quarta-feira, março 18, 2009

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 18 de Março de 2009 – Nunca ninguém escondeu que a CGTP é uma organização sindical fortemente influenciada pelo PCP. E o facto só demonstra que o PCP sabe estar ao lado daqueles que lutam e sofrem neste e por este país, contra as políticas de direita que os sucessivos governos do centrão de interesses têm levado a cabo.

É preciso ter lata. No congresso fundador da UGT, que tem sido um modelo de organização sindical, não faltaram Mário Soares, Freitas do Amaral e Francisco Sá Carneiro; porém, fazem-se esquecidos e desentendidos, para lançar os ataques mais descabelados à Intersindical Nacional. Repito: é preciso ter lata!

O que maça esta gente não é a CGTP ter na sua direcção inúmeros comunistas. O que maça esta gente é o PCP e a CGTP terem esta grande capacidade de abnegação e luta. Estivessem ambos quietinhos e deixassem esta trupe fazer os seus números sem contestação e tudo estaria bem. Só assim se explica a “campanha negra” lançada contra a CGTP por este governo, nas últimas semanas.

Um governo dito socialista ….eheheh!!! O Parvo Joanes de Gil Vicente não diria menos.

segunda-feira, março 16, 2009

DO MEU DIÁRIO

Cotovia, 14 de Março de 2009 – Entre os discursos de Sócrates e os de Salazar, começa a não haver grandes diferenças. O comentário de Sócrates à manifestação da CGTP é sintomático de que este 1º ministro e secretário-geral do PS tem tiques de um autoritarismo inusitado, desde o 25 de Abril de 1974 até à sua chegada ao poder.

Quando o governante de turno não acha importante e interessante o argumento do número, mas privilegia, em abstracto, o argumento de que o que fez foi bom para o país, a matriz discursiva é já salazarenta. Sustentava a Constituição 33 que acima dos interesses individuais e colectivos se situavam os interesses da nação, que, naquele tempo, se grafava com maiúsculas.

Ora a nação, digo eu, é o conjunto dos indivíduos que partilham um mesmo conjunto de valores, que pode ou não incluir o território, que pode incluir ou não a língua, que pode ou não incluir a mesma História, que pode ou não incluir as mesmas tradições, que pode ou não incluir a própria nacionalidade; mas havemos de convir que não há país sem território e sem Estado politicamente organizado, sem um povo que o ocupe e que nele sonhe e crie.

Parece-me arrogância – e arrogância da pior, que um qualquer comentador de TV e carreirista da política, embrulhado em múltiplos episódios nada recomendáveis como exemplo aos nossos filhos, se esteja nas tintas para uma parte significativa do seu povo, com o argumento totalitário de que o que está a fazer é para bem do país.

A política deste governo é tão boa para o país, como o terão sido os célebres projectos de arquitectura do mesmo autor, que a comunidade nacional já apreciou vastamente através da “internete”.

sábado, março 14, 2009

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 14 de Março de 2009 – Era dia de manifestação da CGTP em Lisboa, uma das maiores de sempre, dizem os jornais de hoje; porém, a notícia do dia foi a entrevista de Manuel Alegre à Antena-1, que já foi Emissora Nacional, no tempo em que os médicos de todo o mundo recomendavam a Binaca.

Eles e elas lá sabem porquê!

É evidente que estamos distantes do tempo em que se proclamava: “verdade é só uma; a rádio Moscovo não fala a verdade”; porém, estamos no tempo em que as tricas de um cidadão com o seu partido se sobrepõem a muitas dezenas de milhar de cidadãos, que, na rua, exigem uma nova política e melhores condições de vida para quem trabalha.

Na verdade, o grande acontecimento do dia de ontem, isto é, aquele que verdadeiramente conta, é a manifestação da CGTP, que é o prenúncio de outras grandes manifestações que hão-de realizar-se em 2009. 2009, que vai ser uma caixinha cheia de surpresas. Atrevo-me a vaticinar: muitas e grandes surpresas.



domingo, março 08, 2009

NARRATIVA

Um dia,
Tropecei num livro
E fiquei agarrado.

Ao primeiro,
Outros livros
Se seguiram.

Sentei-me então
E um a um
Fui-os folheando.

Lendo sempre,
Com a avidez
Dos amantes.

Deixei correr
O tempo,
Inexoravelmente.

E agora,
Só quero ficar
Sentado.

Até quando?

Até quando
É a pertinente
Pergunta.
GOSTA O POVO DESTA MALTA


Gosta o povo desta malta
De falajar fluido e forte;
Faz vénias aos da alta,
Aos do Sul e aos do Norte.

Vive sempre acocorado
Face à gajada do mando.
Fica em casa acagaçado,
Só reage de vez em quando.

Aceita o roubo e a pobreza
Como coisa natural.
E consente que a esperteza
Vá mandando em Portugal.

Venera beatos e santos
Aos quais roga protecção.
Adora rezas e prantos
E andar de chapéu na mão.

Um dia há-de acordar.
Precisa de um abanão
E aposto que há-de lutar
E à canalha dizer não.

Se lava ou não no rio,
É coisa de pouca monta.
Antes o qu’ria com brio,
Força, coragem e ponta!


sábado, março 07, 2009

DO MEU DIÁRIO

Eu até gosto do deputado José Eduardo Martins, que só conheço de ver debater com outros políticos, na SIC-Notícias. Tirando o sotaque alto beirão, ou seja, aquela zoada do s, o senhor é fluente, não comete erros de sintaxe e é afável, sem deixar de ser combativo.

O DN dedica hoje o “Editorial” a um caso, não sei qual, que terá ocorrido entre o já referido José Eduardo Martins e um tal Afonso Candal, que presumo seja filho daquele antigo deputado aveirense que uma vez afirmou que Portugal era governado pelos “lobies” gay, maçónico e católico.

A coisa terá sido grave para merecer um “editorial” do DN. Mas como o editorialista se perde em falsas considerações teóricas sobre questões parlamentares, fiquei sem saber o que efectivamente se passou.

E se calhar também não perdi nada.

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 7 de Março de 2009 – A crise é séria e já atinge muitas famílias portuguesas. Nomeadamente, aquelas em que alguns dos seus membros já perderam o seu posto de trabalho. Tudo se agudizará nos próximos tempos e já há os que prevêem muita agitação nas ruas. Os sábios chegam agora à conclusão a que eu já tinha chegado há vários anos neste espaço e não sou pago principescamente para debitar opinião. E quando previ que tudo voltaria a resolver-se nas ruas, a questão não era de fé.

Com o advento do “reaganismo”, ou seja, do neo-liberalismo, concluiu-se que se tinha chegado ao fim da História. Ideia peregrina, sem dúvida, porque ninguém pode dispor, à moda de testamento de bens pessoais, para o futuro da humanidade. E o mesmo se poderá dizer da chamada morte das ideologias. Nem a História chegou ao fim, nem as ideologias passaram de moda.

Era bom que se tirassem todas as consequências da actual crise e que se responsabilizassem os apóstolos da saníssima e libérrima concorrência que, afinal de contas, nos conduziu a este beco. E não me venham agora com a “porra” do regulador não ter cumprido. O caso é de polícia e há que prender os ladrões, que, diga-se com toda a frontalidade, foram os apóstolos das desgraças presentes.

Quem, de entre tantos, terá a coragem de se acusar na praça pública?

DO MEU DIÁRIO

Apesar de pertencer à classe, confesso, com toda a franqueza, que não tenho nenhuma simpatia especial pelos trabalhadores da Administração Pública e Local. E não se trata aqui de qualquer falta de auto-estima. Esta minha posição radica no conhecimento que tenho da classe e dos seus defeitos e virtudes.

Porém, quando me saem na rifa figueiredos e quejandos, capazes de trucidar tudo e todos, digo cá para os meus botões: “alto aí pára o baile!”. Os funcionários públicos e da Administração Local foram admitidos pelos detentores do poder, ao longo de várias décadas, e executam as leis e os decretos-leis que a Assembleia da República e o Governo vão produzindo. Se são muitos e se há muitos à rédea solta, que se peçam contas aos dirigentes que o poder nomeia. O cidadão, que se queixa da burocracia, deveria, antes de mais, queixar-se daqueles que elege.

Durante o efémero Governo de Durão Barroso, D. Manuela Ferreira Leite lançou as piores críticas sobre os funcionários públicos. Dir-se-ia que a senhora, durante a sua breve passagem pelo poder efectivo, fez pior aos funcionários públicos do que todos os mandantes desde 1143. Pior, só mesmo os mandantes que lhe sucederam, porque apanharam a boleia e zás! Vai de cascar nos funcionários públicos, que a coisa rende, porque o povoléu não funcionário público gosta que casquem nos funcionários públicos.

Dentro de dois ou três anos, vou às Caldas e ofereço-lhes um Rafael Bordalo Pinheiro.

sexta-feira, março 06, 2009

DO MEU DIÁRIO

Confesso que Portugal me cansa, me entristece, me entedia. E no entanto, parece haver sempre um no entanto, na minha relação com este pais de clima doce e um povo sereníssimo. Sim, povo sereníssimo, porque se assim não fosse, há muito que tinha dado um grande estoiro.

Este país é o mesmo que suportou o manholas de Santa Comba e o pobre Santana Lopes; e suporta ainda, o arrogante e manhoso Sócrates. Este é um país que vive bem com autocratas e patuscos. Um país assim jamais ousará seja o que for e há-de ficar à espera de um qualquer Sebastião.

No fundo, Portugal é esta droga que tanto amo e sou.

*

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 6 de Março de 2009 – Portugal é um país esquisito. Neste rectângulo de clima ameno, ombreiam as grandes fortunas e a mais abjecta miséria. E a desculpa é sempre a mesma: o país tem poucos recursos; o país é pobre.

Não se diz, obviamente, que Portugal é um pobre país. E por que será que os tratantes, que vão chupando a teta da porca da pátria, nunca antepõem o adjectivo? Esta é, também obviamente, uma questão que os pobres professores de Português tentam explicar.

Portugal não é um país pobre. Portugal é um pobre país. Infelizmente, entregue a mariolas da pior espécie. Tenho dito!

quarta-feira, março 04, 2009

MOMENTOS

Do cimo desta torre,
Que ajudei a construir,
Vejo, para além do casario,
Uma magnífica ponte
Sobre um majestoso rio.

Subitamente,
Ocorre-me Cesário Verde
E também velhas crónicas navais.
Gama,
Nas horas de borrasca,
À divina providência implorando
E Albuquerque,
Pequeno
Mas firme no seu posto,
Praças e mais praças conquistando.


Do cimo desta torre,
Que ajudei a construir,
Observo agora o risco de fumo
Do último avião
E esqueço-me das velhas crónicas
E dos heróis das batalhas navais.


Para além do casario,
Vejo apenas
Uma magnífica ponte
Sobre um rio.

Uma ponte magnífica
E um rio...

COMO CATULO

Se eu fosse como Catulo,
Poeta de inspiração,
Em teu corpo, amor, havia
De gravar mil versos, mil!,
De grata recordação.

Com os dedos e os lábios,
Lascivos e enlouquecidos,
Nele havia de escrever
A mais pura poesia.

Disse bem, amor, havia!

domingo, março 01, 2009

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 28 de Fevereiro de 2009 – O segundo dia do congresso do PS ficou marcado pelas críticas aos partidos de esquerda, que estiveram a cargo de António Costa, ao BE, e de Augusto Santos Silva, ao PCP.

As críticas feitas ao PCP pelo inefável Augusto Santos Silva são um nojo. O que faz mossa a Santos Silva não é o facto de o PCP ter relações institucionais com o PC da Coreia do Norte; o que molesta este Silva é o facto do PCP fazer uma oposição consequente e continuada às políticas do desGoverno do PS. O que faz mossa aos portugueses não são as relações do PCP com o PC da Coreia do Norte; o que faz mossa aos portugueses são as políticas anti-sociais do desGoverno PS, que encurta diariamente os direitos de quem trabalha e dilata os dos especuladores.

Neste congresso temos de regresso os fazedores de promessas, que tentam reposicionar o PS à esquerda. Temos de volta os cartomantes e prestidigitadores do costume. Portugal merecia mais e melhor.

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 28 de Fevereiro de 2009 – O segundo dia do congresso do PS ficou marcado pelas críticas aos partidos de esquerda, que estiveram a cargo de António Costa, ao BE, e de Augusto Santos Silva, ao PCP.

As críticas feitas ao PCP pelo inefável Augusto Santos Silva são um nojo. O que faz mossa a Santos Silva não é o facto de o PCP ter relações institucionais com o PC da Coreia do Norte; o que molesta este Silva é o facto do PCP fazer uma oposição consequente e continuada às políticas do desGoverno do PS. O que faz mossa aos portugueses não são as relações do PCP com o PC da Coreia do Norte; o que faz mossa aos portugueses são as políticas anti-sociais do desGoverno PS, que encurta diariamente os direitos de quem trabalha e dilata os dos especuladores.

Neste congresso temos de regresso os fazedores de promessas, que tentam reposicionar o PS à esquerda. Temos de volta os cartomantes e prestidigitadores do costume. Portugal merecia mais e melhor.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 26 de Fevereiro de 2009 – O Estado português, que é normalmente muito pressuroso a salvar bancos e banqueiros, deu agora um ar da sua graça e adquiriu um quadro que andou desaparecido, “A Súplica de Inês de Castro”, da autoria do pintor Vieira Portuense, e que acompanhou a família real portuguesa, quando deu às de vila Diogo para o Brasil, ameaçada pelo invasor francês.

A coisa ainda terá estado complicada, porque o Estado, quando toca a artefactos culturais, ainda é mais preguiçoso e patinhas do que habitualmente. De qualquer modo, o negócio fez-se e o Museu Nacional de Arte Antiga vai ter uma obra de arte preciosa, que representa um dos mitos mais produtivos da lusitana cultura e com base na própria História.

Quem vai ficar contente é a pintora, coreógrafa, bailarina, poetisa e grande impulsionadora do mito inesiano, de seu nome Lídia Martinez, que os atribuidores de prémios vão ignorando, porque não frequenta a corte portuguesa e não compartilha, obviamente, dos seus naturais mexericos.

Reconheça-se, neste caso concreto, a boa actuação do ministro Pinto Ribeiro e do governo a que pertence.



terça-feira, fevereiro 24, 2009

DO MEU DIÁRIO

AINDA O CARNAVAL
Sesimbra, 24 de Fevereiro de 2009 – Dir-se-ia que pela boca morre o peixe, mas não! Desci a Sesimbra para deixar o João e a Vanessa. E já ontem à noite tínhamos ido jantar à Toca do Leão e não resistimos a uma ida à Marginal sesimbrense, que, para mim, compreende a Avenida 25 de Abril e a Avenida dos Náufragos.

Às dez da noite ainda não havia multidão, mas já havia magotes de foliões, preparados para se divertirem pela madrugada fora. Rapazes e raparigas travestidos disto e daquilo, muitos palhaços. Parecia haver por ali um genuíno espírito carnavalesco, que contrasta com o desfile do corço, que, com uma ou outra variante local, é a reprodução do déjà vu de outras paragens. Adivinha-se, no entanto, que a noite também há-de ser de alguns excessos, que hão-de fazer jus à Quadra.

Entrei na Papelaria da Av. Da Liberdade, onde costumo adquirir algumas publicações e ver os títulos de todas. Fui surpreendido com os comentários da empregada, através dos quais fiquei a saber que tinha ávido desacatos durante a manhã, com intervenção amiga da PSP. Queixava-se a genuína sesimbrense, e a meu ver com razão, que os de fora que têm aqui segunda habitação fazem queixas do barulho e dos excessos de alguns dos foliões. E que nestes dias deviam permanecer nas suas residências habituais, já que querem sossego.

Nem sempre alinho com a vox populi, porém, neste caso concreto, tenho de ser solidário com os populares e as suas tradições mais genuínas. Com uma ressalva: desde que os intervenientes nesta festa de Praça Pública não se abeirem de ou pratiquem actos criminosos.




domingo, fevereiro 22, 2009

UM SONETO PORTUGUÊS


Nuno foi o braço e a mente
Que Portugal defendeu
Da castelhana gente.
Títulos e riquezas recebeu
De seu amigo João de Avis,
Cujo arnês envergou
Quando Leonor, mãe de Beatriz,
Cavaleiro o armou.
Destemido herói medieval,
Escolheu o caminho certo
E terçou armas por Portugal.
Ilustre patrono da infantaria,
Nuno foi o grande arquitecto
Da lusitana soberania.


PERGUNTA TALVEZ IMPERTINENTE

Pedro Passos Coelho terá lido L' Être et le Néant de Sartre, em portugês ou em francês?

DO MEU DIÁRIO

CARNAVAL
Cotovia, 22 de Fevereiro de 2009 – Na minha infância e adolescência, o Carnaval era um tempo de muita alegria e licenciosidade. Começava logo a seguir aos Reis e terminava no dia de Carnaval propriamente dito. Precedia o tempo soturno da Quaresma, de procissões dos passos e de cânticos nocturnos de encomenda das almas.

Na Mata - a minha aldeia natal -, realizavam-se muitos bailaricos, durante a quadra carnavalesca e aproveitava-se o espaço para se fazerem os “entrudos”, que, para todos os efeitos, eram representações dramáticas, através das quais se satirizavam acontecimentos locais, pondo em destaque os seus aspectos mais grotescos. Participei em muitas destas representações, que eram ensaiadas na hora e que exigiam apenas algumas roupas mais andrajosas, de mulher para os homens e de homem para as mulheres, e os utensílios que tinham a ver com os conteúdos dramáticos.

No dia de Carnaval, logo ao nascer do sol, começava a operação da “fusca” e que consistia em fazer uma cruz na testa das raparigas solteiras, com graxa ou com massa de lubrificação dos carros de bois e umas mãos cheias de farinha em cima. As raparigas escondiam-se, mas os rapazes procuravam-nas nas casas dos pais e de outros familiares, onde se escondiam para dificultar a operação, que só terminava, às vezes, já no próprio baile, porque havia sempre uma ou outra rapariga mais resistente. Não me recordo de nenhum desacato digno de nota ocorrido durante os carnavais da Mata.

Havia ainda uma outra prática que merece ser aqui registada: “deitar caqueiradas”. Consistia em abrir uma porta – as portas até ao deitar estavam sempre no trinco – e deitar uma bota velha, uma lata ou outro traste qualquer para dentro de uma casa, que, sendo de cimento ou de xisto o chão, produziam muito barulho. As vítimas vinham às portas protestar e os cachopos já longe riam a bandeiras despregadas.

Era este Carnaval, ou Entrudo, licencioso, mais próximo na prática e no espírito do primitivo, que tive o privilégio de viver em criança. Hoje a coisa está demasiado fina para o meu gosto. E por isso, nem me dou ao trabalho de descer a Sesimbra nestes dias.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

sábado, fevereiro 14, 2009

NÃO ESPEREMOS MAIS


Não esperemos mais,
Amor,
Que os nossos lábios
E os nossos dedos
Já nos deram
Os necessários sinais.

Façamos tudo de novo.
Mais uma vez
E outra ainda,
Com a serenidade dos sábios.

Não esperemos mais.
TALVEZ

Talvez um beijo,
Amor,
E outro
E outro ainda,
Possam serenar
Tanto desejo.

Talvez.

domingo, fevereiro 08, 2009

VAMOS GANHAR!
Santa Iria de Azóia, 8 de Fevereiro de 2009 – Hoje é dia de jogo grande, que os jogos são sempre grandes, quando o Benfica joga. O jogo terá lugar na segunda cidade do país e espera-se que o Benfica ganhe, e se possível, cilindre o adversário.

Uma vitória expressiva do Benfica, hoje, na segunda cidade do país, é, antes de mais, uma vitória de Portugal.

Vamos esperar que Miguel Vítor, Carlos Martins e Nuno Gomes, não nos defraudem e dêem uma grande alegria a Portugal!




sábado, fevereiro 07, 2009

O MINISTRO MALHADOR

Santa Iria de Azóia, 7 de Fevereiro de 2009 – Lá na minha Mata natal, há um jogo chamado malha, que tinha excelentes praticantes e que era jogado, nas tardes de domingo. Jogava-se à branca e à negra, o que quer dizer que se bebia ao fim de cada partida ou à melhor de três. Era um jogo divertido, que eu mesmo pratiquei, na minha juventude.

O jogo da malha, também chamado fito, caiu em desuso, talvez porque nunca foi tão popular como a “pétanque” francesa. E é pena que tenha caído em desuso, porque era uma excelente forma de praticar algum exercício físico e de se beberem uns tintos bem bebidos.

Alegra-me, no entanto, que a malha tenha um adepto tão fervoroso como o ministro defensor do ministro-patrão, também dito o primeiro, de seu nome Augusto, que nunca terá o seu século e nunca será mais que um adjunto do ministro-patrão, ainda que academicamente tenha mais habilitações. Santos e Silva são os apelidos do dito malhador, provavelmente mais novo que eu e que se arroga o direito de me rotular de direita e de em mim querer malhar.

Pois daqui lhe digo que sou de esquerda e situado à esquerda do PS e que não tenho medo das suas malhas. Este ministro, que não sei bem o que faz, mas que trata mal muita gente, é politicamente uma fraude, porque se diz socialista, quando, afinal de contas, não passa de uma malhador.

Melhor seria que mandassem o homem para a Mata, que não pára de perder população e obrigá-lo a jogar à malha, assim como quem cumpre o serviço cívico.

MATA -UM OLHAR.


Santa Iria de Azóia, 6 de Fevereiro de 2009 – É nas curvas apertadas das nossas vidas que recebemos as melhores provas de amizade e somos mimados com pequenos grandes gestos de simpatia. E é também nos momentos difíceis que, finalmente, temos oportunidade de corrigir juízos que fomos construindo ao longo dos anos, mas que nem sempre são os mais justos.

A Mata despovoa-se ao ritmo das aldeias do interior mais interior. No presente, é habitada por umas escassas centenas de pessoas, velhas, na sua esmagadora maioria. Ali vivem, a escassos vinte minutos de Castelo Branco, algumas com conforto; outras, na ignorância dos avanços da civilização.

Anteontem, enquanto velámos o meu pai – um dia teria de ser comigo -, fui abordado por dezenas e mais dezenas de conterrâneos que, de uma forma digna e sincera, me quiseram expressar o seu pesar. Não estava à espera de uma tão grande manifestação de simpatia, confesso, e se calhar, porque conhecia menos bem do que eu pensava a minha gente. Bonita e proveitosa lição!

Só tenho uma forma de retribuir: continuar o caminho iniciado há décadas, quando, através do jornal “Reconquista”, comecei a pugnar pelas gentes e pelas coisas da Mata. Da qual sou cada vez mais!


quinta-feira, fevereiro 05, 2009

HOMENAGEM

Conheço um homem, a quem nunca tive e amabilidade de dedicar uma linha de humilde prosa, e que merece todo o respeito do mundo. Com sete anos, quando deveria aprender as primeiras letras e a tabuada, já calcorreava, descalço, caminhos e veredas, fragas inóspitas, atrás de um rebanho.

Sempre o ouvi dizer - e minha avó confirmava –, que o primeiro patrão lhe fizera as primeiras botas.


Porém, não estava talhado para a bucólica profissão de guardador de rebanhos, para tanta solidão. Analfabeto, já com dezoito anos, comprou uma pasteleira e fez-se aprendiz de construtor de casas. Pedra a pedra, tijolo a tijolo, ajudou a construir centenas de lares, ganhando a vida e espalhando conforto.


Nunca deixou, apesar das inúmeras voltas que a sua vida deu, que em sua alma morresse o amor pela Natureza. Teimoso, continua a trabalhar a terra, que já fora de seus avós, arrancando-lhe saborosos frutos.


Penso que não deve nada à pátria e que a pátria nada lhe deve. Pertence a um género de portugueses que ama e sempre amou Portugal sem condições.


In Fragmentos com poesia, Ulmeiro, 2005.


PS : chegou ontem ao fim da estrada.








terça-feira, fevereiro 03, 2009

QUADRAS À PÁTRIA

Há qualquer coisa no ar,
Que me provoca alergia.
Não consigo respirar
E só vejo porcaria.


Vejo gente interesseira
De altos valores falar.
Consegue, desta maneira,
O povo ignaro enganar.


Vejo lobos com vontade
De sugar as grandes tetas,
Míngua de qualidade,
Muitas mentiras e tretas.


Gostava que Portugal
Fosse limpo e respeitado.
E não este lodaçal
Corrompido e aviltado.

domingo, fevereiro 01, 2009

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 1 de Fevereiro de 2009Não gosto de Sócrates e do Partido Socialista, que não são de esquerda nem socialistas. No entanto, repugna-me esta forma reles de trucidar politicamente um adversário.

A direita quer ganhar na secretaria o que nunca ganharia nas urnas. Manuela Ferreira Leite não se deve contentar com “um não comento” ou coisa parecida. É necessário que exija rigor e celeridade na administração da justiça. É necessário que diga, com todas as letras, que abomina estes métodos reles de interferir na acção política.

Era bom que D. Manuela se demarcasse desta direita doutorada na arte do golpe de Estado.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

ROSSIO

Foi no Rossio
Que o Dr. Maia
Montou moderníssimo
Consultório.

Montar, montou…
E quantos doentes tratou?

(Oh, como Eça sabia bem
O que fazia!…)

O Rossio,
Essa alegoria imutável
Da nossa colectiva
Indolência!

quarta-feira, janeiro 21, 2009

MARTIM MONIZ

O mundo inteiro
-E as suas misérias –,
Numa só praça.

Verdadeira Babel,
À qual o odor do caril
Confere um toque
Marcadamente
Oriental.


JARDIM ZOOLÓGICO

A António Osório

O Jardim Zoológico
É a outra Penitenciária
De Lisboa.

Onde, para gáudio
Dos visitantes,
Cada prisioneiro
Usa roupa própria.

domingo, janeiro 18, 2009

DO TEMPO QUE PASSA

TEXTO I
Estou a ficar cansado - não do débito e crédito rosiano -, mas das alíneas, dos números e dos artigos das leis e dos decretos-leis, produzidos por juristas preclaros, e também dos números das circulares e dos ofícios-circulados, através dos quais os directores –gerais, debitam para o vulgar o que se deve entender que entenderam, repito, os preclaros juristas.

Não sou um funcionário triste nem alegre, porque a um funcionário não se pede nem se paga para ser triste ou alegre. Um funcionário é um funcionário, despido de adjectivos, como diria o sempre delicioso Caeiro. Cansado, sim, que a leitura e a exegese das alíneas, dos números e dos artigos das leis e dos decretos-leis, absorvem e ocupam um espaço desmesurado na minha mente.

Objectivamente, sou um funcionário cansado. E estranho que só agora me ocorra este cansaço, quando passei muitas tardes de domingo a olhar o Tejo e os bandos de aves em viagem e eu fui ficando, sem coragem para mandar às malvas as alíneas, os números e os artigos das leis e dos decretos-leis e ir com as aves.


TEXTO II

Agora, indiferentes ao meu cansaço, vêm filhos de mães de moral imaculada, cujos avós – e quiçá os pais –, abancaram à manjedoura do orçamento, donde provavelmente roubaram para dar às filhas e a esses netos, dizer-me que estou a mais; que sou um inqualificável parasita; que não mereço o pão que como.

A esses bondosos cidadãos, que vão enriquecendo sabe-se lá como e encaixam as crias nos melhores empregos, usando os apelidos dos seus compridos nomes; a esses bondosos cidadãos, que vão fintando as leis para que haja pão e leite e carne e peixe, com abundância, nas suas avantajadas mesas; a esses bondosos cidadãos, que tudo esmifram para aconchegarem mais ainda as suas já farfalhudas contas bancárias, respondo com a veemência do costume: a puta que os pariu!


DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 18 de Janeiro de 2009 – O senhor Obama tomará posse, na próxima terça-feira, 20 de Janeiro, como manda a tradição. Em Washington são esperadas cerca de cinco milhões de almas, que emprestarão ruído e cor ao evento.

Provavelmente, os cinco milhões de americanos que vão festejar a chegada de um negro à Casa Branca querem também festejar o fim de uma era de mal-estar à escala planetária e o início de um tempo de paz e bem-estar. Que assim seja, são os meus votos.

Eu não sou um optimista, é consabido, mas sei que fazer pior é difícil e por isso mesmo quero comungar deste optimismo generalizado. Sei que Guantánamo não fechará as portas na próxima quarta-feira. E sei ainda que Israel não deixará de flagelar os palestinos nas próximas semanas. Quero acreditar, contudo, que no fim deste mandato de Obama, os EUA restabelecerão relações com Cuba, acabarão com a ignomínia que é Guantánamo e ajudarão a Palestina a tornar-se num Estado independente.

Se assim for, o meu programa mínimo cumprir-se-á.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

DO MEU DIÁRIO

"Serei tudo o que disserem
por inveja ou ngaçõ:
cabeçudo dromedário
fogueira de exbição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!"
ARY
Jardim Ary dos Santos

Santa Iria de Azóia, 15 de Janeiro de 2009Conheci o poeta José Carlos Ary dos Santos, decorria o ano de 1978. Era director da Sociedade 1º de Agosto de Santa Iria de Azóia, que foi um baluarte na defesa das portas que Abril abriu.

Conheci Ary dos Santos, quando o povo ainda enchia salas e praças e ruas, para pugnar pelas conquistas de Abril e ouvir “canto livre”. Ary dos Santos, que não era cantor, dizia os seus versos e por vezes com tanta força e veemência, que comovia e empolgava os mais vastos auditórios. Foi indiscutivelmente o grande poeta da Revolução.

Hoje, queria deixar aqui duas notas acerca da generosidade de Ary. Primeira: recebia, como todos os restantes camaradas cantores o seu “cachet”; porém, arranjava sempre forma de devolver o dinheiro à Sociedade Recreativa. É que Ary, trabalhador criativo de publicidade, não necessitava do dinheiro dos espectáculos para viver. Segunda: perto da sua casa, na Rua da Saudade, havia uma rapariga deficiente, que vivia com imensas dificuldades, sozinha com a mãe. Ary dava àquela família carenciada dois mil escudos todos os meses.

Foi sobre este Homem e este Artista que muitos canalhas lançaram lama.


sábado, janeiro 10, 2009

DIAS DE CHUMBO

PELA PALESTINA

A guerra voltou a Gaza
- Pobre terra Palestina! -
Onde o judeu tudo arrasa
Com fúria assassina.

O vampiresco invasor
Faz uma orgia de sangue.
Mata, insensível à dor,
Um faminto povo exangue.

E esta Europa velha e tonta
A tudo assiste, incapaz…
Indolente, faz de conta
Que deseja muito a paz.

E assim continua o mundo,
Martirizado e cruel,
Sujeito ao poder imundo
Do pavoroso Israel.













quinta-feira, janeiro 08, 2009

DO MEU DIÁRIO

A PALESTINA VENCERÁ
Ne me blâmez pas! C'est ma terre!
et elle pleure! Pourrais-je supporter
de me taire? C'est ma mère et elle souffre!
Mahmoud Darwiche
Santa Iria de Azóia, 7 de Janeiro de 2009 - Um texto de Fernando Nobre sobre o conflito israelo-palestiniano, publicado recentemente no jornal “Público”, põe, em minha opinião, os pontos nos is, relativamente a um conflito que se arrasta desde l917, para vergonha de toda a humanidade. Fernando Nobre, que é um homem da minha geração, tem mundo e sabedoria e sobretudo generosidade, para poder exigir uma resolução definitiva e equitativa da situação.

É da opinião de Fernando Nobre - e de outros, capazes de olhar o mundo de uma forma fraterna -, que a opinião pública portuguesa e europeia precisa.
E prescinde, obviamente, de comentadores como Paula Teixeira da Cruz e outros que pululam por aí, porque não sabem, porque nunca terão disponibilidade para saber de que lado está a razão. A direita portuguesa barrica-se nos mais obtusos preconceitos e coloca-se ao lado do mais forte.

Sei que o Hamas não é constituído por gente recomendável; mas sei, igualmente, que ninguém é recomendável naquela região do mundo para o Estado de Israel. E para a direita portuguesa.

Agradeço à Lucília Mendes a generosidade que teve ao partilhar comigo o texto do Homem da AMI.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 5 de Janeiro de 2009 – Manhã fria e céu ameaçador; porém, a meteorologia não anuncia chuva para hoje.

Nota-se o recomeço das aulas, no trânsito automóvel, mais denso e mais lento. Apesar de tudo, a crise é visível. Há um ano atrás, havia mais veículos automóveis em circulação. Dir-se-ia que, num certo sentido, a crise acaba por ser benéfica. Como diria um dos militantes da Quercus, “o ambiente agradece”.

Quase subitamente, Dias Loureiro desapareceu das páginas dos jornais. Um “blogue” ou outro lá vai perseverando, mas parece ter havido uma mão invisível a retirar de cena o antigo ministro das polícias. Não apareceu nas capas das revistas, no fim do ano (ou eu não dei por ele?), ao contrário do seu antigo ex-colega administrador do BPN, Oliveira e Costa, que a pátria e o Dr. Cavaco tiveram como Secretário de Estado dos Assuntos fiscais.

E é o que me ocorre, neste desenrolar do fio, após mais uma derrota do Benfica e desta feita perante o lanterna vermelha. Homem de muita fé, começo a duvidar deste Benfica. E talvez por isso, a manhã me pareça ainda mais fria. E o céu ameaçador.

sábado, janeiro 03, 2009

MANUEL BARATA

SEMPRE A PALESTINA

(Para Tawfiq Zaayad, poeta palestino)


Beija por mim
a Terra Santa da Palestina,
ó viajante!
E se fores a Nazareth,
vai deixar flores
no túmulo de Tawfiq Zaayad.

E segreda-lhe
( os poetas
ao contrário dos deuses,
mesmo mortos,
nunca deixam de ouvir)
que os países
podem ser riscados dos mapas,
mas as nações são eternas.

Diz-lhe, viajante,
baixinho,
que não há medida
para a nossa esperança!

quarta-feira, dezembro 31, 2008

MANUEL BARATA

PALESTINA MINHA AMADA
1980
I

(Jerusalém é o teu nome cidade)
Ruy Belo

Trazemos nas veias
A cor das tuas pedras mártires.

Por isso perseveramos,
Por isso te amamos,
Por isso continuamos a morrer por ti.


II

No sul do Líbano,
Na faixa de Gaza,
Nas margens do Jordão,
Na diáspora multicontinental,
Choramos em silêncio as tuas mágoas
Cidade mãe,
Cidade santa,
Jerusalém.

(Porque tu choras
As nossas mágoas também).



III

Não haverá napalm,
Não haverá TNT,
Não haverá traição,
Que ponham fim
A esta vontade desmedida de vencer.

E um dia,
Pela estrada de Jericó,
Voltaremos:
A Ramala,
A Belém,
A Lida,
A Jerusalém.

Para comer laranjas em Jafa!,
Laranjas doces e suculentas,
Porque em todo o mundo
Não há laranjas como as de Jafa.



JOÃO DE SOUSA TEIXEIRA


Com a devida vénia.

1980
MÉDIO ORIENTE

Em Gaza não há sossego,
nem nos Golan por haver.
Só o mostrengo que é cego
não sabe ou não quer ver.

Povo vivo à queima roupa,
a defender mesmo quem trai.
Ai, povo, que coisa pouca
é morrer pelo sinai.

Um patriota árabe sucumbiu
à bala sionista e colossal,
mas a verdade que floriu
no campo de batalha, é imortal.

É escusado veneno mais fecundo:
a Palestina vive no coração do mundo.

terça-feira, dezembro 30, 2008

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 30 de Dezembro de 2008ENCONTRO EM CAPRI ou O DIÁRIO ITALIANO DE GORKI, da autoria de Marcello Duarte Mathias, é uma excelente narrativa romanesca, que terá exigido muito trabalho e imaginação ao antigo embaixador.

Parte do exílio de Gorki em Capri, na Itália, onde é visitado por Lenine e por outras celebridades, para construir um universo romanesco que nos dá conta do ambiente oposicionista ao regime dos Romanov, no exterior e no interior da Rússia. A amizade entre Gorki e Lenine é o grande «leit-motiv» que permite a Mathias a feitura de retratos excepcionais - Gorki, Lenine, Staline e Trotsky -, e a criação da ambiência política e social antes e depois da Revolução de Outubro. Num registo de grande serenidade como é seu timbre.

De certo modo, pode-se estabelecer um paralelo entre esta ficção e O Ano da Morte de Ricardo Reis, de Saramago. Este faz regressar a Portugal o autor das odes clássicas, que o seu criador, Fernando Pessoa, exilara no Brasil, onde o deixara quando morreu. E serve-se do heterónimo pessoano para criar o ambiente em que foram surgindo as instituições do Estado Novo, naquele ano de 1936.

È um livro para ler como grande literatura.
Mathias, Marcello Duarte, ENCONTRO EM CAPRI OU O DIÁRIO ITALIANO DE GORKI, ed. Oceanos, Nov. 2008.

domingo, dezembro 28, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 28 de Dezembro de 2008 – De novo a guerra, no Médio Oriente, com os do costume a morrerem como tordos; de novo o coro de protestos da chamada comunidade internacional, com os do costume a fazer ouvidos de mercador.
E assim se vai eternizando um conflito, que ninguém parece interessado em resolver. Nomeadamente Israel, a quem daria até um certo jeito que o conflito alastrasse à Síria e ao Irão.
E quer-me parecer que ainda não será com o senhor Obama que a paz vai chegar ao Médio Oriente. Quantos palestinos terão ainda de morrer, para que a terra do poeta Darwich possa ser independente?
Puta de vida! Puta de guerra!

DO MEU DIÁRIO

Rotunda com repuxos
e casario do Cansado
Castelo Branco, 27 de Dezembro de 2008 – Passei pelo quiosque Vidal, logo ao princípio da tarde, para me inteirar da venda do livrito Mata…, a que a empregada chama o livro da Mata. Chovia impiedosamente.

Eu sei que o faz por uma questão prática, embora o uso da preposição, neste caso concreto, confira ao enunciado um efeito quantificador inesperado, ou seja, confere-lhe um carácter único, o que corresponde inteiramente à verdade e afaga o ego do autor.

No interim, surgiu dentro do quiosque a dr.ª Manuela Conde (Chichorro?), que foi minha professora de História nos anos sessenta e que nunca mais voltara a ver. Ali estava olhando para as revistas expostas no escaparate, com todas as marcas dos anos passados, mas conservando alguns dos traços juvenis. Com ela visitei Vila Viçosa e o palácio onde D. Carlos havia de dormir a sua última noite. Recordei-a pelos anos fora como uma docente competente e com grande sentido de justiça.

Mais um café na Pastelaria Montalvão, dois dedos de conversa com a Maria e ala que se faz tarde. Lisboa ainda é longe e a tarde está de chuva. Que tarde chuva, na verdade!

sexta-feira, dezembro 26, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 26 de Dezembro de 2008 – Recebi mensagens de Boas Festas até à tarde de ontem. Há sempre um esquecido ou outro que se lembra à última hora. Não tem importância. Não contabilizo estas coisas; e, por conseguinte, nada há-de constar do meu deve e haver. Tudo permanecerá na mais absoluta puridade.

Telefonei a quem tinha de telefonar; recebi os telefonemas de quem tinha que receber; tudo se desenrolou na mais estrita normalidade. As chamadas mensagens de telemóvel, mais ou menos estereotipadas, aborrecem-me, mormente as que não trazem agarrado o remetente. Estas mensagens são, de certo modo, um descargo de consciência. Talvez descarga fosse a palavra mais adequada.

Com o advento dos telemóveis nasceu esta febre comunicacional, ganhando foros de cidadania a palavra escrita, muitas vezes abreviada, onde não segue a voz peculiar de cada remetente. É a comunicação a pataco e quase sem emoção. Em tempo de Natal, os amigos e aqueles que nos merecem estima, merecem um telefonema, uma carta tradicional, um postal ou até uma cartinha via Internet. Tudo personalizado, obviamente.

Eu, também pecador, me confesso. Contritamente.

terça-feira, dezembro 23, 2008

EM TEMPO DE NATAL

MEMÓRIA

Republicação

Nas manhãs de Junho,
quando o sol tudo doirava,
a nossa casa era também
a sombra da oliveira
do outro lado da rua.

Guardo memória, mãe!,
da nossa rua térrea
e vejo-te jovem
algodão dobando
à sombra da oliveira
do outro lado da rua.

Nas manhãs de Junho,
quando o trigo amadurecia
e eu brincava brincava
à sombra da oliveira
do outro lado da rua.

Fazia-te mil perguntas
- mil ou muitas mais -
e tu respondias sem enfado
à sombra da oliveira
do outro lado da rua.

E eu era feliz
e tu eras feliz, mãe!,
à sombra da oliveira
do outro lado da rua.

Do outro lado da rua
à sombra da oliveira.


segunda-feira, dezembro 22, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 21 de Dezembro de 2008 – Sorrateira, a Velha senhora veio, deitou as garras de fora e levou o MÁRIO JOÃO PIRES. Tinha 57 anos e era um Homem bom.
É nestes momentos – os que me tocam mais de perto -, que mais concordo com Sartre: “a morte é um escândalo”.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 17 de Dezembro de 2008 – As medidas aprovadas pelo governo para avaliar os professores – deixando de fora os profissionais que estejam em condições de se aposentarem nos próximos três anos – mostram à saciedade até onde pode ir a má-fé deste executivo, que apenas pretende dividir os docentes, a fim de impor um modelo já amplamente rejeitado.

Escudado na maioria absoluta, este governo tem tiques verdadeiramente totalitários, porque a sua visão da democracia é estreita, ou seja, não concebe a oposição às suas políticas. Dir-se-ia que estes insignes democratas apenas concebem, que os seus concidadãos se exprimam de quatro em quatro anos, no silêncio das urnas, diminuindo-os a todos enquanto cidadão.

É espantoso que um partido dito democrático e socialista aja contra as mais diversas camadas da população com tanta arrogância e mesmo desrespeito. E é ainda mais espantoso querer incluir-se na esquerda, quando a sua prática política é de centro direita.

Este governo, no qual pontificam os ministros Pereira e Silva, tem o desplante de nos tomar a todos por parvos. Até quando?

segunda-feira, dezembro 15, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 15 de Dezembro de 2008 – Finalmente, Manuel Alegre parece disposto a romper com o PS e a adequar a sua praxis política aos seus estados de alma, tantas vezes expressos através de discursos épicos e aos quais tem emprestado aquela sua voz única de patriarca bíblico.

Eu gosto do autor de Um Barco para Ítaca – e de tantos outros livros que me ajudaram a ser quem sou -, porém, sempre achei que Manuel Alegre se contentava com o seu papel de consciência crítica do PS. E acho mesmo que se outros fossem os protagonistas – Sócrates nem é socialista nem de esquerda e os seus próximos também não – Alegre jamais ousaria o discurso de ontem à tarde. A arte socrática de governar – intransigente com os fracos e muito compreensivo com os poderosos – fez transbordar o copo do poeta político.

Agora, aguardemos pacientemente pelo desenrolar do ano de 2009, que vai ter muitos e difíceis combates. Até para ver quem os vai travar com mais convicção e denodo.

sábado, dezembro 13, 2008

TEORIA DA QUADRA

1

Uma quadra bem urdida,
Em dia de inspiração,
Pode, se for atrevida,
Causar dano até mais não.

Eu quero estar sempre a salvo
Dos efeitos de uma quadra.
Tiro certeiro no alvo,
Faz pior que o cão que ladra


2

Quatro versos podem ter
Um final devastador.
É por isso, ‘stá-se a ver,
Que a quadra exige rigor.

Em tempos de roubalheira,
Uma quadra pode ser
A espingarda mais certeira
Para os pilantras vencer.


3

O governo da nação
Governa contra o país.
Nega a constituição
Ignorando o que ela diz.

Este governo trinta e três
Tem almas do outro mundo
Pelo que faz, bem se vê,
Que mer’cia ir ao fundo.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

MANOEL DE OLIVEIRA

Cem anos hoje e continua a querer fazer fitas rindo-se do tempo como ninguém!
Manoel de Oliveira é um caso notável. Direi mesmo notabilíssimo!
Eis um português que, por alguns séculos mais, da lei da morte se libertou, como diria Camões.

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 10 de Dezembro de 2008 – Há uma ideia que se vai entranhando na sociedade portuguesa e que qualquer dia merecerá teses universitárias: “quem ganha eleições tem legitimidade para governar sem oposição”. As aspas são minhas, obviamente, e ainda ninguém ousou formular a questão assim cruamente; mas há tiques e bocas, bastante mais eloquentes que as claras formulações.

A coisa tem-se acentuado mais com a luta dos professores. E só não se tornou ainda mais consistente e dura, porque uma fatia considerável de fazedores de opinião e “blogueiros”, ligados ao PPD-PDS e ao CDS-PP, estão conjunturalmente com a luta dos docentes. Não estivessem aqueles partidos interessados em capitalizar alguma coisa e muitos mais seriam os adeptos dos governos sem oposição.

A gente de direita – e o governo do PS também, porque faz aquilo que a direita nunca teve força para fazer – enche-nos a boca com democracia e Estado de direito, mas este mesmo Estado tem de se conformar com os seus interesses permanentes e conjunturais. Se pudessem, suprimiriam de bom grado a CGTP, que, no fundo, só complica. E também o PC, que, obviamente, se quer apoderar, para proveito próprio, da riqueza do país. E assim, o país ficaria mais limpinho - se não mesmo asséptico -, e sem essa gente que está sempre disposta a estragar as festas. E tudo decorreria, paulatinamente, sem a vozearia animalesca desses pretensos donos da rua.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Santa Iria de Azóia, 9 de Dezembro de 2008 – Há muito tempo que não falava de Daniel Abrunheiro, nestas páginas deste meu sensaborão Diário. E no entanto, falamos amiúde e continuo a lê-lo com o mesmo entusiasmo de sempre, ainda que o poeta prefira ao cronista e este ao romancista. Escasseia-me o tempo para o poder estudar com algum rigor.

O Daniel vem hoje a este Diário empurrado por uma sua leitora, que lhe gaba o tamanho dos poemas, por oposição a uma poesia de poemas curtos, aos quais chama “caganitas de cabra”. O autor confessa que gosta da imagem e num tom “savant” acrescenta. “O que escrevo, corresponde perfeitamente a essas reticências caprinas”. É de Mestre!

E já agora, mesmo que a despropósito, deixo aqui uma pergunta: quanto é que um editor competente edita poesia deste autor?


domingo, dezembro 07, 2008

TERRAS DO MUNDO

SESIMBRA
"A PRINCESA DO MAR"

REFLEXÃO

Não me venham falar da Pátria.
Não quero ouvir falar de pátrias
- nem desta, nem doutras -,
Que as pátrias,
À semelhança dos deuses,
Só sabem exigir sacrifícios,
Desmedidos e vãos.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

DO MEU DIÁRIO

CASTELO DE PIRESCOXE
Santa Iria de Azóia, 3 de Dezembro de 2008 – Na SIC-Notícias, ontem, Ricardo Costa e Luís Delgado teceram rasgados elogios a Jerónimo de Sousa. Luís Delgado disse mesmo que Jerónimo é melhor comunicador do que Cunhal, etc. e tal.

Eu gosto de ouvir estas coisas, porque tenho grande estima por Jerónimo de Sousa e também simpatia e também admiração. Jerónimo Carvalho de Sousa não tem a cultura política e a cultura, lato sensu, de Álvaro Cunhal. Não tem tão-pouco os dotes oratórios do antigo secretário-geral, que conhecia as técnicas retóricas como poucos. Porém, o discurso de Jerónimo soa-nos mais genuíno e, porque não dizê-lo, patético. Às vezes não basta dizer as verdades; às vezes, é necessário encontrar o tom e a forma para dizer as verdades.

Reeleito secretário-geral do PCP, no XVIII congresso, cabe-lhe a difícil tarefa de dirigir o partido, em tempos particularmente difíceis. Jerónimo conhece a receita: manter uma estreita ligação ao povo e lutar, com o colectivo que dirige, pelo progresso e pelo bem-estar dos portugueses e de Portugal.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 1 de Dezembro de 2008 – O último romance de José Saramago, A VIAGEM DO ELEFANTE, é, certamente, um dos melhores que o nosso Prémio Nobel escreveu, na sua já longa vida de autor. Poderá mesmo ombrear com Levantado do Chão, O Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis.

No seu estilo único, Saramago conta-nos as peripécias da viagem do elefante Salomão e do cornaca Subhro de Lisboa até Viena, num itinerário através de Portugal, Espanha, França, Itália e finalmente a Áustria, com travessias marítimas e fluviais.

Salomão é oferecido ao arquiduque Maximiliano II da Áustria pelos réus de Portugal, João e Catarina, assim como uma prenda complementar de casamento. Esta dádiva, longe de ser generosa, foi apenas a forma expedita que os lusos soberanos encontraram para se livrar de um paquiderme que devorava palha e água e nada dava em troca.

Maximiliano aceitou o presente, que implicou as diplomacias portuguesa e austríaca, e a viagem iniciou-se com a presença de D. João III, dez dias após a tomada da decisão pelo régio casal. A entrega de Salomão fez-se em Castelo Rodrigo, ainda que o comandante da lusa força tivesse acompanhado o animal até Valladolid, onde se encontrava Maximiliano e Maria, recorrentemente chamada de “a filha de Carlos V”. Em Valladolide o elefante e o cornaca haviam de receber novos nomes, por decisaõ do arquiduque: Salomão passou a chamar-se Solimão e Subhro, o tratador, Fritz.

Em solo italiano hão-de ocorrer os acontecimentos mais importantes da viagem, nomeadamente o milagre de Pádua, encomendado pelas entidades religiosas, no preciso momento em que se reunia o concílio de Trento. Em Veneza, soube Maximiliano do prodígio do paquiderme, que após treino, e às ordens do seu tratador, se ajoelhou à porta da Catedral de Santo António. Depois foi a épica subida dos Alpes e ainda a viagem através do Danúbio até às proximidades de Viena.

Num estilo vivíssimo, Saramago aproveita A Viagem do Elefante Salomão para fazer uma profunda reflexão sobre a condição humana, não se coibindo de abordar alguns dos temas que lhe são mais caros, nomeadamente o religioso. Neste romance excepcional, Saramago usa abundantemente da ironia e do anedótico, tornando-o um livro divertido, o que é um facto verdadeiramente extraordinário, conhecendo nós as circunstâncias em que foi escrito.

sexta-feira, novembro 28, 2008

DAS MIL E UMA NOITES

Deve a vasta humanidade
Aos cornos de Xariar
A divina Sherazade
E seus contos de encantar;


Deve-lhe a gentil irmã
- de seu nome Dinarzade -,
que, cedo, cada manhã,
acordava Sherazade.


“ Minha irmã, se não dormis…”
E começa a narração.
Sherazade tudo diz
Para encantar o Sultão.


Histórias mil desfia
(Oh, qual delas a melhor?)
E o tirano ludibria,
Calmamente, e sem temor.


Salvando assim a vida
Às donzelas de Bagdade,
Foi, claro, muito atrevida,
Mas ganhou a liberdade.

quarta-feira, novembro 26, 2008

JOSÉ GOMES FERREIRA

Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de dizer as coisas, da sua retórica única, do modo natural como metia mulheres nuas nos poemas.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de ser solidário, dos seus protestos viris, do modo simples como transformava o real em poesia.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava daquele jeito tão seu de andar na lua, mas sempre a olhar a Terra, que enchia de árvores e folhas e flores e frutos.
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!
Gostava, sobretudo, dos violinos que tão habilmente escondia em cada verso.

Barata, Manuel, Fragmentos com Poesia, Ulmeiro, Lisboa-2005.



sábado, novembro 22, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 20 de Novembro de 2008 – Dias Loureiro, o ex-ministro das polícias de Cavaco Silva, ex-banqueiro-BPN e actual conselheiro de Estado, pretendia ser ouvido na Assembleia da República, onde, naturalmente, ainda tem muitos amigos e se sentiria como peixe na água, para explicar as trapalhadas do denominado banco laranja.

Entendeu a maioria que não deveria ser ouvido e a meu ver bem. Que a justiça e os investigadores ou os investigadores e a justiça façam o seu trabalho e Dias Loureiro que espere pelo veredicto da investigação e dos tribunais.

Se a moda pegasse - e já vi defender que o homem pode ver o seu nome enlameado durante muito tempo, isto é, até que haja decisão dos tribunais -, tratar-se ia este português diferentemente dos outros portugueses. Infelizmente, eu sei que a democracia, que deveria pugnar sempre por uma igualdade de tratamento para todos, trata muitas vezes os cidadãos de maneira desigual. Desta vez, louve-se a decisão da maioria PS.

Eu sei que Dias Loureiro só queria explicar. Então que explique fora das instituições. Explique no “Expresso” ou no “Povo Livre”. Pior estaria eu, porque me fechariam todas as portas na cara.

quarta-feira, novembro 19, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 19 de Novembro de 2008 – A comunidade educacional vive à beira de uma guerra civil, porque uma ministra teimosa quer impor um modelo de avaliação aos professores, pouco lhe importando se o dito é bom ou mau. Avaliar, avaliar, avaliar, é a palavra de ordem.

Escorado numa maioria absoluta, este governo tem-se esmerado em afrontar as pessoas, como se “a choldra” tivesse de ser ainda pior do que efectivamente é. E arroga-se o direito de nos querer meter Lisboa pelos olhos dentro, como se tivesse recebido divina inspiração e fosse detentor de puras e definitivas verdades. È um governo altista e com tiques totalitários.

Este (des)governo, que quis atacar as chamadas corporações e os privilegiados do país, há-de ficar para a História como o governo que mais defendeu o capital financeiro e que mais atacou os interesses legítimos dos trabalhadores. É o governo que fecha centros de saúde e maternidades, escolas e outros serviços públicos de reconhecido interesse. Este não é um governo fazedor. Este é um governo exterminador. È um governo de leões contra os pequenos e de cordeiros em relação aos poderosos, tal como sentenciou Fernão Lopes em relação a D. João I.

O governo do combate ao défice, vai deixar o país mais deficitário em múltiplos domínios. Este governo e esta maioria são um desastre nacional.

terça-feira, novembro 18, 2008

S. MARTINHO II

Traz-nos o bom S. Martinho,
Sem nada em troca pedir,
Castanhas, chouriço e vinho
E vontade de curtir.

Este santo sem altar
- da terra do Rabelais -,
Tem o condão de alegrar
Os amantes de água-pé.

Quase às portas do Inverno,
Dá-nos dias de Verão.
Ò meu S. Martinho eterno,
Pura é minha devoção!

Mais um copinho de três
Só mais um pr’ assossega,
Só mais um de cada vez,
Porque aqui ninguém se nega.

sexta-feira, novembro 14, 2008

QUATRO QUADRAS PINGA-AMOR

Tenho uma quadra singela
Pra te dizer ao ouvido.
Quando ta disser não digas
Que sou rapaz atrevido.

De hoje não pode passar,
Se não passa a validade.
Quero-te dizer, amor,
Que te amo de verdade!

Este amor é tão sincero,
Tão sincero e delicado,
Que já não posso, meu bem,
Tê-lo no peito guardado!

A noitinha à janela,
Vai ser grande a emoção,
Quando de forma singela,
te abrir o coração.


segunda-feira, novembro 10, 2008

S. MARTINHO

São Martinho é português,
Ninguém pode duvidar.
Dá-nos tinto aragonês
E outros vinhos de encantar.


Não há outra santidade
Deste povo mais querida.
Há festas por toda à parte,
Alegres e divertidas.



Castanhas, chouriço e pão,
Tudo regado com vinho!
Haverá melhor razão,
Pra gostar do S. Martinho?


in Barata, Manuel, Fragmentos com poesia, Ulmeiro, Lisboa 2005.

sexta-feira, novembro 07, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 7 de Novembro de 2008 – É claro que prefiro Barack Obama a Mcaine, na presidência dos EUA, ainda que não alimente grandes ilusões quanto às futuras políticas da superpotência, mormente no plano internacional. Os interesses americanos instalados em Washington, e nomeadamente a indústria da guerra, hão-de acabar conflitos e começar conflitos, porque é este o húmus da política americana.

Barack Obama ganhou as eleições, porque os oito anos de Bush contribuíram para desprestigiar os EUA aos olhos dos próprios seguidores, na Europa e no resto do Mundo, pois tantos foram os disparates do patusco George W., que vai deixar o Mundo menos seguro do que antes do 11 de Setembro de 2001. E sobretudo, deixa a América e o Mundo a braços com uma crise financeira deplorável, que se há-de tornar crise económica, e que os povos dos países hão-de pagar com língua de palmo e meio.

O poderoso timbre da voz de Obama ouvir-se-á em todos os cantos do planeta. Até nas aldeias mais recônditas do Quénia. Porém, esta ordem mundial iníqua não será alterada por vontade da poderosa América. A construção de um mundo melhor há-de ser obra dos povos do Mundo. E necessariamente contra os interesses da América instalados em Washington.

E eu queria tanto que a eleição de Obama fosse o prenúncio de um mundo mais justo e pacífico!

domingo, novembro 02, 2008

QUATRO QUADRAS

Vão as horas, vão os dias,
No seu constante fluir;
Mesmo as poucas alegrias
Me visitam a fugir.

Sob a ponte passa a água
a caminho do vasto mar.
Só em mim, teimosa, a mágoa
não tem pressa de passar.

Velozes correm os anos;
Pra onde, não sei ao certo;
só ficam os desenganos
e as marcas do desconcerto.

Que consertar não consigo
Esta vida sem sentido.
O fado é severo comigo;
Mas, não me dou por vencido!

sexta-feira, outubro 31, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 31 de Outubro de 2008 – E cá estou de novo, só com o computador, nesta já longa luta com as palavras, a fim de alinhavar algumas linhas sobre o meu dia-a-dia. Ou melhor dizendo, sobre o que me ocorrer, a partir deste preciso momento.

Iniciei o primeiro Diário, no já distante Verão de 1988. Em Tavira registei impressões sobre o decorrer das férias e sobre a cidade. Rasguei ou perdi, quer as folhas manuscritas, quer, depois, as dactilografadas. Como diria Edith Piaf, je ne regrette rien.

Reiniciei o actual Diário, em 1994.

Com o Manuel Ramos Ribeiro, que quando morreu Ruben A. ficou ainda mais apreensivo com a sua leucemia, discuti largamente algumas das questões que estão subjacentes à escrita de um diário. O Manel tinha a ideia de que a prosa memorialista é pertença dos grandes, seja qual for o domínio em que se movimentem. Eu, que sou um diarista pertinaz, pensava e penso que o diário é um modo de expressão como outro qualquer. E por mais voltas que se dêem, nunca deixará de ser uma narrativa autobiográfica.

O Manel, que foi um distinto latinista, de quem Rosado Fernandes, porventura, se lembrará bem, dizia-me que esta prosa é sempre datada e efémera. Eu sou o primeiro a reconhecer o carácter precário desta prosa; porém, não resisto à tentação de registar, com a regularidade possível, as minhas impressões acerca da vida e do mundo.

Este é um daqueles direitos que nenhum Sócrates me poderá impugnar.

terça-feira, outubro 28, 2008

CONVENTO DE MAFRA


ESTREIA

Este não é só mais um romance. Atrevo-me a declarar "urbi et orbi", que este era o romance que faltava para melhor podermos compreender uma época da História de Portugal. E no entanto, o autor nunca sai do domínio estrito da ficção.
O lançamento é amanhã, na FNAC do Chiado, às 19H00.
Este romance é de leitura obrigatória!
Morais, Vitor Cunha, James Dean Fez Carreira no Bombarral, Ed. Caderno (Leya), Alfragide, 2008

sexta-feira, outubro 24, 2008

DO MEU DIÁRIO

CORRUPÇÃO (Republicação)
O senhor Presidente da República tomou posição, recentemente, sobre a problemática da corrupção, que é, a fazer fé no que se diz, uma praga nacional. É estranho, todavia, que o tenha feito apenas na recta final do seu segundo mandato, ou seja, quando a Constituição o impede de se recandidatar. Receio que daqui a dez anos, outro Presidente esteja a fazer o mesmísssimo discurso em relação ao tema.

É sabido que o Presidente é um homem sereíssimo. Sabemos até que se indigna muito quando alguém faz insinuações a seu respeito. Mas sabemos igualmente que o Presidente não governa o país, quer a nível central, quer a nível municipal. Quando muito, poderá exercer a já conhecidíssima magistratura de influência.

Desconheço a totalidade da comunicação presidencial sobre o tema da corrupção. Para além dos corruptos e corruptores e da trapalhada da corrupção activa e passiva, há todo um mundo de perguntas e respostas, a que não se pode fugir. Aqui deixo algumas. Por que razão a corrupção passiva é mais penalizada que a corrupção activa? Na relação custo-proveito, quem mais beneficia com a corrupção? Que estranhas razões conduzem os corruptores ao silêncio? Sabendo-se o que se sabe do problema, que estranhas razões impedem um combate continuado e sem quartel ao flagelo?

Seria importante saber, igualmente, se só é corrupção o recebimento de vantagens pecuniarias ou outras de natureza patrimonial. Quer-me parecer que há corrupção e da grossa, ora no preenchimento de lugares no aparelho e Estado e nas EP, ora nos lugares de topo das empresas de maior nomeada. Quem estiver atento, basta ler os apelidos nos jornais e nas televisões, para topar que há muitas mãozinhas a influenciar as escolhas. Ás vezes até parece que os filhos de certas famílias são sempre mais dotados que os de outras famílias portuguesas. Ás vezes até parece que a República virou Monarquia.

Era bom que o senhor Presidente, ainda antes de ir repousar, pudesse falar deste tormentoso problema nacional. Aqui fica um tema: " Empregos e Corrupção".

Posted by mpbarata at 07:10 PM Comentários: (0) , OUTUBRO DE 2005, no blogue "CATILINÁRIAS

quarta-feira, outubro 22, 2008

FRAGMENT(À)RIAMEMTE

GRATAS
RECORDAÇÕES

A minha idade é assim – verde, sentada.
Tocando para baixo as raízes da eternidade.

Herberto Hélder







JUNHO

Nas manhãs de Junho,
Quando o sol tudo doirava,
A nossa casa era também
A sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Guardo memória, mãe!,
Da nossa rua térrea
E vejo-te jovem
Algodão dobando
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Nas manhãs de Junho,
Quando o trigo amadurecia
E eu brincava, brincava
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Fazia-te mil perguntas
- Mil ou muitas mais –,
E tu respondias sem enfado
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

E eu era feliz
E tu eras feliz, mãe!
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Do outro lado da rua
À sombra da oliveira.





E O TEMPO FLUÍA


Plácido o tempo fluía,
As cigarras cantavam
E as cerejas amadureciam.


E dentro de nós,
Ai, amiga!,
O divino fogo ardia.


De mão na mão,
Apressados,
Descíamos até ao rio
E era à sombra dos freixos,
Pausadamente,
Que tudo acontecia.



COM A NATUREZA


Nos regatos e nas fontes
Água cristalina bebi.


Nos silvedos dos caminhos,
Amoras bravias colhi.


Nos cocurutos das figueiras,
Sadios figos comi.


Nas sombras amigas dos choupos,
Lindas histórias ouvi.


Mas um dia,
Pelos sonhos embalado,
Fui ver o mundo
E tudo perdi.





O VERÃO


No verão,
Quando o sol
Incendiava os dias,
Era à sombra
Da figueira branca,
Junto ao poço,
Que a nossa família
Se acolhia.


Pacientemente,
Meu avô
Descascava então
Figos de piteira
Que eu comia.


Saciada a sede
E distribuído o pão,
Muito feliz,
Minha avó dizia:
- Abençoado seja o verão!...




MEMÓRIA – 1

(Em memória de minha avó paterna)


Muito erecta em seu balcão,
De cores tristes vestida,
Cantava toda a manhã.

Os cabelos penteava
E rimas lançava ao vento
Pr’ afastar a solidão.

Sua voz tinha magia,
Tristeza muita e profunda,
E cantava todo o dia…

Ó querida velha tonta!,
-Minha esmeralda perdida,
Onde cantarás agora?




MEMÓRIA – 2

(Em memória de minha avó paterna)

Vejo-te sempre ali
Junto à lareira
No teu banquinho sentada
Os olhos muito abertos
Mas já sem brilho.


Vejo-te sempre ali
Junto à lareira
De viuvez vestida
Ansiosamente olhando
Mas não vendo nada.


Vejo-te sempre ali
Junto à lareira
Velho tronco devastado
Pelo simples fluir
Inexorável dos dias.


Vejo-te sempre ali
Junto à lareira
Vivo o lume
Os olhos muito abertos
Mas já sem brilho.




terça-feira, outubro 21, 2008

MATA

AS NOSSAS OLIVEIRAS

Viram-te nascer e conhecem de cor os teus segredos. Foram a tua companhia, silenciosa e segura, durante centenas de anos.

Deram-te sombra, nem sempre boa, é certo, nos tórridos dias do Verão; a luz possível, antes do advento da electricidade; o calor nos Invernos, às vezes, tão longos e rigorosos; o tempero para a panela pobre, que tornava o feijão e a couve menos ásperos; o dinheiro para muitos dos restantes e indispensáveis bens.


E também, é justo que se diga, muito e aturado trabalho e servidão.


De qualquer modo, moldaram-te o carácter. Com elas aprendeste a mansidão e a austeridade. Por isso mesmo, nunca foste dada a sobressaltos e a paixões. Em toda a minha vida, apenas ouvi falar de um crime passional, perpetrado por um homem, a quem o amor de uma mulher não quis servir. Foi muito antes de eu ter nascido e já passei há muito pelos cinquenta.


Benditas sejam para sempre as nossas oliveiras!

sexta-feira, outubro 17, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 16 de Outubro de 2008 – Confesso que o Orçamento de Estado, apesar de saber que vai mexer muito com a minha vida, me estimula pouco. As discussões são muito sisudas e os médiuns que tentam traduzir do clássico para o vulgar, normalmente falham os seus sãos propósitos. E eu, confesso sem constrangimentos, que não sei resistir à secura como as figueiras.

Agrada-me muito mais a leitura de Miguel Veiga, apesar de estar sempre a reiterar as suas raízes portuenses, porque escreve com bom gosto e em português de lei. Por português de lei, entenda-se aqui e agora, um português sem concessões ao analfabetismo reinante, ou seja, o português de Vieira, Garrett, Camilo e Eça. E também o de Mário Dionísio, Mário Castrim e Mário de Carvalho. No fundo, um português com História e Gramática.

Ao contrário de Miguel Veiga, não herdei bibliotecas. Na minha casa reinava o mais puro analfabetismo, porque os meus pais apenas tinham, ainda que não certificadas, as suas competências de pau-para-toda-a-obra. Eu explico melhor: meu pai ajudava a construir casas, pedra a pedra ou tijolo a tijolo; minha mãe trabalhava no campo e tratava da nossa casa, que, sendo pequena e o mobiliário escasso, não lhe dava muito trabalho. Por isso mesmo, ainda tinha tempo para fazer pares de meias, em algodão, para mim e para o meu pai, que era uma forma de poupar e de estar ocupada.

O gosto pelos livros aprendi-o na convivência com os meus amigos. Hoje, também me invadem o espaço, mas estou-me nas tintas para tal facto. De e com livros é feita a minha vida.

domingo, outubro 12, 2008

QUADRAS QUASE POPULARES

I

Ah, Américo Amorim
É um português genial!
Até com cortiça ruim
Enriquece Portugal.

Tem tanta, tanta energia
e é tão empreendedor…
Receio que qualquer dia
dê um ataque ao senhor.

Dizem que está a perder
muitos, muitos triliões.
Tal não pode acontecer,
porque não joga a feijões.

II

Que dizer do madeirense
- Joe Berardo, o poderoso –
na ilha, nem amanuense!,
E em Portugal tão famoso?

Que fabrica este senhor
pra tal riqueza ostentar?
Muito. È ‘speculador,
tem euros a trabalhar.

III

Oh, gosto deste heróis
de jornal e tel’visão!
São verdadeiros faróis
qu’ iluminam a nação.

sexta-feira, outubro 10, 2008

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 10 de Outubro de 2008 – Quem não se pode queixar do momento presente é Jean-Marie Le Clézio, a quem foi atribuído ontem o Prémio Nobel da Literatura. E com toda a justiça, para que não fique a pairar qualquer suspeição.

Este grande escritor francês, que publicou o seu primeiro romance LE Procès-Verbal, em 1963, é autor de cerca de cinquenta obras. É, portanto, para além de um grande escritor, um trabalhador original e metódico. Escreveu obras como Désert, Le Chercheur d’Or, Voyage à Rodrigues, etc., que fizeram dele um escritor amado e incontornável.

Nestes dias, a par da queda da bolsa de Paris, vai estar em alta a obra de Le Clézio e a auto-estima dos franceses. Para o autor de Printemps et autres saisons as coroas suecas, independentemente do jeito que sempre hão-de dar, acabam por ser uma ninharia perante a consagração universal.

Il y a des jours heureux. M. Le Clézio!


quinta-feira, outubro 09, 2008

PRÉMIO NOBEL 2008

LE CLÉZIO

Jean Marie Le CLézio, prémio Nobel da literatura 2008, declarou que vai continuar a ler romances e a questionar-se. Com esta atitude, o autor de Printemps et autres saisons, que é também um ensaísta de mérito, demonstra que o Nobel está em boas mãos.

quarta-feira, outubro 08, 2008

DO MEU DIÁRIO




Santa Iria de Azóia, 7 de Outubro de 2008 – Faz hoje quarenta e nove anos que transpus, pela primeira vez, o portão da Escola Primária da Mata. Era um edifício igual a muitos outros, porque o Estado Novo tinha um número muito limitado de plantas de edifícios escolares: uma sala para rapazes e outra para raparigas, ambas precedidas de um amplo vestiário. Um muro de altura variável dividia teoricamente, digamos assim, o mundo dos meninos do mundo das meninas.

Por conveniência do casal de docentes, que eram um casal no verdadeiro sentido da palavra, a primeira e a segunda classes estavam a cargo da Sr.ª D. Ester e a segunda e a quarta a cargo do Sr. Professor Falcão, numa mistura muito saudável de rapazes e raparigas. Só voltaria a ter uma turma mista, anos mais tarde, quando frequentei a Secção Preparatória para ingresso nos institutos comerciais.

As salas eram muito frias e escuras, no Outono e no Inverno, ainda que estivessem voltadas a Nascente. Não cheguei a conhecer naquela escolinha querida, onde agora é desenvolvido o projecto educativo “Belgais”, os benefícios da electricidade; porém, guardo gratas recordações dos anos que a frequentei, porque nunca mais o convívio seria idêntico, nas outras escolas que frequentei.

E é talvez aquele convívio pueril, que me faz recordar aquele tempo e aquele espaço com alguma saudade.

terça-feira, outubro 07, 2008

SONETO

NUNO ÁLVARES PEREIRA

Nuno foi o braço e a mente

Que Portugal defendeu
Da castelhana gente.
Títulos e riquezas recebeu
De seu amigo João de Avis,
Cujo arnês envergou
Quando Leonor, mãe de Beatriz,
Cavaleiro o armou.
Destemido herói medieval,
Escolheu o caminho certo
E terçou armas por Portugal.
Ilustre patrono da infantaria,
Nuno foi o grande arquitecto
Da lusitana soberania.

sexta-feira, outubro 03, 2008

MEMÓRIA

CASTELO BRANCO 2

E havia aqueles dois senhores,
que eram da PSP e trajavam à paisana:
um era o senhor Pudico e o outro era o outro.
Tinham por missão zelar pelos costumes
e impor o respeitinho.
Visitavam o subversivo Vidal,
que vendia muita prosa vil
e acolhia perigosos homens do contra:
o alfaiate Matos Pereira,
o industrial Armindo Ramos
e o advogado João Vieira.
E outros, que o quiosque estava licenciado
e a entrada era livre.

O senhor Pudico usava gabardina, no Inverno,
como o inspector Colombo de uma série televisiva,
e chapéu todo o ano, por respeito à convenção.
O outro, já não me recordo se tinha gabardina,
mas também usava chapéu. E óculos
para poder ver melhor os títulos subversivos,
que um tal Vilhena teimava em publicar:
O Filho da Mãe,
Marmelada,
A Vaca Borralheira,
As Canetas dos Amantes, etc.
E quedo-me por aqui para não alongar o rol.

O senhor Pudico e o senhor outro,
que levavam a sua nobre missão a sério,
eram pessoas muito sós,
porque, lá bem no fundo, só se tinham um ao outro.
A cidade olhava-os com desdém,
porque o senhor Pudico e o senhor outro
eram o retrato vivo da vigilância, num país vigiado
até nas coisas mais simples e íntimas.

O senhor Pudico e o senhor outro não liam livros.
apreendiam livros.
O senhor Pudico e o senhor outro não conversavam.
ouviam conversas
O senhor Pudico e o senhor outro não viviam,
andavam por ali,
enquanto a cidade vigiada
trabalhava, lia e conversava.