
CROMO

Carreira tem tanta graça,
Tanta graça tem Carreira.
Ele é, na hora que passa,
O mestre da choradeira.

domingo, março 21, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 21 de Março de 2010 – Eu não percebo, mas não percebo sinceramente, as catilinárias do primeiro-ministro contra o BE, por causa da comissão de inquérito que este partido viabilizou com o PPD-PSD, para saber, creio, se o dito primeiro-ministro sabia ou não de negócios de telecomunicações e televisões.

Sabendo como sei que televisões e empresas de telecomunicações são a mesma roupa, estou-me nas tintas para saber se Sócrates sabia ou não sabia do negócio. Interessava-me muito mais saber, nomeadamente, porque é que nas televisões não é assegurada a imparcialidade da informação; e, também, porque é que os diferentes sectores políticos não são tratados com equidade. Como não é disto que se trata, estou-me nas tintas para esta matéria.

O que me espanta nas catilinárias de Sócrates é o facto de achar que só ele, Sócrates, e o seu PS, podem fazer alianças com o PPD-PSD, como se os restantes partidos não pudessem, eventualmente, entender-se. Sócrates e o PS, que sempre tiveram uma vocação troglodita da política, temem apenas, que, doravante, haja entendimentos que possam excluí-los do centrão de interesses. O que o PS queria mesmo e Sócrates também, era que o PPD-PSD se calasse e em nome de um pretenso interesse nacional se abstivesse da acção política.

Como eu gosto de política – e. sobretudo, de política séria -, estou-me nas tintas para saber quem fala verdade. A verdade que o PPD-PSD e o BE procuram interessa-me pouco. Assim como me interessa pouco saber se Sócrates mentiu ou não. E o que não me interessa mesmo nada é a política decorrente do OE e do PEC, que o PS e os partidos de direita aprovaram ou hão-de aprovar.

sábado, março 20, 2010

O MEU TEMPO É OUTRO

I

E logo hoje,
Que eu precisava tanto de um dia azul,
Alegre e límpido,
(oh, se precisava!)
A Natureza me submerge de cinzento,
Tristeza e bruma.

Que mal te terei feito,
Pergunto-te,
Para me tratares assim,
Ó grande Mãe?!

Porque contrarias,
Tão pertinazmente
Os meus desejos simples
De azul, alegria e limpidez?

Porquê?


II

Eu aprecio imenso
As fotografias geladas
E brumosas
Dos blogues da Papu
E do Daniel Abrunheiro.

Porém,
Trago em mim a ansiedade
Das amendoeiras floridas
No fim de Fevereiro.


III

Definitivamente,
O meu tempo é outro:
Abril
Com suas águas mil
(ó grande António Machado!);
Maio
Com todas as flores;
Junho
Com os primeiros figos
E cerejas maduras.

Definitivamente,
O meu tempo é outro.



domingo, março 14, 2010

ERICEIRA

RESTAURANTE

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 14 de Março de 2010 – Na SIC – Notícias, ontem e também hoje, o PPD-PSD teve e tem o seu grande palco para se mostrar ao país. É a asfixia democrática de facto, porque nenhum outro partido beneficiaria de tão larga cobertura por parte de um dos canais Balsemão.
E no entanto, vale apenas seguir um pouco este congresso, porque têm desfilado pelo palco papagaios de grande qualidade: Lopes, Marcelo, Menezes, Mendes, e tantos outros, dos quais o país já não se lembraria. Grandes papagaios, indubitavelmente.
E todos têm aproveitado para desancar o governo de Sócrates, que tem sido também indubitavelmente um mau governo, mas não fica provado que se o PSD-PPD governasse Portugal, Portugal ganhasse muito com a sua governação. As mentiras seriam mais ou menos idênticas e as soluções para os problemas do país as mesmíssimas.
É espantoso que ninguém se tivesse lembrado dos companheiros Manuel Dias Loureiro e José Oliveira e Costa e outros que sempre deram muito da sua inteligência à república. Sem nada pedirem em troca, como hoje se sabe.
E todos têm sido convergentes no apoio do PPD-PSD à reeleição de Cavaco Silva, que tem sido um presidente de facção, ou seja, um presidente de direita, e, sob todos os aspectos, reaccionário.
Todos desancaram em Sócrates, que, indubitavelmente, merece todas as bengaladas no traseiro; porém, nenhum dos intervenientes no congresso do PPD-PSD se lembrou de Dias Loureiro, Oliveira e Costa e outros. Nem das mais valias que Cavaco realizou nas acções não cotadas em bolsa da SLN, detentora do BPN, onde o governo de Sócrates já enterrou dois ou três biliões de euros.
Mas ao PSD-PPD e ao PS basta-lhes um congresso para lavar o passado. Até quando esse passado está repleto de cenas pouco edificantes. E depois surgem, quais virgens imaculadas, para (des)governarem de novo este pobre país.

quarta-feira, março 10, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 9 de Março de 2010O PEC aí está! Traz agarradas a si, ainda não as medidas, mas as promessas das mesmas, que hão-de fazer a vida negra à maioria do povo português. Isto é de mais! Isto não pode continuar assim!

A rua tem que voltar a desempenhar o seu papel. Aqui e no resto da Europa. Até no mundo inteiro. Não se pode tolerar que os abutres se arroguem o direito de usufruir de privilégios infinitos, condenando à desgraça biliões de seres humanos.

O sábio e muito estudioso engenheiro Sócrates vem agora falar de justiça social para defender este indefensável PEC, como se cortando nos benefícios fiscais da educação e saúde promovesse uma verdadeira justiça social. As injustiças estão criadas a montante e não é por esta via que Portugal há-de ser um país menos desigual e mais solidário. Não, não é por esta via.

Os funcionários públicos, que têm nos partidos de direita um inimigo poderoso, voltam a ser as principais vítimas desta gente que tão maltrata a “res publica”. Tratassem os governantes, os actuais e os anteriores e os anteriores aos anteriores, a coisa pública de forma eficaz e com o povo mais humilde na mira e tudo seria diferente.
Passe o cliché, é tempo de mudar de paradigma sócio-económico.

terça-feira, março 09, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 8 de Março de 2010 – Anteontem, num desastre de aviação, morreu José Inácio da Costa Martins, ministro do trabalho nos governos de Vasco Gonçalves e homem de muitas causas.
Na sua qualidade de oficial da FAP, coube-lhe, na madrugada de 25 de Abril de 1974, a missão de tomar o aeroporto de Lisboa. E foi a partir do momento em que o aeroporto foi tomado, com muita astúcia, sabe-se hoje, que o MFA emitiu o seu primeiro comunicado. Desde aquela madrugada redentora, e durante alguns anos, o nome de Costa Martins tornou-se familiar de todos os portugueses.
Depois da sua passagem pelo ministério do trabalho e do célebre dia de trabalho para a nação, os seus detractores tudo fizeram para o derrubar enquanto pessoa. Através dos tribunais lutou contra a arbitrariedade, ganhando processos e mais processo, numa demonstração inequívoca de que tinha razão. O melhor cadete do seu curso, apesar das vicissitudes da sua carreira, ainda logrou atingir o posto de coronel. Outros foram generais.
Quem voa muito e alto, sujeita-se a quedas violentas. Como Ícaro!

quinta-feira, março 04, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 4 de Março de 2010 – Hoje estou a cumprir um dia de greve, que é provavelmente o último que cumprirei, na qualidade de funcionário público. E estou feliz, porque é a melhor forma de dizer aos trastes que vociferam todos os dias contra os funcionários públicos, de um modo geral por inveja, que tudo tem um limite. E queria aqui dizer, preto no branco, que o primeiro grande ataque contra os funcionários públicos foi lançado pela paladina da verdade e da transparência, drª Ferreira Leite.

Eu sei bem que o Estado é demasiado grande e que uma máquina assim não é eternamente sustentável; no entanto, quero aqui declarar solenemente que não fui eu que mandei abrir concursos ou criei situações de facto que levaram a admissões na administração pública. A culpa tem que ser atribuída aos sucessivos governos do PS, PSD, PS e PSD, PDS e CDS e também do PS e CDS, porque têm sido estes partidos que têm governado Portugal desde 1976 do pretérito século.

Admito que é necessário fazer correcções. Admito. Porém, essas correcções hão-de ser feitas de forma equilibrada e não fazer pagar a uma parte dos trabalhadores os desvarios dos governantes, ao longo de décadas. A fórmula negociada anteriormente, e que previa um regime de transição para as aposentações até 2014, parecia-me razoável, do mesmo modo que me pareceria razoável que as pensões concedidas no passado podiam ter sido calculadas de modo diferente, ou seja, tendo em conta a sustentabilidade futura. Portugal é o país do oito e do oitenta!

D. Pepe saiu à rua. E lá anda na sua vidinha, enquanto o dono, com a perda de um dia de vencimento, vai ajudar a resolver a questão do défice. Mas esta é uma questão de humanos, na qual D. Pepe, o gato mais afável que conheço, teima em intrometer-se.

terça-feira, março 02, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 3 de Março de 2010 – D. Pepe, um dos dois gatos cá da casa, que a semana passada estivera desaparecido - e mesmo dado como morto por quase todos os membros do nosso pequeno clã -, reapareceu, aparentemente cuidado e de perfeita saúde: porém, logo no dia seguinte, vomitou abundantemente e forçou-nos a três idas ao veterinário. Está restabelecido e pronto para outra; no entanto, ainda não teve alta da matriarca e ainda não lhe foi possível ir às gatas.

Nós temos muito respeito pelos nossos animais domésticos e esmeramo-nos no cumprimento dos prazos de vacinação e noutros cuidados. Não tanto a minha excelsa pessoa, que sempre há-de ter uma melhor relação com os humanos; mas como cá em casa, os gatos estão sob a responsabilidade da “mi senhor”, os bichanos têm um tratamento AMI, ou seja, um tratamento reservado a animais muito importantes.

É certo que as questões do próximo OE nos preocupam, até porque sabemos que há-de vir carregadinho de coisas más para as pessoas e por extensão também para os animais. O OE, que é aquele rol das receitas e as despesas do Estado e também o programa para tratar do arrecadamento das primeiras e cuidar do gasto das segundas. Às vezes, nada bate certo, porque se gasta muito e se recebe pouco. É que cá no rectângulo (é rectângulo que diz o patusco da Madeira?), há aqueles que se furtam a contribuir para as receitas e não se coíbem de contribuir para as despesas.

Mas ao fim e ao cabo, importante é o D. Pepe, que é bem tratado e não tem que se preocupar com as questões comezinhas do OE. E deve estar quase a poder ir às gatas.

sábado, fevereiro 27, 2010

4 QUADRAS


Na portuguesa Madeira
Rompeu-se o céu de repente.
E foi tanta, tanta a chuva,
Que desgraçou toda a gente.


Ó inclemente Natureza,
Porque castigaste assim
Aquela ilha tão formosa
Governada por Jardim?!

Ó indomável Natureza!
Não firas desta maneira,
Em ocasiões futuras,
O bom povo da Madeira!

Faz abanar o Jardim,
Malcriado e prepotente,
Que até nas horas difíceis,
Continua pesporrente.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 25 de Fevereiro de 2010 – O Pepe – um dos nossos gatos -, esteve três dias desaparecida, contribuindo para um imenso mal-estar cá em casa, onde é tratado como um pequeno príncipe. Reapareceu sem quaisquer mazelas e com o pêlo lustroso, factos que indiciam que terá sido bem tratado lá por onde andou.

Regressou esta manhã para grande gáudio da Filipa, que sempre se assumiu como a sua dona. Ambos se querem muito bem, a Filipa e o Pepe, ou melhor dizendo, mestre Pepe, que com ela preparou o mestrado em Literatura Portuguesa. É um gato altamente preparado e que bem merece ser reconhecido, dentro e fora de casa, não só pelos dotes já evidenciados; mas, também, por tudo o que ainda poderá vir a fazer. “Casos futuros” dos quais vos hei-de dar notícias.

D. Pepe regressou e cá em casa é a notícia do dia. Bem mais importante que o caso”face oculta” e os testemunhos dos directores de jornais. Sim, porque D. Pepe regressou e não nos veio contar mentiras e/ ou meias-verdades. E trouxe, ao terceiro dia, alegria à nossa casa!

sexta-feira, fevereiro 19, 2010


CANTIGA DO COITADO

Em Vigo
Perguntei às ondas:
- Sabeis Novas da minha amiga?
E as ondas me responderam:
- Um novo amigo tem!


Em Pontevedra
Perguntei aos barcos:
- Sabeis novas da minha amiga?
E os barcos me responderam:
- Um novo amigo tem!


Em Santiago
A Santiago perguntei:
-Sabeis novas da minha amiga?
E Santiago me respondeu:
- Um novo amigo tem!

domingo, fevereiro 14, 2010

3 QUADRAS

Vão as horas, vão os dias,
No seu constante fluir;
Mesmo as poucas alegrias
Me visitam a fugir.

Sob a ponte passa a água
a caminho do vasto mar.
Só em mim, teimosa, a mágoa
não tem pressa de passar.

Velozes correm os anos;
Pra onde, não sei ao certo;
só ficam os desenganos
e as marcas do desconcerto.

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 14 de Fevereiro de 2010 – Hoje, dizem, é dia de S. Valentim e dos namorados. Tornou-se um pretexto para as pessoas se oferecerem presentes e para o comércio fazer uns trocos. Curiosamente, ou não, as flores estavam hoje mais caras do que nos dias anteriores. Ah, estas datas festivas!

Ontem, assisti a um programa de televisão da SIC-Notícias chamado “Plano Inclinado”, supostamente moderado por esse supra-sumo do jornalismo que é Mário Crespo. Sim, esse que escreveu a crónica intitulada “O Palhaço” e outros textos idênticos, que têm feito furor na “blogosfera”. E que se tem constituído como um dos adversários mais poderosos de José Sócrates.

No aranzel participaram ainda Nuno Crato, Carreira e Salgueiro. E a ocidente não houve nada de novo, ou seja, as supostas novidades começam a cheirar a mofo, tal como a mofo devem já cheirar os gráficos para “donas de casa” de Carreira. Carreira arroga-se o direito de chamar ignorantes aos demais comentadores que pululam por aí e vai debitando o seu discurso, sempre o mesmo, que no fundo é uma variedade do discurso da tanga.

Salgueiro, que já foi ministro das finanças, vem agora dizer que foi destruído o sistema produtivo nacional e tal, como se tivesse descoberto a pólvora e não tivesse, bem como os seus amigos políticos, culpas no cartório. Quem é que geriu os grandes fluxos de dinheiros comunitários para modernizar a agricultura portuguesa? Quem?

E aproveitaram também para dizer mal da ASAE, que terá sido excessiva muitas vezes, mas que contribuiu para que hoje os portugueses possam ter mais garantias de higiene e limpeza nos estabelecimentos de restauração. Como teria sido bonito que os senhores tivessem dito esta coisa comezinha!

sábado, fevereiro 06, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 6 de Fevereiro de 2010 – A situação do país é grave, passe o cliché. E não é de agora que a situação é grave. É grave há vários séculos, porque quase sempre fomos governados por gente sem grandeza.

Dizer-se que Portugal é um país pobre é dizer uma meia verdade. Não temos, obviamente, os recursos de Angola ou do Brasil. Não teremos, tão-pouco, tantos recursos como a nossa vizinha Espanha. Mas vistas bem as coisas, creio que o nosso défice maior é de imaginação.

O caso de Israel é paradigmático (declaro desde já que não tenho qualquer simpatia pelo Estado sionista). Fundado em 1948, numa região muito mais pobre do que Portugal, sobrevive sem grandes dificuldades, porque tem sabido conjugar os esforços e aproveitar os escassos recursos de que dispõe.

O problema de Portugal radica na indigência mental das suas elites e no carácter abutre dos seus maiores empresários. O problema de Portugal é o nosso desamor.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

EM JEITO DE HOMENAGEM

FAZ HOJE UM ANO QUE NOS DEIXOU
Conheço um homem, a quem nunca tive e amabilidade de dedicar uma linha de humilde prosa, e que merece todo o respeito do mundo. Com sete anos, quando deveria aprender as primeiras letras e a tabuada, já calcorreava, descalço, caminhos e veredas, fragas inóspitas, atrás de um rebanho.
Sempre o ouvi dizer - e minha avó confirmava –, que o primeiro patrão lhe fizera as primeiras botas.
Porém, não estava talhado para a bucólica profissão de guardador de rebanhos, para tanta solidão. Analfabeto, já com dezoito anos, comprou uma pasteleira e fez-se aprendiz de construtor de casas. Pedra a pedra, tijolo a tijolo, ajudou a construir centenas de lares, ganhando a vida e espalhando conforto.
Nunca deixou, apesar das inúmeras voltas que a sua vida deu, que em sua alma morresse o amor pela Natureza. Teimoso, continua a trabalhar a terra, que já fora de seus avós, arrancando-lhe saborosos frutos.
Penso que não deve nada à pátria e que a pátria nada lhe deve. Pertence a um género de portugueses que ama e sempre amou Portugal sem condições.
In FRAGMENTOS COM POESIA, de Manuel Barata, Ulmeiro, 2005.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

ALENTEJO


Indolentes são as casas;
indolentes são as árvores;
indolentes são as gentes.


Indolentes são os tempos;
indolentes são as feridas;
indolentes são os ventos.


Indolentes são...
(Oh, descoberta das descobertas!)
todos os actos de criação.

domingo, janeiro 31, 2010

A CASSETE

(À memória de Georg Maurer, poeta alemão)


Construir...


Eis a palavra
Que marca
O encontro do Homem
Com o seu destino.


Construir a paz,
Construir o amor,
Construir a felicidade.


Construir...


Eis a palavra,
Meus filhos,
Eis a palavra,
Inexoravelmente
Fatal.


DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 31 de Dezembro de 2010 – Há para aí uns quantos académicos, autênticos coleccionadores de cargos e lugares, que se sentem no direito de prescrever direitos e deveres para os seus concidadãos, mas que nunca tiveram a generosidade de dar nada de seu aos outros.

Um ex-ministro das finanças é uma dessas personagens que, com auréola de quase santidade e de muita sabedoria, descrêem de Portugal e dos portugueses e prevêem mil e uma desgraças futuras. Diz o senhor, fazendo fé nos jornais, que Portugal, se continuar assim, dentro de cinco anos, na melhor das hipóteses, não terá capacidade para fazer face às necessidades básicas.

Bem sei que a situação é perigosa e que carece de medidas de fundo para resolver os seus problemas, que, nalguns casos, são tão velhos que até já não lhe conhecemos a idade. Sei também que as medidas preconizadas pelo ilustre académico e outros académicos, uns mais e outros menos ilustres, apontam todas no mesmo sentido: bater nos funcionários públicos e cortar nas despesas com as funções primordiais do Estado.

Eu gostava, por exemplo, que esta gente rica e bem instalada, num acesso de generosidade, preconizasse um corte radical em todas as reformas superiores a dois mil e quinhentos euros, porque estando aposentada e devidamente instalada, não necessita de tanto dinheiro para viver. Creio, no entanto, que esta minha ideia não vai ter aceitação, porque aquilo que as eminências ganham a título de reforma é justo. Todos trabalharam muito a favor da grei!

E depois há que manter a coesão social até ao fim das suas vidas. E há que ajudar os netos, para que tudo possa continuar a manter-se para beneficiar os do costume.

Cá para mim, que já não tão novo assim, creio que tudo acabará por se decidir nas ruas. E mais cedo do que muitos pensam.

sábado, janeiro 30, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 30 de Janeiro de 2010 – A corrupção, grande e pequena, existe na sociedade portuguesa e não vale a pena fazer vista grossa ou ouvidos de mercador perante o que se vê e ouve. Combatê-la é, portanto, um imperativo nacional, para que possamos todos viver num país mais sadio e mais limpo.

Creio, no entanto, que não é com os actuais combatentes - presidente do tribunal de contas incluído -, que o combate se vai tornar decisivo. Simplificar as leis que permitam investigar e rapidamente julgar e punir, pode tornar-se um caminho tão simplista, que, mais tarde ou mais cedo, vamos ter mais uns quantos pilha-galinhas condenados e não os grandes corruptos.
Antes de mais, era preciso definir de forma muito objectiva o conceito de corrupção. Era preciso, por exemplo, que tudo fosse feito com a máxima transparência, na nomeação de indivíduos para determinados cargos de assessoria, no domínio dos gabinetes ministeriais. Era preciso investigar a forma como os filhos de certas famílias chegaram a determinados postos na administração pública, nas empresas públicas e até nas grandes empresas privadas.

Antes de mais, era preciso saber como se construíram determinadas fortunas e se todos os processos foram irrepreensíveis e obedeceram a princípios éticos comummente aceites. Era bom conhecerem-se os grandes corruptos e os grandes corruptores. Era preciso, por exemplo, que o corruptor merecesse igual combate e igual punição à do corrompido. O que corrompe investe migalhas para obter benefícios incomensuravelmente superiores.

Era preciso, por exemplo, que as leis fossem simples como os dez mandamentos. São as leis complicadas e tecnicamente incompetentes que permitem dúbias interpretações e a existência de muitos pescadores de águas turvas.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

SEMPRE A PALESTINA

(Para Tawfiq Zaayad, poeta palestino,
já desaparecido, autor do livro de Poemas
Amã em Setembro)

Beija por mim
A Terra Santa da Palestina,
Ó viajante!
E se fores a Nazareth,
Vai deixar flores
No túmulo de Tawfiq Zaayad.

E segreda-lhe
(os poetas
Ao contrário dos deuses,
Mesmo mortos,
Nunca deixam de ouvir)
Que os países
Podem ser riscados dos mapas,
Mas as nações são eternas.

Diz-lhe, viajante,
Baixinho,
Que não há medida
Para a nossa esperança
!

terça-feira, janeiro 26, 2010

LEONOR

Se eu fosse como Camões,
Havia de te fazer,
Amor, versos geniais,
Muitas trovas de encantar!

Pintar-te-ia morena
E de outras cores sadias.
Blusa vermelha decerto
E calças de ganga azul.

Assim irias à fonte
- Discreta como se vê -,
Leda e bela ao meu encontro.

E haveria de deixar
Teu rosto ruborizado
Com mil beijos, mil ou mais.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

CIÚME


A tua ausência fere-me
- e dói tanto! -,
que os meus inquietos pensamentos
são como pássaros jovens
embalados pela vertigem do voo.


Soubesse eu ao menos
onde e com quem partilhas
o suave e doce perfume do teu corpo.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 20 de Janeiro de 2010 – No fundo, o PS e os partidos à sua direita, são farinha do mesmo saco. Dir-se-ia que o pessoal da Fonte Luminosa, que, no já distante ano de 1975, se abrigava sob o chapelaço de Mário Soares, continua unida à volta do fundamental: o exercício do poder em Portugal, com os ganhos daí decorrentes.
Às vezes, os chamados partidos do arco do poder, como pomposamente se intitulam, até querem parecer zangados; porém, as suas zangas são apenas para inglês ver, porque quando chega a hora da verdade, cerram fileiras à volta dos seus interesses comuns, que são, no fundamental, o exercício do mando a favor dos seus apaniguados.
Estou em crer que o OE vai ser aprovado com os votos do PS, PPD e CDS, ou seja, com os votos dos beneficiários do costume. Os votos que hão-de eleger Cavaco Silva para um segundo mandato e hão-de fazer esquecer as escandaleiras nacionais. Tudo a bem da pátria, obviamente.

domingo, janeiro 17, 2010

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 17 de Janeiro de 2010 – A discussão do OE é sempre a ocasião ideal para ajustar contas com os trabalhadores da Função Pública. Certos rapazes e certas raparigas, bem nutridos, que não sabemos ao certo o que fazem, aparecem este ano nas pantalhas a receitar não-aumentos, porque o ano passado, os tais trabalhadores foram aumentados copiosamente, se e levar em linha de conta que a não-inflacção também os beneficiou imenso.

São rapazes e raparigas formados na aversão a tudo o que é público, porque todos desejariam pagar menos impostos. Em bom rigor, esses rapazes e essas raparigas, que quando abrem a boca nos mostram logo a cárie dos seus primorosos raciocínios (Prévert perdoa-me o quase-plágio), só aceitariam pagar impostos para pagar aos polícias que guardassem as suas excelsas pessoas e os seus preciosos bens.

Eu pago impostos e mais impostos pagaria para que o meu país se tornasse um pais melhor para todos e um território de solidariedade. O que eu não oiço é esses rapazes e essas raparigas arengarem acerca dos lucros bolsistas não tributados, que, se o fossem, produziriam receitas verdadeiramente espantosas.

Pobres rapazes. Pobres raparigas.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

DO MEU DIÁRIO

Paredão do Alqueva
Santa Iria de Azóia, 13 de Janeiro de 2010 – Continua o tempo invernoso: muita chuva, vento, muito frio. Começo a ficar com saudades de dias soalheiros, que, mesmo em Janeiro, fazem bem à alma. Este tempo cinzento, encinzenta-me a alma e o espírito. O encinzenta-me é para o meu amigo Daniel Abrunheiro, que é, indiscutivelmente, um grande criador desta lusa língua.

Boa notícia é a barragem do Alqueva já estar cheia. É a primeira vez que tal acontece; e, por isso mesmo, merece uma nota neste Diário. Há-de encher mais vezes, para que o Alentejo seja, em sentido lato, um Mar de Pão, que vai em itálico, porque é o título de um livro muito belo do meu amigo João de Sousa Teixeira.

E para os que me lerem, apesar deste tempo agreste, um dia feliz.

domingo, janeiro 10, 2010

SANTA IRIA DE AZÓIA

Ary deixou-nos no frio Janeiro de 1985.

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 10 de Janeiro de 2010 – Domingo. A chuva é gelada. Este Janeiro faz jus à fama de mês mais frio do ano. Goste-se ou não de frio, temos de nos aguentar, que o frio é necessário para amaciar as couves.

Boa ocasião para revisitar Torga e o seu famosíssimo Diário, que se revisita com muito agrado e proveito. Continuo a pensar que Torga não é um grande das letras portuguesas; porém, não desmerece de figurar entre os mais lidos e admirados do séc. XX. Não possui a técnica de Carlos de Oliveira, é certo, mas é bom não esquecer que Torga nunca foi um profissional da escrita. O poeta esteve sempre à espera do médico.

No entanto, para mim que não sou nenhum erudito, Torga vai continuar a ser uma referência. Nomeadamente, uma referência ética. No fundo, ainda que tenhamos deixado as nossas aldeias para ir ver o mundo, ficámos sempre presos às raízes. E devedores do mundo que nos viu nascer.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

SANTA IRIA DE AZÓIA

Jardim Ary dos Santos

DO MEU DIÁRIO

Moscavide, 6 de Janeiro de 2010 – É hábito comer-se uma fatia de Bolo-rei, neste dia, em que a cristandade festeja a festa da epifania. Nós, cá em casa, não festejamos nada. É da tradição comer Bolo-rei, com o café da noite, e pronto, como agora se diz. Ou prontos, que também há quem diga.

De qualquer modo é uma tradição agradável, porque junta o doce às agruras do dia-a-dia, tornando-as menos agruras, o que já não é coisa pouca. É por isso – ou por aquilo – que gosto do dia de Reis.

É um pouco como o dia de S. Martinho, que, no calendário profano, é associado à prova do vinho novo. E que todos aproveitam para beber do novo e do velho. E alguns, muito, e sem preferência. Viva pois o dia de Reis e o Bolo-rei!

segunda-feira, janeiro 04, 2010

DO MEU DIÁRIO

Óbidos, 1 de Janeiro de 2010 – A pequena vila de Óbidos, a dois passos das Caldas da Rainha, é uma das jóias do turismo nacional. Poder-se-ia até dizer, com alguma propriedade, que é um santuário onde se deslocam crentes de todos os credos.

A abundância de turistas de fim-de-semana obrigou à construção de diversos parques de estacionamento, e, mesmo assim, é difícil estacionar perto da Meca da ginja e do artesanato.

No passado dia de Ano Novo, eram tantos os visitantes, que, circular na rua principal, era uma verdadeira aventura. Contudo, dentro das lojas, não havia sinais de grandes vendas. A ginja parece ser, em tempo de crise, o verdadeiro ex-líbris desta vila.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 28 de Dezembro de 2009 – A minha campanha a favor da atribuição do prémio Inês de Castro a Lídia Martínez começou a ter “feed-back”. Casimiro de Brito, Vitor Oliveira Mateus, Emanuele Balzani, Jorge Pereira Sampaio, José Ribeiro, Paulo Neto e Maria Reis Lima, responderam simpaticamente.

Começo a acreditar que a coisa tem pernas para andar. A Fundação Inês de Castro, doravante, não vai ter desculpas. E os senhores jurados têm a estrita obrigação de pesquisarem e atribuírem o prémio a quem o merece.

Aguardemos, pois, com confiança.

domingo, dezembro 27, 2009

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 27 de Dezembro de 2009- Só hoje pude ver imagens da cerimónia de apresentação de cumprimentos do primeiro-ministro ao presidente da República. Apesar da cerimónia ter uma natureza meramente protocolar, a frieza das comunicações e das atitudes mostram até que ponto os dois protagonistas andam de costas voltadas. Dir-se-ia que a cena se podia ter passado num qualquer palco e com os actores de costas um para o outro.

Neste momento, penso que ambos servem mal Portugal: um não governando; o outro não presidindo (o Zé Ribeiro não leva a mal). E assim frio vai o relacionamento dos dois principais actores da política portuguesa, ainda que em consonância com o frio deste princípio de Inverno.

Não tenho qualquer simpatia pelos personagens, porque creio sinceramente que nunca terão dado nada de importante a Portugal. Feitas as contas, provavelmente ambos receberam mais do que deram. Era bom que ambos dissessem adeus aos cargos e permitissem o aparecimento de novos protagonistas. Mas esse seria um gesto demasiado nobre para estes dois homens. E os seus horizontes não têm a largueza de que Portugal carece.

sexta-feira, dezembro 25, 2009

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 26 de Dezembro de 2009 – Ontem, ocorreu-me a ideia de utilizar o “facebook” para sugerir a algumas pessoas uma campanha a favor da atribuição do prémio Inez de Castro a Lídia Martinez.

O prémio foi atribuído a personalidades de mérito indiscutível como Teolinda Gersão e António Osório. Este último é não só um grande poeta, mas também um dos poetas da minha preferência. E no entanto, penso que há uma personalidade que, antes de qualquer outra, merecia ser agraciada com o galardão atribuído pela Fundação Inês de Castro: Lídia Martinez.

Apesar do apelido, Lídia Martinez é portuguesa; porém, vive em França há décadas, onde tem exercido múltiplas actividades artísticas, com o mito “inesiano” como pano de fundo. Lídia dança, escreve poesia e textos dramáticos, pinta, desenha, etc., fazendo do amor de Pedro e Inez o grande “leit-motiv” do seu trabalho. Com a particularidade de o fazer fora de Portugal, ainda que a Portugal traga, de quando em vez, a representação e a dança. As Cartas de Pedro e Inez foram editadas pela Ulmeiro e estão esgotadas.

Pelo que afirmo no parágrafo anterior, Lídia merece ser agraciada com o Prémio Inez de Castro. Para mim, que não tenho quaisquer dúvidas, é uma questão de elementar justiça. Espero que não continue a prevalecer a lógica do círculo fechado e do amiguismo.

NATAL

D. PEPE TAMBÉM TEVE O SEU NATAL

domingo, dezembro 20, 2009

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 20 de Dezembro de 2009- Também compartilho da opinião de que um país sem crianças é um país sem futuro. E há muito tempo que tenho esta opinião, porque me tenho dado conta do encerramento das escolas; porque olho para os parques infantis e os vejo vazios; porque sempre li jornais e me interessei pelos problemas demográficos.

Penaliza-me a ideia de que Portugal vai perder muita população até ao ano de 2050. A perda de um milhão e tal de habitantes significa que fomos governados por políticos incompetentes e sem grande interesse pelos portugueses e pelas famílias portuguesas. Significa, sobretudo, que temos sido governados por políticos oportunistas e sem qualquer interesse pela perenidade da pátria. Significa que fomos governados por oportunistas que foram mamando nas tetas da pátria, desalmadamente, preocupando-se apenas com as suas excelsas pessoas e com as excelsas pessoas das suas famílias e amigalhaços.

Os que negam aumentos miseráveis aos seus concidadãos e vivem bem com a opulência e com o desperdício, merecem bem que os mandemos àquela banda. Puta que os pariu!

sexta-feira, dezembro 18, 2009

FRAGMENTÁRIA MENTE

Ernesto Costa (Presidente da Junta, no uso da palavra)
O poeta João Teixeira (falando de experiências literárias)
assistência atenta

Santa Iria de Azóia, 15 de Dezembro de 2009É evidente que todos os “fazedores “ têm um ego muito grande. E eu, como todos os outros que fazem, não sou, obviamente, uma excepção. Fiquei contente, ainda há pouco, quando recebi uma mensagem no telemóvel a louvar o Fragmentária Mente. O texto vinha incompleto e sem assinatura.

Eu sei que não produzi nenhuma obra-prima. Nunca escreverei obras-primas, porque não fui bafejado pelo indispensável talento; no entanto, o livrito tem meia dúzia de poemas que não envergonham ninguém. Eram esses, provavelmente, que o meu amigo João Teixeira considerou bem esgalhados.

Gratificante para mim foi o facto de ter tido uma assistência considerável. De amigos e familiares. E também de autarcas e de representantes de outras entidades. Estas gratas presenças foram muito mais importantes que qualquer nota de rodapé numa qualquer pantalha.

É talvez por isso que tanto amo a minha família e os meus amigos. E Santa Iria.

domingo, dezembro 13, 2009

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 13 de Dezembro de 2009 – De vez em quando, interrompo a escrita deste diário, que já dura de forma mais ou menos consequente há cerca de quinze anos. Agora escrevo directamente no computador; porém, tempos houve em que escrevia nuns caderninhos, para depois passar tudo a limpo. Acho que nunca acabei a tarefa.

O Manuel Ramos Ribeiro, Manuel Ramos para os amigos, perguntou-me várias vezes a razão desta minha teimosia. Pensava o ilustre e penetrante professor de língua portuguesa que só os famosos escrevem diários. À luz dos tempos que correm, e tendo em conta o que se vai escrevendo nos “blogs”, dir-se-ia que a escrita diarística nunca teve tantos cultores e também leitores. No fundo, famosos e menos famosos, cada vez são mais aqueles que vão deixando, numa prosa ligeira e precária, a sua visão do rectângulo e do mundo.

A semana passada ficou marcada por vários acontecimentos importantes. No plano internacional, registe-se a entrega do Nobel da Paz a Obama e as grandes manifestações de Copenhaga e de Atenas (?); no plano nacional, deixe-se nota da aprovação de um OE rectificativo e das discussões à volta da corrupção e do seu caso mais famoso na actualidade, ou seja, o caso “face oculta”.

E assim retomei este Diário.

PS: O profeta da desgraça, um tal Medina Carreira, continuou em palco e com assistência garantida. Porque os discursos da desgraça, em Portugal, têm sempre muitos adeptos.

sábado, dezembro 05, 2009

FRAGMENTÁRIA MENTE

Filipa Barata faz a apreciação do livro
Assistência atenta


FRAGMENTÁRIA MENTE
O autor autografa o exemplar do seu primeiro editor




terça-feira, dezembro 01, 2009

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 1 de Dezembro de 2009 – A editora ULMEIRO, que já não tem qualquer actividade, completaria um destes dias quarenta anos de existência. Paralelamente à vida da editora decorreu a vida de José Ribeiro, que, sem grandes proventos pessoais, viveu uma vida de e para os livros. Por ali passaram autores como António Ramos Rosa, Raul de Carvalho, António Salvado, Maria Ondina Braga, José Jorge Letria, Orlando de Carvalho, Viale Moutinho e muitos outros.
A Ulmeiro, ainda que fosse uma entidade jurídica distinta, confundia-se com a LIVRARTE e esta com aquela, porque era ali na Rua do Uruguai que o casal, Lúcia e José Ribeiro, tinham as suas empresas, ou seja, a LIVRARTE e a ULMEIRO, respectivamente.
Conheci o Zé Ribeiro na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa há um quarto de século. De lá para cá, com mais ou menos assiduidade, encontramo-nos para tagarelar e almoçar. E creio que assim continuará a ser.
Há muito tempo que não passo pela LIVRARTE. Soube, através de um “mail” do Zé Ribeiro, que a livraria vai ter, brevemente, vida nova. No entretanto, vai promover, com grandes reduções, a venda dos seus inúmeros materiais. Creio que será uma oportunidade única para descobrir algumas raridades, sim, que a LIVRARTE tem muitas raridades.
Bora lá!


segunda-feira, novembro 30, 2009

O FLUIR DO TEMPO


I
É o tempo
- O inexorável tempo -,
Que atenua a minha mágoa
E mostra quão profundas
Eram as nossas raízes.


II
Um Verão vai
E outro vem.
E neste vaivém,
Decorre a minha vida.

Esta vida que vai,
Vai e não vem.


III
Lentas,
As nuvens vêm
E vão.

Umas deixam (m)água
E outras não.

Ah, só o Verão,
Esplendoroso,
Alegra o meu coração.

O Outono não.


IV
No Outono,
Sou um território de tédio
E sono.

sábado, novembro 28, 2009

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 28 de Novembro de 2009 – Começo a sentir um certo asco por Medina Carreira, que tem presença regular na SIC-Notícias, para anunciar aos sete ventos desgraças futuras. Dir-se-ia que o homem podia ser ouvido uma ou duas vezes e depois mandado à vida, que há outros portugueses tão portugueses como Carreira e que não se arvoram em profetas da desgraça.
O pior é que a coisa já pegou de estaca, permitam-me a expressão popular, e começa a fazer escola. Abra-se o expresso, que é da mesma empresa ou grupo de empresas da SIC-Notícias e encontrar-se-á uma panóplia de opiniões que vão todas no mesmo sentido. Até o romancista Sousa Tavares anda preocupado com as finanças do país e também Ricardo Costa e muitos outros, com formação em economia ou não.
Têm todos, ou quase, traços comuns: pertencem às elites, têm altos rendimentos, têm mundo e vagar para se entreterem com as finanças do país. No entanto, toda esta gente acha que paga impostos a mais e que não é possível aumentar mais os impostos. Não os vemos a reclamar contra as desigualdades instaladas e que se acentuam quase quotidianamente.
Se o país vai ou não para a bancarrota não é questão que preocupe a maioria dos portugueses, porque uma percentagem elevada de portugueses já se encontra na bancarrota. O que eles não ousam, porque apreciam todos os seus privilégios, é dizer que este modelo de sociedade é iníquo e que deve dar lugar a outro, que privilegie a justiça social, o mundo do trabalho, a produção nacional. O que eles não ousam é dizer que o sistema capitalista e os actores que o servem, deveriam ser varridos.
Cá para mim, isto vai acabar por se resolver na rua.

quinta-feira, novembro 26, 2009

DO MEU DIÁRIO

FRAGENTÁRIA MENTE
Santa Iria de Azóia, 26 de Novembro de 2009Fragmentária Mente, que será apresentado urbi et orbi, no próximo dia cinco de Dezembro, na Casa da Cultura de Santa Iria de Azóia, é um livro de poesia branca, pueril e de mensagem simples, segundo comentários de alguns amigos. E com algumas coisas bem esgalhadas, segundo o poeta João Teixeira, que, conjuntamente com Filipa Barata, fará a apresentação.
Fragmentária Mente foi-se fazendo, dando-se a circunstância de integrar textos com cerca de trinta anos, que é o caso dos poemas “Palestina Minha Amada” e de “Tocador de Flauta”. Ambos foram escritos no início dos anos oitenta e publicados no jornal Vento Novo de Sacavém. Importante, verdadeiramente importante, é o facto do meu amigo José Ribeiro encontrar que dei um grande salto qualitativo. E de ter gostado do livrito.
A minha poesia, que de poesia se trata, é, na verdade, uma poesia de grande simplicidade, embora a sua feitura tenha implicado um processo de criação mais ou menos longo. A simplicidade é, não raramente, o fruto de muita perseverança. E porque não dizê-lo de contumácia. A arte de versejar é servida por seres que têm existência no real e que trabalham arduamente para recriarem “permanentemente o mundo”, para o “servir pleno de harmonia em esplendorosas bandejas de oiro”.
Harmonia. Não sei quantas vezes a palavra é utilizada. E nem isso é agora importante. Quero, no entanto, que harmonia seja uma palavra-chave para interpretar uma parte significativa dos poemas não rimados do livro. E também magia e alegria.
As quadras pertencem a outro universo e têm o seu próprio sortilégio.

sábado, novembro 21, 2009

QUADRAS POPULARES

50
Oh, inolvidáveis anos
Da revolução de Abril!
As ruas sempre repletas
E iniciativas mil.

51
Em Santa Iria de Azóia,
Era na Sociedade,
Onde diariamente
Se exaltava a liberdade.

52
Que sessões de canto livre,
De teatro e poesia!
Oh, foram tempos de sonho,
De muito sonho e magia!

53
Era sempre casa Cheia
Com Graça, Paredes, Ary.
Foram tantos os artistas
Que passaram por ali.

54
Numa roda-viva andava
(Era tudo muito urgente).
Na minha linda Dyana,
Sentou o cu muita gente.

55
A linda Zita, senhores!,
Andou no meu carro novo;
Pra defender o divórcio,
Que as leis negavam ao povo.


56
O grande Miguel Urbano,
- Oh, que empolgante orador! -,
Sobre a América hispânica
Discorria com rigor.

TERRAS DO MUNDO

Vai uma queijadinha?
SINTRA SOLAR
Sintra de Byron



sexta-feira, novembro 20, 2009

TESTEMUNHO
Santa Iria de Azóia, 20 de Novembro de 2009 – Notícias de jornal trouxeram-me à memória o Dr. Artur Maurício, que foi lembrado, recentemente, no aniversário da sua morte. Antes ainda de ser Presidente do Tribunal Constitucional, dei por ele nos órgãos sociais do Benfica, facto que me deu muito contentamento.

Conheci o Dr. Artur Maurício ainda muito jovem, em Castelo Branco, onde foi procurador-adjunto, creio, e professor de Direito Comercial e de Noções de Comércio, na antiga Escola Industrial e Comercial de Castelo Branco. Era um Professor muito exigente, com quem não se tinham grandes notas, mas com quem se aprendia muito. Substituiu o Dr. Gonzaga Jerónimo.

Foi meu professor de Direito Comercial. Dele guardei, ao longo dos anos, as melhores recordações. Não sou a pessoa indicada para avaliar o seu trabalho; porém, creio que nunca terá perdido a inteligência, o rigor e a verticalidade. É de homens como Artur Maurício que Portugal precisa, no momento
que passa.

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 20 de Novembro de 2009 – É consabido que não gosto de Sócrates. Também não gosto de Cavaco Silva e de Pinto Monteiro. De Noronha do Nascimento nada direi, que o homem não tem o protagonismo dos restantes e a sua presença não é permanente. Não gosto, portanto, de três das figuras cimeiras do nosso Estado de direito, que, para ser mais contundente e certeiro, deveria chamar Estado da direita.

Três dos quatro senhores a que me referi, que representam os três célebres poderes em que o Estado democrático se deveria escorar, por uma questão de decoro, e até talvez de sanidade mental do país, deveriam abandonar os respectivos cargos. Estes actores não servem Portugal. Portugal merece outros actores na presidência, no governo e na justiça.

terça-feira, novembro 10, 2009

QUADRAS POPULARES



43
A justiça portuguesa,
Com minúsculas grafada,
É de classe, com certeza,
E p’la forma dominada.

44
Ninguém respeita a justiça,
Que respeito não merece.
É implacável com os fracos,
Mas aos fortes obedece.

45
A guerra agora travada,
Com o branco colarinho,
Serve só para saber
Quem mais manda no povinho.

46
Tudo isto me cheira a ‘sturro
E nada de bom augura.
A enxurrada vai passar,
Mas a luta vai ser dura.

47
Agora, é a face oculta,
Quando inda mexe o freeport.
Que é feito do BPN?
Ó Deus, ó gentes, ó sorte!

48
Eu não posso concordar
Com uma justiça assim.
Então é só no PS
Que há gente tão ruim?

49
Tudo, tudo investigado;
mas, nada de concessões,
Que os partidos todos têm
Gente séria e vilões.

domingo, novembro 08, 2009

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 7 de Novembro de 2009 – Mourão é uma pacata vila alentejana, também raiana, onde me desloco de quando em vez para umas comezainas típicas. Até agora, a iniciativa tem sido sempre do avô dos meus filhos, que assume o Alentejo como uma verdadeira pátria.

O repasto foi como sempre na Adega Velha, onde se pode deglutir uma sopa de cação, tão fumegante e deliciosa como a celebérrima canja de Tormes. Ali, só falta mesmo a rapariga de faces ruborizadas, que havia de seduzir o ex-inquilino do 202 dos Champs Elysées.
Realço também o cozido da panela, as azeitonas novas e o macio vinho da casa, que, conjuntamente com o tradicional coro residente, fazem do restaurante de Mourão um espaço único.



sexta-feira, novembro 06, 2009

DO MEU DIÁRIO
Santa Iria de Azóia, 6 de Novembro de 2009 – Confesso que tenho descurado este Diário, nos últimos tempos. Não que tenha diminuído o meu interesse por este tipo de escrita; mas, sobretudo, porque outras coisas se têm sobreposto. E como em tudo na vida, há que estabelecer prioridades.
Tem havido também alguma preguiça. Eu confesso sem quaisquer problemas que sou acometido de preguiça muitas vezes. Nestes últimos tempos, tenho-me entretido com a leitura de “blogues” e coisas afins e nem sequer tenho pegado, como de costume, naqueles livros que ando sempre a ler, tal como acontecia com o meu amigo António Pina, que conheci durante décadas a traduzir o Fausto.
Ao certo, nunca cheguei a saber o que aconteceu ao Tó Pina, que já conheci depois de ter vindo de Paris e que já era a pessoa que continuou a ser durante décadas. Esquecido e alheio de quase tudo e todos, creio que ainda foi professor no liceu Nuno Álvares Pereira, lá no castro alvo, onde passei a minha casta adolescência e o início da juventude.
Do Tó Pina guardo duas recordações muito gratas: um sumo de laranja que me ofereceu, em Penamacor, numa casa solarenga que a família tinha na terra natal de Ribeiro Sanches, e uns minutos de violino, tocado para mim, na sua casa da então Avenida Marechal Carmona.
E assim recomeço este Diário que, em certo sentido, é a minha dose quotidiana de anfetaminas.

quinta-feira, novembro 05, 2009

QUADRAS POPULARES

36
Diz o povo e com razão
Que a unidade faz a força.
E se assim for na verdade,
Haverá poder que o torça?

37
O comício foi a festa,
No brando país de Abril;
Que a custo, vai resistindo
À mentira torpe e vil.

38
Eu tenho muitas saudades
De Vasco, o General!
Qual doido, qual carapuça?
…Amou tanto Portugal…

39
No chamado Verão quente,
Quando Portugal ardia,
De comício em comício,
Vasco, altivo, resistia

40
Contra os cónegos da sé
Contra os tubarões do Norte,
Que espalhavam a mentira
O terror e até a morte.

41
Generoso, resistia
Aos ataques mais soezes.
Homem bom, nunca roubou
Portugal e os portugueses.

42
Às vezes, dá-me a saudade
Do Verão setenta e cinco.
Então, com fúria muita
Defendo Vasco c’o afinco.

terça-feira, novembro 03, 2009

QUADRAS POPULARES

29
O eucalipto seca tudo,
Nada medra em seu redor:
Apenas mais eucaliptos,
E nada mais de melhor.

30
Há poetas que eu conheço
Que são muito originais;
Mas, como em tudo na vida,
Uns são menos, outros mais.

31
Esta tão grande alegria
Faz-me bem ao coração.
Por me fazer tanto bem,
É de curta duração.

32
Esta tarde, em Sesimbra,
Que bonito estava o mar!
Sentei-me no paredão,
Fiquei horas a pensar.

33
Temos o Outono de volta.
Foi-se de vez o Verão.
Já há castanhas à venda,
Figos-secos prò serão.

34
A juljar o pobrezinho
A justiça é pressurosa;
Porém, quando julga o rico
É muito lenta e manhosa.

35
Já não falo dos políticos
E outros senhores do mando.
Ficam quase sempre impunes
Seja qual for o desmando.

CAMPO COM CAVALOS

SOBRAL DE MONTE AGRAÇO