segunda-feira, agosto 06, 2007

FREDERICO

No aniversário do crime


Frederico
queria
escrever
livremente
teatro
e poesia.

Ah, e ainda
amar a Espanha
e a Andaluzia!

Em plena
liberdade.

Tanto
e tão pouco
Fredrerico
queria!

quinta-feira, agosto 02, 2007

SESIMBRA

Para a ALex, com amizade.
A forma como Sesimbra se senta à volta daquela enorme laje azulada que é o mar, confere-lhe um carácter único. Esta imagem não é original. Pertence a Miguel Torga que escreveu: "Sesimbra,16 de Março de 1988: O Mar. Uma lareira com outras labaredas e o mesmo fascínio"(Diário, volume XV, 1ª ed., pág.96, Coimbra, 1990).
Lareira, no entanto, terá de ser entendida como o lugar onde se senta toda a família, procurando aconchego, o caldo quente e uma aprazível cavaqueira.
O mundo muda e Torga, no seu proverbial pessimismo, acharia que Sesimbra, por força do cimento e do tijolo se descaracterizou. É verdade que se construíu demasiado e que ganhou novos habitantes, vindos sabe-se lá donde, mas o que é facto incontroverso é que Sesimbra continua a preservar muitos dos seus traços distintivos: os odores, o falar, a culinária, e, sobretudo, os homens do mar, quais Penélope, permanentemente de volta das suas redes e dos seus utensílios da faina. É por estar ali sentada à volta da lareira e por preservar as suas melhores tradições, que Sesimbra exerce sobre o visitante um enorme e indizível fascínio.

segunda-feira, julho 30, 2007

MENOS ESTADO/MAIS ESTADO


Republicação

Nesta república do faz-de-conta, está na moda dizer mal do Estado e dos denominados trabalhadores da Função Pública. O desvario começou com a entrada em funções do (des) Governo de Durão Barroso que, servindo-se do Estado, é hoje Presidente da Comissão Europeia, e nunca mais parou.
O rol dos dislates é incomensurável. Brancos pretos e amarelos, com ou sem formação, mas normalmente bem instalados, vociferam contra os privilégios dos funcionários do Estado, esquecendo-se, muitas vezes, de olharem à sua volta. Conferem privilégios aos outros que, ainda que o não sejam, são bem inferiores aos desses acérrimos defensores de menos Estado e melhor Estado, mas que nunca reclamaram menos privado e melhor privado.
Nos meios de comunicação social, os empregados dos grupos empresariais do sector, defendem caninamente o tacho. Destilam mentiras e mais mentiras acerca de pessoas e instituições que muitas vezes desconhecem. Cegos, vêm privilégios onde os não há. Com a cegueira da redução do défice, pouco se preocupam com os problemas das pessoas e das famílias. De resto, numa atitude muito pouco cristã.
Economistas de meia tigela, gente que nunca produziu pensamento nem arriscou um pataco, com a crueza dos magarefes, propõem despedimentos, cortes nos salários e nas prestações sociais percebidas pelos trabalhadores do Estado. Nunca pediram nem pedirão a redução dos seus salários, porque se têm todos em muito boa conta. Ai, se nós soubéssemos os negócios ruinosos que essas almas pouco piedosas por vezes conduzem ou apadrinham! Muitos deles são filhos de antigos funcionários, muitas vezes corruptos, que fizeram carreira atropelando trabalhadores honestos e se reformaram aos cinquenta anos com chorudas reformas.À pátria - esses patifes sem vergonha, que tanto trabalham aqui como noutro sítio qualquer, nunca deram nada. Aproveitaram todos os benefícios - até os da educação à borla - e uma vez empoleirados, acham sempre muito aquilo que o Estado lhes exige. São os primeiros a reclamar segurança para as suas pessoas e bens. Se lhes fosse permitido, de bom grado, pagariam apenas às polícias e pouco mais. São os defensores do princípio do utilizador pagador.Como bons totalitários que são, acreditam que esta é a única e mais capaz forma de governar o mundo. Mas isto um dia vai mudar e há por aí rapazes que vão levar umas bengaladas. Que Deus me preserve a vida para assistir a esse, decerto, majestoso espectáculo!
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agosto 26, 2005

domingo, julho 29, 2007

SESIMBRA











JOSÉ RIBEIRO

Como se fosse um auto-retrato

TRÍPTICO

I

Cada coisa
em cada momento.

E se o amor
for premente,
que só ele
habite
a minha mente.

II

Os livros...
Os livros
aconteceram
e foram
a minha glória
e desventura.

Aconteça
o que acontecer,
louvarei
todas as horas
que lhes dediquei.

III

Oh!, pudesse eu
resolver
os meus problemas
com sorrisos
e bonomia.

Claramente,
outro galo
cantaria!....

segunda-feira, julho 23, 2007

IBERISMO

Republicação

O ministro dos comboios e dos aeroportos disse há dias, para desgraça e gáudio de uma direita velhaca e oportunista, que era iberista. E a dita direita fez um escarcéu de tal ordem, que o dito ministro e o seu chefe de governo sentiram necessidade de dar explicações.

Eu sou iberista e não tenho medo, e acrescento hoje, nem vergonha de afirmar o meu iberismo, alto e bom som, como não tenho quaisquer dúvidas em afirmar, como já anteriormente o fez Miguel Torga, que a minha pátria telúrica só termina nos Pirinéus. E mais, se sou habitante da Ibéria, sou ibérico, naturalmente. Coisa diferente é ser espanhol, porque hispânico também sou. E suponho que Natália Correia também se sentia hispânica.

No início do actual milénio, alguém afirmou que o milénio anterior foi o dos pequenos estados como Portugal e que o actual será o do seu desaparecimento. E provavelmente o vaticínio é correcto, mas nenhum de nós cá estará para certificar a sua justeza.

Sabe-se, igualmente, que na origem de Portugal estiveram apenas razões de índole política. Basta ler com atenção a "Formação de Portugal" do sábio Orlando Ribeiro, que não era propriamente um homem de esquerda, para perceber estas coisas comezinhas. O tempo, é mais do que evidente, foi cavando as diferenças que marcam hoje a singularidade de Portugal em relação aos restantes povos ibéricos.

É bom lembrar, no entanto, que os reis da dinastia de Avis tentaram a fusão dos reinos peninsulares e que a questão cantral passou sempre por saber quem havia de montar o cavalo do poder.

Seja como for, não é com esta gritaria toda que se discutem ideias. E isto já é peixeirada!

Eles sabem que a união ibérica lhes retiraria a capacidade que vão tendo de administrar a quinta.

sexta-feira, julho 13, 2007

PALAVRAS NA MODA


Hà palavras que, de quando em vez, ganham notoriedade. Quando ditas muitas vezes pelos políticos , pelos banqueiros e outros endinheirados ou até pelos intelectuais. Estão na moda palavras como inveja e suas derivadas, desagradável e a frase "era o que faltava!".
Quando se agita a possibilidade de tornar a vida dos portugueses mais transparente, nomeadamente no que concerne ao modo como se construíram determinadas fortunas, argumenta-se que tais procedimentos vão alimentar a inveja e o "voyeurisme". Não passa pelas cabeças sãs dessas criaturas de Deus, que há gente que luta denodadamente por mais justiça e que é razoável publicitar os milagres. Tudo se reduz, redutoramente (passe o pleonasmo), a uma questão de inveja. Eu não tenho inveja de ninguém e estou-me nas tintas para quem tem fortunas. O que ninguém me pode exigir é que viva e conviva com a injustiça.
Desagradável é outra dessas palavras. Quando a luz do dia nos revela as pequenas e grandes mazelas morais da nossa sociedade, em vez de se chamar aos bois pelos nomes, diz-se que é de lamentar e que a situação é desagradável. É. É desagradável viver no mais descabelado amoralismo. Desagradável é viver sem princípios. Desagradável é pactuar com tiranetes e aldrabões.
"Era o que faltava" é uma frase muito utilizada pelo nosso PM. Admito que com algumas variantes. Por tudo e por nada, quando perguntado acerca de qualquer coisa, lá vem a sacramental "era o que faltava". Já ocorreu tantas vezes, que já merece ser um caso a estudar. O que nos faltava era um PM socialista mais preocupado com os temas caros à direita do que a própria direita. Corra a Europa para onde correr e Portugal estará sempre alinhado com o lado mais conservador.
Há nos governantes socialistas um complexo tão visível em relação há direita, que até parece viverem envergonhados com o que dizem ser. A direita arroga-se o direito de governar, porque tem do poder uma larga experiência e pensa saber fazê-lo melhor que as outras correntes ideológicas da sociedade. E o PS, com medo de desagradar à direita e com medo do juízo da direita, vai mais longe no seu afã de mal- fazer do que a própria direita. Sócrates , criado no meu país, é o PM que já nos sobeja!

MIGUEL TORGA

TRÍPTICO

I

Tinha
a necessidade
de nos dizer
como via
o mundo.

E escrevia,
escrevia,
escrevia:
diários,
contos,
romances
e poesia.

II

Bicho da terra
como se intitulava,
ao que fazia
conferia
uma nobre
dimensão ética.

Por isso,
às vezes,
dou por mim,
ainda,
devorando
a sua obra
poética.

III

Europeu
e universal,
amou,
profundamente,
Portugal!

O RIO E A PONTE











quarta-feira, julho 11, 2007

VIVA O "TRAIN GRANDE VITESSE"

dezembro 15, 2005

VIVA O TRAIN GRANDE VITESSE!

O novo aeroporto da OTA pode não ser absolutamente indispensável para já; porém, adiar para mais tarde o TGV seria um crime de lesa pátria. Adiar agora, seria adiar para as calendas gregas, para o dia de S. Nunca à tarde, para a semana das duas quintas-feiras. Adiar é proibido. Seja benvind o TGV!

Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz!!!!! Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz!!!!!!!

Portugal não necessita de consensos. Os consensos conduzem sempre à inacção. Os consensos são os grandes causadores do nosso atraso permanente em relação à Europa.Vivam todas as rupturas progressivas e produtivas. Às malvas os consensos! Abaixo os detractores do TGV!
ZZZZZZZZZZZZZZzzzzzzzzZZZZZZZZZZZzzzzzzzzZZZZZZZZZZZZZzzzzzzzz!!!!!!
Os grandes empreendimentos nunca são do agrado geral. E se nem os Descobrimentos mereceram o apoio unânimo dos portugueses. Por que carga d'água o TGV havia de merecer a unanimidade? Abaixo os Velhos do Restelo! Abaixo todos os Tonhos! Abaixo todos os belmiros! Viva o train grande vitesse!

Abaixo o trofafá-trofafá-trofafá!!! ZZZZZZZ!!!ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ!!!

VIVA O TGV!!!

Incondicionalmente com o TGV!!!

MANUEL MARIA

TRIPTICO

I

Entre os vates,
era o primeiro.
E gabava-se até
de comer,
beber
e foder,
sem gastar dinheiro.

II

Grande Manuel Maria
animou os Parras
e o Nicola
e com tal génio
e magia,
que era dos poucos
que o Intendente
temia.

III

Repentista o fizeram;
porém;
Bocage
trabalhava
arduamente.

Que a poesia
não é só
imaginação
e talento

domingo, julho 08, 2007

AS FOTOGRAFIAS

Nas fotografias abaixo publicadas, pode-se ver quão difíceis eram as condições de trabalho dos homens e das mulheres da Mata, que plantavam as oliveiras, colhiam e apanhavam a azeitona, naquelas inóspitas encostas. Fosse o Ponsul o Douro e teríamos aqui motivos para romances e para poemas. A obra humana, que o tempo se encarregará de destruir, ainda pode ser observada do Ponte da Monheca, donde foram tiradas, esta manhã, as fotografias que quero partilhar convosco. A Mata é a aldeia onde é desenvolvido o projecto educativo BELGAIS de Maria João Pires e integra o concelho de Castelo Branco.

MATA (ENCOSTA DO PONSUL)
















A LUSITANA MANIA

A lusitana mania
de esperar por quem não vem
provoca melancolia,
muito mal e nenhum bem.

Sempre de calças na mão
Ou esta à esmola estendida.
Tão estranha condição,
Tornou-se um modo de vida.


Era preciso matar
Esse rei Sebastião,
que não pára de enganar
a nossa triste nação!


Ao mito do desejado
Dê-se um combate eficaz.
Traz este país castrado
Ou capado, tanto faz.

sexta-feira, julho 06, 2007

BATISTA BASTOS

Um célebre jornalista da lusa praça, tem-se constituído ao longo dos últimos anos, como um dos últimos redutos éticos de Portugal. Chama-se Batista Bastos, Armando Batista Bastos, escreve em português sem mácula, mas a sua voz tonitruante já se assemelha à dos patriarcas bíblicos, que eram assim como que uma ponte entre Deus e os mortais.
Batista Bastos é humano e terreno como todos os seus concidadãos e se o país é o que é, também ele terá a sua quota parte da culpa. Provavelmente, o colunista não terá semeado bem a palavra ou tê-la-á semeado no país errado. Sendo este o país que temos, há que viver nele, denunciando o que está mal, obviamente, mas sem aqueles ares de quem está sempre zangado.
Eu sei o que dói a Batista Bastos. Descontente com o PC, que os outros partidos e a comunicação social reduziram à condição de sobrevivente, o jornalista saíu e aproximou-se do PS, que sempre teve em relação ao PC uma vocação troglodita. Acontece que o PS tem traído todas as esperanças e Batista Bastos sente-se envergonhado. Como já não tem idade para voltar a trás, toca a tratar tudo e todos da mesma forma. Mas era bom que aceitasse o princípio de que os partidos não são todos iguais.
Eu também sou a "choldra!". O lamaçal somos nós todos, os que não ousamos transformar este país, tornando-o decente e um lugar de fraternidade. Eu também sou a "choldra!", porque vou aceitando que me espoliem de todos os meus direitos. Eu também sou a "choldra!", porque ponho os meus interesses à frente da colectividade. Eu também sou a "choldra!", porque abdiquei de ser revolucionário e de transformar o mundo.
Exactamente o que fez BB!Por isso não dou conselhos a ninguém!

quinta-feira, julho 05, 2007

LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Quando se fala de liberdade de expressão, o grande público não sabe, regra geral, do que se fala. Antes de mais convém esclarecer que a liberdade de expressão existe para uns quantos, que são sempre ouvidos a pretexto de tudo e de nada, funcionando como verdadeiros oráculos.

São especialistas de armamento, especialistas de religiões, especialistas de matéria musical, especialistas de gripe das aves, especialistas do médio oriente, especialistas de assuntos nipónicos, especialistas de tsunamis, especialistas da arte de podar roseiras, especialistas...

No fundo, os especialistas são entes imprescindíveis para que o sol possa nascer todos dias a E e pôr-se a O, para que as nossas mulheres continuem a engravidar e os grãos de trigo a germinar no solo e a crescer à superfície, como diria o impagável e sempre actual Bertolt Brecht.

Lá bem no fundo, os especialistas são aqueles impagáveis seres que, tendo tanto tanto saber, fazem assim como que uma ponte entre os inefáveis deuses e os humanos, rasgando para estes o caminho da luz. Os especialistas são aqueles que nos ajudam a escolher os presidentes e os primeiros ministros e nos convencem da bondade deste país belmiro, cada vez mais injusto e egoísta.

O cidadão comum, o que não publica baboseiras nos jornais e não é ouvido na televisão, sempre disse o que quis dizer. E provavelmente de uma forma mais livre e substantiva do que os jornalistas e outros articulistas. Que estes sabem perfeitamente que quem manda é o indíviduo que tem o chapéu na cabeça, como diria António Lobo Antunes.

Quando me aparecem certas encomendas a falar de liberdade de expressão, apetece-me mandá-las àquela parte. É que muitos delas serviram e servem "seus senhores", de forma acéfala; conformaram-se com a censura e o exame prévio; e, mais amos servirão para defenderem taxos e interesses, para que o pãozinho e o leite não falte no lar às suas criancinhas. Para certas encomendas, a liberdade de expressão é uma treta!

Honra a todos aqueles que, contra ventos e marés, defendem genuinamente a liberdade de expressão e a própria liberdade!

AGOSTINHO DA SILVA

Agostinho da Silva era, indiscutivelmente, uma personalidade fascinante. E talvez seja mais produtivo procurar as origens desse fascínio, do que etiquetá-lo de pensador e /ou filósofo. Em minha humilde opinião, aquele homem que os portugueses já conheceram no crepúsculo da vida, foi alguém que soube usar magistralmente a comunicação e galvanizar a juventude com algumas ideias simples, mas fortes.

Agostinho da Silva logrou alcançar grande popularidade, nos finais da década de oitenta do século passado, num período de grande optimismo nacional, resultante do crescimento económico e da saúde financeira do país. O discurso de Agostinho da Silva, que os seus seguidores dizem equidistante dos conceitos de direita e de esquerda, estava, todavia, em consonância com o ambiente geral do país. "A situação" deu-lhe espaço e meios para expor as suas ideias. Dali nunca viria mal ao mundo.

Os seguidores de Agostinho da Silva eram, sobretudo, jovens universitários, que enchiam os espaços onde o velho professor, num tom quase sempre informal, fornecia as suas ideias e as suas receitas. Muitos deles, agora já bem instalados na vida, já não seguiriam o homem simples e sem apetites pelas coisas materiais. Agostinho da Silva era um pregador da utopia.

Para quem nunca tenha lido recomendo vivamente A Vida de S. Francisco de Assis de Agostinho da Silva, que é uma lindíssima biografia da vida do santo. Um belo poema em prosa, onde Agostinho mais do que em outros escritos nos dá a sua verdadeira dimensão: o amor aos humildes e à silplicidade. A obra é uma edição da ULMEIRO e pode ser adquirida na LIVRARTE.

Não é esta a matriz dos filósofos e dos grandes pensadores.

MATA (OLIVAIS)











quarta-feira, julho 04, 2007

AMIZADE

Para o meu amigo Pe Manuel de Aguiar
Eu não saberei, decerto, definir a amizade com muito rigor. Desconfio até que alguém o faça com rigor. Para mim é antes de mais o gostar de estar com, sem quaisquer constrangimentos, e deixar que o tempo e as palavras fluam livre e espontaneamente. E gostar de partilhar - e ser também parte nas partilhas -, os bons e os maus momentos, as alegrias e as tristezas, os sucessos e as derrotas, a felicidade e o infortúnio. E tudo isto, parecendo tão puco e tão simples, é muito mais importante que uma qualquer constituição europeia.

segunda-feira, julho 02, 2007

LIVROS E LEITURAS

Santa Iria de Azóia, 2 de Julho de 2007 – Bocage – A Vida Apaixonada de Um Genial Libertino, de Luís Rosa, é um romance interessante, não tanto pelo que nos diz acerca do poeta de Setúbal, cuja história é sobejamente conhecida; mas, sobretudo, pelo quadro histórico em que enquadra a sua atribulada vida.

Este romance vale também pela leitura que o romancista faz da Revolução Francesa e das suas repercussões em Portugal, onde pontifica um célebre intendente da polícia, Diogo Inácio de Pina Manique, de seu nome completo. Creio que apesar do enxame de moscas e moscardos e bufos, que espiam e denunciam os partidários da Revolução Francesa, sob as ordens do chefe da polícia de D. Maria I, a louca, o Intendente acaba por sair com a auréola de um amante das artes e grande empreendedor, capaz até de tolerar certos comportamentos aos intelectuais, desde que não ultrapassem o limite do “razoável”.

Outra figura que tem muita importância a nível diegético é o abade José Agostinho de Macedo, “rubicundo”, rato de livros das bibliotecas, grande frequentador de botequins e putas e durante muito tempo amigo de Bocage, que alicia para a Nova Arcádia. Apesar da sua vida mundanal, ora dentro ora fora das instituições religiosas, o padre Macedo acaba pregador da Capela Real, no tempo da regência do senhor D. João, o sexto do mesmo nome, após a morte da rainha louca.

A acção decorre na Lisboa que Sebastião José mandou reconstruir após o terramoto de 1755: o Rossio, a Praça da Figueira, o Chiado e o Cais do Sodré, onde ainda existe, creio, a rua dos Remolares. E o Terreiro do Paço e o cais do Tejo, obviamente. As referências ao Brasil e ao Oriente decorrem da mais que conhecida biografia de Bocage. Refira-se aqui a leitura que Luís Rosa faz da administração do Império Português do Oriente, onde grassa a corrupção e a devassidão dos costumes. O café Nicola, assim chamado, por Nicola ser o nome do seu primeiro proprietário, o Nicola das velas, o botequim dos Parras e o Remolares (o café dos franceses), são os palcos onde Bocage faz os seus supostos improvisos contra tudo e contra todos.

É um romance de leitura fácil, numa prosa de sintaxe irrepreensível, através do qual o (autor)-narrador faz passar toda uma série de conceitos, que, já o escrevi, são verdadeiros aforismos.

É, com toda a certeza, um fresco rigoroso do Portugal da segunda metade do século XVIII.


Rosa, Luís, Bocage- A Vida Apaixonada de um Genial Libertino, Editorial Presença, 1ª Ed., Lisboa/2006.


domingo, julho 01, 2007

SESIMBRA

Regressado há momentos de Sesimbra, compulsei as páginas do meu
diário, onde encontrei o naco de prosa que se segue.
Sesimbra, 3 de Março de 2003 – Dir-se-ia que as vilas que eu mais amo se estão a tornar sítios de acesso difícil. É difícil ir e estacionar na Ericeira; é difícil ir e estacionar em Cascais; é difícil ir e estacionar em Sintra; é dificílimo ir e estacionar em Sesimbra. Nos últimos tempos fui três vezes a Sesimbra e, só hoje, ao fim de muito perseverar, consegui estacionar, embora fazendo vista grossa das ameaças camarárias.

As vilas e cidades ribeirinhas exercem sobre mim um enorme fascínio. E no que a Sesimbra concerne, vistas bem as coisas, a causa só pode ser o mar. Defronte do mar de Sesimbra que, na preia-mar, já engole completamente a praia, olho, como se se tratasse de uma novidade, as mansas águas e sonho com o mundo e com viagens que nunca hei-de fazer. Reminiscências de Cesário Verde, talvez.

Expliquei ao João o sentido profundo do Carnaval, isto é, tal como Backtine no-lo explica: festa de Praça Pública. Na verdade, o Carnaval é a mais democrática das festas, porque todos podemos participar activamente. E tentei explicar a diferença entre esta ideia primitiva de Carnaval e os carnavais já industrializados de muitas localidades portuguesas, que perderam a espontaneidade e, de certo modo, o seu carácter democrático.

Com o sol a incidir obliquamente na água e na areia, deixei Sesimbra pelo lado Nascente, disfrutando ainda da beleza rara e rude da Arrábida, onde se intromete sempre o poeta Sebastião da Gama. Cheguei à Cotovia gozando de um bem-estar tão raro, como se o Carnaval, o mar e a serra se tivessem unido para me proporcionar um naco de felicidade.

sexta-feira, junho 29, 2007

LIVRARTE - VIII (LIVROS E ARTE)
















LIVROS E LEITURAS

AS VELAS ARDEM ATÉ AO FIM, do autor Húngaro Sándor Márai, é um magnífico romance publicado pelas Edições Dom Quixote. A fábula poder-se-ia resumir como na badana do livro, mas a singularidade do romance, em minha opinião, reside no facto de, ente os capítulos 13 e 19, o narrador se eclipsar quase totalmente para que o velho general possa analisar a sua amizade com Konrád , o amigo de infância, que mais tarde o havia de trair mantendo uma relação secreta com Krisztina, sua mulher.

Konrád foge e vai viver no Extremo Oriente. Henrik permanece na sua floresta, onde espera, primeiro, na casa de caça, que Krisztina morra; e, depois, no palácio decadente, que Konrád regresse ao local do crime. A acção decorre, à boa maneira da tragédia grega, em menos de vinte e quatro horas, no velho Castelo e a intriga consiste em o velho general apurar se Konrád e Krisztina tinham gizado, em comum, o plano para o eliminar de um dos vértices do triângulo amoroso.

Durante quarenta e um anos e quarenta e três dias, o velho militar analisou todos os pormenores até à exaustão; tinha obtido a resposta para todas as questões; tinha dissipado todas as dúvidas; queria, agora, confrontar Konrád com as conclusões e, de certo modo, fazê-lo pagar, responsabilizá-lo, pela sua responsabilidade no destroçar das três vidas.

Tenho dúvidas que Konrád seja uma verdadeira personagem durante este jantar de acerto de contas. É antes de mais o pretexto para uma profunda reflexão sobre o sempiterno tema da amizade, onde Márai deixa passar a ideia de que comporta sempre uma «pitada de Eros». Henrik é o veículo para esse discurso que flui como um rio e onde as interrogações têm uma mera função retórica. O jantar é uma cena única e o discurso apenas a parte material de um admirável monólogo interior, entre o anoitecer de um dia e o amanhecer do dia seguinte.

quarta-feira, junho 27, 2007

CURIOSIDADES CULTURAIS

SOBRE OS LIVROS
"Os livros devem estar com quem os lê e não no sossego das prateleiras de uma biblioteca, a serem comidos por miseráveis insectos".
SOBRE A JUSTIÇA
"A justiça é larga. Não a dos juíze, que são regristas e estreitos de julgamento. Mas a dos homens sábios que vêem todos os lados do complexo poliedro dos actos".
SOBRE A ESCRITA
"Dei por mim que possuía o dom da verbosidade literária. Estranho vício, a escrita. Ou doença. Doença mesmo, porque se torna obsessiva. E passa a ter-se por dia inútil o dia en que se não escreve"
Rosa, Luís, Bocage - A Vida Apaixonada de Um Genial Libertino, Ed. Presença, LX, Dez/2006.

domingo, junho 24, 2007

CASTELO BRANCO


Quinta da Feiteira (NINHOS E CEGONHAS)

SILVESTRE FIGUEIREDO

Meu amigo. Médico dos pobres e dos ciganos.

I
A vida sorvias
a pequenos goles
como se tivesses
para viver
uma eternidade.

Tudo intuías
porém
não intuíste
que no corpo
trazias
um curto prazo
de validade.

II

Essa marca
inicial
- que desconhecias –
era certamente
a fonte da calma
da lhaneza
da bonomia.

III

Era Maio

foi em Grândola
no Alentejo
ia alta a manhã

no Alentejo
quem diria…

sexta-feira, junho 22, 2007

JOÃO DE SOUSA TEIXEIRA

É meu amigo. É um poeta com obra e com muito mérito.
Santa Iria de Azóia, 23 de Outubro de 2003 - António Joaquim tem oito anos e frequenta a escola da Vila, onde vive com a avó Jacinta. Os pais, Miraldina e Chico Melga ( preferível a Chico Velhaco, sabendo nós o que valem as palavras e o que com elas se pode fazer), trabalham e vivem longe. Decorre o mês de Agosto de 1987.

A Vila é sinédoque de Zona de Intervenção da Reforma Agrária e serve apenas para que as personagens da narrativa de João de Sousa Teixeira, Mar de Pão, tenham um espaço para se movimentar. Vive agora na expectativa da construção de uma barragem, de um mar de água, dez anos após os golpes de misericórdia desferidos pelas autoridades, a instâncias dos antigos latifundiários, naquela que terá sido, no plano social, a maior, mais genuína e espontânea das precárias realizações de Abril. Os velhos, entre os quais, provavelmente, Joaquim das Vacas, disputam um lugar no banco à sombra da grande azinheira.

Dir-se-ia que este Mar de Pão, que em boa hora o autor decidiu dar à estampa, não é uma obra dos tempos que correm, tão-pouco do presente da narrativa, Agosto de 1987, quando as comissões liquidatárias já tinham liquidado todos os sonhos daquela gente simples que, como Zé da Cesaltina e Miraldina, ousaram transformar o Alentejo num mar de pão. A obra, que o autor não quis romance, marca sobretudo uma posição ética de alguém que, tendo-se iniciado há trinta e um anos como poeta, com RO(S)TOS DO MEU PAÍS, não podia calar a realidade presente do Alentejo, dominada pelo abandono e pela solidão dos que foram ficando


Mar de Pão é uma pequena narrativa, un récit ( faça o leitor vista grossa a esta utilização do francês e a esta fuga às classificações ), que rememora um tempo de grande fraternidade e de profundas transformações quanto ao modo de utilização da terra, no Alentejo, naqueles anos luminosos que se seguiram ao 25 de Abril. No plano da arquitectura, a fábula tem um momento indiscutivelmente alto: a decisão de criar a Cooperativa – tudo decidido na taberna do Faustino e a instâncias de Joaquim das Vacas – e que mais tarde se haveria de chamar Estrela Nova. É admirável como em apenas nove páginas se assiste ao nascer e definhar da Cooperativa e simultaneamente, ao nascimento e crescimento do amor de Chico Melga e Miraldina. Saúde-se aqui uma notável economia de meios.

João de Sousa Teixeira não quis fazer romance e, por isso mesmo, à semelhança do que acontece no texto dramático, ao leitor é exigida uma grande capacidade de intuição, no que à caracterização das personagens concerne. Chico Melga – o grande impulsionador da Cooperativa -, não se conformando com a morte de Zé da Cesaltina, tenta saber, junto da GNR, as razões que conduziram o amigo ao suicídio. É a demonstração de uma enorme inteireza de carácter e também de uma enorme simplicidade.

O narrador, ser de papel na opinião de Barthes, mas a quem um tal José de Sousa Saramago equipara ao próprio autor, parece encaixar-se na concepção deste último. A voz que se ouve ao longo da narrativa não é a de um ser de papel. É a voz irónica – nunca amargamente irónica -, de João Teixeira, que se assume como um redactor de eventos passados, através de um processo técnico narrativo chamado analepse. Saliente-se, de resto, que ao longo do récit o narrador-autor ( era inevitável chegar aqui) faz uso apropriado das anacronias, facto que demonstra que, querendo, a sua oficina podia produzir um belo romance.

quinta-feira, junho 21, 2007

VERÃO

I

Um só verso
musa
me bastaria
para celebrar
este primeiro dia
de Verão.

Um só verso
musa
e sol

sol de Junho
musa.

II

Ando deprimido
musa
e cinzento
como este tempo
fora de tempo.

III

Eu preciso tanto
musa
de dias quentes
e límpidos

Eu preciso
musa
do Verão
agarrado
à pele.

segunda-feira, junho 18, 2007

LIVRARTE - VII (LIVROS E ARTE)

A LIVRARTE não é um desses espaços muito brilhantes que agora estão em voga. É um espaço digno, onde o livro é tratado com respeito e carinho.
Longe dos alfarrabistas tradicionais, que pontificam no Calhariz e na Rua da Misericórdia, nomeadamente; a LIVRARTE é assim como que um espaço alternativo, noutra zona da cidade, onde se vai pelo prazer de ir e não porque calhe em caminho.
Se não puder ir à LIVRARTE, uma livraria com História-, visite o sítio www.abebooks.com, ou seja, o maior espaço livreiro "on line" do mundo e do qual a LIVRARTE faz parte.
Ir à LIVRARTE é, sobretudo, um acto cultural!

LIVRARTE - VI (LIVROS E ARTE)





































domingo, junho 17, 2007

TOCADOR DE FLAUTA

I

Toca, tocador de flauta, toca!,
e enche de melodia
o espaço entre a terra e o céu.

( Toca, tocador de flauta, toca,
porque se não tocares,
toco eu!)

II

Tu não sabes,
tocador de flauta,
como é suave
e doce
o corpo desta mulher
que aperto nos meus braços
nesta dança instintiva.

Toca, tocador de flauta, toca,
que este momento vale uma vida!

III

Toca, tocador de flauta, toca!,
que a música
é a única linguagem
compreendida
pelos homens
e pelos deuses.

Toca, tocador de flauta, toca!,
e enche de harmonia
esta tarde de verão.

Até à harmonia plena.

Até à exaustão.

sábado, junho 16, 2007

LIVRARTE - V (LIVROS E ARTE)



É possível ver, na fotografia, a anfitriã, dando informações a uma cliente.

LIVRARTE - IV (LIVROS E ARTE)


Uma fotografia do interior de um espaço único, que já denominei "património da humanidade",
passe o hiperbolismo da expressão.

LIVRARTE - III (LIVROS E ARTE)



Trata os livros com carinho de uma criadora. Na sua livraria, o livro é muito mais que um objecto sujeito a compre e venda.

LIVRARTE (LIVROS E ARTE)


"Há pessoas que editam livros. Conheço uma única pessoa que, por amor deles, os vende, os edita, os colecciona, os lê e, coisa mais incomum, não sendo rico os oferece àqueles que considera partilharem da sua paixão: chama-se José Ribeiro /.../ " António Lobo Antunes

LIVRARTE (LIVROSE ARTE) -1


Falo de livros usados e são muitos mil. Com preços módicos e por perto a Lúcia e o Zé Ribeiro, sempre prontos para dois dedos de conversa e um esclarecimento.
É na Avenida do Uruguai, 13-A, em Lisboa.
Uma visita pode ser um mar de surpresas.

ERICEIRA (ao pôr-do-sol)


Da Ericeira partiu a família real portuguesa, em 1910, para o seu exílio inglês. Conta Raul Brandão nas suas Memórias que a rainha velha, D. Maria Pia, levava um pão debaixo do braço. A perdulária rainha era agora comezinhamente previdente.

AMIZADE

"J'ai suivi dans ma vie le conseil de Cicéron qui nous engage à placer l'amitié audessus de toutes les choses humaines. « En effet, rien n'est plus naturel et rien ne se concilie aussi bien avec le bonheur comme avec le malheur.»

Jelloun, Tahar Bem, Eloge de L'Amitié, ed. arléa

quinta-feira, junho 14, 2007

SESIMBRA (PRINCESA DO MAR)


CANTIGA DO COITADO

Em Vigo
perguntei às ondas:
- Sabeis Novas da minha amiga?
E as ondas me responderam:
- Um novo amigo tem!


Em Pontevedra
perguntei aos barcos:
- Sabeis novas da minha amiga?
E os barcos me responderam:
- Um novo amigo tem!


Em Santiago
a Santiago perguntei:
-Sabeis novas da minha amiga?
E Santiago me respondeu:
- Um novo amigo tem!

Ferido no coração,
a Lisboa voltei
mil vezes ouvindo:
- Um novo amigo tem!

- Um novo amigo tem!

segunda-feira, junho 11, 2007

AMIZADE

"L'amitié parfaite devrait être une sorte de solitude heureuse, expurgée de sentiments d'angoisse, de rejet et d'isolement".

Jelloun, Tahar Ben, Eloge de l'Amitié, ed. Arléa

VILA NOVA DE MILFONTES

Vila Nova de Milfontes – 26 de Setembro de 2002 - Tem crescido, mas não com o ritmo alucinante de outras regiões ribeirinhas do país. Não se vêem construções com as volumetrias doidas de Armação de Pêra e Portimão. As casas antigas estão bem conservadas e respeitam a tradição. O novo que se vai construindo não ofende ninguém.

O veraneante atento apercebe-se, também em Vila Nova de Milfontes, dos múltiplos rostos do Alentejo e da variedade das suas gentes. E particularmente dos seus traços comuns. O falar e o modo de estar são inconfundíveis. A calma é tanta, que, confesso, me custa a acreditar que é no concelho de Odemira que ocorrem mais suicídios em Portugal.

Haja bom senso e Vila Nova de Milfontes vai continuar a ser um dos locais mais aprazíveis de Portugal.

SESIMBRA (PRINCESA DO MAR)


LUZIA MARIA MARTINS (INVOCAÇÃO)

Mata, 15 de Setembro de 2000 - Luzia Maria Martins, mulher de muitos estudos e saberes, mas também de muito trabalho corporal, deixou-nos, definitivamente, esta semana. O “DN”, que muitos leitores apelidam de jornal de referência, dava a necrológica notícia no interior do jornal, em meia coluna e sem fotografia. Despachou a antiga directora do TEL, autora de textos, encenadora e também grande combatente da liberdade com a velocidade com que se despacham os mal-amados.

Luzia Maria Martins, é bom que se diga sem ambiguidades, foi uma das personalidades que de uma forma consequente e séria mais dignificou o teatro em Portugal: dando-lhe textos, divulgando autores nacionais e estrangeiros e entregando-lhe também o seu próprio corpo. No palco, que era o seu altar sagrado, esta mulher de rija têmpera tudo sacrificou. Poucos terão feito tanto, com tão poucos meios e tantas hostilidades.
Que este texto, se possível, ajude a fazer luz sobre Luzia.

domingo, junho 10, 2007

NO DIA DE PORTUGAL (INVOCAÇÃO)

Fuzeta, 3 de Agosto de 1999 - Alexandre Pinheiro Torres, um amarantino cosmopolita, faleceu, esta manhã, na Velha Albion. Há muitos anos longe do torrão natal, Pinheiro Torres sempre me pareceu alguém muito distante, muito distante e a rir de nós, os portugas do rectângulo, sempre muito obrigados e atenciosos.

Não estaremos em presença de um escritor fundamental. Mas estamos seguramente em presença de uma personalidade inquieta e ímpar, com uma visão muito peculiar de Portugal e dos portugueses.

A morte acaba de nos roubar um compatriota que soube viver e trabalhar de cerviz direita, dando muito e nunca pedinchando nada.

CAMPO MAIOR (TERRAS DE PORTUGAL)

Campo Maior, 4 de Setembro de 1998 - A velha Campo Maior é constituída por ruas estreitas e tortuosas, ainda que o relevo, ali, seja suavíssimo. As casas, na sua esmagadora maioria, têm dimensões reduzidas e são pouco permeáveis à luz. Havia que dar combate à violência dos impiedosos verões.

Ruas e casas exibem limpeza. De resto, a limpeza parece ser uma constante de todo o Alentejo. Pobrezinhos mas limpinhos, parece ser a divisa desta região de Portugal, onde há orgulho em mostrar os ventres das casas em dias festivos.


As chamadas Festas do Povo de Campo Maior são, indubitavelmente, um acontecimento único em Portugal. Em cada rua, em cada praça, em cada beco, os moradores organizam-se para, ao longo de muitos meses, prepararem montanhas de arranjos de papel, que hão-de ser, uma vez colocados na via pública, um motivo de satisfação para os locais e um motivo de peregrinação e espanto para os forasteiros. Acredito que se trata de uma realização ímpar. Tenho pena, todavia, que esta seja a pura arte do efémero. Só o Alentejo, pouco dado ao negócio, poderia construir uma festa assim, que, de certo modo, também constitui a afirmação de uma forma de viver em conformidade com a natureza.

sexta-feira, junho 08, 2007

MERGULHO HELENISTA

Sófocles escreveu: “grande maravilha é a Terra, mas maior maravilha é o Homem”. Se não for esta a frase pouco importa, porque importante, mil vezes mais importante que uma forma, neste caso particular, é o conteúdo da mensagem que se quer transmitir. Cito o autor de Antígona, porque é chegado o momento de mergulharmos de novo nas raízes da nossa decrépita e bem-amada Civilização Ocidental para, penso eu, renascermos imbuídos de um novo humanismo, que ponha um fim rápido a estas sociedades sem princípios, onde pontificam valores tão nobres como o lucro e o consumismo.

(Que me perdoe o grande trágico grego) E a filha da putice!

SESIMBRA (PRINCESA DO MAR)


quinta-feira, junho 07, 2007

DANIEL ABRUNHEIRO

Santa Iria de Azóia, 7 de Junho de 2007 – Daniel Abrunheiro, cuja produção poética tenho acompanhado, desde Março do ano transacto, é, indubitavelmente, um dos maiores poetas da sua geração. E quiçá, o mais profícuo e ousado, do actual panorama literário português, ainda que só exista para os seus leitores do ciberespaço. Quem me ler e duvidar, faça o favor de o procurar na NET e confirmar a justeza das minhas afirmações.

O mundo literato português, sempre muito redondinho e sonolento, quando o descobrir, há-de ser com muito espanto e estrondo. Na verdade, Daniel Abrunheiro é um poeta maior, cuja poesia está exigindo editor competente e empenhado. Ignorar este criador é, com toda a certeza, ignorar do melhor que se produz em Portugal.

“Sou mais um de nós num convosco de ninguéns”. Este é um dos últimos versos de Daniel Abrunheiro, um belo e complexo verso, que, só por si, daria para ilustrar o que venho dizendo. Porém, viajando por alguns dos seus últimos poemas, deparamos com uma imaginação verdadeiramente prodigiosa: cachorrar, liriar, lactear, se enqueijar, se melar, se avancar, valsear, alfazemar, conar, etc., são alguns dos verbos inventados pelo vate.

A vida, a morte – os seus mortos -, a música, a poesia, o amor, o fluir do tempo, são alguns dos seus temas mais recorrentes. E havemos de convir que não é pela temática que passa a modernidade e a inovação de Daniel. A inovação encontramo-la ao nível da forma, que é aí, sem margem para dúvida, que se situa a grande linha de separação.

quarta-feira, junho 06, 2007

O LEGADO DE KAROL WOJTYLA -3 (CONCLUSÃO)

Santa Iria de Azóia, 6 de Junho de 2007 – Karol Wojtyla, que foi papa durante mais de um quarto de século, deixou à Igreja uma herança pesada. E não é seguro que a Leste – onde a sua acção foi mais profícua, na alteração do statu quo -, a evangelização e a influência de Roma se tornem uma evidência. A Igreja Ortodoxa, nomeadamente na Rússia, saberá ocupar esse grande espaço espiritual.

João Paulo II deixou à Igreja uma herança pesada, repito. O papa Wojtyla foi excessivamente teimoso e ortodoxo e não percebeu as grandes mutações que se foram operando durante o seu pontificado. Inebriado pelas grandes multidões, terá concluído que os cinco continentes apoiavam a sua evangelização. Deixou por resolver questões tão importantes como a contracepção, a interrupção voluntária da gravidez, o celibato dos padres, etc. A sua não aceitação do uso do preservativo, a título de exemplo, poderá levar à morte muitos milhões de cristãos, em Africa e também na América. O papa Wojtyla, poderia ter iniciado um processo de abertura da Igreja, ainda que com pequenos passos, mas que a deixariam melhor apetrechada para os desafios do futuro.

O lugar da Igreja não é ao lado dos poderosos. A Igreja de Cristo deverá aproximar-se de novo dos humildes e dos explorados. Deverá saber encontrar a forma de condenar este mundo cada vez mais injusto, onde o dinheiro e a ostentação de poucos, ofende a dignidade de biliões de seres humanos. A Igreja tem de ser uma voz activa na condenação desta ordem mundial, que se ergue sobre a mais desapiedada exploração de quem produz a riqueza.

Num tempo em que já não se fala do Inferno, era salutar, era desejável, que a Terra não fosse aquele Inferno que povoou a mente dos crentes durante tantos séculos. Este é um dos grandes desafios que é colocado à Igreja católica, apostólica e romana.

terça-feira, junho 05, 2007

O LEGADO DE KAROL WOJTYLA - 2

Santa Iria de Azóia, 5 de Junho de 2007 – No tempo da Guerra-fria, apesar dos enormes sacrifícios impostos aos nossos irmãos do mundo dito socialista, o planeta Terra era menos perigoso e as relações entre os povos mais equitativas.

Com o mundo dividido em dois campos antagónicos, o chamado Mundo Livre acenava para o outro lado com a liberdade, com o bem-estar social, com a modernidade e também com a alegria de viver. Do outro lado chegavam-nos apenas as imagens editadas oficialmente, estatísticas e as grandes paradas militares. Aqueles que nunca tinham transposto o Muro de Berlim, ou acreditavam na propaganda do chamado Mundo Livre, ou nas publicações oficiais dos Partidos Comunistas das chamadas Repúblicas Populares. Do lado de lá, os cidadãos eram vigiados e algumas garantias sociais (pleno emprego, escolaridade, assistência médica e medicamentosa, habitação, etc.), apesar da gratuidade, não chegavam para compensar o cerceamento das liberdades. Notava-se muita melancolia, no semblante daqueles povos.

Os EUA eram um teatro distante destas duas realidades europeias, mas eram os principais mentores da propaganda ocidental. O seu sistema, que a Europa capitalista supostamente seguia, era apresentado como paradigma para o bem-estar universal. E na verdade, os EUA em pouco contribuíam para esta visão idílica do mundo. As despesas eram feitas pela Europa ocidental, que construiu e desenvolveu o modelo social europeu, que, o futuro há-de dizê-lo, foi, no séc. XX, o seu grande contributo civilizacional. E era esta Europa e a sua liberdade, que era mostrada aos povos do Mundo Socialista.

E depois veio João Paulo II, que sucedeu a João Paulo I, cujo reinado durou cerca de um mês. Karol Wojtyla, o novo papa, veio da mui católica e mui caridosa Polónia, onde começou o grande movimento que levaria ao derrube das democracias populares, que não deixaram boas recordações àqueles povos. A Igreja de Roma tinha as suas razões. Os regimes de Leste diziam-se ateus e vigiavam de perto ou proibiam mesmo o culto católico. Karol Wojtyla, hábil comunicador e também conhecedor da realidade do Leste, tornou-se a pedra de toque para a queda das democracias populares, prestando um serviço inestimável aos EUA, que se viram muito mais cedo do que seria previsível na situação de única super potência à escala universal. O bem prestado aos povos do Leste, se algum foi, terá a ver quase exclusivamente com as liberdades formais. E este balanço, que ainda não foi feito, poderá abrir uma nova era para a Igreja Católica.

ELOGIO DA AMIZADE

L'amitié est une religion sans Dieu ni jugement dernier. Sans diable non plus. Une religion qui n'est pas étrangère à l'amour. Mais un amour où la guerre et la haine sont proscrites, où le silence est possible. Ce pourrait être l'état idéal de l'existence.

Jelloun, Tahar Ben, Eloge de l' amitié, arléa, Mai/1996

O LEGADO DE KAROL WOJTYLA - 1

Santa Iria de Azóia, 6 de Abril de 2005 – Nos últimos tempos, isto é, desde que a morte do papa se tornou uma evidência, as televisões, quais sanguessugas, não largam o maná. Dir-se-ia que há qualquer coisa de abjecto neste frenesim comunicacional. E a culpa não é só das televisões e dos restantes meios de comunicação social. O Vaticano também tem a sua quota de responsabilidade.

Este papa foi um dos grandes fenómenos da comunicação dos últimos vinte e sete anos. Viveu da e para a comunicação. Percebeu rapidamente o poder dos chamados media e utilizou-o com grande mestria. E só a forma como usou os media pode explicar as profundas transformações ocorridas no mundo, sob a sua influência.

O papa falecido em dois de Abril, que certamente será santo, um dia, contribuiu para o advento de um mundo mais injusto e cínico. Cumpriu integralmente o seu programa, que consistia no derrube do comunismo; porém, nada de substantivo propôs em troca. Deixa-nos um mundo mais vil e domesticado do que aquele que encontrou. Os oprimidos do mundo inteiro ficaram à mercê desta gente sem escrúpulos que hoje governa o mundo.

Há aquelas almas repletas de candura – é o caso do meu amigo Pe Aguiar -, que acham que há duas fases distintas no reinado do papa há dias falecido: a do derrube do comunismo e a da restituição da voz àqueles que a não têm. Fácil foi, sem dúvida, vencer o comunismo, exibindo para o lado de lá bandeiras que, uma vez derrubado, foram enroladas e nunca mais voltaram a ser desfraldadas. A forma patética como se opôs à guerra do Iraque mostra cabalmente a sua completa insignificância. Depois, por vontade de Deus e acção dos anos começou a ficar sem pio. E de bons exemplos…

Marcou indelevelmente o seu tempo. Fez obra abundante e profunda, mas não nos lega um mundo melhor. Deixa-nos um mundo unipolar que, na ausência de um permanente debate dialéctico, se tornou nesta coisa sem princípios em que hoje vivemos. Ao contrário de João XXIII, o grande Papa João, Karol Wojtyla nada de verdadeiramente importante trouxe ao desenvolvimento da humanidade. A História acorrentá-lo-á à condenação do uso do preservativo, à manutenção do celibato dos padres, à condenação da interrupção da gravidez, mesmo quando existe má-formação dos fetos, etc. Este Papa, como escreveu Vasco Pulido Valente, foi verdadeiramente um tridentino.

segunda-feira, junho 04, 2007

TORGA

Pró Zé Ribeiro, meu amigo.
Santa Iria de Azóia, 3 de Maio de 1994 - Torga tornou-se uma referência obrigatória na nossa literatura contemporânea. Tem-se falado muito dele para prémio Nobel. Se tal vier a acontecer, saudá-lo-ei neste diário.

Não considero Torga um artista excepcional. Reconheço, contudo, que perseverou toda uma vida na defesa dos valores da terra portuguesa. A sua poesia e a sua prosa são feitas com palavras elementares, como elementares resultam as suas ideias. Mas possuem aquela verosimilhança, aquela autenticidade, que nos conquistam de imediato. Bom seria que outros criadores tivessem o dom de nos seduzir como o autor d ‘ Os Novos Contos da Montanha.

Homem de cerviz direita, é um daqueles portugueses que podemos indicar como exemplo aos nossos filhos, num tempo em que por cá pululam os mais submissos invertebrados; num tempo em que as mais impudicas canalhices caíram na banalidade; num tempo em que a lei é o safe-se quem puder.

CASTELO BRANCO



Com o programa "Polis", Castelo Branco ganhou um novo rosto. A antiga Devesa deu lugar a um enorme espaço liberto de automóveis e com estabelecimentos modernos. que integrou ainda, num conjunto harmonioso, o defunto Regimento de Cavalaria - 8, onde a RTP tem instalações regionais.

Dir-se-ia que o antigo centro reganhou de novo a centralidade.

domingo, junho 03, 2007

CASTELO BRANCO


Esta manhã, em Castelo Branco, foi realizada uma grande marcha "pelo coração". Pelo número de participantes, percebe-se a importância que os cidadãos vão dando à saúde e nomeadamente ao coração. Bonito!

sábado, junho 02, 2007

JUNHO

Plácido o tempo fluía,
as cigarras cantavam
e as cerejas amadureciam.


E dentro de nós,
ai amiga!,
o divino fogo ardia.


De mão na mão,
apressados,
descíamos até ao rio
e era à sombra dos freixos,
paulatinamente,
que tudo acontecia.

sexta-feira, junho 01, 2007

TRÍPTICO (A CRIANÇA SEM INFÂNCIA)

I

A criança sem infância
aconteceu
o braço cresceu tenso
e jamais vergou.


II

Cresceu de punho erguido
com uma rosa vermelha
entre os dedos.

A criança traída
por seu sorriso
sem segredos.


III


É em pequenino
que se aprende
a amar a sério,
porque o amor,
aprendido assim,
não tem mistério.

segunda-feira, maio 28, 2007

A CASSETE

(À memória de Georg Maurer, poeta alemão)


Construir...


Eis a palavra
que marca
o encontro do Homem
com o seu destino.


Construir a paz,
construir o amor,
construir a felicidade.


Construir...


Eis a palavra,
meus filhos,
eis a palavra,
inexoravelmente
fatal.

domingo, maio 27, 2007

DOS PRESSÁGIOS

(Para Carlos de Oliveira)


Galo vagabundo,
não cantes à noitinha,
que o teu canto pressagia
o fim do mundo.


Galo vagabundo,
de crista bem erguida
pela madrugada fora,
anuncia-nos com o teu canto
a fatalidade da vida
hora a hora.


Canta galo vagabundo!
Cantai galos de todo o mundo!

sábado, maio 26, 2007

PALESTINA - II

( Para Tawfiq Zaayad, poeta palestino e
antigo presidente do "município" de Nazareth )


Beija por mim
a Terra Santa da Palestina,
ó viajante!
E se fores a Nazareth,
vai deixar flores
no túmulo de Tawfiq Zaayad.

E segreda-lhe
( os poetas
ao contrário dos deuses,
mesmo mortos,
nunca deixam de ouvir)
que os países
podem ser riscados dos mapas,
mas as nações são eternas.

Diz-lhe, viajante,
baixinho,
que não há medida
para a nossa esperança!

terça-feira, maio 22, 2007

PALESTINA MINHA AMADA

( Jerusalém é o teu nome cidade)
Ruy Belo


Trazemos nas veias
a cor das tuas pedras mártires.

Por isso perseveramos,
por isso te amamos,
por isso continuamos a morrer por ti.


II

No sul do Líbano,
na faixa de Gaza,
nas margens do Jordão,
na diáspora multicontinental,
choramos em silêncio as tuas mágoas
cidade mãe,
cidade santa,
Jerusalém.

( Porque tu choras
as nossas mágoas também).


III


Não haverá napalm,
não haverá tnt,
não haverá traição,
que ponham fim
a esta vontade desmedida de vencer.

E um dia,
pela estrada de Jericó,
voltaremos:
a Ramala,
a Belém,
a Lida,
a Jerusalém.


IV


Para comer laranjas em Jafa!
Laranjas doces e suculentas,
porque em todo o mundo
não há laranjas como as de Jafa.

segunda-feira, maio 21, 2007

PROPÓSITO

Desconheço a autoria do texto


Hei-de pegá-los p'los cornos,
p'los cornos ou de cernelha.
E se assim não for,
faço como o Van Gogh:

...corto uma orelha!

sábado, maio 19, 2007

CIÚME

A tua ausência fere-me
e dói tanto,
que os meus inquietos pensamentos
são como pássaros jovens
embalados pela vertigem do voo.


Soubesse eu ao menos
onde e com quem partilhas
o suave e doce perfume do teu corpo.

quinta-feira, maio 17, 2007

OS CORNOS DE XARIAR

Deve a vasta humanidade
Aos cornos de Xariar
A divina Sherazade
E seus contos de encantar;


Deve-lhe a gentil irmã
- de seu nome Dinarzade -,
que, cedo, cada manhã,
acordava Sherazade.


“ Minha irmã, se não dormis…”
E começa a narração.
Sherazade tudo diz
Para encantar o Sultão.


Histórias mil desfia
(Oh, qual delas a melhor?)
E o tirano ludibria,
Calmamente, e sem temor.


Salvando assim a vida
Às donzelas de Bagdade,
Foi, claro, muito atrevida,
Mas ganhou a liberdade.

DISCURSO

Porque me perece muito actual
e nunca terá sido publicado neste "blog"


Muitos de nós que temos mãos e temos pés,
muitos de nós que fazemos adeus aos comboios nas estações,
muitos de nós que passeamos o conformismo pelas ruas da cidade,
muitos de nós,
um dia,
talvez um dia,
saibamos quão inúteis foram os nossos braços,
as nossas pernas,
as nossas bocas,
os nossos ouvidos
e os nossos cérebros.


Talvez um dia,
quando violarem o silêncio da nossa inutilidade
e já for demasiado tarde,
vejamos então como eram irreais
os nossos primorosos raciocínios.


Nesse dia,
não haverá lugar para lágrimas
e lamentações.
Nesse dia,
morreremos como cães:
sem palavras,
sem sonhos,
acéfalos,
loucos.

quarta-feira, maio 16, 2007

S: PEDRO (ROMARIA DA MATA)

S. Pedro vive sozinho,
Numa capela modesta.
Ao cimo do Azendinho,
Onde o povo vai em festa.

Onde o povo vai em festa,
E com muita devoção.
Leva merenda na cesta,
Cantigas no coração.

Toalha ‘stendida no chão
Do mais fino e alvo linho.
E sobre ela muito pão,
Chouriço, presunto e vinho.

sexta-feira, maio 11, 2007

FIGUEIRA (ENTRE OLIVEIRAS)


A figueira e a oliveira saõ árvores bíblicas; porém,
a frondosa figueira da fotografia, para além de boa sombra dá bêberas saborosas, ao contrário
da maldição.
Tem mais de cinquenta anos e terá sido plantada por meu avô Manuel Barata.

DATADAS - III

O ex-camarada Pina
Está de novo a pinar.
Um país com esta sina
Ninguém o pode salvar.

Ao serviço de Castela,
Este novo castelão
Grandes negócios sela
Pra proveito do patrão.

É rapaz da minha idade.
- E um sábio, quem diria? -
O Joaquim inda há-de
Ser Nobel da economia.

E o jeitinho pra mamar,
Onde o terá aprendido?
Eu posso certificar,
Que não foi no meu partido.

quinta-feira, maio 10, 2007

D. DINIS (SONETOS PORTUGUESES) - X

De seu pai e avós recebeu um reino,
A lança e espada conquistado
Contra mouros e castelhanos.
Era agora tempo de (re)construir castelos
Assinar tratados, tratar das plantações
(Pensou na Marinha e nas “naus a haver”).
Porém, Dinis era um Rei sábio e quis
Dotar o reino de leis justas e sábias,
Fundar os primeiros Estudos Gerais
E gozar com cópia as delícias da paz.
Meticuloso, este Rei ainda teve tempo
Para muitas damas amar
E criar belos cantares de amor.
Dinis, dito o Rei Poeta e Lavrador.

quinta-feira, maio 03, 2007

MAIO (MEMÓRIA)

Foi lindo o Maio primeiro,
Onde esteve toda gente.
Lado a lado o engenheiro,
O marçano e o servente.

Todos de cravo ao peito
- que comunhão de ideais! –
Estava tudo perfeito,
Quem podia pedir mais?

Que grande mar de ilusões!
Portugal nunca podia,
havendo tantos cabrões,
mudar da noite pró dia.